Neste tópico serão abordados aspectos mais específicos do sistema financeiro brasileiro, com o objetivo de demonstrar algumas peculiaridades desse mercado e adequar os conceitos vistos à realidade brasileira.
O sistema financeiro brasileiro é constituído por dois subsistemas: normativo e intermediação. O primeiro tem como objetivo controlar o mercado e estabelecer diretrizes de atuação das instituições financeiras operativas. Já o segundo que também recebe o nome de operativo é composto por todas as instituições que atuam em operações de intermediação financeira. Em outras palavras, os órgãos do subsistema normativo estabelecem as regras de atuação das organizações do subsistema operativo, sendo estas as executoras das intermediações financeiras no Brasil (FORTUNA, 2013).
Analisando mais especificamente o que interfere na atuação dos bancos, Assaf Neto (2012) menciona que o Banco Central do Brasil adota algumas ferramentas de redução dos riscos enfrentados pelas instituições financeiras. Dentre elas, pode-se mencionar o Depósito Compulsório e o Redesconto.
Na primeira, as instituições financeiras são obrigadas a realizar recolhimentos compulsórios, encaixe e direcionamentos obrigatórios sobre depósitos à vista, a prazo e poupança, em que as instituições financeiras são obrigadas a direcionar parcelas significativas dos recursos recebidos para financiamentos habitacionais ou rurais ou ainda simplesmente eles são mantidos esterilizados no Banco Central. O percentual a ser depositado é determinado pelo Banco Central e depende da política monetária desejada e da necessidade de se manter o poder de compra da moeda nacional. O reflexo do Depósito Compulsório nas atividades das instituições é um menor volume de recursos disponíveis, o que limita as suas ações, reduzindo a possibilidade de assumir riscos adicionais.
Já o Redesconto serve como um apoio momentâneo àquelas instituições que enfrentam problemas passageiros de liquidez, ou seja, num determinado dia, o montante resgatado pelos correntistas pode ser superior ao que o banco esperava, sendo que este não tem recursos disponíveis na quantidade suficiente para atender à demanda. Não se trata de um recurso para salvar um banco em dificuldades, mas de ajustar a sua liquidez num determinado momento.
Há ainda outra ferramenta utilizada pelo Banco Central do Brasil que limita as ações dos bancos que são as aplicações obrigatórias, em que uma parcela significativa dos depósitos à vista e poupança devem ser destinadas a financiamentos rurais e habitacionais, sendo que as taxas de juros cobradas pelos bancos são controladas pelo Banco Central (BANCO CENTRAL DO BRASIL, 2013).
A preocupação com o risco do sistema financeiro e os reflexos na economia de um possível colapso não é tão recente, sendo que o governo de Fernando Henrique Cardoso criou o Programa de Estímulo à Reestruturação e ao Fortalecimento do Sistema Financeiro Nacional (PROER), cuja finalidade era auxiliar na recuperação de instituições financeiras com graves problemas de caixa e que poderiam gerar uma crise sistêmica. Esse programa foi muito criticado na época por utilizar dinheiro público no socorro de corporações privadas, mas o conceito que o envolvia era elogiado em função do objetivo maior de redução do risco do sistema financeiro e maior estabilidade para o crescimento econômico do País.
A promulgação da Lei de Responsabilidade Fiscal, em 2001, que proibiu a utilização de recursos públicos para o saneamento de problemas do sistema financeiro brasileiro, fortaleceu o Fundo Garantidor de Crédito (FGC), que trata de um fundo privado, financiado pelas próprias instituições financeiras, e que atua como um seguro aos seus clientes, garantindo os recursos aplicados ou depositados por esses, até o limite de R$ 250.000,00 (FUNDO GARANTIDOR DE CRÉDITO, 2012b). Este fundo é composto por instituições financeiras que atuam no Brasil, como bancos múltiplos, bancos comerciais, bancos de investimento, bancos de
desenvolvimento, a Caixa Econômica Federal, sociedades de crédito, financiamento e investimento, sociedades de crédito imobiliário, companhias hipotecárias e associações de poupança e empréstimo, sendo que a adesão é compulsória, uma vez que a autorização de funcionamento dada pelo Banco Central do Brasil está condicionada à adesão ao FGC.
