Iniciar um texto sobre um tema de tamanha complexidade e de tan- tas interfaces não é tarefa fácil. Logo de início, vi-me em dificuldades quanto à eleição do recorte mais apropriado e que melhor possa servir ao debate, neste momento em que importantes passos estão sendo da- dos no sentido do reconhecimento jurídico, político e social das pessoas trans e das sexualidades não hegemônicas (PIEDRO, 2013, p.21-44). Entre as conquistas mais recentes, podemos citar a aprovação da Lei da Identidade de Gênero (Lei nº 26.743), em 2012, na Argentina, que tem sido recebida desde então como um incomensurável avanço em relação às políticas de direitos humanos naquele país (GLANC, 2013, p.85-99), o que, certamente, terá consequências (já está tendo) sobre as discussões sobre o tema no Brasil e no mundo.
Mesmo não sendo o objetivo deste capítulo analisar o impacto dessa lei nos diferentes campos sobre os quais ela incide, caberá uma menção a dois de seus “artigos de fundo”, por abrirem uma série de questões que concernem diretamente à clínica, desde o debate sobre a despatologiza- ção das identidades trans21, até, especialmente, o debate que envolve mais
20 Tema da 13ª Jornada da Escuela Lacaniana de Psicoanalisis (ELP), que aconteceu em Madri em dezembro de 2014. Os artigos e debates preparatórios para esta Jornada estão disponíveis em: http:// jornadaselp.com/acerca-de-tiresias/.
21 Tema discutido em recente debate promovido pelo Conselho Federal de Psicologia, acessível atra- vés do link: http://www2.cfp.org.br/aovivo/despatologizacao/. Acesso em 09/03/2015.
diretamente a possibilidade de se constituir um intervalo entre as identi- dades de gênero e a anatomia, uma vez que grande parte dos embates e re- trocessos enfrentados pelas comunidades trans esbarram na tendência de se estabelecer um caráter de necessidade entre estas duas variáveis como principal eixo do cuidado, da atenção e das políticas de saúde.
É este o eixo em torno do qual tem girado, inexoravelmente, tanto as políticas quanto os escassos programas de saúde pública, destinados à população trans, num círculo vicioso que oscila entre a norma e o protocolo, minando as questões do sujeito – e a construção de saídas, soluções e invenções singulares. O ponto candente da questão, a saber: aquilo que o sujeito entende e expressa como insatisfação e, às vezes, re- púdio ao gênero que lhe foi outorgado ao nascimento, em função da ana- tomia, e as tantas questões e afetos que daí derivam, não deveria caber em um parecer psicológico, e nem mesmo em procedimentos médicos.
A centralidade da premissa essencialista da suposta adequação e congruência da anatomia ao gênero, parece ocupar o centro das medidas protocolares de saúde neste campo. E uma vez que desencadeia uma série de procedimentos, cuja adequação ou inadequação certamente tem como ponto de partida a premissa na qual se sustenta, faz-se impres- cindível o enfrentamento e o debate em torno desta questão. Sem este passo, pouco se avançará em termos de cidadania e de políticas de saúde voltadas para as comunidades trans.
Não há garantias
Até o momento, os procedimentos voltados para esta comunidade, numa escala que irá da hormonoterapia às cirurgias de transgenitaliza- ção, parecem esbarrar na impossibilidade das garantias. Se quisermos aprofundar o debate clínico e filosófico, diríamos, como Jorge Alemán, que, diante de tais questões, encontraremos sempre uma distância entre o indecidível e o momento da decisão. Que se conceda uma pretensa garantia, sob a forma de uma autorização, mediante acompanhamento
psicológico compulsório, no caso do Brasil, de no mínimo dois anos, pa- rece uma medida muito mais protocolar que clínica. Há inúmeras críti- cas a este protocolo, algumas delas amplamente argumentadas no debate sobre a despatologização das identidades trans, já citado22.
Neste estado de coisas caberá interrogar até que ponto se convoca a crença na ciência para resolver o impossível da não relação sexual, o impossível do encontro com o outro gozo em sua alteridade radical, pois diante deste encontro, sempre contingente, não há garantia possível. A anatomia não é e nem jamais será o destino, fundamentalmente, em vir- tude de a linguagem retirar, de uma vez por todas e para todo o sempre, o sexo do campo da natureza.
A problemática premissa fundada na pretensa correspondência en- tre sexo, gênero e anatomia, a orientar toda a série de medidas proto- colares que surgem a partir de então, foi historicamente objetada em psicanálise, desde Sigmund Freud e também por Jacques Lacan;epor diferentes caminhos, por Michel Foucault. O horizonte filosófico deste debate, problematizado por Jorge Alemán, já em 2003, em Existência e
diferença sexual: Foucault e o construcionismo e, a partir de então, sempre
revisitado, é aquele da tensão entre o essencialismo (e suas postulações de uma natureza humana imutável e a-histórica) e o construcionismo, vertente amplamente problematizada por Michel Foucault, que consti- tuirá uma ontologia histórica das relações de poder, e pensará o sujeito face às estratégias de poder que o determinam.
A via aberta por Foucault não se fez sem um intenso debate com a psicanálise (MACÊDO, 2003, p.80-93). As origens deste debate, por sua vez, fornecem a chave do divisor de águas entre o construcionismo foucaulteano, que se funda na proposição de um sujeito em permanente transformação, multiforme e plural, que passando ao largo das exigên- cias pulsionais do gozo e da repetição, erradicando o real da experiência freudiana, não encontraria limites para sua autoconstrução e transfor- mação, a não ser aqueles inerentes às relações de poder; e a “ontologia
barrada e realista” (ALEMÁN, 2003) de Jacques Lacan, para quem o real pulsional se coloca como obstáculo, impondo condições e limites à transformação de si, mas também, funcionando como baliza e oportu- nidade linguageira de reinvenção, para quem a língua, o sexo e a morte são diferentes formas de nomeação de um mesmo exílio, de uma mesma impossibilidade, e se quisermos, para evocar um termo caro a Judith Butler, de uma mesma precariedade.
Este debate, levado a cabo atualmente pelos estudos feministas e multiculturalistas, ganha nova abrangência, articulando-se aos campos da estética e da política e, ao que parece, longe de buscar um consenso, visa uma problematização das variáveis em jogo; além de uma mobili- zação dos atores sociais, visando o plano dos direitos e das práticas não hegemônicas no campo da cultura.