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3. BÖLÜM: ENDÜSTRİ MİRASI

3.6.2 Yeniden işlevlendirmede uluslararası örnekler

O descortinar dos gêneros como artefato da Linguística ocorreu por meio de uma nova concepção de língua, introduzida por Mikhail Bakhtin, a partir da primeira metade do século XX, em sua obra publicada em 1929, Marxismo e filosofia da linguagem. Nesse livro, o autor discorda das tendências linguísticas vigentes naquele momento e critica as postulações sobre o subjetivismo idealista e o objetivismo abstrato.

A tendência do subjetivismo idealista interessa-se pelo ato da fala, de criação individual, como fundamento da língua. Desse modo, atribui-se à língua um caráter imanente, psicológico e individualista, negando-lhe o seu caráter social e antropológico. Bakhtin (1997) se opõe a essa tendência porque, para ele, o centro organizador de toda enunciação e expressão não é interior, mas exterior, ou seja, o cerne da enunciação está situado no meio social, dada sua criação histórica.

Quanto à tendência do objetivismo abstrato, centra-se na forma, eliminando o caráter social da língua. Bakhtin (1997, p. 85) refere-se a essa tendência ―como visão científica da língua, em razão do caráter puramente formal que se apresenta‖.

A respeito da sua concepção de língua, Bakhtin (1997) destaca que a verdadeira substância da língua não é formada por um sistema abstrato de formas linguísticas, tampouco pela enunciação monológica isolada ou pelo ato psicofisiológico de sua produção, mas pelo fenômeno social da interação verbal realizada através da enunciação, ou das enunciações, sendo, portanto, a interação verbal a realidade fundamental da língua.

Nesse sentido, a língua acontece em meio à construção cotidiana, dentro de um contexto social, do diálogo e da esfera de circulação social.

Segundo Rodrigues (2005), a concepção de linguagem do Círculo21 é uma resposta aos outros discursos sobre a língua e esse embate ideológico refrata-se nas próprias palavras. Assim, há situações em que o Círculo emprega os termos língua e discurso como intercambiáveis, distinguindo a sua concepção de língua das correntes da filosofia e da Linguística da época. Em outros casos, esses conceitos são tratados como distintos, talvez pela impossibilidade de apagar o sentido

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O Círculo de Bakhtin, conforme Rodrigues (2005), é a denominação atribuída pelos pesquisadores ao grupo de intelectuais russos que se reuniam regularmente no período de 1919 a 1974, dentre os quais fizeram parte Bakhtin, Voloshinov e Medvedev. Bakhtin faleceu em 1975, Voloshinov, na década de 1920 e Medevedv, provavelmente, na década de 1940.

dominante do termo língua na Linguística e pela postulação de dois planos de análise da língua. (RODRIGUES, 2005)

No capítulo denominado Os gêneros do discurso, inserido na obra Estética da Criação Verbal, Bakhtin apresenta sua concepção firmada a respeito dos gêneros do discurso, sendo este um marco substancial para as discussões referentes aos gêneros no âmbito dos estudos linguísticos.

Os gêneros do discurso são, de acordo com Bakhtin (2011, p. 262), tipos relativamente estáveis de enunciados, visto que a riqueza e a diversidade desse construto são infinitas porque são inesgotáveis as possibilidades da multiforme atividade humana e porque em cada campo dessa atividade é integral o repertório de gêneros do discurso, que cresce e se diferencia na proporção em que um determinado campo se desenvolve, tornando-se mais complexo.

Compreender a noção de enunciados representa entender que, a partir da verbalização de uma frase realizada por um indivíduo diversas vezes, haverá sempre um novo enunciado, devido às questões temporais e espaciais nas quais essa frase é pronunciada.

Dessa forma, o estudo da natureza dos enunciados e dos gêneros discursivos, conforme Bakhtin (2011) é de importância fundamental para superar as concepções simplificadas da vida do discurso, do chamado fluxo discursivo, da comunicação e das concepções que ainda dominam a Linguística. Assim, podemos compreender que os enunciados partem de outros enunciados e que, por vezes, se materializam no discurso do outro.

Outro fator muito discutido por Bakhtin diz respeito à extrema heterogeneidade dos gêneros do discurso, sejam orais ou escritos, em meio às diversas modalidades de diálogos cotidianos, dos temas, da situação, da composição e dos participantes.

