4. YÖNTEM
4.2. Materyalin Tasarlanması ve Geliştirilmesi
LITERATURA E POESIA
A poesia é símbolo desse “processo de elaboração psíquica” e de “experiências primitivas e originárias”, porque é veículo de transformação. A poesia é o maquinista desse trem que, ao trafegar em cada estação, vai possibilitando ao poeta, ao viajante, ao andarilho, ao sujeito do inconsciente dar novos destinos para “suas imagens, para seus sentimentos e para as suas afecções da alma humana”. Na preservação desse “frescor das experiências primitivas e originárias” reside a sua travessia, a travessia humana.
Outra pensadora que se dedicou a deslindar as aproximações entre literatura e psicanálise foi Adélia Meneses. No seu livro Do poder da palavra: ensaios de literatura e psicanálise184 há aspectos pertinentes para serem examinados no que diz respeito aos dois campos de conhecimento, a literatura e a psicanálise, como sendo campos que estão em interlocução quanto aos processos implicados nos fenômenos da linguagem. Conforme ela: “[...] um campo em que a arte da Palavra e a ciência do Inconsciente
182 Idem. p. 135-136.
183 MANGO, E.G. Freud com os escritores. São Paulo: Três Estrelas, 2013. p. 17-18.
184 MENESES, A. Do poder da palavra: ensaios de literatura e psicanálise. São Paulo: Duas cidades, 1995.
reciprocamente se iluminam e se fecundam. E esse é um campo apaixonante”185.
Apaixonante porque fala de um universo de percepções, sensações e sentimentos que ganha força, voz e reconhecimento e, com isso, pode se exprimir. Ao se exprimir, transforma-se em devaneio, símbolo, sonho, poemas e insights, todos “alicates cremosos” inúteis, porém, fundamentais para quem quer viver no reino da poesia, no universo das imagens e das produções do inconsciente, na Estética da Ordinariedade. De acordo com Meneses:
Pois a arte é um espaço onde se permite ao inconsciente aflorar; e a Psicanálise é antes de mais nada o reconhecimento desse inconsciente. E desde Freud, cujas poderosas intuições não dispunham ainda do arsenal da Linguística estruturada enquanto ciência, até hoje em dia, as relações entre Linguagem e Inconsciente se tornam cada vez mais explícitas186.
Nesse diálogo entre os dois campos existe uma aproximação que vem sendo construída pelos hermeneutas e filósofos, mas que ganhou “nome oficial” com Freud, visto que foi ele quem concebeu, demonstrou e “batizou” a psicanálise como ciência do inconsciente. Foi interessando-se pelos mistérios humanos que ele extraiu da literatura e da poesia as fontes para desdobrar seus enigmas. Para Meneses: “Pois o que dá o vetor à caminhada do homem é a procura da verdade sobre si próprio, é a busca do humano. E a resposta ao grande enigma — aquele que, se não respondido, fará o caminhante ser devorado, é sempre: o Homem”187. Esse excerto é interessante, posto que destaca essa
caminhada do Homem sempre em busca de si mesmo, do mistério que constitui a existência e do qual ele faz parte.
Em se tratando da psicanálise e de seu ofício, cabe ressaltar que os psicanalistas trabalham com a dimensão corporal suscitada pelas palavras, no sentido do que ainda não se sabe, do que ainda não se viu e que, portanto, não foi conhecido pela consciência. Aliás, o conceito de inconsciente formulado por Freud em alemão significa das Unbewusste188, o não conhecido, aquilo sobre o qual não se tem consciência. Ao falar
