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O par P-R tem sido concebido como um dos elementos importantes para a construção do texto falado pelo fato de ser bastante produtivo no uso da língua. Por esse motivo, as perguntas têm ocupado lugar de destaque nos estudos da linguagem por possibilitar investigar as pressuposições codificadas nos enunciados interrogativos (ENFIELD; LEVINSON; STIVERS, 2010).
As pesquisas desenvolvidas sobre perguntas, por um lado, se concentram em uma perspectiva que privilegia a estrutura da língua como o único objeto capaz de analisar e descrever os enunciados interrogativos, tendo por objetivo identificar regularidades por meio de métodos formais de investigação; por outro, investigam esses enunciados por meio da relação forma-função, ou seja, os padrões de regularidades encontrados na codificação do par P-R são motivados pelas funções que emergem do uso que se faz da língua.
No âmbito da classificação tradicional, Bechara (2006) distingue dois grupos de perguntas, a direta, que tem por características terminar por ponto de interrogação e possuir entonação ascendente:
(38) Ent: se... (hes) do que mais precisa além do interesse do professor e o interesse do aluno e precisa de mais alguma coisa?
Cam: (hes) eu acho que se se se o preparo o interesse do professor o preparo do professor e o interesse do aluno juntos eu acho que dá boa parte dos problemas são solucionados... com relação ao que diz respeito à sala de aula né?
Ent: e a estrutura da escola interfere? (ENTREVISTA SOCIOLINGUÍSTICA, ITABAIANA, f 12, 2010).
A pergunta, em (38), apresenta os traços definidos por Bechara (2006) para a interrogativa direta: o de entonação ascendente e o de terminar por ponto final.
A interrogativa indireta é o tipo de pergunta que: i) é elaborada de forma indireta e para qual não se solicita resposta imediata; ii) possui o traço de entonação descendente; iii) ocorre depois de verbo que exprime interrogação ou incerteza, como
perguntar, indagar, não saber, ignorar etc.; e iv) não possui ponto de interrogação.
(39) Ent: você trabalha?
Dav: trabalho sim eu trabalho na Fábrica de Carrocerias São Carlos inclusive uma das maiores do Brasil ((RISOS))... (hes) sou secretário de lá sou Secretário de Administração... e meu trabalho é... é outra re- grande realização atualmente da minha vida... tou gostando muito do que eu faço... muito mesmo
Ent: o que você se adaptou mais no seu trabalho?
Dav: no meu trabalho... eu acho num sei se é porque... as pessoas costumam falar que eu sou muito dado assim uma expressão num sei se você vai entender (ENTREVISTA SO- CIOLINGUÍSTICA, ITABAIANA, M25, 1S).
O autor defende que a entonação ascendente e o ponto final são traços característicos da pergunta direta. A pergunta indireta, além da ausência destes traços, possui outros que a caracterizam, como a não resposta imediata, tipo de verbo e estrutura da questão. Em (38), podemos visualizar um exemplo de pergunta indireta na resposta dada pelo ouvinte: num sei se você vai entender, a qual apresenta esses critérios fornecidos pelo autor.
Cunha e Cintra (2001) salietam que, para se entender a estruturação de perguntas, faz-se necessário recorrer aos critérios: entonação, presença de advérbio e pronomes interrogativos. Estes fatores são fundamentais para diferenciar uma declarativa de uma afirmativa, já que, na categoria pergunta, os seguintes pontos estão presentes:
a) espera sempre uma resposta categórica de sim ou não;
b) o ataque da frase começa por um nível tonal mais alto do que a oração declarativa;
c) na parte medial do segmento melódico, haver uma queda de voz, que, embora seja mais acentuada do que nas orações declarativas, não altera o caráter ascendente desta modalidade de interrogação;
d) subir a voz acentuadamente na última vogal tônica, ponto culminante da frase; em seguida, sofrer uma queda brusca, apesar de se manter em nível tonal elevado (CUNHA; CINTRA, 2001, p. 171).
Por essa afirmação, os autores alertam que as perguntas possuem, como característica distintiva, o traço de entonação ascendente, e que ocorrem em uma relação de adjacência: falante pergunta e espera a resposta do ouvinte.
No Dicionário de Linguística, Dubois (1973) define os enunciados interrogativos como uma forma de comunicação instaurada pelo falante em face de seu ouvinte. Segundo o dicionário, a gramática tradicional estabelece dois tipos de frase interrogativa: i) total, em que toda proposição é interrogada, sendo marcada, geralmente, pelo sinal de interrogação, com inversão de sujeito; e ii) parcial, quando a interrogação incide sobre um elemento que pode indicar: identidade, circunstância de tempo ou de lugar. Essa classificação é semelhante à de Bechara (2006), citada anteriormente.
No entendimento de Perini (2010), há dois tipos de estrutura interrogativa: aberta e fechada. A primeira (também chamada de interrogativa Q) caracteriza-se pelo fato de conter um termo sobre o qual recai a dúvida do interlocutor, sendo geralmente iniciada por pronomes do tipo: (o) que, (o) quê, quem, quando, como, porque, onde e
qual:
(40) Ent: mas foi um sonho de infância ou foi uma oportunidade que você encontrou pra obter um diploma de nível superior?
