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Nessa perspectiva, Conceição Evaristo apresenta diversos quadros das adversidades vivenciadas dentro e fora dos barracos da favela. Várias são as histórias de violência que nos chegam através de pequenos relatos de vida de alguns personagens moradores da favela. Histórias contadas por Bondade à Maria-Nova, e outras que a menina escolheu escrever para mais tarde nos contar. Coisas que ele não contava para gente grande, a menina sabia. Bondade contava algumas delas com lágrimas nos olhos. “Maria-Nova queria sempre histórias e mais histórias para sua coleção [...]. Ela haveria de recontá-las um dia, ainda não se sabia como” (EVARISTO, 2013, p. 56). Bondade relata que em um dos barracos daquela favela tinha uma menina da idade de Maria-Nova, treze anos, que sonha desejos como toda criança, “armazenar chocolates e maçãs. Ter patins para dar passos largos...”. Já a mãe da menina sonhava em suprir as necessidades, sonha leite, pão e dinheiro, remédios para o filho doente, emprego para o marido revoltado e bêbado. Sonha um futuro melhor para a família, porém não enxergava possibilidades:

Outro dia, veio aqui o fornecedor da fábrica de cigarros, suprir os botequins da favela. O homem, diferente de nós fala grosso com a mão no bolso. A mãe da menina fica a olhar a mão do moço sempre no bolso. Os dois se olham. Ela já sabe do vício do moço. O homem já sabe das necessidades da mãe da menina. O moço é rápido, direto franco e cruel. “Quanto você quer, mulher?” A mãe da menina não responde. O moço tira um pacote de notas. A mãe chama a menina: Nazinha, acompanhe o moço! O homem pega a menina pela mão e segue outros rumos. (EVARISTO, 2013, p. 57-58).

O texto traz uma situação dramática, porém, muito frequente nas comunidades pobres. A mãe que no instante de desespero pela falta de alimento e condições básicas para os filhos, entrega a filha como mercadoria em troca de dinheiro. Talvez Tetê do Mané, na sua percepção deturpada pela ignorância e pobreza, decide vender a filha na esperança de salvar a si mesma, o filho e quem sabe o destino da filha. Após comprar a menina com o dinheiro que roubara do patrão, o homem fugiu e, em seguida, Tetê do Mané também foge com o filho doente e o marido bêbado. A comunidade ficou perplexa com o caso e o assunto se espalhou por toda favela e, assim como em Quarto de despejo, as torneiras eram também lugares de “fofoca”, e nesta favela sem nome o “zumzum” correu tanto na torneira de baixo como na torneira de cima. Mas quando a polícia foi averiguar, ninguém sabia o paradeiro do homem nem da mãe da menina. “Maria- Nova, que já sabia do ocorrido antes de todo mundo, sentia a dor e se angustiava por sua amiga

Na favela havia “as misérias e as grandezas”, o amigo e o inimigo, o leal e o traiçoeiro, o amor e o ódio. Na narrativa percebemos que havia mais amigos que inimigos, essa comunidade apresentava muitos sofrimentos, mas poucos conflitos entre os moradores. Porém, alguns eram odiados, a exemplo de Fuinha: “Maria-Nova tinha medo de Fuinha”. Este personagem vivia espancando a mulher e a filha, “batia até sangrar”, “uns diziam que ele era louco, outros que era maldoso, perverso, e que nada de louco tinha” (EVARISTO, 2013, p. 111). Fuizinha crescia entre o choro e a pancadaria, um cenário de constante violência, em um ambiente onde a mãe foi silenciada para sempre, morta após ser espancada durante a noite e, apesar de gritar muito, não receber nenhum socorro. Com a morte da mulher, Fuinha dispunha da vida da filha, queria a menina como sua mulher “bem viva, bem ardente. Era o dono, o macho, mulher é para isto mesmo. Mulher é para tudo. Mulher é para a gente bater, mulher é para apanhar, mulher é para gozar, assim pensava ele. O Fuinha era tarado, usava a própria filha”. (EVARISTO, 2013, p. 111).

A cena de violência doméstica nos mostra o lado perverso de um personagem que, após matar a esposa, toma a filha adolescente como mulher. Na visão de Fuinha a mulher é simples objeto. Nesse sentido, Evaristo apresenta o outro lado da favela, mostrando a face daqueles que são doentes, pervertidos. Aspectos individuais dentro da coletividade, pessoas boas e ruins que habitam o mesmo espaço.

Outro fato que comoveu os moradores da favela foi quando os tratores - instrumentos da modernidade, veículos que serviram para abrir ruas, avenidas e estradas – agora estavam também na favela, porém o intuito ali era diferente, a função era de destruição: destruir sonhos, barracos e vidas. “Os tratores da firma construtora estavam cavando [...] a poeira se tornava maior e as angústias também”(EVARISTO, 2013, p. 101). No momento em que a favela adormecia, “os homens-meninos-vadios”, decidiram “brincar de carrinho no carrinho. Prazer que não tiveram na infância”. João da Esmeralda convida os amigos para dar uma volta de trator. Ele havia observado de longe o funcionamento das máquinas durante o dia enquanto os homens trabalhavam. Eles subiram no trator e logo em seguida ouviu-se um estrondo:

A morte havia sido tão sem graça, tão putamente sem graça, brutalmente traiçoeira. Os corpos dos homens-vadios-meninos estavam despedaçados pelo chão e as partes dos dois tratores também. Eles estavam misturados ao pó, à poeira. As pessoas chegavam, tentavam olhar, não viam, adivinhavam apenas. Não dava para reconhecer os corpos, os mortos. Também para que? A gente conhecia a vida de cada um. Veio a polícia depois de muita espera, recolheu todos, e em tudo ficou um vazio. Era uma dor intensa. Era mais uma falta que a vida cometia (EVARISTO, 2013, p.109).

