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Yetki Devri ile Elde Edilebilecek Faydalar

1.5. YETKİ DEVRİNİ ETKİLEYEN FAKTÖRLER

1.5.5. Yetki Devri ile Elde Edilebilecek Faydalar

Nós cremos pensar com nosso cérebro. Eu, eu penso com meus pés, é somente aí que eu encontro alguma coisa de duro.

(LACAN, 1975, p. 6)

Partindo da premissa de que o sujeito é, por natureza, dividido, Lacan colocou-se a seguinte questão: se, por haver inconsciente, ninguém sabe o que diz, ao haver dissonância entre a fala e a ação de alguém, no que se apoiar para organizar suas relações? A resposta pode ser lida no trecho colocado como epígrafe desta sessão. Lacan é enfático ao dizer que se apoiava no que o paciente fazia e não no que dizia.

Diferentemente das pessoas que se orientavam por aquilo que o paciente falava, Lacan afirmou que sua escolha era pensar com os “pés”. Nessa visada, o norte do trabalho analítico seria ver as ações do paciente, as quais indicariam um caminho mais preciso, mais “duro”, nas palavras do psicanalisa, daquilo que o paciente queria.

Para que o privilégio dado ao não verbal, opaco, fique um pouco mais claro, apresentamos um exemplo retirado dos dados doados pela informante Bridget Jones. Nosso propósito é o de mostrar o descompasso entre o que inicialmente planejado pela aluna e o que ela efetivamente fez. Observemos o Quadro 10:

Quadro 10 – Cronograma da dissertação da informante Bridget Jones

O Quadro 10, que acabamos de apresentar, consiste em um cronograma de atividades a serem desenvolvidas pela orientanda desde o início do mestrado até o depósito do relatório de qualificação na secretaria da pós-graduação. Trata-se de um recorte retirado do manuscrito 32, que compõe os dados dessa informante. Ele foi elaborado juntamente com a orientadora e está dividido em cinco partes, cada uma correspondente a um mês do ano. Ressalte-se que este cronograma já foi alvo de nossa análise no capítulo anterior.

Um primeiro olhar já nos permite observar uma diferença tipográfica no quadro, que demarca dois momentos de trabalho sobre o referido cronograma. Temos um primeiro momento da elaboração, que é a versão digitada, em que o planejamento da aluna indica que ela começaria o trabalho em agosto e entregaria a versão final em dezembro. O segundo momento é demarcado pela escrita com letra cursiva, com caneta azul, na qual a aluna trocou todos os meses do planejamento inicial.

Note-se que as atividades planejadas para o mês de agosto (escrever o capítulo 5; scanner todas as imagens que vão ser utilizadas para compor a tese), passaram para dezembro (ou seja, ela recomeçou no período em que, segundo ela, já teria terminado o trabalho); o que era para ser feito em setembro (Escrever os capítulos 2 e 3, tendo em vista o que já foi escrito no 5), ficou para janeiro e assim sucessivamente, sempre com um intervalo de quatro meses.

Para explicar como esse tipo de descompasso acontece, recorramos à hipótese do inconsciente freudiano. Para Freud, o inconsciente é um não saber.

Desde seus primeiros textos, Freud (1900, 1905) afirma que o psiquismo não se reduz ao consciente – à ideia presente em nossa consciência, recuperável rapidamente – sendo formado também por certos conteúdos latentes que só são possíveis à consciência após serem superadas certas resistências.

Freud (1916, p. 31), ao comentar a descoberta do inconsciente e a revolução que ela trouxe à humanidade, afirma que o “eu” “não é senhor em sua própria casa”, já que, pela existência do inconsciente, sempre haverá uma parte de não saber em cada um de nós. Leiamos as palavras do psicanalista:

Mas a megalomania humana terá sofrido seu terceiro golpe, o mais violento, a partir da pesquisa psicológica da época atual, que procura provar o ego que ele não é senhor nem mesmo em sua própria casa, devendo, porém, contentar-se com escassas informações acerca do que acontece inconscientemente em sua mente. Os psicanalistas não foram os primeiros e nem os únicos que fizeram essa invocação à introspecção; todavia, parece ser nosso destino conferir-lhe expressão mais vigorosa e apoiá-la com material empírico que é encontrado em todas as pessoas. (FREUD, 1916, p. 31)

O desdobramento dessa hipótese é a de que aquele que fala não sabe o que diz. Assim sendo, quando você pergunta a alguém a respeito do que ele quer, existem chances de que a pessoa, ao responder, se engane.

