II. KURAMSAL ÇERÇEVE VE İLGİLİ ARAŞTIRMALAR
2.3. Yeni Sosyal Bilgiler Dersi Öğretim Programının Yapısı
Jacarezinho, cidade do interior do Paraná. Oriundo de uma família humilde, o futuro narrador ajudava seu pai a transportar lenha, desde muito jovem. Durante a infância, o rádio sempre fez parte do cotidiano de Haroldo. De acordo com a Enciclopédia do
Rádio Esportivo Mineiro (2014), o garoto, que havia ganhado um rádio portátil aos 12
anos, começou a escutar as transmissões esportivas locais e, na medida que o interesse pelo futebol aumentou, passou a prestar atenção nas locuções de narradores paulistas e cariocas, principalmente Pedro Luiz e Fiori Gigliotti, que foram a principal base do estilo de narrativa que Haroldo desenvolveria mais tarde, fundado na descrição, improvisação e muito sentimentalismo. Haroldo de Souza só estudou até a terceira série primária, hoje ensino fundamental, e se efetivou como caminhoneiro, para poder auxiliar na situação financeira de sua família que, na época, era delicada. Na cabine do caminhão, Haroldo de Souza ouvia seus narradores prediletos e, dessa forma, foi, gradativamente, alimentando o desejo de se tornar narrador de futebol.
87 Nascido em 1928, em Barra Bonita, foi um dos maiores cronistas esportivos brasileiros. Possuía uma
narração descritiva e, considerada artística. Imprimia muita emoção em suas narrações e passou por diversas emissoras como Tupi, Bandeirantes, Panamericana e Capital, até sua morte, em 2006, aos 77 anos. Foi um criador de frases que se eternizaram, como, por exemplo, “abrem-se as cortinas, e começa o espetáculo”, “aguenta, coração!”, “crepúsculo do jogo” e “torcida brasileira”. Transmitiu 10 Copas do Mundo.
88 Paulista, narrou 11 Copas do Mundo e dois Jogos Olímpicos. Passou por diversas emissoras, tais
como Jovem Pan, Bandeirantes, Gazeta e Tupi. Atuou também nas TVs Globo. Record e Bandeirantes. Nasceu em 1919 e faleceu em 1998.
Eu me baseei no Fiori Gigliotti, pela emoção e o sentimento. Fiori Gigliotti, querido. E o outro, tecnicamente querido, o tal de Pedro Luiz. Esse narrou futebol, para mim, foi o maior narrador da história do Brasil, do rádio esportivo brasileiro, que, para mim, é o melhor rádio da América, da América Latina, e também a Europa, a Europa que tem, com exceção de Portugal, e em outros lugares, o narrador de futebol não tem nada a ver. Então, a precisão técnica do Pedro Luiz, e o sentimentalismo do Fiori Gigliotti. E no meio, entrou o Magrão, com as suas palhaçadas (SOUZA, 2015).
A primeira oportunidade no rádio surgiu quando Haroldo tinha 18 anos. E, durante algum tempo, atuou como colaborador na Rádio Castro Ltda, sem receber salário. Ingressou no Exército Brasileiro e, depois de cumprido o tempo de serviço militar, em 1963, estreou como repórter de campo na Rádio Cultura, de Maringá. Em 1969, Haroldo participou de um concurso para locutor, na Rádio Alvorada, de Londrina. Entre 32 candidatos, Haroldo de Souza terminou na segunda posição, porém, como o primeiro colocado desistiu, Haroldo ficou com a vaga (ENCICLOPÉDIA DO RÁDIO ESPORTIVO MINEIRO, 2014). A grande mudança na carreira de Haroldo de Souza, que o projetou definitivamente para o cenário do rádio esportivo brasileiro, aconteceu em 1970. Com uma carta de apresentação do seu ídolo Pedro Luiz, da Rádio Tupi, Haroldo foi contratado pela Rádio Itatiaia, de Belo Horizonte. Porém, o estilo de Haroldo ainda não estava completamente moldado, apesar das influências e da prática que havia adquirido nos anos anteriores. Mas a passagem por Belo Horizonte foi decisiva para que o narrador alcançasse uma identidade própria.
