No dia 29 de junho de 1878, o império brasileiro perdia um dos maiores nomes da historiografia nacional. Francisco de Adolfo Varnhagen, conhecido também como visconde de Porto Seguro, falecera em Viena, aos 62 anos. Deixava ao país, o estudo até então mais completo sobre seu passado: a História Geral do Brasil, publicada em dois volumes, entre 1854 e 1857. Antes de sua morte, Varnhagen já havia acumulado opositores intelectuais e muitos críticos de sua obra. Em dezembro de 1878, um jovem intelectual, natural do Ceará, escrevia no Jornal do Comércio, do Rio de Janeiro, um notável necrológio a respeito de Porto Seguro. Reconhecendo algumas contradições na obra do recém-falecido historiador, Capistrano de Abreu não deixava de observar a importância que o trabalho de Varnhagen legara para a história do Brasil.
Descoberto este continente, aqueles mesmos que tinham chamado a Colombo de visionário foram os primeiros a achar facílima a empresa e a gabar-se de poder executá-la. Depois que Varnhagen publicou sua História, e apresentou a massa ciclópica de materiais que acumulara, muitos se julgaram aptos a erguer um monumento mais considerável, e atiraram-lhe censuras e diatribes que profundamente nos pungiram (ABREU, [1878] 1936, p. 135).
Nesse mesmo texto, Capistrano lamentava que o trabalho de Porto Seguro sobre a Independência do Brasil, talvez jamais viesse a lume (ABREU, Op. Cit., p. 132). Tal prognóstico felizmente se mostrou equivocado, quando, no ano de 1912, o ministro das relações exteriores, Lauro Müller, entregou ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro os originais da História da Independência do Brasil, de Varnhagen. O texto estava até então em posse do barão de Rio Branco, antecessor daquele na pasta ministerial e presidente do Instituto até 1912, ano em que veio a falecer (VIANA, 1962, p. 9). Lançada em 1916, na revista do IGHB, a obra sobrepujaria o trabalho que era considerado até o momento a maior referência da história da emancipação política do Brasil: a de João Manuel Pereira da Silva, História da fundação do império brasileiro, publicada entre os anos de 1864 e 1865, em sete volumes.
Para Lucia Maria Paschoal Guimarães (2007), a publicação do manuscrito de Porto Seguro apareceria como uma espécie de redenção do autor, promovida pelo IHGB. Varnhagen escreveria uma obra sobre a emancipação política do Brasil, não somente com o desejo de encerrar sua pesquisa sobre a história nacional publicada na sua História Geral, como também para desbancar o trabalho de Pereira da Silva. O grande trunfo daquele seria sua extensa base documental. Mais completa que a de seu desafeto, contava também com recortes de periódicos e as correspondências dos diplomatas contemporâneos da época da independência. Por fim, Porto Seguro valer-se-ia também do relato oral de três fundadores da corporação: Januário da Cunha Barbosa, o visconde de São Leopoldo e o comendador Ataíde Moncorvo. Com base nessas novas fontes, Varnhagen obteria o reconhecimento de uma geração posterior pela sua narrativa sobre a independência nacional (GUIMARÃES, 2007, p. 122-4).
Varnhagen, já ao final da segunda edição de sua História Geral, em 1877, anunciava para breve a publicação de sua obra sobre a emancipação política nacional. Recomendava esse novo trabalho pela “[...] pureza das fontes e abundâncias de documentos que se tiveram presente, além dos publicados por Cairú, e aproveitados por Pereira da Silva” (VARNHAGEN, 1877, p. 1199). De fato, ao lermos a obra de Porto Seguro, percebemos sua cruzada contra seu contemporâneo e autor da História da fundação do império. Não são poucas as notas de rodapé na qual Varnhagen se compraz ao corrigir cada informação dada erroneamente por Pereira da Silva. Desde o nome da fragata União, que participou no cerco às tropas de Jorge Avilez, cujo nome posteriormente foi Piranga e não Paraguaçu, conforme havia anotado Pereira da Silva, ou o local onde d. João VI teria dito a famosa frase para seu filho e futuro imperador afirmando que, caso o Brasil se separasse de Portugal, antes fosse
para ele, d. Pedro, do que para algum outro aventureiro. Enquanto o desafeto de Varnhagen afirmava ter esse diálogo ocorrido a bordo da nau d. João VI, que levaria o monarca de volta para Portugal, Porto Seguro lhe corrige afirmando que a fala de d. João ocorrera no quarto do próprio príncipe regente, d. Pedro83.
Mesmo que muitas dessas informações trazidas por Varnhagen parecessem talvez supérfluas, mesmo para os seus contemporâneos, sua História da Independência, publicada postumamente, conquistou um importante lugar na historiografia ocupada desses sucessos. Lançada pela iniciativa do IHGB em 1916, como preparação para as comemorações do Centenário da Independência do Brasil, esse trabalho suplantaria a obra de Pereira da Silva. Nas conferências do ano do Centenário promovidas pela agremiação, e analisadas no capítulo precedente, praticamente todos os oradores recorrem à narrativa desses eventos composta por Porto Seguro.84
Outra importante obra acerca do assunto e reconhecida pela historiografia nacional, publicada também durante as efemérides do centenário, O movimento da Independência, de Oliveira Lima, igualmente recorria e dialogava com o trabalho de Varnhagen. Excetuando a História da Independência, as outras produções anteriores a essa que mereceram menções do intelectual pernambucano foram as de José da Silva Lisboa, História dos principais sucessos políticos do Império do Brasil, publicada entre 1827 e 1830, bem como a de Alexandre José de Melo Morais, História do Brasil reino e do Brasil império, lançada entre os anos de 1871 e 1873. No entanto, essas duas obras são mais lembradas pelas fontes que trazem, do que pela interpretação dessas.85 A História da fundação do império, de Pereira da Silva, é citada apenas uma vez na obra de Oliveira Lima.
