• Sonuç bulunamadı

1.5. YETKİ DEVRİNİ ETKİLEYEN FAKTÖRLER

1.5.4. Yetki Devri Engelleri

Têm boca, mas não falam; olhos têm, mas não veem.

Têm ouvidos, mas não ouvem; narizes têm, mas não cheiram. Têm mãos, mas não apalpam; pés têm, mas não andam

(Salmo 115)

Referindo-se à necessária inclusão das vicissitudes da libido para se pensar na formação do pesquisador, o segundo princípio ajuda-nos a entender os diferentes modos de o ser humano lidar com aquela parte de si indecifrável e ininteligível (a sua sexualidade).

Segundo o dicionário de psicanálise organizado por Roland Chemama (1995, p. 126), a libido é a “[...] energia psíquica das pulsões sexuais, que encontram seu regime em termos de desejo, de aspirações amorosas, o que, para Freud, explica a presença e a manifestação do sexual na vida psíquica”. Como explicado por Chemama, Lacan propôs entender a libido “[...] não tanto como um campo de energia, mas como um ‘órgão

irreal’, que tem relação com a parte de si próprio que o ser vivo sexuado perde, na sexualidade” (CHEMAMA, 1995, p. 126). Outro ponto importante é entender que é muito variável a quantidade de energia, a pressão da libido e a maneira como cada pessoa lida com ela.

Mas, em que medida a consideração das vicissitudes da libido se relaciona com a escrita acadêmica e com a formação do pesquisador? Para responder a essa pergunta, esclarecemos que a mobilização desse princípio surgiu quando refletíamos a respeito de por que os pesquisadores, aparentemente com todas as condições empíricas para produzir (biblioteca à disposição, orientador presente, laboratórios de informática etc.), não as utilizavam. Em muitos momentos, nossas informantes pareciam consumidas por uma “morbidez intelectual”. Esse estado não as permitia ler com rigor os textos, retroagir sobre seu próprio escrito, a ponto de não verem a falta de lógica de um texto etc.

Tal reflexão aludiu-nos à passagem bíblica que abre esta sessão. Em alguns momentos, as pesquisadoras, cujo percurso analisamos, assemelharam-se às figuras descritas pelo salmista. Tinham bocas, mas não colocavam à prova seus pensamentos e elaborações. Seus olhos não viam o que liam ou escreviam, os ouvidos pareciam não escutar as indicações do orientador. As mãos e os pés pareciam inertes ao desenvolvimento do trabalho. Nesses momentos, de diferentes formas, a orientadora ou algum colega precisou forçar o que podemos aludir a um “sopro de vida”, ou um “balde de água fria”, para que pudessem sair de um estágio de limbo ou adormecimento intelectual.

Vejamos, com Freud, quais os caminhos ou vicissitudes da libido que alguém do sexo feminino pode escolher. No texto “A sexualidade feminina”, escrito em 1931, o psicanalista discorreu a respeito de três vicissitudes: 1) revulsão geral – quando a pessoa, horrorizada diante das suas contingências corporais, abandona a sexualidade. Torna-se frígida, triste e pouco inteligente; 2) autoafirmação e excesso da libido – quando a pessoa reage às suas contingências corporais como se fosse a protagonista de uma aventura. Grudada à esperança de algum dia conseguir um órgão sexual masculino, a menina ignora as alegadas fragilidades de seu sexo; e 3) encontro do “pai” como objeto – quando a pessoa reage às suas contingências corporais esperando encontrar, no sexo oposto, um complemento para a ausência do órgão sexual masculino, primeiro, na forma de parceiro amoroso e, depois, na forma de filho.

Levando em conta as situações nas quais as informantes não reagem às condições empíricas para sua produção com ânimo ou desânimo para concretizá-la, podemos imaginar que a cada uma das posições descritas pelo psicanalista corresponde uma tendência com relação ao impulso de alguém para iniciar, realizar e sustentar sua pesquisa.

À revulsão geral corresponde uma posição apática e desimplicada. A pessoa sempre encontra desculpas para se desencontrar de seu trabalho, que não lhe oferece prazer algum. À autoafirmação e excesso da libido podem corresponder duas principais posições. Uma delas é vinculada à apreciação de si própria como sendo dona das verdades e sem necessidade de ajuda externa. A segunda relaciona-se a uma atitude corajosa e imaginativa frente aos problemas e impasses. Ao encontro do “pai” como objeto – também podem corresponder duas posições. Uma refere-se àquela pessoa que elege como objeto, por exemplo, um determinado autor como “pai” e, a partir de então, passa a reproduzi-lo e tomá-lo como chave de leitura para todos os fenômenos que observa. A segunda posição é da pessoa que elege como objeto de amor um objeto de investigação, por exemplo, o ensino da escrita. A partir dessa eleição, dedicará seus esforços intelectuais para construir uma obra.

Levar em consideração as vicissitudes da libido é, portanto, reconhecer os vários caminhos por meio dos quais o ser humano pode lidar com as contingências corporais e com a realidade que o cerca. Esse reconhecimento é importante para distinguir em que medida alguns dos problemas que ocorrem ao longo de um percurso de formação são consequência de problemas cognitivos ou referem-se às dificuldades do pesquisador de lidar com as vicissitudes da libido.

Não são raros os casos de pesquisadores, por exemplo, que passam meses sem escrever uma linha; evadem das pessoas que poderiam ajudá-los ou escrevem como se o texto fosse um eterno retorno, ou, ainda, têm muitas ideias interessantes, mas não dão consequência a nenhuma. Por exemplo, a pessoa que tem cinco formulações para o início do capítulo 1, todas com objetivos diferentes.

Ao longo desta tese, justamente queremos descrever e analisar como essas vicissitudes da libido do pesquisador afetaram as instâncias relacionadas às suas atitudes frente ao saber e ao ato de escrever. Ao mesmo tempo, buscamos mostrar como elas puderam ser modificadas ou organizadas a partir da influência do orientador.

Benzer Belgeler