Conforme Dufrenne279, as coisas são poéticas quando nos falam, e o homem é poético quando se declara, na inocência e na graça da fantasia. O que é poético no mundo, segundo o filósofo, é a fantasia do aparecer, bem como sua liberdade e exuberância: “O poético revela uma espécie de ternura, ou ao menos uma cumplicidade, por parte da Natureza que se coloca à nossa altura e ao nosso alcance”280.
278 DUFRENNE, M. O poético. Porto Alegre: Editora Globo, 1969.p.250. 279 Idem. p. 241.
Houaiss tem razão ao dizer que Barros traz um pouco de doçura, de solidariedade e de esperança. Na mesma esteira de pensamento, Berta Waldman281,
importante crítica literária, também vê este aspecto em sua poesia:
Revificada na terra, a palavra poética deve acompanhar a realidade em estado de metamorfose, juntando-se a ela. Para habilitá-la ao percurso dessa aventura, o poeta mutila a sintaxe, faz os verbos deslizarem para substantivos e vive-versa, incorpora palavras de uso regional que se trituram e se misturam a outras de tradição clássica, modifica o regime dos verbos, pratica uma verdadeira alquimia que plasticiza a linguagem, fazendo-a soar estranhamente cristalina e humilde282.
Em Barros, a “palavra poética” acompanha a realidade em estado de metamorfose e a Natureza naturada é a fonte de extração desses materiais que o poeta tritura e mistura.
O poema é uma rede de imagens, e o eu-lírico captura o poético do mundo, que se encontra nessa mistura do homem com a Natureza naturada. O poeta vai conviver com a ambiguidade das grandes imagens e pelo lapidar das mesmas vai encontrando meios de vertê-las em emoção, visto que a emoção ressuma da imagem.
A força das imagens transmuta a realidade, tornando possível o regresso do homem aos seus ritmos primeiros, à música, ao canto do mundo como refúgio para que a natureza humana tenha lugar. As grandes imagens solicitam o poeta para que ele recupere a mágica dos inícios, de uma primitividade. A poesia é mito porque fala dos inícios, das origens, de uma primordialidade.
O poeta, suscitado pelas imagens do mundo, acolhe-as, trabalha as suas ambiguidades, destila-as em emoção e fornece ao homem o primeiro mapa para ir em busca do mistério do mundo que implica os seus próprios mistérios. Como já foi mencionado: “A imagem é cifra da condição humana”283. Podemos depreender desta
assertiva que a imagem é metáfora da condição do homem, é obscuridade; congrega contradições, propõe aberturas e novos começos, “conjuga realidades opostas”284.
Segundo Paz, a intervenção unificadora da ciência mutila as coisas, deixando-as mais pobres285. Por sua vez, a poesia tem um destino diferente, porque o poeta dá nome
281 WALDMAN, B. A poesia ao rés do chão. In: BARROS, M. Gramática expositiva do chão (Poesia quase toda). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1990.
282 WALDMAN, B. A poesia ao rés do chão. In: BARROS, M. Gramática expositiva do chão (Poesia quase toda). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1990. p. 23.
283 PAZ, O. O arco e a lira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982. p. 120. 284 Idem.
às coisas, fazendo com que elas não percam seu aspecto concreto e singular. Conforme Paz: “A imagem resulta escandalosa porque desafia o princípio de contradição: o pesado é o leve. Ao enunciar a identidade dos contrários, atenta contra os fundamentos de nosso pensar. Portanto, a realidade poética da imagem não pode aspirar à verdade. O poema não diz o que é e sim o que poderia ser”286. O poema, então, sugere, mas não define.
Nessa esteira de reflexão, penso que é indispensável trazer um excerto do poeta francês Stéphane Mallarmé que estabelece essa relação entre o poema, a nomeação e o simbólico. Para Mallarmé:
Nomear um objeto é suprimir três quartos do prazer do poema, que consiste em ir adivinhando pouco a pouco: sugerir, eis o sonho. É a perfeita utilização desse mistério que constitui o símbolo: evocar pouco a pouco um objeto para mostrar um estado d’alma, ou inversamente, escolher um objeto e extrair dele um estado d’alma, através de uma série de decifrações287.
