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C. İdareye İlişkin Bilgiler

5. Sunulan Hizmetler

Antônio Girão Barroso estreou nas letras cearenses com a publicação de Alguns Poemas, no ano de 1938. À época, a cidade de Fortaleza estava prestes a sofrer substanciais

transformações. A cultura do algodão, ao alimentar a economia, impunha, ao mesmo tempo, novos ares a ruas e praças, surgindo novos espaços em suas múltiplas funções, anunciando, assim, que um novo modelo de convivência social pendoava nas artérias da capital.

José Borzaccebiello da Silva (2006), em seu ensaio “Sinopse de uma geografia urbana de Fortaleza”, chama-nos a atenção para a singularidade da geografia local, cuja paisagem se fragmentava em mares, dunas, rios, lagoas, bem como por uma extensão verde a estabelecer contraste com a brancura das dunas. Concentra seu primeiro olhar como indicador da nova era a construção da Ponte Metálica – a Ponte dos Ingleses –, uma exigência da economia fomentada tanto pelas exportações quanto pelas importações, implicando a edificação de armazéns e depósitos nas proximidades da zona portuária. Mais adiante, ressalta, entanto, que, em verdade,

O novo porto, o do Mucuripe, tem sua construção iniciada nos anos quarenta do século XX. Com um porto moderno, de maior calado, Fortaleza se inscrevia no rol das cidades competitivas, intensificando o transporte e as comunicações com os principais portos do Brasil e do mundo. O apogeu do cultivo e exportação do algodão teve forte impacto na geografia da cidade, garantindo um período de grandes obras. O fausto desse período corresponde à construção de edifícios de prestígio, instalação de equipamentos e propostas de alteração no traçado do sistema viário, até hoje estruturadores para a cidade. (SILVA, 2006, p. 34).

Pouco a pouco, Fortaleza, de cidadezinha qualquer, acanhada, idílica por assim dizer, passa a ter as feições de um considerável progresso. Desse modo, no Centro da cidade, pulsava o novo coração, pois, instalavam-se aí a administração pública, o poder político, econômico, cultural e as áreas de lazer:

Cinemas, templos, palácios e praças sempre apinhadas de gente, como a do Ferreira, com seus famosos cafés, e a José de Alencar, com seu requintado Teatro. O Passeio Público era o local de lazer, do ócio. Debruçado sobre o mar, tirou partido de sua localização, garantindo belíssima linha de visada aos seus usuários finos e elegantes que passeavam por suas alamedas, contemplavam seus jardins, encantavam-se com suas fontes e, com andar despreocupado, desfrutavam da brisa marinha na Avenida Caio Prado, sua alameda mais famosa, inaugurada em 1888. (p. 40).

O capitão Roberto Carlos Vasco Carneiro de Mendonça assumiu o cargo de interventor federal no Ceará, de 22 de setembro de 1931 a 5 de setembro de 1934. Neste período de seu governo, destacaram-se, no plano da Educação, em especial, dois empreendimentos: o Conselho de Educação do Estado do Ceará, em 1932; e uma escola para menores abandonados ou infratores – um sistema de internado e escola agrícola –, implantada na Vila de Santo Antônio do Pitiguari (hoje Maracanaú), popularmente conhecida como Santo Antônio do Buraco: “o reformatório tornou-se folclórico, pois passou a ser usado para

assustar crianças. No imaginário popular, acreditava-se que ali era um local insalubre, com um grande buraco escuro habitado por insetos e cobras”22.

A população do Estado, de acordo com os cálculos da Diretoria Geral de Estatística, aos 31 de dezembro de 1930, era composta por 1.662.047 habitantes; já a população da capital, de acordo com o mesmo Órgão, na mesma data, era de 111.559 habitantes. (BEZERRA, 2016).

