Lambrecht (1996) faz uma observação de que existe uma lacuna entre as abordagens formal e funcional, no que se refere aos estudos sobre a Estrutura da Informação (EI), no que se refere a questões de terminologia. Para o autor, algumas das denominações que têm sido dadas à EI, no século XX, são: i) perspectiva da sentença funcional, termo usado pelos linguistas da Escola de Praga; ii) Estrutura da Informação ou Tema, rótulo atribuído a Halliday (1967); iii) Empacotamento da Informação, denominação dada por Chafe (1976), iv) Pragmática do Discurso; e v) Informática.
De acordo com Lambrecht (1996), o que esses autores fazem, de um modo ou de outro, é a defesa de que as propriedades formais da sentença não podem ser entendidas sem que se considerem os contextos linguísticos e extralinguísticos em que estas sentenças ocorrem. Já que se leva em conta o uso de sentenças dentro de uma configuração comunicativa, a área de análise privilegiada é a Pragmática. Quando o escopo de investigação é a relação gramática e discurso, estamos diante da Pragmática do Discurso.
Dentre as várias denominações citadas, Lambrecht adota a de Halliday, Estrutura da Informação (EI), por enfatizar as implicações estruturais da análise pragmático- discursiva, e, ocasionalmente, adota a de Chafe, Empacotamento da Informação. Lambrecht (1996) frisa ainda que a EI não está relacionada com o conteúdo codificado
na proposição, ou o com conteúdo lexical, mas com a forma como esse conteúdo é transmitido de um locutor para um interlocutor. No entanto, os fenômenos psicológicos com que a EI está relacionada, como as hipóteses do falante acerca do estado mental do ouvinte, só têm relevância se forem refletidos na estrutura da gramática, morfossintaxe e prosódia. Essa defesa tem a ver com o fato de Lambrecht (1996) tomar a EI como um componente da gramática, principalmente, a gramática da sentença. Sendo assim, só se considera como fazendo parte da EI os componentes da estrutura mental que se relacionam com a estrutura formal da língua. Esse recorte teórico estabelecido pelo autor diferencia o que ele chama de domínio da estrutura da informação, que fica no campo da pragmática discursiva, do domínio da Pragmática, que é tida como um subdomínio da Semântica.
A justificativa do autor para distinguir entre Pragmática discursiva e a Pragmática conversacional tem a ver com a integração dos trabalhos de Austin e Grice aos trabalhos dos linguistas americanos, o que resultou em uma associação do termo pragmática com o estudo do significado. De uma forma mais precisa, segundo Lambrecht (1996), a Pragmática tem servido para estudar os aspectos dos significados da sentença que não podem ser explicados pela semântica formal, que é uma área que procura captar o significado de uma sentença por meio daquilo que ela (sentença) representa do mundo por meio das condições de verdade. Nesses termos, a Pragmática Conversacional está mais preocupada com a interpretação das sentenças, no que diz respeito aos parâmetros conversacionais, do que com a estrutura gramatical. Em resumo, a Pragmática Conversacional tem por finalidade explicar como a mesma sentença pode expressar dois, ou mais, significados, já a Pragmática Discursiva ocupa- se de como o mesmo significado pode ser codificado por duas ou mais formas sentenciais. Na primeira, as inferências produzidas pelos ouvintes, a partir da relação entre forma linguística e contexto de produção em que esta forma ocorre, são determinadas pelos princípios gerais do comportamento orientado, os quais se aplicam à língua e a outras atividades; na última, a interpretação pragmática que ocorre entre a forma linguística e o contexto discursivo é determinada pelos princípios da gramática. É importante salientar que Lambrecht não despreza as implicaturas conversacionais de Grice, em vez disso, as relaciona com a EI de forma indireta. O autor define a EI da informação como:
Aquele componente da gramática da sentença em que as proposições como representações conceituais de estados de coisas estão emparelhadas com as estruturas léxico-gramaticais de acordo com os estados mentais dos interlocutores que usam e interpretam essas estruturas como unidades de informação em dados contextos discursivos33 (LAMBRECHT, 1996, p. 5).
Há, na argumentação de Lambrecht (1996), a ideia de que uma proposição é estruturada, pragmaticamente, no discurso34 por meio da expressão formal. O autor
reivindica a codificação pragmático-discursiva de estados de coisas no domínio da gramática, ou seja, ele não usa o discurso como motivo para explicar a gramática, ou a sentença, como o faz Dik (1997), em vez disso, sustenta que a proposição é motivada pragmaticamente.