A realidade poética da imagem não engessa o homem. Em vez disso, engendra possibilidades para que ele recupere seu caráter plural e aberto às experimentações e aos devires. Aliás, a obra de Manoel de Barros denota ter esse estatuto de relicário, que pode ser partilhada com seus leitores, transmutando-os, concedendo-lhes experiências que, após serem vividas, transformam-se em experiências interiores. Com base nessas ideias, podemos vislumbrar a presença da fabricação de sensíveis que resultam numa comunhão poética. Conforme Paz:
O dizer do poeta se encarna na comunhão poética. A imagem transmuta o homem e converte-o por sua vez em imagem, em espaços onde os contrários se fundem. E o próprio homem, desenraizado desde o nascer, reconcilia-se consigo quando se faz imagem, quando se faz outro. A poesia é metamorfose, mudança, operação alquímica, e por isso confina com a magia, a religião e outras tentativas para transformar o homem e fazer “deste” ou “daquele” esse “outro” que é ele mesmo. O universo deixa de ser um vasto armazém de coisas heterogêneas. Astros, sapatos, lágrimas, locomotivas, salgueiros, mulheres, dicionários, tudo é uma imensa família, tudo se comunica e se transforma sem cessar, um mesmo sangue corre por todas as formas e o homem pode ser, por fim, o seu desejo: ele mesmo. A poesia coloca o homem fora de si e simultaneamente o faz regressar ao seu ser original: volta-o para si. O homem é a sua imagem: ele mesmo e aquele outro. Através da frase que é ritmo, que é imagem, o homem – este perpétuo chegar a ser – é. A poesia é entrar no ser288.
286 PAZ, O. O arco e a lira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982. p. 120.
287 MALLARMÉ, S. Poesia e sugestão, apud GOMES, A. C. (org.). A estética simbolista. São Paulo: Cultrix, 1985. p.98
Essa constelação de imagens provoca no homem movimentos pendulares de deslocamentos e regressos. As imagens poéticas, por reunirem contradições, abraçam o homem, dando-lhe condições de retornar às origens, lembrando-o de quem ele foi e permitindo-lhe novos resgates.
Para tanto, é necessário recorrer ao método fenomenológico com relação às imagens poéticas. De acordo com Bachelard: “[...] resume-se em acentuar-lhes a virtude de origem, em apreender o próprio ser de sua originalidade e em beneficiar-se, assim, da insigne produtividade psíquica que é a da imaginação”289.
Trata-se de uma exigência dar esse acento às origens, aos começos, às marcas do início, pois são elas que carregam a beleza e o indizível das imagens. Essa apreensão do próprio ser em sua originalidade remonta ao genuíno de cada um, a como cada imagem geradora de um sentimento de fascínio no Ser, no início deslizou e fermentou o crescimento e a expansão de novas imagens que se transformaram em palavras. O alargamento de um universo imaginado é garantido por essa propriedade do psiquismo de produzir imagens e imaginação, assim como nomeação e equívoco.
A amplitude psíquica engendrada pela potência das imagens se entrelaça com o princípio da dialética que consiste em tentar salvar “os princípios lógicos — em especial o de contradição — ameaçados por sua cada vez mais visível incapacidade de digerir o caráter contraditório da realidade”290. Quando isso acontece, o mundo se torna mais
rico, mais instigante e mais vivo. O caráter contraditório da realidade resulta da construção do homem como um Ser de paradoxos, de ambivalências, incoerências e incertezas, fato que o torna enriquecido, aguçando sua sensibilidade.
Por sua vez, o poeta, com sua vidência e transpiração, aceita a provocação das imagens e percebe-se atraído para se aproximar delas, procurando conhecê-las melhor, fazendo perguntas, como uma criança desimpedida: Por que é assim? Por que tem essa cor? Quem fez assim? Tudo isso sumariza um modo de interrogar o mundo e de poder pensar por imagens, essas que enriquecem e sempre produzem novidade, oxigenando e bombeando o sangue do devaneio e do sonho. Notemos o que Paz assinala sobre a ligação entre corpo e pensamento, consciência e ser, presentes nessa relação entre a percepção sensível e a lírica:
289 BACHELARD, G. A poética do devaneio. São Paulo: Martins Fontes, 2009. p. 2-3. 290 PAZ, O. O arco e a lira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982. p. 122.
