7.1.1 Função inovação é catalisadora da ocorrência de inovações – e não a executora de inovações
Certamente, se a inovação é tida como uma função embrionária, de surgimento recente e objeto de estudos exploratórios, empresas inovam e podem continuar a inovar sem ter função inovação institucionalizada. Este ponto levanta então o questionamento sobre qual seria o papel central desta nova função. A análise dos casos converge para uma função inovação com o papel de catalisador ou facilitador da ocorrência de inovações na empresa e não está sobre ela a missão central de “fazer” inovações em si ou de centralizar a geração de inovações, ainda que algumas inovações possam ser conduzidas diretamente dentro da função em casos particulares. Assim, a função inovação não pode ser considerada uma função de linha, mas staff da organização. A constituição dos processos, do ferramental metodológico, da busca de conhecimento e competências e recursos necessários à ocorrência de inovações se desdobram a partir deste papel central. Outro ponto é que a inovação gerada pela empresa é sempre algo muito maior do que o escopo do trabalho da função inovação. Esta afirmação é feita claramente pelo entrevistado da empresa Quim-4 e é observada também em vários outros casos. Esta constatação parece convergir com a própria consolidação da qualidade também como função das organizações há algumas décadas. Hoje fica claro perceber que o escopo e difusão da qualidade nas empresas excede em muito àquilo que é alocado na função qualidade, ainda que esta tenha tipicamente o papel de guiar as empresas em torno de objetivos, sistemas gerenciais e métricas bem definidos para a melhor gestão da qualidade.
7.1.2 Função inovação está focada no que é “novo para a empresa”
Uma discussão recorrente em praticamente todos os grupos de inovação estudados é quanto ao que é ou não é considerado inovação – e, portanto, estaria ou não no raio de ação da função inovação. Uma das formas de se diferir entre níveis de inovatividade seria a proposta no manual de Oslo (OECD/EUROSTAT, 2005), que propõe que as inovações sejam discernidas entre o novo para a empresa, novo para o mercado e novo para mundo. Adotando esta terminologia, a análise dos dados permite concluir que, no âmbito da função organizacional, inovação é essencialmente o novo para a empresa – isto é, novo na percepção das pessoas que trabalham na empresa e novo quanto ao que os processos e estruturas organizacionais atuais estão definidos para lidar. Ser novo para a empresa indica que ela deverá buscar ou construir condições para que algo (inovador) seja desenvolvido, sendo que tal missão não é atribuível a funções já estabelecidas, ou não é prevista por outros processos e/ou funções já existentes. Dessa forma, a nova função contribui para o desenvolvimento de oportunidades de inovação que não se tornariam uma realidade na ausência de sua ação.38
7.1.3 Institucionalizar inovação não é essencialmente fazer P&D ou implantar Centros Tecnológicos, mas a função inovação pode se relacionar com estas instâncias de três formas: sob o P&D, sobre o P&D, em paralelo ao P&D
Como será melhor discutido adiante, no tópico que trata das atribuições da função inovação, as atividades ligadas ao P&D podem estar ou não entre as atribuições principais da função inovação para o contexto de uma empresa em específico. Por isso, e conforme anteriormente comentado, a execução de projetos de P&D não é interpretada aqui como sendo essencialmente parte da função inovação dentro de uma perspectiva de generalização. Contudo, principalmente no recorte de pesquisa adotado – o de empresas industriais de grande porte – a relação da inovação com tecnologia e, consequentemente, com o P&D é sempre muito forte. Observando os casos, é possível perceber que a alocação da função inovação na empresa em relação ao P&D ocorre de três formas possíveis:
38 No manual de Oslo, “novo para a empresa” é o nível mínimo de impacto para se considerar algo como uma inovação. Em princípio, dizer que a função inovação trata o “novo para a empresa” poderia contrastar com a ideia de que tal função nasce da necessidade de sistematizar a ocorrência de inovações radicais na empresa. Entretanto, é importante ressaltar que se tratam de formas de definição de níveis de inovatividade diferentes. Um produto, uma prática organizacional ou um novo negócio por exemplo, podem ser conhecidos por outras empresas, ou comuns a certo perímetro de mercado, mas serem percebidos como radicalmente diferentes do que a empresa vem desenvolvendo, praticando ou explorando até então.
Função inovação sob o P&D. Quando o grupo de inovação está alocado dentro de um Centro Tecnológico ou de um departamento/setor destinado a realização de P&D ou de desenvolvimento de novos produtos de forma mais restrita, ele tende a assumir papel de suporte a esta instância. Nestes casos, o escopo dos tipos de inovação em foco tendem a ficar mais restritos ao escopo tratado pelo departamento que aloca o grupo de inovação. Esta forma de alocação foi observada nos casos das empresas Quim-3, Elet-3, Elet-4, Transp-2, e na configuração mais recente da empresa Transp-3.
Função inovação sobre o P&D. É configuração menos observada. A função inovação possui os grupos de P&D sobre sua alçada e, ainda que haja uma relação de suporte a atividades de P&D e viés mais tecnológico, há maior número de ações para o desenvolvimento de novos negócios e maior influência estratégica (deixa de ser considerada como função de Staff nestes casos particulares). Esta pode ser interpretada como a forma de alocação na empresa Quim-1 (grupo de inovação nasce para promover “descommoditização” do negócio) e da empresa Metal-1 (centro tecnológico passa a ser submetido a diretoria de inovação quando de sua criação), antes da retração da função inovação nesta última.
Função inovação em paralelo ao P&D. Nesta configuração a função inovação não está submetida e nem contém o P&D, que normalmente é uma função já consolidada anteriormente nos casos que se aderem a esta forma de alocação. Contudo, apesar de interagir e prestar suporte ao P&D, a função inovação adquire escopo mais abrangente e complementar ao P&D no âmbito da empresa, normalmente associado à aculturação para inovação, desenvolvimento de novos negócios, catálise da inovação junto a outras funções, etc. Esta é a forma mais aderente aos casos das empresas Telec-1, Transp-1, Quim-4, Elet-1, Elet-2, Min-1, e foi a forma inicial de trabalho da empresa Transp-3. Algumas incursões do grupo da empresa Transp-2 também recaem nesta forma de atuação, apesar de responder formalmente a diretoria de Planejamento e Estratégia do Produto.
Em casos em que o desenvolvimento de produtos e mesmo a gestão tecnológica encontram-se previamente bem estruturados na empresa (como observado na empresa Transp-1), a função inovação nasce com ênfase maior em outras atribuições, como a implantação de práticas de gestão do conhecimento, ações focadas na cultura organizacional e criação de novos negócios. Esse "rebalanceamento" do viés funcional da inovação permite evitar não somente conflitos com funções existentes e bem estabelecidas,
mas evitar também perder avanços anteriormente alcançados no amadurecimento de outros processos essenciais à inovação. Já a empresa Quim-3 perfaz tipicamente o caso em que a inovação se confunde com P&D. Misturam-se também demandas de suporte entre atividades incrementais e radicais apesar de se saber diferenciar claramente uma inovação da outra e haver cestas de portfólio separadas. No entanto, inovações não tecnológicas encontram-se fora do escopo. Atividades existentes estão focadas no suporte aos projetos de P&D e, por isso, as atribuições aqui consideradas como específicas de inovação nascem para "servir" a demanda do P&D por maior agilidade e eficiência na condução de seus projetos.