Na década de 30, o ensino, no Ceará, era público e privado. O ensino público compreendia cinco estágios: o preliminar – três anos, ministrado em escolas isoladas e reunidas; o primário – quatro anos, nos grupos escolares; o complementar – dois anos, numa escola complementar; o secundário e especial – no Liceu e na Escola Normal; o superior, na Faculdade de Direito. Quanto ao ensino profissional, havia apenas um estabelecimento, em Fortaleza: a Escola de Aprendizes Artífices, mantida pelo Governo Federal. Existiam, em Fortaleza, apenas duas bibliotecas: uma na Escola Normal Pedro II; e outra na Diretoria da Instrução Pública; no entanto, destinavam-se tão somente aos professores, não havia, portanto, nenhuma aberta aos alunos.

Considerando-se que a Universidade Federal do Ceará somente foi fundada aos 16 de dezembro de 1954, a vida cultural na cidade de Fortaleza, nas décadas de 30 e 40 do século XX, girava em torno da Faculdade de Direito, da Academia Cearense de Letras, dos grêmios artísticos e literários, dos bares e cafés, bem como dos clubes sociais concentrados estes, principalmente, no Centro da cidade, estendendo-se até a Praia de Iracema e adjacências.

Os jornais que circulavam, de modo mais impactante, eram “O Povo”; “Gazeta de Notícias”; “Unitário”; e o “Nordeste”; constituíam todos, antes de tudo, veículos de propaganda de natureza política e/ou ideológica. No âmbito da cultura, leiam-se as informações da professora Benedita Sipriano (2016), em sua análise sobre o jornalismo no Ceará, concentrada nos anos 20 e 30 do século XX:

Com um discurso em tom liberal, O Povo apresenta-se como um opositor das velhas tradições políticas. Um ano antes da criação do jornal, o seu fundador, Demócrito Rocha, envolvido nos movimentos de contestação às oligarquias dominantes, junto com outros membros da classe média urbana cearense: jornalistas, intelectuais, estudantes; organizou o Partido da Mocidade, que se proclamava contra o latifúndio e a favor da moralização do processo eleitoral. Sua atividade jornalística iniciou-se com a publicação do semanário “Ceará Ilustrado”, em 1924, espécie de “folhetim cultural, pautado por produções literárias, por comentários sobre a política, por matérias sobre o Ceará” (MONTENEGRO, 1989, p. 82). Mais tarde, tornou-se colaborador do jornal O Ceará, onde foi redator e diretor literário. Em 1929, fundou o jornal literário Maracajá, que, conforme Rachel de Queiroz (1989, p. 8), destinava- se “a pregar o modernismo pelas terras nordestinas, e nele todos nós desferimos voo,

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convencidos de que fazer modernismo era escrever regionalismo com grande gosto de índios, antas, cocares e mais brasilidade em frases de três palavras”. (SIPRIANO, 2016, p.148-9).

O jornalista Blanchard Girão (2006), analisando o impacto da implantação dos bondes elétricos na cidade de Fortaleza, nos anos 30 e 40 do Século XX, e ainda dos primeiros ônibus a gasolina, durante este mesmo período, bem como a paulatina dilatação dos becos e das ruas da cidade, afirma que a intensidade da vida cultural, no período diurno, gravitava em torno da Praça do Ferreira.

Imagem 8 – Praça do Ferreira

Fonte: Arquivo Nirez.

Descortina, ainda, outros espaços da cidade, pondo em relevo suas respectivas singularidades, conduzindo-nos, pela memória, a pontos da cidade que, atualmente, habitam tão somente fotografias.

Os pontos elegantes de Fortaleza dos anos 30/40, descambando um pouco nos anos 50, situavam-se na Praia de Iracema, em especial na Rua dos Tabajaras, servida por uma linha de bondes, cujo final era ao lado da igrejinha de São Pedro. Na Praia de Iracema viviam as famílias de maior poder econômico, o ‘soçaite’, que frequentavam o Praia Clube, os serões artístico-boêmios do ‘Jangada Clube’ do industrial Fernando Pinto, o restaurante afamado do espanhol Ramon e, um tanto mais à frente, o restaurante Lido, do francês Charles D’Alva e o bar do Figueiredão, no qual numa certa manhã domingueira foi assassinado o playboy Vicente de Castro Neto. (GIRÃO, 2006, p. 60).