185 MENESES, A. Do poder da palavra: ensaios de literatura e psicanálise. São Paulo: Duas cidades, 1995. p. 13.
186 Idem. p. 13. 187 Idem. p. 16.
188Segundo os psicanalistas franceses Laplanche & Pontalis: “O adjetivo inconsciente é por vezes usado para exprimir o conjunto dos conteúdos não presentes no campo efetivo da consciência, isto num sentido ‘descritivo’ e não ‘tópico’, quer dizer, sem se fazer discriminação entre os conteúdos dos sistemas pré- consciente e inconsciente. No sentido ‘tópico’, inconsciente designa um dos sistemas definidos por Freud no quadro da sua primeira teoria do aparelho psíquico. É constituído por conteúdos recalcados aos quais foi recusado o acesso ao sistema pré-consciente – consciente pela ação do recalque”. In: LAPLANCHE, J.; PONTALIS, J-B. Vocabulário da psicanálise. São Paulo: Martins Fontes, 1992. Parece interessante
de Freud e da psicanálise, é importante referir o importante psicanalista e romancista gaúcho, Cyro Martins, que, de alguma forma, anteviu este caminho. Pelo fato de transitar entre literatura e psicanálise e fazê-las dialogar, como psiquiatra e como escritor, ele se torna um referente para perquirir as relações partilháveis entre a criação artística e a psicanálise. Martins189 põe em relevo a contribuição da psicanálise ao campo literário ao falar das situações e análises que escapam ao domínio do crítico literário. Afirma que esse escape propicia uma abertura para o psicanalista responder às perplexidades dos leitores e dos escritores, sem que, com isso, as empobreçam com diagnósticos clínicos e com sentenças científicas:
A criação artística e a psicanálise tornaram-se, nas últimas décadas, um dos temas mais sedutores de ensaios específicos da cultura ocidental. A ele periodicamente voltam analistas conhecedores de arte e literatura ou críticos versados em psicanálise. Os estímulos para essas especulações, quer se originem na vertente analítica ou na literária, são fundamentalmente os mesmos: o enigma que a personalidade do artista representa pela sua sagacidade inventiva no plano estético e que o singulariza na sociedade; a esperança de que a visão em profundidade da psicanálise ilumine esse abismo. Portanto, estamos diante de um enigma e de uma esperança190.
A poesia barrosiana concentra essa esperança, carrega em seu bojo um olhar amoroso, porque sensível, que faz lembrar a experiência de encontrar algo “bom”, quando se consegue “despraticar as normas”191, quando se pode brincar e criar
poeticamente. Barros diz, em seu documentário: “A poesia se dirige para a sensibilidade. Se dirige para a percepção sensível que o ser tem”. Assegura que as palavras “se apaixonam por ele”. Nessa paixão, a poesia de Manoel propicia o nado em mares onde a palavra é resgatada na sua face mágica e transformadora, e a psicanálise precisa desse resgate para oferecer outros rios em que as pessoas possam navegar.
referir, à guisa de introdução do conceito, o que o próprio Freud formulou em seu texto “O inconsciente” (1915): “E como poderíamos chegar a conhecer o inconsciente? Evidentemente, isso só é possível quando ele sofre uma transposição ou tradução para o consciente. Embora o trabalho psicanalítico nos proporcione diariamente a experiência de que tal tradução é possível, para que isso ocorra é preciso que o analisando supere resistências que ao rechaçarem do seu consciente determinados conteúdos os transformaram em material recalcado (Freud, 1915, p. 19). Mais adiante, ele sintetiza os elementos que compõem o inconsciente: “Resumamos então o que dissemos até aqui sobre o Ics: ausência de contradição, processo primário (mobilidade das cargas de investimento), atemporalidade e substituição da realidade externa pela realidade psíquica. Essas são as características que podemos esperar encontrar em processos pertencentes ao sistema Ics” (Freud, 1915, p. 38). In: FREUD, S. (1915). Escritos sobre a psicologia do inconsciente. Volume II. Tradução de Luiz Alberto Hans. Rio de Janeiro: Imago, 2006. 189 MARTINS, Cyro. A criação artística e a psicanálise. Porto Alegre: Livraria Sulina Editora, 1970. 190 Idem. p.13-14.
191 BARROS, M. Memórias inventadas: a segunda infância. São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2006. Cap.XII.
Devido às exigências que lhes são feitas na contemporaneidade, em que as depressões, por exemplo, têm sido explicadas e tratadas por um problemático eixo das medicalizações, a psicanálise, como método e como teoria, e o psicanalista, como clínico e crítico da cultura, são convocados a responder a tais endereçamentos lançados pela própria cultura.
