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Caracterizar uma nova função organizacional é uma missão de pesquisa que demanda o estudo de diferentes experiências organizacionais. Estratégias como pesquisa-ação ou estudo de caso único (por observação participativa, retrospectivo ou mesmo longitudinal), ainda que cuidadosamente selecionado, poderiam fornecer profundidade à análise, mas não seriam suficientes para se chegar a um nível mínimo de generalização. Desta forma, a estratégia metodológica para o presente trabalho converge para o estudo de casos múltiplos, com amostras selecionadas de empresas envolvidas com a sistematização da inovação. Esta estratégia e seus argumentos motivadores são também adotados em trabalhos de referência para este estudo como exemplificado a seguir:

o O'Connor et al. (2008), Kelley (2009) e outros estudos do IRI/RPI: argumentam pelo estudo de casos múltiplos pela busca de variedade em termos de indústrias estudadas. Seleção baseada em porte, reputação por inovatividade da empresa, intenção declarada em se desenvolver programa de inovação radical. Foram estudados doze casos de empresas industriais norte americanas de diferentes setores industriais. A principal fonte para seleção de casos foi o IRI (Industrial

Research Institute).

o Tao et al. (2010): Justifica o estudo de caso pela característica exploratória da pesquisa e seu direcionamento à construção teórica. Acrescentam a necessidade de revisão e identificação do fenômeno em estudo através de casos em empresas de vários setores industriais que tenham tido experiência direta com gestão do processo de inovação, de forma a garantir aplicabilidade prática e teórica. Foram estudados cinco casos de empresas europeias de diferentes setores, sendo quatro empresas industriais baseadas em tecnologia e uma de consultoria.

o Govindarajan e Trimble (2005): aplicam o estudo de casos múltiplos devido à necessidade de entendimento do fenômeno em estudo com maior profundidade, ao mesmo tempo em que se comparam sucessos e fracassos pontuais de várias empresas. Realizam comparações entre casos e conexões entre o fenômeno analisado e as observações práticas. Foram estudados dez casos, entre empresas industriais e não industriais. Seis dos casos constituíam experimentos estratégicos e os quatro restantes correspondiam a um grupo de comparação, que haviam implantado processos ou produtos inovadores.

o Gassmann et al. (2012): Defendem o uso do estudo de caso pela novidade e complexidade da questão de pesquisa. Os casos foram selecionados a partir de um conjunto de critérios teóricos (não uso de casos aleatórios) para melhor obtenção de insights. Foram estudadas sete empresas atuantes em setores industriais diversos e o critério principal para seleção das empresas centrou-se na constatação prévia do empreendimento de esforços para implantação de inovação radical. A principal fonte para seleção dos casos foi o conhecimento do contexto de cada empresa a partir de projetos anteriores conduzidos no Instituto de Gestão Tecnológica da Universidade de St. Gallen entre 2008 e 2010.

Segundo Miguel (2009), a pesquisa por estudos de caso pode ser realizada através de um ou mais casos, dependendo do objetivo e profundidade que se quer obter. O método é amplamente disseminado na engenharia de produção e pode envolver vários aspectos das organizações, permitindo amplo detalhamento sobre o fenômeno de pesquisa. O autor afirma ainda que o aprofundamento na literatura e o destaque das lacunas de conhecimento de um determinado problema de pesquisa são determinantes para a adoção de um método de pesquisa adequado. Eisenhardt e Graebner (2007) afirmam que a construção de teoria a partir de estudos de caso é uma estratégia de pesquisa que envolve o uso de um ou mais casos para construir constructos teóricos, proposições e teoria de médio alcance.

No presente trabalho, a construção de conhecimento é realizada de forma interativa entre teoria (e casos nela relatados) e casos estudados em campo. Não se espera que um caso em particular detenha a realidade completa do fenômeno que se pretende observar, o que faz com o que a construção teórica se faça a partir da convergência de pontos observados em conjuntos particulares de casos dentro da amostra. Portanto, a abordagem de estudos de casos empregada aqui é predominantemente indutiva. Essa abordagem consiste em propor uma nova teoria a partir de dados empíricos, ao passo que a pesquisa dedutiva visa testar uma teoria. Assim, no contexto deste estudo, demanda-se estabelecer um protocolo que permita averiguar aspectos caracterizadores de uma função (definidos a partir das discussões teóricas levantadas ) nos vários casos, e permitir posterior comparação.

Eisenhardt (1989) argumenta que uma pesquisa voltada à construção de teoria inicia o mais próximo possível ao ideal de não se ter nenhuma teoria em consideração e nenhuma hipótese a testar. A questão levantada não trata de uma negação ao embasamento teórico, mas ressalta que perspectivas teóricas ou proposições prévias podem criar vieses e limitar os resultados a que se possa convergir. No caso da presente pesquisa, a vivência prévia do autor de dois anos em um programa empresarial de inovação e a participação em programas de pesquisa anteriores permitiram a realização de um levantamento inicial das

principais questões inerentes às iniciativas empresariais de inovação. A partir de então pautou-se uma busca que mesclou, ao longo do tempo, estudos de campo e revisões de literatura segundo a abordagem de estudos de casos indutivos, como detalhado por Eisenhardt e Graebner (2007), culminando na estrutura metodológica final proposta para este trabalho.

Eisenhardt (1989) afirma ainda que estudos de caso típicos combinam métodos de coleta de dados como arquivos, entrevistas, questionários e observações. A evidência pode ser qualitativa, quantitativa ou ambas. Estudos de caso podem ainda ser usados na busca de vários objetivos, como prover descrições, testar teorias ou gerar teorias. A autora entende que o conceito de população é vital por definir um conjunto de entidades a partir das quais o pesquisador pode tomar amostras. O uso de uma população apropriada (ao que se procura pesquisar) busca controlar variações estranhas ao objeto de pesquisa e ajuda a definir os limites de generalização dos resultados obtidos. Contudo, não é de fato usual uma amostragem randômica a partir da população tomada. O estudo de caso se fundamenta na amostragem teórica (casos selecionados por motivos teóricos e não estatísticos). Portanto, e seguindo a direção metodológica também empregada nos estudos anteriormente mencionados, os casos tratados no presente trabalho foram escolhidos com a ideia de se explorar teoria emergente, preencher categorias teóricas e, eventualmente, prover exemplos de tipos polares35. Ainda na perspectiva de Eisenhardt (1989), como tática de pesquisa,

procurou-se por similaridades e diferenças internas aos casos. Algumas categorias tomadas podem não revelar padrões claros, enquanto outras podem guiar a padrões importantes de similaridade. Voss et al. (2002) reforçam que o pesquisador deve atentar a várias questões ao longo da pesquisa de campo e a primeira é buscar convergência de perspectivas e informações acerca de eventos e processos. Os autores ressaltam também a importância de se revisitar os tópicos e buscar outras fontes de dados para clarificar as informações.