Ressalta, outrossim, neste seu estudo, que, além da Aldeota, bairro que, por certo tempo, chamou-se Outeiro, onde habitava boa parte dos ricos e da classe média alta, ganhava relevo, na cidade de Fortaleza, àquela época, o bairro Jacarecanga:

onde outra fortuna da cidade, Pedro Philomeno, fixou a base de seus negócios e a sua residência. A Praça do Liceu (atualmente Gustavo Barroso) acolhia muitas e belas moradias, luxuosos (para o seu tempo) bangalôs de dois pavimentos um dos quais pertencia ao Dr. Flávio Marcílio, mais adiante Governador do Estado e presidente da Câmara dos Deputados. Nos bondes do Jacarecanga, a presença, em grande alarido, dos estudantes do Liceu. (p. 62).

Em contraponto, descortina outra realidade, configuradora também, neste mesmo espaço de tempo, do cotidiano da cidade de Fortaleza:

Nas proximidades da Praia de Iracema, a Prainha, com uma linha de bonde própria, indicava o início do humilde bairro do Seminário, no qual a hoje agitada Avenida Monsenhor Tabosa, durante largo espaço de tempo, não possuía sequer pavimentação. Era areia frouxa, areia de praia, tal como alcancei na meninice. Aqui e ali pontificava uma bodeguinha para não fugir à regra. (p. 64).

Blanchard Girão (1997), num livro de memórias, retorna ao início dos anos 40 do Século XX, concentrando-se, sobretudo, no universo social, político e cultural a envolver um estabelecimento de ensino, o Liceu do Ceará, além de um dos elementos configuradores do progresso, com destaque para o bonde:

Naquela bucólica paisagem da cidade-província, naqueles primeiros arrancos dos anos quarenta, alguns pontos ganhavam relevo. O bonde, por exemplo. Vocês que acidentalmente me leem nestes estertores do século, pior certo não visualizam o que era um bonde. Sabem tratar-se de um veículo de transporte coletivo. Correto. Mas o bonde era muito mais que isso. Era o espaço agitado da cidadezinha que começava a ganhar foros metropolitanos. Democrático, recebia em seus amplos bancos de madeira envernizada cidadãos de todas as categorias. Senhores em impecáveis ternos brancos de linho HJ, inglês legítimo, e humildes ambulantes com seus cestos ou tabuleiros, mulheres do povo com trouxas e embrulhos pesados. O bonde de Fortaleza, diferente dos de outras cidades, não tinha reboque (o taioba, como se chamava no Rio de Janeiro) destinado a passageiros com cargas. Aqui, ia tudo em cambulhada. Barulhentos, desarrumados, passageiros e veículos dominavam o cenário do centro nervoso da Capital, a sua Praça do Ferreira, ruas adjacentes e bairros. (GIRÃO, 1997, p. 25).

Imagem 9 – Rua Major Facundo, na Praça do Ferreira, por onde trafegavam os bondes elétricos, no ano de 1938

Fonte: Arquivo Nirez.

A professora Irlys Alencar (2006), numa leitura sociológica e política dos movimentos sociais, na cidade de Fortaleza, ao longo dos anos 30 e 40 do século XX, delineia, não mais “a loura desposada do sol”, mas uma cidade inflamada, sob as lavas da rebeldia, em meio a aparelhos de repressão. Registra que a grande seca de 1932 provocou uma intensa migração de retirantes sertanejos para a Capital do Estado do Ceará, implicando uma transformação do espaço urbano, a partir da construção, nos bairros de Otávio Bonfim e Pirambu, de acampamentos, murados ou cercados de arames farpados – por isso, denominados pela gente da época “campos de concentração” –, uma vez que ali eram depositados os retirantes, de onde não deveriam sair; mas havia fugas, e corriam notícias de saques.