Tia: nunca nunca na infância imaginei de de ser contador de tá me formando hoje em contabilidade... (hes) foi uma oportunidade na verdade eu comecei a conhecer o o a profissão no meu serviço... aí comecei a gostar e optei por fazer vestibular alcancei esse objetivo... e hoje estou... (hes) vendo a contabilidade na na na universidade e tou (hes) pegando ela e utilizando no meu trabalho
Ent: você já cursou outro curso de nível superior? Tia: sim
Ent: qual? Tia: Pedagogia
Ent: e por que você num quis seguir carreira nesse... (hes) em Pedagogia? (ENTREVISTA SOCIOLINGUÍSTICA, ITABAIANA, M, 35, 2, S, Tia).
A segunda, denominada de fechada, tem como principal marca o sinal de interrogação. De acordo com autor, os dois tipos de pergunta apresentam o ponto de interrogação na escrita. Na fala, porém, as perguntas abertas possuem o traço de entonação descendente, a exemplo das declarativas:
(41) Ent: o que você está achando do curso que você escolheu?
Tia: olha fantástico viu? o curso que estou fazendo ele envolve um pouco de direito... envolve Matemática... e isso... me fez <<levrar>> levar pra pra vida profissional eu hoje estou realizado com o curso tou muito satisfeito não imaginei de ser tão bom como é...
aprendizagem os professores são ótimos e pretendo além de de fazer a graduação tentar um mestrado também futuramente
quais os pontos negativos e positivos nesse curso que você escolheu? ? (ENTREVISTA SOCIOLINGUÍSTICA, ITABAIANA, M, 35, 2, S, Tia).
O excerto (41) constitui um caso de pergunta fechada, por apresentar o traço de entonação ascendente37, que é o sinal distintivo das interrogativas, no termos de Perini
(2010).
Podemos observar, diante dessas considerações, que não há uma descrição estável para as perguntas. Cada compêndio apresenta nuances diferentes no que se refere ao entendimento pelo qual se concebe os enunciados interrogativos. A abordagem de Bechara (2001), por exemplo, difere da de Perini (2010) em alguns pontos: o primeiro afirma que o ponto de interrogação indica entonação ascendente, não importando serem as perguntas abertas ou fechadas; o segundo postula que esse traço só existe nas perguntas fechadas. O problema fulcral dessas abordagens é o fato de apresentarem definições para as perguntas sem a elaboração clara de critérios, provocando, com isso, uma gama de variação de ordem terminológica. Alguns traços mais estruturais são adicionados por Bechara (2001), mas com algum grau de vagueza:
[...] já vimos (pág. 195) que a interrogação pode ser parcial ou total conforme pergunte por algum termo da oração que não seja o predicado. Agora cabe-nos acrescentar que a interrogação pode ser estruturada. Chama-se interrogação direta aquela que é representada por uma oração independente caracterizada por entoação interrogativa (isto é, tem ascendente a sua parte final) e começada, se for parcial, por um vocábulo interrogativo: Que pensas disso?[...] Chama-se interrogação indireta aquela que, não pedindo resposta imediata, é representada por uma oração dependente destituída de entoação interrogativa, começada pelos pronomes ou advérbios interrogativos quem, qual, que, quanto, como, porque, onde e quando, ou pela conjunção integrante se: quero saber que pensas disso [...] (BECHARA, 2001 p. 223).
O autor acrescenta, nesta citação, outras características à categoria pergunta: i) a interrogativa direta como sendo parcial, ou não, de acordo com o escopo da interrogação; ii) indireta, ou direta, de acordo com a entonação ascendente. Contudo,
37A análise desse dado é realizada com base no dado transcrito, que marca o ponto de interrgoção como traço distintivo da categoria pergunta.
mesmo que façamos algum esforço para deduzir os critérios subjacentes a essa classificação, ainda, sim, não é de todo clara.
Perini (2010) ainda postula existir a pergunta eco, que é tida como um tipo de pergunta marginal. Essa pergunta não se distingue das abertas na modalidade escrita, porém, na oralidade, recebe entonação alta e ascendente. Nesse caso, o elemento interrogativo nunca vem no começo da oração, a não ser que seja codificado como sujeito. Em (42), temos um exemplo de pergunta eco retirada de Perini (2010):
(42) Sua mãe vai fazer O QUÊ? (PERINI, 2010, 65).
O termo que está grafado em maiúscula O QUÊ?, no final da frase, é a marca caracterizadora da pergunta eco, e sinaliza que o falante faz uma pergunta porque já recebeu a uma resposta, mas não a entendeu bem, ou apresenta algum tipo de incredulidade em relação a ela. Além disso, Perini (2005) faz uma distinção entre
pergunta e oração interrogativa, afirmando que a primeira pertence ao campo da
pragmática; a segunda, ao campo da sintaxe. O autor ainda assevera que sua abordagem é formal, morfossintática. Cada tipo de pergunta pode realizar, no âmbito da pragmática, uma força ilocutória diferente, podendo ser um pedido, uma ordem, entre outros. Na seção seguinte, disserto sobre o par P-R em uma dimensão gramatical- discursiva.