Os atuais “auxiliares” tecnológicos fazem com que a sociedade repense diversos conceitos (como o de distância, de tempo, de relacionamento, etc.) que afetam o nosso dia a dia, assim como trazem mudanças na escola (aula, instrumentos, espaço físico, etc.) e, mais especificamente, nos currículos de Matemática. Sobre este último, D'Ambrósio (1988, p. 70) cita alguns exemplos de conteúdos os quais a informática modifica a maneira com os quais são (ou podem ser) trabalhados:
Hoje em dia, já existem programas para avaliar integrais definidas, para resolver equações diferenciais e mesmo para calcular soluções explícitas de certas equações funcionais. Assim, o ensino de Matemática pode dar menos ênfase do que antigamente à exposição e prática de métodos clássicos de integração. Por outro lado, nosso ensino pode permitir ao estudante encontrar, apelando para os sistemas atualmente disponíveis, um número muito maior de problemas e então compreender melhor a
9 “É o conjunto de estudos e procedimentos de fabricação e manipulação de estruturas, dispositivos e sistemas materiais na escala do nanômetro (nm) (ou seja, 10−9 m)”. (WIKIPIDEA, 2011, tradução nossa)
10 “ciência cujo objeto é a observação e o estudo sistemático do universo sideral e dos corpos celestes, com o fim de situá-los no espaço e no tempo, explicar suas origens e os seus movimentos, perquirir a sua natureza, a sua constituição e as suas características”. (HOUAISS, 2011)
11 “estudo e desenvolvimento de organismos geneticamente modificados e sua utilização para fins produtivos”. (HOUAISS, 2011)
12 A física quântica “diz respeito a um sistema físico cujas grandezas físicas observáveis assumem valores discretos, de tal modo que a passagem de um determinado valor para outro ocorre de maneira descontínua, segundo as leis da mecânica quântica”. (HOUAISS, 2011)
Matemática subjacente.
O autor ainda discorre sobre algumas consequências dessa era para as crianças e destacas as “novas oportunidades de criatividade e lazer” (D'AMBRÓSIO, 1988, p. 56). A informática proporciona um novo olhar as atividades e com o auxílio da internet a divulgação das criações humanas são viabilizadas com maior rapidez influenciando ainda mais outras criações. No caso da Matemática, D'Ambrósio (1988, p. 74) examina algumas áreas e nelas, a influência do uso do computador, tais como Estatística e Probabilidade, Geometria, Álgebra Linear, Análise, Números, Conjuntos, Cominatória e Lógica, as quais o autor afirma que “se observará o papel central da visualização, da experimentação, da simulação e do modo pelo qual o computador favorece a formação e refinamento de hipóteses”.
A pergunta que nos fazemos diante desse novo paradigma, o qual rompe com a convenção, com a ideia do treinamento e nos coloca diante da necessidade de criação, experimentação e simulação, é: como chegam essas mudanças a partir da nova revolução que vivemos hoje, a da “informática”, na escola que conhecemos, uma escola organizada por disciplinas “fragmentadas”, pela forte presença da “linearidade e estrutura de pré-requisitos na construção dos conceitos” além de ainda ser uma escola “seletiva”?
Bittencourt (2004, p. 74) afirma que os dois primeiros aspectos, o das disciplinas fragmentadas e da linearidade e estruturas de pré-requisitos na construção dos conceitos “têm se constituído como os parâmetros definidores dos currículos das Séries Iniciais ao Ensino Médio”, mais especificamente nos currículos de Matemática.
Numa dimensão maior, Penin (2001, p. 36) discorre sobre duas questões fundamentais as quais se apresentam para nós, educadores brasileiros desse início de terceiro milênio: a nossa dívida social do século passado, a qual precisamos saldar; e como “tornar a escola contemporânea ao novo momento civilizatório que se descortina”?
Ou seja, precisamos, garantir uma escola de qualidade para todas as crianças e jovens de no mínimo onze anos “para o término da Educação Básica” e entender e conviver com essa “terceira grande revolução do saber de base gráfica”
(PENIN, 2001, p. 36).
D'Ambrósio (1988) alerta sobre a importância de se examinar o impacto da introdução dos computadores nos sistemas escolares como mostrado na epígrafe. A previsão do autor ainda é válida e merece bastante atenção. Como o sistema escolar tem feito uso dessa tecnologia? E, como a tecnologia pode auxiliar a nova configuração dos sistemas escolares, exigida neste século?
Marco (2009, p. 46), mais de vinte anos depois, afirma que “a disseminação e a utilização de computadores nas escolas estão muito aquém do desejado, pois não estão consolidadas no sistema educacional”. É preciso mais investimentos, mais políticas públicas voltadas para a Educação (investimentos na estrutura física das escolas, em materiais, na formação – inicial e continuada – de professores, etc.), mais recursos, boa vontade dos governantes e mais pesquisas no âmbito da Educação para que possamos superar tais desafios.
Nesse sentido, afirma Bittencout (2004, p. 86) que é “no terreno da formação de professores que os modelos disciplinares são mais fortemente reforçados, exatamente onde deveriam incidir as políticas públicas que visam rever esses modelos”. Identificam-se, aqui, alguns possíveis motivos dessa não disseminação dos computadores na escola.
Além disso, a utilização feita pelos computadores fora da escola vai de encontro à forma como essa instituição é idealizada. O uso da Web, por exemplo, rompe com a perspectiva da linearidade, pois a forma como acessamos a informação está em rede e nos utilizamos dela de maneira nada “sequencial” ou “linear”. Essa “comunicação virtual”, como afirma Bittencourt (2004), também rompe com a ideia de disciplina – tão marcante na nossa vida escolar –, de conteúdos em “caixas” de maneira compartimentada.
Na tentativa de suprir as necessidades da sociedade atual, notam-se algumas preocupações em diretrizes curriculares (como os PCN's e a Proposta Curricular do Estado de São Paulo) com uma nova reconfiguração dos currículos, assim como sugestões de trabalhos em sala de aula que se diferencie, em alguns aspectos, das atuais abordagens metodológicas. E no caso da Matemática? Como são essas sugestões?