Nessa perspectiva, Bakhtin assegura que a heterogeneidade dos gêneros discursivos é tão grande que não há, e nem pode haver, um plano único para seu estudo, porque, nesse caso, em um plano do estudo aparecem fenômenos sumamente heterogêneos, como as réplicas monovocais do dia a dia e o romance de muitos volumes, a ordem militar padronizada e uma obra lírica profundamente individual etc. (BAKHTIN, 2011, p. 262).

Para Bakhtin, os gêneros discursivos atendem às necessidades da esfera na qual se realizam, sendo determinados socialmente. Cada gênero, segundo ele,

apresenta características que norteiam sua construção, o que confere certa regularidade aos enunciados.

Nesse sentido, na teoria dos gêneros do discurso são discutidos três elementos constitutivos desse construto, quais sejam: conteúdo temático, estilo e composição. Assim, o elemento do conteúdo temático está ligado às diferentes formas de tratamento do objeto do discurso, enquanto o elemento do estilo representa as escolhas lexicais do falante do discurso. Já a composição refere-se à organização composicional de determinado gênero, conferindo o acabamento ao enunciado e que ganha forma de acordo com a disposição do gênero como um todo. Segundo Bakhtin (2011), esses elementos estão inseridos no todo do enunciado e são igualmente determinados pela especificidade de um determinado campo da comunicação da atividade humana.

O mesmo autor destaca que não se deve minimizar a heterogeneidade dos gêneros do discurso e a dificuldade advinda de definir a natureza geral do enunciado. Desse modo, Bakhtin sistematiza a diferença existente entre os gêneros discursivos primários (simples) e secundários (complexos):

Não se trata de uma diferença funcional. Os gêneros discursivos secundários (complexos - romances, dramas, pesquisas científicas de toda espécie, os grandes gêneros publicísticos, etc.) surgem nas condições de um convívio cultural mais complexo e relativamente muito desenvolvido e organizado (predominantemente o escrito) – artístico, científico, sociopolítico. No processo de sua formação eles incorporam e reelaboram diversos gêneros primários simples que se formaram nas condições da comunicação discursiva imediata. (BAKHTIN, 2011, p. 263)

Com base no exposto, podemos depreender que os gêneros primários são aqueles que estão nas relações cotidianas, no trabalho, no lar, nas conversas de salão, cartas, bilhete, diário, despedidas, e se realizam por meio da comunicação discursiva imediata e espontânea. Quanto aos gêneros secundários, são construídos a partir de situações mais concretas, como as produções da ciência (teses, dissertações, palestras, livros) do domínio publicitário, religioso, literário, os quais apresentam discussões ideológicas formalizadas e especializadas.

De acordo com Schneunwly (2004), os gêneros primários são os instrumentos de criação dos gêneros secundários, principalmente se pensarmos a um só tempo na profunda continuidade e ruptura que a passagem de um a outro

introduz, sendo esta ruptura associada ao nível dos princípios e da aprendizagem de seus objetos.

Conforme Bakhtin (2011), os gêneros organizam o nosso discurso quase da mesma forma que organizam as formas gramaticais (sintáticas). Aprendemos a moldar o nosso discurso em formas de gênero e quando ouvimos o discurso alheio, já inferimos o gênero utilizado pelas primeiras palavras, pressupomos um determinado volume, uma determinada construção composicional, prevemos inclusive o fim do comunicado proposto.

Outro ponto de forte discussão nas postulações de Bakhtin diz respeito à presença das relações dialógicas no enunciado. O dialogismo pode ser entendido por meio de dois aspectos, sendo o primeiro relacionado à interação verbal entre o enunciador e o enunciatário, e o segundo sobre a intertextualidade inserida no discurso.

Para Bakhtin (2008, p. 210-211), ―as relações dialógicas são possíveis não apenas entre enunciações integrais, mas o enfoque dialógico é possível a qualquer parte significante do enunciado‖. Dessa maneira, essas relações podem penetrar no cerne do enunciado, inclusive no íntimo de uma palavra isolada, que se embatem dialogicamente duas vozes e essas relações implicam em atos responsivos.

Diante da preocupação de Bakhtin no que diz respeito à concepção de língua e linguagem, aos estudos dos gêneros discursivos e ao dialogismo na enunciação, consideramos que suas postulações são leituras indispensáveis para os pesquisadores que enveredam pelas investigações no campo da linguagem.

Isso posto, apresentamos no tópico a seguir abordagens sobre o construto, levando em conta as perspectivas contemporâneas.

Benzer Belgeler