Era perceptível o descaso, aquilo que todos temiam aconteceu, mais uma tragédia sem culpados, por um bom tempo não se ouviu falar em desfavelamento, e por quatro meses os tratores estiveram do mesmo jeito, “de pernas para cima” (EVARISTO, 2013, p. 113). As crianças continuavam brincando por lá, não tinham brinquedos e eram bastante criativas, então, após um período de chuvas, o barro se assentara e como o terreno era em declive, tinha se tornando uma pista escorregadia. Elas pegavam tábuas e escorregavam morro abaixo. Uma dessas crianças, o Brandino, ao participar dessa brincadeira, não conseguiu desviar-se do obstáculo que estava à sua frente, o trator, aquele mesmo do acidente, e saiu de lá paralítico:

Brandino vinha voando, leve, voando como uma pluma. O trator ali parado, pesadão. O rosto, o corpo, o menino frágil. Não a morte instantânea, rápida, como havia acontecido com os homens-vadios-meninos, não houve. Brandino foi para o hospital, ficou meses. Voltou sim, calado, morto-vivo, bobo, alheio, paralítico (EVARISTO, 2013, p. 114).

Mesmo quando a narradora apresenta cenas mais impactantes, o leitor recebe o choque com uma certa leveza devido o tom lírico que sustenta a narrativa, o que Duarte denomina de

“brutalismo poético” (DUARTE, 2007, p. 25). Diante das tragédias, Maria-Nova, assim como

Totó, Maria-Velha, Bondade e os outros carregavam o banzo no peito, ela sentia saudades de um tempo, de um lugar, de uma vida que ela nunca vivera. Entretanto, o que doía mesmo era ver que tudo se repetia, um pouco diferente, mas, no fundo, a miséria era a mesma. “O seu povo, os oprimidos, os miseráveis; em todas as histórias, quase nunca eram os vencedores, e sim, quase sempre, os vencidos. A ferida dos do lado de cá sempre ardia, doía e sangrava muito” (EVARISTO, 2013, p.91). O banzo, de acordo com Nei Lopes, é uma espécie de nostalgia com depressão profunda, quase sempre fatal, que acometia os africanos escravizados nas Américas. Remete também a lembrança, saudade, mágoa. Maria-Nova, assistindo a tudo atentamente e sentindo a sua dor e a dos outros moradores, deixa o banzo renascer, as amarguras do passado ainda estavam presente na vida deles.

A voz de Maria-Nova ressoa cumprindo o desejo do eu-poético de “Vozes mulheres” (EVARISTO, 2008, p. 10-11), de Conceição Evaristo. Seguindo uma característica da obra literária, o poema também retoma os relatos de experiências passadas de geração em geração. O eu-lírico narra a trajetória de mulheres negras revisitando a história a partir das vozes que um dia foram silenciadas e ganham ecos no poema:

A voz de minha bisavó ecoou criança

nos porões do navio. Ecoou lamentos

de uma infância perdida. A voz de minha vó ecoou obediência

aos brancos – donos de tudo. A voz de minha mãe

ecoou baixinho revolta no fundo das cozinhas alheias debaixo das trouxas

roupagens sujas dos brancos pelo caminho empoeirado rumo à favela.

A minha voz ainda ecoa versos perplexos com rimas de sangue e

fome.

A voz de minha filha

recolhe todas as nossas vozes recolhe em si

as vozes mudas caladas engasgadas nas gargantas. A voz de minha filha recolhe em si

a fala e o ato.

O ontem – o hoje – o agora. Na voz de minha filha se fará ouvir a ressonância o eco da vida – liberdade. (EVARISTO, 2008, p. 10-11).

O eu-lírico evoca a voz da bisavó refletindo nela a travessia sofrida com a diáspora africana, outras vozes de uma mesma linhagem ancestral também são retomadas, a da avó retratando o longo período de escravidão em nosso país marcado pela obediência aos brancos, os donos dos escravizados. É importante ressaltar que o poema fala em obediência e não passividade. A voz da mãe traduzindo a situação das mulheres negras no pós-abolição, as lavadeiras, empregadas domésticas, atividades que remetem ao período de escravidão. Maria- Velha, Joana, Vó Rita, Ditinha, entre outras, representam essa voz que ao retornar do trabalho na casa das patroas, seguem para os seus barracos na favela. A voz que fala no presente anuncia um novo ruído, a voz da filha é aquela que recolherá todas as vozes silenciadas fazendo-as ressoar, denunciando um passado de opressão, libertando o grito preso. Uma dessas vozes que rompem com o silêncio é a de Maria-Nova, que assume a escrita usando-a como um meio de resistir ao esquecimento.