A obra de Francisco de Adolfo Varnhagen, portanto, alcançaria um elevado patamar logo depois de ser lançada. Desbancava o trabalho de João Manuel Pereira da Silva como
83 Cf Varnhagen [1917] (1962), cada informação encontra-se, respectivamente, nas notas de rodapé de número
89, na página 103 e, 98, página 57. A edição da obra que será aqui utilizada é a de número 5, de 1962, revista a anotada por Hélio Viana, além das já presentes anotações do barão de Rio Branco e da comissão do IHGB, presentes na edição original.
84 Lúcia M. P. Guimarães, recorrendo a uma coluna de Max Fleiüss, secretário perpétuo do Instituto, escrita para
o Jornal do Comércio, aponta que as conferências foram um meio de complementar a obra de Varnhagen. Cf. Guimarães (2007, p. 135). A autora, no entanto, não dá a indicação exata a respeito da mencionada coluna de Fleiüss.
85 A referência a José da Silva Lisboa feita pelos autores, tanto por Oliveira Lima como por Varnhagen, se
explica até pela condição de testemunha e contemporâneo dos eventos ocorridos no período da emancipação política nacional, assim como o pioneirismo de seu trabalho na organização de documentos relativos a esses eventos. Com relação à obra de Melo Morais, “compilador atabalhoado de documentos de primeira ordem”, segundo Oliveira Lima (1922, p. 157), certo esquecimento de sua produção se explica pelo próprio gênero de sua produção, tendo sido, por isso, o autor acusado até de plágio dentro do IHGB no século XIX, Cf. Santos (2013).
principal referência acerca da independência nacional86, como também permitia novas considerações sobre a emancipação do Brasil, tornando-se peça importante na consolidação de uma memória política em torno da solução imperial. Conforme apontamos no primeiro capítulo, a dura experiência dos primeiros anos da república e a aproximação dos cem anos da Independência permitiu certo recuo do imaginário republicano e, em contrapartida, uma revalorização da experiência monárquica. Segundo Wilma Peres Costa, Porto Seguro nos ofereceu a primeira versão do que seria o “léxico da continuidade”,87 ao elaborar sua obra sobre a independência nacional (COSTA, 2005, p. 57). Devendo a obra de Varnhagen ser entendida como um complemento de sua História Geral, na qual se percebe o enaltecimento da figura do colonizador português, configurando uma alegoria da vitória da civilização sobre a barbárie, a emancipação feita sob a égide da monarquia acabaria por ter um significado altamente positivo. Assim, nas palavras da própria autora, “[...] o significado de construção da nação se identifica com a própria ideia de colonização [...]” (COSTA, Op. Cit., p. 59). Portanto, a interpretação de Varnhagen preconizava o legado ibérico como um dos principais componentes de nossa identidade, sendo a ação da metrópole colonizadora entendida diretamente como conformadora da nacionalidade brasileira.
A obra de Varnhagen, lançada pelo Instituto Histórico, veio a facilitar uma releitura da emancipação nacional favorável à solução monárquica, em um ambiente no qual as expectativas geradas pelo advento da república foram deveras frustrantes. Essa nova consagração do nome de Francisco de Adolfo Varnhagen, por meio de sua obra póstuma, não deve, todavia, ser vista apenas como facilitada pelo contexto das efemérides que em breve tomariam o país. Além do empenho do IHGB em aureolar Porto Seguro por meio de sua História da Independência, bem como das anotações do barão de Rio Branco, um dos maiores nomes da Primeira República, angariando ainda mais prestígio à obra, seu trabalho tornou-se notório também por méritos próprios ao autor. As fontes descobertas por Varnhagen, em especial as correspondências trocadas pela diplomacia austríaca, bem como dos periódicos
86 Como já aludimos anteriormente, essa afirmação é feita por Guimarães (2007, p. 123-4). Caso olharmos para
as análises que se ocuparam da historiografia da Independência nacional, tais como os trabalhos de Malerba (2002), Costa (2005) e Pimenta (2008), de fato, todas iniciam apontando para a obra de Porto Seguro como uma espécie de interpretação “matricial” da emancipação política brasileira. Ao longo desse capítulo apontaremos alguns elementos que podem ter contribuído para que o trabalho de Varnhagen alcançasse esse pleito. No entanto, ressaltamos que uma comparação mais detalhada entre as narrativas de Pereira da Silva e Porto Seguro no tocante à independência ainda há de ser feita, algo que os limites da presente dissertação não permitem que se realize de maneira mais aprofundada.
87 Neste notável trabalho de Wilma Peres Costa, um dos mais completos acerca da historiografia da
Independência, a autora analisa algumas das principais interpretações que se ocuparam sobre esse processo histórico tendo por fio condutor o “amálgama peculiar entre continuidades e descontinuidades, [...] componente incontornável do debate sobre a Independência na historiografia brasileira”. Cf. Costa (2005, p. 56).
impressos no período da emancipação, possibilitaram novas leituras do processo de independência do Brasil. A narrativa composta por Varnhagen, portanto, auxiliou o advento, na década posterior, da obra de Manuel de Oliveira Lima, O movimento da Independência, já aqui mencionada. Mais do que isso, com Porto Seguro e seu prestígio se configurou uma matriz interpretativa da emancipação política nacional.