Em tempos atuais, no âmbito das psicoterapias, especificamente, a psicanálise vem perdendo espaço diante dos resultados mais rápidos, mas também esburacados, ofertados pelas terapias cognitivo-comportamentais, que se centram no valor das crenças e da consciência, da “educação” e do “monitoramento” em detrimento da condição de compartilhamento e de testemunho vivida na sala de análise e intrínseca à existência humana. Vivemos uma era dos cientificismos, em que o campo dos afetos e do inconsciente fica em segundo plano.
O próprio Freud, desde sua formação como neurologista até sua consagração como fundador de um novo paradigma da modernidade, na aurora do século XX, anteviu que se pode aprender muito com a literatura e com os poetas. Vale acrescentar que se pode aprender com poemas e escritores, muito mais do que com vários dos compêndios e manuais de psiquiatria disponíveis192. Como Freud escreveu:
Se ao menos pudéssemos descobrir em nós mesmos ou em nossos semelhantes uma atividade afim à criação literária! Uma investigação dessa atividade nos daria a esperança de obter as primeiras explicações do trabalho criador do escritor. E, na verdade, essa perspectiva é possível. Afinal, os próprios escritores criativos gostam de diminuir a distância entre sua classe e o homem comum, assegurando-nos com muita freqüência de que todos, no íntimo, somos poetas, e de que só com o último homem morrerá o último poeta193.
O psicanalista resgata a dimensão do homem poético como sendo esse sujeito que é capaz de se encantar e se impressionar com as emoções e com as invenções do poeta e que esse traço da poesia sempre vai existir enquanto o último homem viver. Por sua vez, Barros, ao falar da infância, aproxima os poetas da psicanálise porque os une através da fertilidade de brincar com o mundo, ao fazer poemas e inventar “o que não aconteceu”, usando como teia de sua construção o livre manuseio das imagens e das emoções. Vale a pena aludir a um trecho de entrevista em que Barros “desexplica” a sua poesia:
192 MACHADO, R. L. Formação em psicologia: caminhando por outras margens. Trabalho de conclusão de curso não-publicado. Impresso. São Leopoldo: Unisinos, 2003. 104 p.
193FREUD, S. (1907-1908/1996) Escritores criativos e devaneios. In: FREUD, S. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. V. IX. Rio de Janeiro: Imago. p.135.
Quanto às funções da poesia... Creio que a principal é a de promover o arejamento das palavras, inventando para elas novos relacionamentos, para que os idiomas não morram a morte por fórmulas, por lugares comuns. Os governos mais sábios deveriam contratar os poetas para esse trabalho de restituir a virgindade a certas palavras ou expressões, que estão morrendo cariadas, corroídas pelo uso em clichês. Só os poetas podem salvar o idioma da esclerose. Além disso, a poesia tem a função de pregar a prática da infância entre os homens. A prática do desnecessário e da cambalhota, desenvolvendo em cada um de nós o senso do lúdico. Se a poesia desaparecesse do mundo, todos os homens se transformariam em máquinas, monstros, robôs194.
Há, nesta afirmação que explora a metalinguagem, além do que ele entende por poesia, uma crítica contundente à cultura e ao modus operandi que se vive atualmente. A prática do “desnecessário e da cambalhota”, bem como o desenvolvimento do senso lúdico são rotas alternativas e eficazes para se escapar dessa robotização que engendra subjetividades “falsas”, tanto na clínica quanto na cultura. Vemos uma falsidade no viver, na forma como as pessoas se preocupam em exibir o que não são, o que não têm e o que não vivem. O poeta faz um apelo para que a poesia não desapareça, porque vê este risco. As violências produzidas no contemporâneo, por todas as mídias, são decorrentes da escassez de poesia e da impossibilidade da prática do “desnecessário” e da “cambalhota”.
4.2 SOBRE A PRÁTICA DO “DESNECESSÁRIO” E DA CAMBALHOTA: DO