No que se refere à caracterização do que vem a ser a informação, Lambrecht diz que se trata de um processo pelo qual o falante influencia a representação de mundo mental do falante com o objetivo de informar sobre um estado de coisa ou situação. O autor delineia as categorias das estruturas de informação que fazem parte do universo do discurso: i) a representação externa ao texto, que compreende os participantes da interação e a configuração do cenário; e ii) o mundo interno ao texto, que são os significados codificados na expressão linguística. Nesta parte (mundo interno), encontram-se as categorias que são responsáveis por organizar a estrutura da informação, são elas: i) asserção e pressuposição, que estruturam as proposições em porções por meio das quais um falante/escritor possui ou não conhecimento; ii) identificabilidade e ativação, que têm a ver com o fato de o falante/leitor assumirem as representações mentais dos referentes discursivos no ato enunciativo; e iii) tópico e foco, que dizem respeito aos atos de julgamento realizados pelo falante/escritor sobre a relativa predizibilidade ou não das relações entre as proposições e seus elementos em determinados contextos discursivos. O ato de informar alguém sobre algo induz a uma
33 That component of sentence grammar in which propositions as conceptual representations of states of
affairs are paired with lexicogrammatical structures in accordance with the mental states of interlocutors who use and interpret these structures as units of information in given discourse contexts [Tradução nos- sa].
34 Para Lambrechet (1996), o discurso é tido como um universo, e que pode ser dividido em duas partes:
a) a palavra externa ao texto, que compreende: i) os participantes do evento comunicativo, podendo ser um falante juntamente com um ou mais destinatários, e ii) uma configuração de fala, ou seja, o lugar, o tempo e as circunstâncias em que a interação ocorre; e b) a palavra interna ao texto, que abrange expressões linguísticas: palavras, frases, sentenças e seus respectivos significados. A palavra interna ao texto faz parte das representações linguísticas criadas na mente dos interlocutores durante o processo de interação verbal. Desse modo, a relação forma-significado está relacionada com o processamento mental dos participantes do evento comunicativo.
mudança no estado de conhecimento dessa pessoa, acrescentando uma ou mais proposições ao repertório existente. As categorias existentes no mundo externo relacionam-se às representações do discurso acerca das entidades do mundo real. E o valor da informação está relacionado tanto às representações mentais que os interlocutores têm sobre determinado assunto quanto a seus estados mentais.
De igual modo, é o valor da informação que determina se uma informação pode ser tomada como velha ou nova. Se a informação não é conhecida pelo leitor/ouvinte, é denominada de nova. Caso o falante/leitor presuma que a informação está na mente do ouvinte/leitor, no contexto de interação, ou se ambos já pressuponham a existência desse conhecimento, trata-se de informação velha. Além do mais, o autor salienta que tanto a informação nova quanto a velha são codificadas como proposição, não podendo ser vistas como equivalente aos itens lexicais, e que o funcionamento da informação nova e da velha ocorre de forma relacionada, o que não se permite fazer segmentação dessa proposição, como no caso de uma análise sentencial.
Lambrecht chama a atenção para o fato de que a distinção clássica que se faz entre informação nova e informação velha não se sustenta sob o ponto de vista linguístico-discursivo, haja vista que tais conceitos estão relacionados aos estados mentais assumidos pelas representações dos referentes dos constituintes da sentença na mente dos interlocutores durante o ato interativo, e que o contexto discursivo exerce papel primordial no contexto dessa classificação novo/velho.
Outro ponto colocado é que o valor dado à informação como nova ou velha, mesmo sendo codificado na proposição, reflete-se nos itens lexicais, no ordenamento da sentença e no acento prosódico que a sentença recebe. Nesse contexto, a informação velha é de pressuposição pragmática, que é de domínio comum entre os interlocutores; e a nova, como asserção pragmática. Logo, a primeira35 diz respeito ao “conjunto de
proposições evocadas léxico-gramaticalmente em uma sentença que o falante/escritor presume que o ouvinte/leitor já sabe ou está pronto para compreender no momento em que a sentença é pronunciada”; a segunda36“tem a ver com a proposição expressa por
uma sentença que se espera que o ouvinte/leitor conheça ou compreenda depois de ouvir a sentença pronunciada” (LAMBRECHT, 1996, p. 52).
35“The set of propositions lexicogrammatically evoked in sentença which the speaker assumes the hearer
already knows or is ready to take for granted at the time the sentença is uttered”. [Tradução nossa]
36 The proposition by a sentence which the hearer is expected to know or take for granted as a result os
O processamento da informação no domínio estrutural-discursivo, nos termos de Lambrecht, dá-se pela codificação de proposições que se relacionam por meio do encadeamento pressuposição/asserção. Por essa forma de defesa, fica estabelecido que o tópico faz parte da pressuposição, ou da informação denominada de velha, a qual é de conhecimento comum entre os interlocutores; já o foco, ou informação nova, pertence ao campo da asserção. Da proposta de Lambrecht, as ideias concernentes à organização do texto, mais precisamente, a pressuposição, que é tida como mecanismo de organização textual, são aderentes ao sequenciamento do par P-R por meio de relações fóricas e pressuposicionais.
Na sequência, faço uma explanação de como o tópico é concebido, nesta tese, tomando como base os postulados teóricos revisados anteriormente, mais precisamente, os pressupostos teóricos do funcionalismo linguístico.