Pensar é respirar. Reter o alento, deter a circulação da ideia: produzir o vazio para que o ser aflore. Pensar é respirar porque pensamento e vida não são universos separados e sim vasos comunicantes: isto é aquilo. A identidade última entre o homem e o mundo, a consciência e o ser, o ser e a existência é a crença mais antiga do homem e a raiz da ciência e da religião, magia e poesia. Todas as nossas empresas se orientam para descobrir o velho caminho, a via esquecida da comunicação entre os dois mundos. Nossa busca tende a redescobrir ou a verificar a universal correspondência dos contrários, reflexo de sua identidade original291.
Tal excerto convoca a refletir sobre essa correspondência dos contrários como sendo o berço da riqueza do homem, que é ofertada pela poesia e pelos poemas de Barros. A noite e o dia, a luz e a sombra, o sol e a lua, o feminino e o masculino, a alegria e a dor são pares indissociáveis que constituem o cosmos e o homem. Somos parte da Natureza e nos constituímos pela lógica dos contrários, que nos enriquecem porque paradoxalmente nos equilibram. O ser humano obtém seu equilíbrio nessas contradições, e assim se produz a sua verdade, intransferível e singular. Nesse sentido, Paz afirma:
Para a tradição oriental a verdade é uma experiência pessoal. Portanto, em sentido estrito, é incomunicável. Cada um deve começar a refazer por si o processo da verdade. E ninguém, exceto aquele que empreende a aventura, pode saber se chegou ou não à plenitude, à identidade com o ser292.
Depreende-se dessa referência que os empreendimentos humanos mais genuínos são aqueles movidos pela busca de uma verdade pessoal que configura uma experiência interior. Para Michel Cazenave, não se deve confundir a experiência interior com uma experiência vivida, pois que uma experiência atingirá o homem “[...] somente se ela for profundamente, realmente e verdadeiramente vivida”293. Isso significa pensar, ainda
com Cazenave, que o contrário não necessariamente se confirma ou acontece, ou seja, uma experiência pode ser vivida, porém não interiorizada. A experiência interior se revela quando faz exprimir por uma imagem o que ela diz por si mesma, isto é, uma imagem que é efeito de algo que foi vivido e se transformou em marca, memória, beleza, maravilhamento.
Assim, o homem, ao aceitar os destinos de sua alma, “[...] tenta compreender o que lhe acontece de mais profundo”294 e, desse modo, vai criando um fundo, um espaço
291 PAZ, O. O arco e a lira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982. p.126. 292 PAZ, O. O arco e a lira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982. p. 127.
293 CAZENAVE, M. Jung, l’expérience intérieure. Paris: Éditions Dervy, 2013. p. 27. Tradução nossa. 294 Idem. p. 31.
interior e, com isso, vai acumulando imagens, a cada experiência que atinge esse estatuto, o caráter de profundidade de que também é feito o psiquismo. Nessa direção, o desfrutar de imagens do poeta se encontra com a valorosa renovação do psiquismo, ambos corroborando a experiência interior, que pode ser vivida infinitamente pelo homem. Cazenave diz também que: “[...] interpretar é tentar compreender o sentido que reside na imagem, que ali jaz estendido, é fazer exprimir na imagem aquilo que ela diz dela mesma, é tornar aparente o oculto e visível o invisível”295. Nesta mesma linha de
compreensão, Bachelard296 estabelece uma relação profícua entre a imagem poética que aparece como um novo ser da linguagem:
A poesia é um dos destinos da palavra. Tentando sutilizar a tomada da consciência da linguagem ao nível dos poemas, chegamos à impressão de que tocamos o homem da palavra nova, de uma palavra que não se limita a exprimir ideias ou sensações, mas que tenta ter um futuro. Dir-se ia que a imagem poética, em sua novidade abre um porvir da linguagem297.