Meu sonho sempre foi ser narrador de futebol. Mas o fato é que eu era caminhoneiro. Então, para eu ser locutor de futebol, eu tinha que ouvir os caras. Eu tinha que ser diferente. Para ser narrador de futebol, eu tinha que narrar futebol. Simplesmente isso. E ainda hoje, ainda há problemas de aceitação a respeito disso ou daquilo, porque há o problema da regionalização dos profissionais que habitam o universo no rádio esportivo brasileiro. Se você sai daqui do sul do Brasil e vai narrar futebol em Fortaleza, e morar em Fortaleza, terá que ter um outro tipo de comportamento lá, para poder, realmente, atingir os seus objetivos. Por que se você chegar lá e for um igual aos cearenses, você é igual. Quando eu cheguei a Belo Horizonte, saindo da cabine de um caminhão, em 1969, eu resolvi que não seria nem Vilibaldo Alves89, Jairo Anatólio Lima90, nem Jota Junior91, que eram os três
89 Foi um dos locutores mais admirados em Minas Gerais. Retratava os jogos com um tipo de narração
absolutamente emotiva. Atuou durante 15 anos na Rádio Itatiaia, onde ganhou muita popularidade. Se transferiu para a Rádio Capital e, por fim, atuou na Rádio Inconfidência. Torcedor fervoroso do Atlético Mineiro, faleceu em 1994, aos 54 anos. (ENCICLOPÉDIA DO RÁDIO ESPORTIVO MINEIRO, 2014).
90 Natural de Belo Horizonte, nasceu em 1928. Começou com apenas 13 anos no rádio, como office- boy, na Rádio Inconfidência. Aos 19, transmitiu seu primeiro jogo. Cobriu sete Copas do Mundo. Deixou
o Rádio em 2009. (ENCICLOPÉDIA DO RÁDIO ESPORTIVO BRASILEIRO, 2012).
91Goiano, nasceu em dezembro de 1938. Tinha um estilo de narração “show”. Criador de bordões, tem
como o mais conhecido “vai buscar lá dentro... (nome do goleiro)”. Outro bordão conhecido também foi “estooou sentindo cheiro de gol”. Narrou em rádios como Inconfidência, Guarani, Rádio Jornal, em
principais narradores do estado de Minas Gerais, na época, 1969, um ano antes da Copa do Mundo. Por chegar diferente, eu consegui chegar, e já, um ano após, estar conseguindo fazer a minha primeira Copa do Mundo, no México, o inesquecível tri campeonato mundial de futebol (SOUZA, 2015).
No ano de 1970, Haroldo de Souza transmitiu sua primeira Copa do Mundo, no México e, quatro anos depois, narrou a Copa da Alemanha, vencida pelos donos da casa, contra a Holanda. Foi nesse período que “Magrão”, como passou a ser conhecido, e o é ainda hoje, criou seus mais importantes bordões, principalmente o “Adivinhe!”92. Houve, em algum momento, uma discordância sobre o crédito de criação desse bordão, pois havia outro narrador que utilizava o mesmo termo, Vilibaldo Alves, que, inclusive, foi colega de Haroldo na própria Rádio Itatiaia, e se tornou também um dos grandes nomes da história do rádio esportivo brasileiro. Haroldo de Souza, por sua vez, garante que o “Adivinhe!” foi criação exclusiva, antes mesmo de atuar como narrador em Minas Gerais.
