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II. AMAÇ VE HEDEFLER
Imagem 12 – Capas das edições de poesias incompletas, de Antônio Girão Barroso
Fonte: Acervo Pessoal.
A poesia cuida, em sua essência, de tudo o que foge ao tempo e, assim, transcende, também, o espaço; o eu lírico, isto é, a voz poemática, é, a rigor, a própria condição do homem; por isso, tudo o que canta, as coisas com que se preocupa – emoções, sentimentos, conceitos –, enfim, o que se materializa no corpo do poema atravessa as eras e comporta em si o perene humano no drama da existência.
Massaud Moisés (1967), na construção de sua teoria sobre a poesia, na qual estuda o poema, o eu poético, o tempo, o enredo, o espaço, a emoção e o pensamento, a linguagem poética em si, as questões do ritmo etc., ao concentrar-se na análise da emoção impressa no objeto literário, isto é, o próprio fenômeno poético, afirma:
Espacialização do “eu lírico”, o fenômeno poético implica, necessariamente, a emoção e o pensamento. Tal vínculo, sobretudo no tocante à emoção, tem sido assinalado desde os primórdios da crítica e da teoria literária, ou seja, desde Platão, Aristóteles e Horácio (MASSAUD MOISÉS, 1967, p. 168).
Nesse sentido, a leitura de Antônio Girão Barroso não pode livrar-se de uma contaminação afetiva, não obstante os rigores formais inerentes a esta investigação. O livro
Poesia s incompletas28 (1994) abriga, possivelmente, toda a produção poética de Antônio Girão Barroso, compreendendo a reunião das seguintes obras: Alguns poemas (1938); Os hóspedes (1946); Novos poemas (1950); 30 poemas para ajudar (1964); e Universos (1972). À primeira vista, trata-se de um volume modesto, considerando-se a longevidade do poeta; no entanto, guarda, ao longo de suas páginas, não só uma preocupação com direcionamentos estéticos e estilísticos, mas o sumo de um discurso poético inventivo e desafiador, principalmente pela – aparente – simplicidade de que se reveste, uma vez que sintetiza a concepção de poesia como conhecimento, salvação, poder e abandono: “... ejercicio espiritual, es um método de liberación interior. La poesía revela este mundo; crea outro. Pan de los elegidos; alimento maldito” (PAZ, 1986, p. 13).
O termo literatura – stricto sensu – refere-se, amiúde, às produções escritas (sem
que as de compleição oral sejam totalmente desprezadas), mas portadoras de determinadas singularidades, oriundas de uma “elaboração especial da linguagem e na constituição de universos ficcionais ou imaginários” (SOUZA, 2009, p. 47); uma vez, quando não literários, os textos não levam em conta, na escolha do léxico, a significação; já os literários não prescindem da seleção e combinação das palavras.
No âmbito da construção da poesia, entram ainda em cena o ritmo, a sonoridade, os sistemas de metrificação, os níveis sintáticos, as figuras de linguagem etc. Assim, mesmo possuindo uma unidade, oriunda de sua própria natureza, o poema, se motivo de uma análise, pode ser lido sob determinados ângulos.
Goldstein (2008), ao expor as possibilidades de aprofundamento da leitura do poema, através de recursos fônicos e rítmicos, afirma que toda obra de abre possui uma unidade, e o poema não fugiria a essa exigência, pois a unidade resulta de características que são singulares a cada expressão artística:
Ao analisar um poema, é possível isolar alguns de seus aspectos, em um procedimento didático, artificial e provisório. Nunca se pode perder de vista a unidade do texto a ser recuperada no momento da interpretação, quando o poema terá sua unidade orgânica estabelecida.
Durante as etapas da análise, o leitor não deve perder de vista o horizonte da unidade do poema, no momento em que todos os aspectos devem ser relacionados uns aos outros, para a interpretação do texto como obra uma, coesa e coerente (GOLDSTEIN, 2008, p. 11).
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Neste trabalho, nós nos utilizaremos das três únicas edições que reúnem todos os poemas – pelo menos os que, até agora, tornaram-se públicos, através da impressão em livro –, de Antônio Girão Barroso; todas são obras póstumas, sob o título “Poesias Incompletas”, que se distinguem umas das outras pelos respectivos anos de publicação: PI (1994); PI (2005); PI (2014).
Assim, servindo-nos do método interpretativo, a partir do intrínseco literário, considerando, ainda, as relações intratextuais, intertextuais e recursos expressivos, palmilharemos a escritura de Antônio Girão Barroso, sem, no entanto, apegarmo-nos, rigorosamente, à ordenação cronológica de sua realização, vendo-a como um todo resultante de fragmentações.
Proença Filho (2011), perscrutando as especificidades da linguagem literária, apresenta-nos, de modo detalhado, os elementos que a integram – a complexidade, a polissemia, a ênfase no significante etc:
O texto literário como tal pode ser lido, criticamente, no nível de superfície ou de profundidade, considerada a polissemia que o caracteriza, com base em três enfoques: em função de sua relação com aspectos existenciais, destacados os processos cognitivos e éticos, e motivações nele configurados; podemos centrar a leitura nas dimensões sociais ou psicossociais que nele se fazem presentes, privilegiadas a relação entre a literatura e o social, a literatura e a história, a literatura e a cultura; podemos nuclearizá-la no diálogo intertextual, que privilegia influências. (PROENÇA FILHO, 2011, p. 17).
Ressaltamos, ainda, não ser o leitor um agente passivo, de acordo com a acepção de obra aberta29 (ECO, 1988) – as inesgotáveis possibilidades de leitura –, tampouco a produção de um poeta um resultado intocável.
Massaud Moisés (1967), depois de discorrer acerca do conceito de Literatura, da classificação dos gêneros, das fronteiras entre a prosa e a poesia, no momento de fincar uma “Teoria da Poesia”, esclarece aquela relação, a que antes nos referimos, entre o leitor e a poesia:
Com efeito, o poema comunica ao leitor a poesia que existiu no poeta. Mas composto o poema, este passa, inclusive para o seu criador, a ser um meio de comunicação de um conteúdo que no poeta desapareceu ou se modificou precisamente para que o poema fosse criado. Desse modo, o poema encerra uma soma caleidoscópica de sinais, em que o poeta deposita uma carga emocional que ele próprio desconhecia possuir: escreveu o poema para saber, para “ver” o que estava sentindo. (MASSAUD MOISÉS, 1967, p. 90).
Desse modo, a folha de papel funciona, tão somente, como depositária de uma voz, pela qual, na angústia ou no êxtase de seu silêncio, o poeta se sente percorrido. Expressá- la, pois, sedimenta-se na espera de recebê-la sob a oferta de outras vozes: a dos leitores.
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Umberto Eco parte do princípio de que a obra literária, sendo, por natureza, ambígua, não comporta um universo fechado em si mesmo; assim, é sempre passível a múltiplas interpretações, mas a partir de um sólido rigor teórico, o que faz com que a atividade do crítico se torne um processo de reinvenção da obra em estudo.