No porvir da linguagem, o futuro aponta como um possível trajeto, garantindo ao homem um destino. Como afirma Bachelard, a poesia é um dos destinos da palavra. Acrescentaria que a poesia é um dos destinos do homem e é exatamente nessa aproximação do homem com o universo mágico das palavras que a experiência interior circunscreve um lugar. É um lugar que vai se definindo como um espaço interior onde se depositam imagens, sonhos, recordações, permitindo ao homem sentir a vida, captar as suas nuanças, deleitar-se e horrorizar-se com o mundo e descobrir-se, dessa maneira, como um Ser dotado de sentido e alcançando uma tomada de consciência, a consciência das imagens. De acordo com o filósofo:
[...] uma tese filosófica que gostaríamos de defender: para nós, toda a tomada de consciência é um crescimento de consciência, um aumento de luz, um reforço da coerência psíquica. Sua rapidez ou sua instantaneidade podem nos mascarar o crescimento. Mas há crescimento de ser em toda tomada de consciência. A consciência é contemporânea de um devir psíquico vigoroso, um devir que propaga seu vigor por todo o psiquismo. A consciência, por si só, é um ato, um ato humano. É um ato vivo, um ato pleno298.
295 CAZENAVE, M. Jung, l’expérience intérieure. Paris: Éditions Dervy, 2013. p. 27. Tradução nossa. p.35.
296 BACHELARD, G. A poética do devaneio. São Paulo: Martins Fontes, 2009. 297 Idem. p. 3.
Esse excerto reitera o argumento que vem se propondo desenvolver, no sentido de enfatizar a presença desse diálogo entre o crescimento da consciência do homem — que é fomentado pela poesia — e a renovação do psiquismo por imagens, que dá corpo à experiência interior, à experiência de profundidade. Um devir psíquico vigoroso só pode se ampliar se for nutrido por imagens e experiências que expandam o Ser humano pela via da imaginação.
Ainda falando sobre o ato da consciência, Bachelard destaca que o estudará no campo da linguagem, “[...] mais precisamente da linguagem poética, quando a consciência imaginante cria e vive a imagem poética. Aumentar a linguagem, criar a linguagem, valorizar a linguagem, amar a linguagem — tudo isso são atividades que aumentam a consciência de falar”299. É irrefutável afirmar que o amor é esse enxame de
imagens que renovam o psiquismo. Poesia e amor se entrelaçam para tocar o homem, acordando-o para um novo futuro. A travessia do humano terá múltiplos sentidos se houver amor — a experiência interior mais significativa — que faz pulsar a vida, a alegria, os encontros, as mudanças, as conquistas. A poesia de Barros pode ser essa moldura composta de experiências interiores significativas e amorosas. Bachelard desenvolve e intensifica as reflexões sobre o amor como exemplo de experiência interior:
Ainda existem almas para as quais o amor é o contato de duas poesias, a fusão de dois devaneios [...] Para dizer um amor, é preciso escrever. Nunca se escreve demais. Quantos amantes não correm a abrir o tinteiro mal chegam de seus encontros amorosos! O amor nunca termina de exprimir-se e se exprime tanto melhor quanto mais poeticamente é sonhado. Os devaneios de duas almas solitárias preparam a doçura de amar [...] Mutilamos a realidade do amor quando a separamos de toda a sua irrealidade300.
A experiência amorosa dá uma materialidade ao Ser, serenando-o frente ao tamanho do mundo, aos seus mistérios e às suas surpresas, aos seus rumores e aos seus deslumbramentos. A experiência interior se funda nesse registro do deslumbrante, do que fascina e encanta, porque atinge o indizível. Nesse estado poético, não alcançamos as palavras, mas tentamos encontrá-las porque se está no foro do indizível. Só é possível sentir e captar o que emana da Natureza naturante, potência: eis o campo da experiência poética. Paz contribui à reflexão ao pontuar a relação entre a experiência poética e o
299 BACHELARD, G. A poética do devaneio. São Paulo: Martins Fontes, 2009. p. 5. 300 Idem. p. 8.
silêncio, dando destaque ao poema como linguagem em tensão. Vejamos o que ele sublinha:
A experiência poética é irredutível à palavra e, não obstante, só a palavra a exprime. A imagem reconcilia os contrários, mas essa reconciliação não pode ser explicada pelas palavras – exceto pelas da imagem, que já deixaram de sê-lo. Assim, a imagem é um recurso desesperado contra o silêncio que nos invade cada vez que tentamos exprimir a terrível experiência do que nos rodeia e de nós mesmos. O poema é linguagem em tensão: em extremo de ser e em ser até extremo. Extremo das palavras e palavras extremas, voltadas sobre suas próprias entranhas, mostrando o reverso da fala: o silêncio e a não significação. Mais aquém da imagem, jaz o mundo do idioma, das explicações e da história. Mais além, abrem-se as portas do real: significação e não-significação tornam-se termos equivalentes. Tal é o sentido último da imagem: ela mesma301.