[...] eu fazia o “Adivinhe!” nos poucos jogos que eu narrava na cidade de Londrina, no estado do Paraná. E dividia, uma coisa com outra, caminhoneiro, ia lá, narrava um pouco, voltava, enfim, não era uma profissão. Mas, e um dia, eu estou lá narrando, e o Cruzeiro, que tinha Tostão, Piazza, Hilton Oliveira, era um baita de um time, foi fazer um amistoso com o Londrina, e as rádios de Minas foram para lá. O narrador de Minas, já falecido, Vilibaldo Alves, ouviu. E esse narrador, levou para Belo Horizonte o “Adivinhe!”. Eu em um time pequeno, e ele em num time grande, usando. Aí encontrei com ele e tal, e falamos, conversamos e aquela onda toda, e o negócio morreu. Então as coisas surgem assim, devagar. As “bandeiras tremulando”, puxa vida, tem até música “as bandeiras tremulando”. Está gritando o gol, por que não “olha lá, e agora, as bandeiras estão tremulando, tremulando, tremulando”. Então, as coisas vão surgindo assim.
Em 1974, conforme a Enciclopédia do Rádio Esportivo Mineiro (2014), Haroldo de Souza estava sendo observado pela Rádio Gaúcha. Conta Lauro Quadros (2015, p. 46), que “nós o conhecemos em uma excursão em 1973. O Sant´Ana recomendou sua contratação para a Rádio Gaúcha”. Em entrevista concedida ao projeto Vozes do
Goiás, Continental, do Rio de Janeiro, e Capital, de São Paulo. Morreu com apenas 42 anos, em 1985, devido a uma leucemia. (ENCICLOPÉDIA DO RÁDIO ESPORTIVO MINEIRO, 2014).
92 Em meados dos anos 2000, Haroldo de Souza, observando o movimento que a torcida gremista
passou a executar no setor geral, à direita das cabines de imprensa do Estádio Olímpico, atrás da goleira, resolveu homenagear o momento de gol gritando “avalanche!”. A “avalanche” é uma forma de comemoração tradicional nos países do Prata, principalmente, entre torcedores argentinos. Até o último compromisso do Grêmio, no Estádio Olímpico, que, na verdade, foi em 2013, a torcida “Geral” costumava praticar, sempre que o Grêmio marcava algum gol. Mas, após um grave acidente, no dia 31 de janeiro de 2013, em um jogo da Libertadores, entre Grêmio e LDU, do Equador, a “avalanche”, acabou sendo proibida, em comum acordo entre torcida e clube.
Rádio, Haroldo de Souza (2015) explicou como foi o contato que culminou na sua vinda para o Rio Grande do Sul.
E aí eu estou na Alemanha, e esse maluco do Paulo Sant´Ana sentou do meu lado e ficou me observando a mando do Nelson Sirotsky. E terminado o jogo, eles me perguntaram se eu não queria vir trabalhar em Porto Alegre. Na época, a companhia Caldas Júnior mandava no campinho, como o Pedro Carneiro Pereira, né? Armindo Antônio Ranzolin, essa turma toda. Ruy Ostermann, Lauro Quadros, Belmonte, Lasier, Lupi, então, eram donos da audiência. E, do lado da Rádio Gaúcha, que começava no esporte, que parava, começava, parava, começava, era o Willy Gonser93, que hoje está na
Itatiaia e ficou no meu lugar. Eu digo, vamos conversar. Quando eu voltei, eles mandaram a passagem, e eu vim para cá, em 1974. O Pedro tinha morrido em 73, naquele acidente automobilístico, né? Aí eu vim, acertei com eles, e comecei, em 1974.
A sua vinda para o Rio Grande do Sul significou uma revolução no estilo de narração, pois ninguém fazia até então, o que Haroldo se propôs a introduzir no rádio esportivo gaúcho. A narração até 1974, era baseada, principalmente, nas influências de Mendes Ribeiro e Pedro Carneiro Pereira, refletidas em narradores como Milton Jung e Armindo Antônio Ranzolin, que, como o próprio Haroldo se referiu e, anteriormente, Samuel de Souza Santos (2015), comandaram os números de audiência durante muito tempo. Lauro Quadros (2015, p. 46,), resume bem o processo evolutivo da narração de rádio em Porto Alegre, de 1958 até 1974, ano que Haroldo de Souza chegou no Rio Grande do Sul.