Põe também em relevo as transmudações, no modo de viver da cidade, oriundas dos efeitos da II Guerra Mundial, com destaque para o grande quebra-quebra ocorrido aos 18 de agosto de 1942, observando que tal movimento:

representou a manifestação popular antinazista contra o afundamento de navios brasileiros por submarinos alemães. A pioneira memória fotográfica de Thomaz Pompeu Gomes de Matos demonstra manifestações no centro da cidade, precedidas por passeatas que culminaram com incêndios e depredações de estabelecimentos

comerciais de estrangeiros (alemães, italianos, espanhóis), incluindo também Consulado Alemão e Casas Pernambucanas. (ALENCAR, 2006, p. 100).

No primeiro dia do mês de setembro de 1939, as tropas militares de Adolfo Hitler invadiram as terras da Polônia. Iniciava-se, assim, a II Guerra Mundial, uma vez que, com tal atitude, os acordos de paz, antes estabelecidos entre os governos da Alemanha, da França e da Inglaterra, foram rompidos.

No Brasil, iniciara-se, em 1936, o Governo ditatorial de Getúlio Vargas, o Estado Novo, evidentemente sob o apoio dos militares e de uma parte da sociedade civil, cuja orientação ideológica identificava-se com a direita. A eclosão da II Guerra Mundial exigia uma tomada de posição, ante o conflito, dos países em geral. Assim, o Brasil, a princípio, limitou-se a contemplar o cenário, ainda que insinuasse possíveis rumos:

A tal ponto que o general Góes Monteiro, Ministro da Guerra (comandante das Forças Armadas do País), recebera um convite do Governo alemão, através de seu embaixador no Brasil, para participar de manobras do exército nazista.

O grande complexo industrial germânico, liberado pela Krupp, que conseguira transformar a máquina bélica de seu país na maior e mais poderosa do mundo, enviava propostas tentadoras ao Governo brasileiro, com vistas à construção de uma siderúrgica, sonho acalentado por Vargas.

Já em 1940, num encontro com altos comandantes militares, a bordo do encouraçado ‘Minas Gerais’. Getúlio pronunciou discurso indisfarçavelmente simpático à causa hitlerista, que o escritor cearense Gustavo Barroso, pertencente às hostes do Integralismo – versão cabocla do nazi-fascismo – elogiou publicamente.

O navio brasileiro ‘Siqueira Campos’, abarrotado de armas alemãs para o Exército do Brasil, foi aprisionado pela marinha inglesa, gerando um incidente diplomático de grande seriedade, e que levou o general Eurico Dutra a sugerir declaração de Guerra à Grã-Bretanha, o que, se consumado, significaria o engajamento oficial do nosso País ao Eixo integrado por Alemanha-Itália e Japão.

Pressentindo o perigoso rumo tomado pelo Governo Brasileiro, os Estados Unidos, àquela altura ainda neutros no conflito, mas já ajudando o esforço inglês para conter a agressão alemã, manobraram com rapidez e ofereceram um empréstimo de 80 milhões de dólares para Getúlio montar a sua siderurgia. E Volta Redonda começa a ser construída em 41, com dinheiro norte-americano. (GIRÃO, 1997, p. 107-108). Para o Brasil, o ano de 1942 foi decisivo, no sentido de uma posição mais firme ante o conflito bélico. A partir do afundamento, pelas forças alemãs, do cargueiro ‘Cabedelo’ – mais 35 navios sofreriam o mesmo fim –, explodiram, ao longo do País, manifestações populares contra os nazistas e a favor de que o Brasil lutasse na guerra ao lado das nações democráticas. Ressaltamos que o cenário do dia 18 de agosto de 1942 não se limitou à nossa cidade, mas estabeleceu-se, também, em outros lugares, como São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Salvador, isto é, nas grandes cidades do País. Em meio a tudo isso, Antônio Girão Barroso organizava um Congresso de Poesia.

Benzer Belgeler