Para dar maior rigor a essa hipótese, Lacan (1960) considerou a distinção entre o enunciado (a representação concreta da língua) e a enunciação (constitutiva do sentido do enunciado, a atualização da língua no discurso). Trata-se de entender, portanto, que não existe uma correlação ou simetria entre o que alguém enuncia e o que ele faz. Nessa visada, o dito de alguém nunca é cem por cento preciso, sempre há possibilidades de equívocos, deslizes de sentido, ambiguidade.

No texto “Subversão do sujeito e dialética do desejo no inconsciente freudiano”, Lacan (1960) retomou o conceito freudiano de inconsciente para demarcar as duas instâncias que formam o psiquismo humano. Por um lado, há um “eu” – que designa o sujeito do enunciado, o que planeja e é responsável pela fala; e, por outro, o sujeito do desejo inconsciente – aquela instância que não sabe o que diz, mas que se imiscui na fala do “eu”.

A nosso ver, a definição de Lacan (1960, p. 813) é pertinente para demarcar essa característica do inconsciente de sempre insistir em encontrar modos de se manifestar: “O inconsciente, a partir de Freud, é uma cadeia de significantes que em

algum lugar (numa outra cena, escreve ele) se repete e insiste, para interferir nos cortes que lhe oferece o discurso e na cogitação a que ele dá forma”;

O psicanalista foi explícito ao afirmar que, com relação ao sujeito do inconsciente, não existe um modo de responder à pergunta “Quem está falando”, isso porque “ele não sabe o que diz e nem sequer que está falando”. (LACAN, 1960, p. 815)

Ressalte-se que a distinção entre enunciado e enunciação, feita por Lacan, também é um dos pontos fundantes para a Linguística. Pêcheux (1975) postulou que duas características inerentes à linguagem são o equívoco e a opacidade. Ou seja, tudo o que alguém diz pode ser entendido de maneira equivocada pelo outro ou, ainda, nunca se tem garantia de como um dito foi escutado por outra pessoa.

Pêcheux (1975, p. 144) explica que “o sentido de uma palavra, expressão, proposição não existe em si mesmo (isto é, em sua relação transparente com a literalidade do significante)”, mas depende das posições sustentadas por aqueles que empregam as palavras dentro de uma determinada formação discursiva.

Trazendo esta discussão para o campo da formação de pesquisadores, podemos afirmar, por exemplo, que quando o orientador diz para seu orientando algo como: “você precisa estudar muito para escrever esse capítulo”, não há garantias de que esse dito tenha o significado compartilhado entre orientador e orientando. Cabe interrogar: o que significa estudar muito na boca de quem proferiu esta frase? A intensidade do “estudar muito” para uma pessoa, pode não significar o mesmo para outra. Por outro lado, se o orientando afirma que entendeu o enunciado, não há garantias de que, no nível da enunciação, ele mostrará esse entendimento.

Assim, valendo-nos deste princípio da distinção entre orientar-se pelo que se fala e pelo que se faz, não escolhemos fazer entrevistas com nossas informantes ou mesmo com a orientadora. Ao invés de solicitar-lhes que falassem a respeito do processo de escrita da dissertação, da parceria ou como o orientador fazia seu trabalho, fomos olhar o que ficou registrado materialmente do trabalho de cada um.

Olhamos o que se fez – para onde os pés foram – e não o que os pesquisadores disseram fazer a respeito da ação de cada um. Por essa razão, todo registro que indiciou uma ação foi alvo de nossa atenção, tais como: as versões dos capítulos da dissertação, trabalhos feitos para as disciplinas cursadas, e-mails trocados entre orientador e orientando, pedaços de papel com algum tipo de anotação, anotações de aula etc.

Este princípio também levou-nos a buscar indícios de outras ações do orientador que não apareceram no nível do enunciado, no sentido que não temos o registro escrito de tudo o que foi dito, mas que foram transmitidas via enunciação. Isso porque é importante destacar que há uma parte do trabalho de orientação que escapa às intervenções feitas nas versões de um texto. Por exemplo, mesmo sem explicitar a relação imediata com a pesquisa, a orientadora faz uma série de ações que podem se configurar como dispositivos de transformação na vida do pesquisador, por exemplo: emprestar um livro, enviar um texto, indicar uma peça de teatro, exposição, convidar para assistir uma aula ou palestra etc.

Especificamente em nosso corpus de pesquisa, encontramos registros que indiciam ações do orientador e, parcialmente, o que ele disse. Trata-se de uma série de desenhos e esquemas feitos durante as reuniões de orientação. Esses registros serão considerados por nós como um importante material de análise, porque contêm indícios de horas de conversas entre orientador e suas orientandas.

Entendemos que a partir desses desenhos e esquemas, é possível recuperar os mecanismos utilizados pelo orientador para, por exemplo, explicar um conceito que o orientando estava com dificuldade de entender; exigir uma postura mais rigorosa frente à análise dos dados etc.

Benzer Belgeler