Entre os narradores, havia a escola Mendes Ribeiro, consagrado pela Copa de 1958, na Suécia, e que se inspirava em Cândido Norberto. Muitos foram os seguidores: Pedro Carneiro Pereira, Luiz Carlos Prates e, ainda hoje, Pedro Ernesto Denardin. Um estilo bem gaúcho, com um certo tom argentino, contrastando com o clássico Antônio Carlos Resende no padrão Oduvaldo Cozzi, sucesso no Rio de Janeiro. Também foi o Rio, nas narrações de Jorge Cury, que Armindo Antônio Ranzolin, adolescente em Lages, Santa Catarina, tomou como referência. Willy Gonser, que veio do Paraná, tinha o ritmo de Pedro Luiz, da Bandeirantes de São Paulo. Sérgio Moraes94 acabou na Globo
do Rio. Seu balacobaco tinha tudo a ver.
93 Nasceu em 13 de outubro de 1936, em Curitiba, no Paraná. Foi reconhecido por uma das mais belas
vozes do rádio esportivo brasileiro. Passou por diversas rádios do Brasil, como a Clube, do Paraná, Gaúcha, Nacional e Jovem Pan, até chegar à Itatiaia, em 1979, onde se consagrou como a maior voz do Atlético Mineiro. Apelidado de “Alemão”, narrou 11 Copas do Mundo. É conhecido como o “mais completo do Brasil”. (ENCICLOPÉDIA DO RÁDIO ESPORTIVO BRASILEIRO, 2012).
94“Nascido em Lajeado, foi criado em Rio Pardo, onde chegou com um ano de idade, dia 11 de julho
de 1936. Saiu de lá em 1954 com a carteira de jornalista em punho e empregado na Rádio Rio Pardo. Logo se transferiu para a Rádio Santa Cruz. E depois para a Rádio Clube Metrópole. E, finalmente, para a Rádio Canoas, onde transmitiu a partida que mudaria sua vida. Em 1957, Sérgio Moraes começou a trabalhar na Rádio Gaúcha, momento que é uma espécie de divisor de águas na vida do radialista. Da Rádio Gaúcha, foi para Globo, onde ficou de 1963 a 1976, com uma escala de seis meses na Rádio Tupi. Em julho de 1976, a volta para a Gaúcha. Depois de dois anos, finalmente a
Mesmo com uma grande descrição, velocidade e emoção, a narração de Haroldo de Souza, diferentemente de outros estilos consagrados anteriormente no Rio Grande do Sul, era informal e popular. Um exemplo disso foi a criação do “Gente que se liga na Gente”.
O “Gente que se liga na Gente” eu criei assim, tipo, ao encontrar as pessoas na rua, “ah, Haroldo, eu te ouvi ontem, que coisa boa, me dá um abraço...”. E eu, tá bom, como é teu nome? A partir do instante que eu anotei pela primeira vez o nome da pessoa, eu digo, tá, vamos fazer o seguinte, “me dá o teu nome completo, onde é que tu moras, porque, daí, já faço uma homenagem pra ti, de forma completa”. Naquele tempo, só existiam cartas. Cartas e telegramas. Aí eu fiz o primeiro, então começou a chegar carta. Comecei a ser campeão de correspondências, mas como locutor esportivo campeão de correspondências. Então está escrito, é “Gente que se liga na Gente”, que chegou a estar catalogado, quando estava organizado, agora não, mais de 100 mil nomes, tudo catalogadinho, “aqui colorados, aqui gremistas, aqui corinthianos, aqui atleticanos e aqui Cruzeiro” (SOUZA, 2015).
Outro diferencial no estilo de Haroldo de Souza, são as aberturas de jornadas. Ao invés de simplesmente descrever o acontecimento do jogo em si, o narrador utiliza o momento para “conversar” com os ouvintes. E os assuntos podem ser dos mais variados, desde política, acontecimentos do cotidiano, porém, de alguma forma, relacionados com o futebol.