A receita do FGC corresponde a 0,0125% do montante dos saldos das contas que têm garantia. Pelos dados estatísticos fornecidos pelo Fundo Garantidor de Crédito (2012a), o montante segurado, no final de 2012, no Brasil, correspondia a R$ 596.427 milhões. Este volume era suficiente, em 31/12/2012, para segurar a integralidade dos recursos de 98,71% dos clientes brasileiros, sendo que somente 1,29% dispunha de um valor maior do que o limite da garantia e, portanto, seria prejudicado no caso de falência de alguma instituição.
Apesar de o percentual de correntistas segurados ser bem elevado, obviamente que, se houver uma crise generalizada, o FGC não terá recursos financeiros para socorrer a todos simultaneamente. De qualquer forma, ressalta-se que o FGC não necessita manter uma disponibilidade suficiente para cobrir a totalidade do montante segurado, pois o seu objetivo é auxiliar financeiramente instituições com problemas específicos e não permitir que eles se espalhem, buscando impedir um colapso total (FUNDO GARANTIDOR DE CRÉDITO, 2012a).
A preocupação com o risco sistêmico existe pelo fato de que, em muitos casos, empresas de um mesmo setor têm formas de atuação bem semelhantes, até porque enfrentam situações e problemas parecidos. Portanto, caso um agente financeiro apresente um grave problema, é possível que outros enfrentem a mesma situação em função da similaridade das atividades. Então, essa garantia não elimina totalmente o risco do sistema financeiro e nem diminui a preocupação com ele.
Além disso, o desenvolvimento do FGC demonstra o intenso cuidado com o risco de uma crise no sistema financeiro como um todo. Portanto, isso só reforça a
necessidade constante de buscar alternativas que possam diminuir o risco das instituições financeiras em geral.
A existência de um sistema privado de socorro aos correntistas dos bancos, como o FGC, não elimina a necessidade de se buscar outras formas de redução dos riscos enfrentados pelo sistema financeiro, pois, quanto maiores forem tais riscos, maiores serão os custos para toda a sociedade. O FGC é financiado pelas próprias instituições financeiras, portanto, o custo de sua manutenção se reflete nos preços dos serviços prestados pelos bancos e, principalmente, nas taxas de juros cobradas pelas instituições financeiras.
Além disso, esse sistema privado pode diminuir, mas não necessariamente eliminar, a possibilidade de o governo ter que aplicar recursos para socorrer o sistema financeiro nacional, dependendo da intensidade da crise, caso ela ocorra. A Lei da Responsabilidade Fiscal, de 2001, proibiu ao governo realizar empréstimos a bancos em dificuldade. Entretanto, num cenário extremamente negativo em que o sistema financeiro se encontre na iminência de um colapso, o governo poderia ser pressionado a promover um socorro às instituições como a última instância.
Nesse ponto, os Narrow Banks podem ser uma alternativa interessante, uma vez que têm uma concepção diferente, atuam em segmentos mais específicos e talvez tenham mais condições de administrar melhor suas atividades, podendo ser mais eficientes que os Spread Banks. Outro fator que pode ser positivo é que há a tendência com os Narrow Banks de uma redução na concentração do Sistema Financeiro Nacional, gerando maior distribuição do risco das instituições.
Assim, se o fortalecimento dos Narrow Banks permitir a diminuição do risco do sistema financeiro como um todo, poderá haver uma redução nos montantes destinados ao FGC e, consequentemente, com reflexos nos custos dos empréstimos e demais serviços ofertados pelos bancos.
Outra particularidade do sistema financeiro brasileiro é a constituição da Associação Brasileira de Bancos (ABBC), que representa e defende os interesses dos bancos menores. Esta associação foi criada justamente para fortalecer tal segmento, permitindo que as instituições participantes tenham maior poder de negociação junto aos grandes bancos instalados no País.
A ABBC, além de representar os bancos menores, oferece vários serviços, como ajuda jurídica, análises de crédito, análises do mercado financeiro como um todo e cursos voltados para capacitar os profissionais do mercado entre outros. Portanto, trata-se de uma organização muito importante para o desenvolvimento e fortalecimento desse segmento (ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE BANCOS, 2010).