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Alemán objeta que, em que pesem as importantes repercussões po- líticas do movimento queer, na medida em que, através da performati- vidade, reverte o insulto e a injúria positivamente, em nomeaçãos, se afirmando como uma nova posição política e uma nova singularidade, tanto o próprio movimento, quanto sua crítica ao heteronormativismo e ao caráter normativizante de certos dispositivos institucionais, como o Estado e a família, não se constituem, por si mesmos, como movimentos emancipatórios. Chama a atenção para o fato de os movimentos mi- noritários e de resistência não estarem livres da possibilidade de serem subsumidos pela lógica capitalista, que não precisa de nenhum tipo de norma para existir, e muito pelo contrário, se beneficia imensamente da ausência das normas. Na esteira deste debate, a questão de Jacques-Alain Miller, em recente interlocução com Jacques Ranciére, certamente nos abre um campo de investigação: os universalismos que regeram a histó- ria ocidental caducam, o universalismo judeu, o cristão e o comunista

parecem viver de recordações. Mas o universalismo capitalista, este sim, encontra-se em vigorosa competência26.

Podemos citar, como um exemplo deste risco, todo o promissor mercado que se abre a partir das intervenções e promessas da ciência, em sua vertente francamente biopolítica, e suas promessas de transfor- mação e adequação dos corpos ao gosto de cada qual, tema amplamente discutido por Paula Sibilia (2002), na esteira de Michel Foucault e Gil- les Deleuze, em O homem pós-orgânico: corpo, subjetividade e tecnologias

digitais. Para Sibilia (2002), os dispositivos do biopoder mudam, e já

não são os mesmos em relação ao que Foucault apontou a propósito das sociedades disciplinares, como produtos do capitalismo ancorados na produção industrial.

As transformações desencadeadas a partir da Segunda Guerra Mun- dial, junto com o desenvolvimento acelerado das tecnologias informáti- cas, das telecomunicações e das biotecnologias, resultam em mudanças profundas no tecido social, político e econômico global, subvertendo a antiga lógica disciplinar, e constituindo outros tipos de dispositivos e de formações sociais, no seio das chamadas “sociedades de controle” (SIBILIA, 2002, p.12). O que estaria em jogo nestas transformações, e valeria a pena ser pensado, são os desdobramentos contemporâneos dos conceitos foucaulteanos de biopolítica e de biopoder (MACÊDO, 2014).

Vale evocar ainda, quanto a este problema, alguns pontos cruciais do artigo “Homogeneidade e exceção” (BIGNOTTO, 2012, p.63-74). Parece-me especialmente interessante situar o modo preciso através do qual o autor localiza uma espécie de cisão entre a política clássica, sob os auspícios das diferentes figuras da exceção – encarnadas no mundo grego pela figura do legislador, na Idade Média pela figura do Rei, e na Modernidade pelo soberano –, e o traço homogeneizador da cultura contemporânea, efetivado basicamente pelo consumo. Digo “cultura” contemporânea, em vez de “política”, porque Bignotto argumenta que a busca da homogeneidade disseminada na lógica do consumo estaria

mais próxima de uma pretensão pré-política, pois apaga tanto a marca da diferença, como elemento constituinte do corpo social e da própria política, como também sua figura fundante, a exceção.

Para este autor, não poderíamos falar rigorosamente de política quando estamos no reino da homogeneização. O imperativo “todos iguais pelo consumo” se sustentaria num modo de identificação pré-po- lítico, já que resulta na eliminação da diferença como elemento de coe- são social: a temática da homogeneidade

aparecerá ao mesmo tempo em que o racismo e o antisse- mitismo farão sua aparição na cena política européia [...] para preservar a homogeneidade (que passa a ser pensada como um dado concreto da realidade), vale tudo – essa é a lógica do estado de exceção –, até mesmo designar um ini- migo objetivo, que pode e deve ser aniquilado (BIGNOT- TO, 2012, p. 72-73).

Para Bignotto (2012), uma das tarefas essenciais do pensamento em nossos dias é desvelar o que se esconde por trás das máscaras e bandei- ras de uma busca por homogeneidade, que é completamente diferente da busca por garantia de igualdade no campo dos direitos humanos, por exemplo. Disfarçada de luta pela igualdade, principalmente de luta pela igualdade no plano do consumo, a homogeneidade esconderia sua origem, e os perigos que comporta, ao se transmutar em instrumento de morte da política (p.74). Nas sociedades de massas consumidoras, quem manda é o corpo biológico, que aparece como ponto final do processo de institucionalização da vida em comum e mola propulsora da conversão da política em biopolítica.

Podemos citar também as formulações de Juan Carlos Tealdi em

Biopolítica y Psicoanalisis (2014, p.58-66), ao discorrer sobre um retro-

cesso sem precedentes no campo da bioética quando, após sua fundação em 1926 (momento em que se encontrava impactada pelas atrocidades do biologismo como política de estado, e pelo programa eugenista da Alemanha nazista, por ocasião da Segunda Guerra Mundial), se alinhou, em 1947, à Declaração Universal dos Direitos Humanos, momento em

que os códigos e normas internacionais se fundaram dentro de um para- digma universalista, ou seja, de direitos e deveres válidos para todo ser humano.

Se a bioética, na esteira da biopolítica, toma a direção de um alinha- mento aos direitos humanos como estratégias e instrumentos de defesa da vida, de modo universal, em oposição à tanatopolítica nazista e seu serviço à morte e ao extermínio, em nome do estado totalitário, hoje observa-se um retrocesso. O ponto de retrocesso é explicitado por Tealdi por meio das publicações médicas. Cita o exemplo de uma bioeticista norteamericana que, em 2003, publica um editorial em uma das cinco revistas médicas mais influentes no mundo, o British Medical Journal, sustentando inequivocamente o argumento de que a dignidade, conceito próprio ao campo dos direitos humanos, é um conceito inútil em ética médica, devendo ser abandonado em prol de referências mais pragmáti- cas, tais como a utilidade e a eficácia.

Bem afeito ao paradigma do mercado e ao novo universalismo ca- pitalista, o corpo humano se converte, ele próprio, em mercadoria. O mercado passa a habilitar tudo de maneira quase infinita. A biopolítica contemporânea já não é aquela dos estados-nação, mas uma biopolítica de mercado, sustentada pelas grandes corporações, especialmente pelas indústrias farmacêuticas e de alta tecnologia, que agem em nome da proteção de seus interesses financeiros. Os usos e abusos da vida, e sua repentina reversão em morte, tomam a dianteira novamente, em detri- mento de sua defesa e proteção.

Benzer Belgeler