É, e eu, graças a Deus, eu criei uma escola que a abertura de jornadas esportivas. Sim, tem muita gente que faz, eu cumprimento a todos que procuram fazer. Lá em Minas Gerais, havia um negócio diferente. O Osvaldo Faria, já falecido, era o chefe da equipe, e ele que abria as jornadas esportivas e entregava para o narrador só cinco minutos antes da bola rolar. E, quando eu vim para cá, eu peguei a pasta da Rádio Gaúcha, e tinha a pasta padrão. Onde era boa note, era boa noite, ou então estava em branco. Mas era a mesma colocação, até posso te citar um exemplo, assim, porque, na Guaíba, era a mesma coisa “essa característica identifica a equipe de esportes da Rádio Guaíba de Porto Alegre, no comando da Rede Ipiranga do futebol”. Era um patrocinador só. E a Rádio Gaúcha fazia a mesma coisa. Aí eu cheguei, olhei, e digo “não”. Se é eu que tenho que fazer, toda a jornada que vou fazer, “essa característica identifica a Rádio Guaíba de Porto Alegre, para comandar...”. Não, não, não. Eu vou entrar com uma outra coisa diferente, que eu vou prender aquele ouvinte que não está acostumando com isso, e criei as aberturas de jornadas. Tem gente que diz aí que foi. Não. Quem criou a abertura de jornada também fui eu, graças a Deus.
De fato, a disputa entre Guaíba e Gaúcha consolidou-se mesmo na década de 1970. Ambas buscaram qualificar-se tanto em equipe de trabalho, quanto
consagração definitiva: a emoção de narrar uma Copa do Mundo. Foi pela Rádio Nacional, do Rio de Janeiro, na rival Argentina, em 1978.” Foram cinco Copas do Mundo, no total. Fonte: Vozes do Rádio (2001).
tecnologicamente. No caso da Rádio Gaúcha, conforme Ferraretto (2007), foi a partir de 1974, ano de realização da Copa do Mundo da Alemanha, vencida pelos alemães, que a Gaúcha cresceu. Efetivou-se, conforme Sérgio Endler (2012), como concorrente em audiência direta com o “estilo Guaíba”, na Copa de 1978, realizada na Argentina. Segundo o autor, a Gaúcha, para aquele ano, passou a contar com um transmissor de 100KW de potência. Endler (2012, p. 142), destaca, nas palavras do técnico Holmes Aquino, que a Gaúcha encontrou uma série de dificuldades, mas que aquela cobertura foi importante, no sentido de desenvolvimento técnico. Até a Copa de 1982, na Espanha, segundo contam, Dalpiaz (2002), Ferraretto (2007) e Endler (2012), o IBOPE registrou diversos índices que apresentavam empates técnicos entre as duas emissoras. Acontece que o crescimento da Rádio Gaúcha, entre outros fatores, deveu-se, justamente, ao investimento em tecnologia.
Ferraretto (2007, p. 497), descreve trecho de depoimento colhido com Nelson Sirotsky que, segundo o autor, foi o responsável pela retomada das transmissões esportivas pela Rede Brasil Sul:
A Guaíba ainda não nos dava importância. Não nos ganhava mais de 10 a 1, mas de 7 ou 6 a 2. Continuava nos ganhando longe. Com as unidades móveis, a Gaúcha deu uma surra na Guaíba em termos de qualidade. A Guaíba tinha a linha 24 horas, mas não tinha a nossa agilidade.
A Gaúcha de Sirotsky utilizou-se, segundo conta Ferraretto (2007), de diversas “artimanhas” para ultrapassar a Guaíba na audiência. Após uma notável hegemonia nos anos 1970, a empresa jornalística Caldas Júnior viveu uma grande crise financeira na década de 1980. Segundo descreve Ferraretto (2007), a rádio convivia com salários atrasados, pagamentos com vale e o descumprimento de obrigações trabalhistas. A empresa sofreu com muitas dívidas e, umas das maiores, era com o Banco do Estado do Rio Grande do Sul.