A experiência poética é algo que busca pôr em causa essa questão: do alargamento do dizível e das impossibilidades do dizer, ou do indizível. Assim, a imagem como recurso desesperado contra o silêncio é uma ferramenta que as crianças mais utilizam na infância, assim como o poeta, para poder se inventar nos intervalos entre o dizer e o silenciar, entre o ser compreendido e não ser compreendido. Nesse sentido, Barros reinventa um modo de viver a infância ao reimaginá-la a partir do que não aconteceu, desse “enorme ermo dentro do olho”302. Sobre isso, vislumbra-se uma
ponte com o texto de Bachelard, em que ele aborda a interessante questão da infância meditada como essa infância imaginada e amada, que se revela ao leitor como uma “infância reanimada que está latente em cada um de nós” e que se exemplifica ao longo da obra barrosiana, tanto nos poemas quanto na prosa poética. Observemos a reflexão proposta pelo filósofo:
Assim, considerada na perspectiva dos seus valores de arquétipo, recolocada nos cosmos dos grandes arquétipos que estão na base da alma humana, a infância meditada é mais que a soma das nossas lembranças. Para compreender o nosso apego ao mundo, cumpre juntar a cada arquétipo uma infância, a nossa infância. Não podemos amar a água, amar o fogo, amar a árvore sem colocar neles um amor, uma amizade que remonta à nossa infância. Amamo-los como infância. Todas essas belezas do mundo, quando as amamos agora no canto dos poetas, nós as amamos numa infância redescoberta, numa infância reanimada a partir dessa infância que está latente em cada um de nós303.
301 PAZ, O. O arco e a lira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982. p. 135.
302 Essa é uma expressão que Barros usa no texto que apresenta as suas memórias inventadas, cujo título é Manoel por Manoel.
Entre silenciamentos e palavras extremas, o homem se acha disponível para as imagens, vivendo-as e se agasalhando nelas. Atingir o patamar do silêncio e da não significação eleva o Ser ao universo poético, produtor de imagens e de experiências interiores. Na tensão própria dos contrários do existir, o homem estende a mão para se refrescar na água poética, a água do inconsciente — fundado por imagens —, trazendo frescor e vigor ao psiquismo. Cada poema e, portanto, cada imagem será “lida” desde um ponto da experiência interior, de uma experiência que foi vivida e, por isso, transformada em imagem.
E esse olhar da leitura de cada um é interessante porque enriquece as possibilidades de novos sentidos em cada leitura, transformando a lógica racionalizante numa premissa amorosa, numa reinvenção que é característica do brincar das crianças e do escritor criativo que mora em nós. Com isso, as palavras vão se arranjando de outra forma e, então, passam a ser novas palavras, recuperando a sua oralidade, os seus usos e as suas insignificâncias, ou seja, aquilo que pode ser comunicável, mas não necessariamente, verbalizável. De acordo com Bachelard:
Porque este é o fato fenomenológico decisivo: a infância, no seu valor de arquétipo, é comunicável. Uma alma nunca é surda a um valor de infância. Por singular que seja o traço evocado, se tiver o signo da primitividade da infância ele despertará em nós o arquétipo da infância. A infância, soma das insignificâncias do ser humano, tem um significado fenomenológico próprio, um significado fenomenológico puro porque está sob o signo do maravilhamento. Pela graça do poeta, tornamo-nos puro e simples sujeito do verbo maravilhar-se304.
Desde esse olhar, a infância é convocada como o quintal do mundo em cada um, o quintal como sendo o espaço que tem grande importância para o estado poético — que em Manoel de Barros é um estado de infância.
5.2 A PALAVRA POÉTICA, AS IMAGENS POÉTICAS E O ESTADO DE