Em 1990, o narrador Armindo Antônio Ranzolin, o principal locutor esportivo da Rádio Gaúcha, dividia-se em importância com Haroldo de Souza, mas, insatisfeito com as escalas para o mundial da Itália daquele ano, em que narrava jogos de “menor importância”, Haroldo começava a terminar seu ciclo de quase duas décadas na RBS. Após reclamar e, ainda ser atendido com a confirmação da cobertura de dois jogos da Seleção Brasileira, que, inicialmente, não narraria, em 1991, Haroldo trocou a Gaúcha pela Guaíba.
Figura 13 – Haroldo de Souza (1989)
Fonte: As caras da informação. Zero Hora95, Porto Alegre, 2 jan. 1989. p. 34-5.
O prestígio de Haroldo de Souza e Armindo Antônio Ranzolin era tão grande entre os ouvintes de Porto Alegre, que as direções das rádios Guaíba e Gaúcha entraram em um acordo para o uso de arquivos de gols de ambos locutores. Como agora Haroldo de Souza fazia parte do departamento de esportes da Guaíba, todos os gols por ele narrados na época de Rádio Gaúcha, poderiam ser reproduzidos na emissora. Da mesma forma, a Gaúcha poderia fazer o mesmo com os gols de Ranzolin, durante a trajetória deste na Guaíba.
Atualmente, Haroldo admite que a rivalidade que se estabeleceu entre ambos sempre foi saudável. Inclusive, reconhece que Armindo Antônio Ranzolin foi um dos melhores narradores da história do rádio gaúcho.
Tive o prazer de, por muitos anos, disputar a audiência. Audiência qualificada, porque é bom também você saber qual é o teu adversário. É mais gostoso. O adversário é bem qualificado, porque tu também tens alguma coisa. Se você sabe que é meia boca, porque tu também estás meia boca. Então, na história do rádio do Rio Grande do Sul, eu reconheço dois grandes narradores, Pedro Carneiro Pereira e Armindo Antônio Ranzolin. Os demais, todos do mesmo nível, do mesmo nível que eu (SOUZA, 2015).
No ano em que chegou na Rádio Guaíba, além de narrar, Haroldo também recebeu a oportunidade de comentar na programação esportiva. E, segundo conta, foi a direção da emissora, na época, que recomendou que Haroldo escolhesse uma trilha sonora padrão para o seu comentário.
Cheguei na Rádio Guaíba e o Renato Ribeiro e o Carlos Ribeiro pediram, não, “tens que fazer um comentário. Comentário? Tá, qual é o título? Comentário do Haroldo de Souza, simplesmente. É? É.”. Então escolhi uma característica. O Wianey Carlet, “olha, eu tenho uma característica para o Magrão...”, o Wianey trabalhava na Guaíba. “Eu tenho uma característica para o Magrão”, aí fomos lá, e digo “valeu, é isso aí”. Como é que é? “Madureira chorou, Madureira chorou de dor, quando a voz do destino, obedecendo ao divino, a sua estrela chamou”. Eu fiz uma ligação de ser estrela, coisa... da Gaúcha indo para a Guaíba, e aí eu digo, “oh, Wianey, tá fechado, é isso aí.”. Daí eu peguei definitivamente para mim e tem quarenta e poucos anos que a gente usa, mas foi o “gordinho” Wianey Carlet que conseguiu essa característica e eu agradeço também (SOUZA, 2015).
A Rádio Guaíba reconquistou uma boa parcela de audiência com a chegada de Haroldo de Souza, mas, nada ainda comparado aos “tempos áureos”. Em 1994, a Guaíba enviou uma equipe completa novamente para a cobertura da Copa do Estados Unidos, onde o Brasil conquistou o quarto título mundial, depois de vencer a Itália na final, nos pênaltis, após 0 a 0 no tempo normal e prorrogação, no estádio Rose Bowl, em Los Angeles.
Com a cobertura na Itália em 1990 e França em 1998, mais uma vez a Rádio