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Para a pesquisa, fez-se necessário o levantamento de dados em fontes secundárias, visando a aprofundar a análise sobre o fenômeno em questão. Nesse sentido, foram levantadas informações nos sites do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2010), Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia (SEI), Secretaria de Agricultura do Estado da Bahia (SEAGRI), Secretaria de Planejamento do Estado da Bahia (SEPLAN), Ministério da Integração (MI), Agência Nacional das Águas (ANA), CBHSF, CODEVASF, DNOCS, Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (INEMA), Comissão Pastoral da Terra e o Grupo GeografAr.

No site do IBGE foram coletados dados dos municípios pesquisados, referentes ao Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), à Produção Agrícola Municipal, a Censos Agropecuários a partir da década de 1970. Na SEI foram coletados dados socioeconômicos dos municípios que integram a região do Submédio São Francisco. Na SEAGRI obtivemos informação sobre os Territórios da Cidadania. Os investimentos em infraestrutura hídrica na região Nordeste foram coletados junto ao Ministério da Integração Nacional, CODEVASF e DNOCS, com ênfase na construção de perímetros irrigados. Informações socioeconômicas da área da Bacia do São Francisco foram levantadas através da ANA e do CBHSF. No tocante aos aspectos socioeconômicos da bacia do rio Salitre, a coleta de dados foi feita através do INEMA. Os conflitos sobre terra foram coletados junto aos Cadernos de Conflitos no Campo, publicados anualmente pela CPT (sequência 1990-2013). Os dados sobre os conflitos pela água passaram a ser registrados pela CPT a partir de 2002. Recorreu-se também a fontes

56 Na edição realizada em 2013, a Feira gerou mais de R$5 milhões em negócios (comercialização de

documentais particulares e ao Cartório de Tabelionato do município de Xique-Xique, para verificar a cadeia sucessória das terras desapropriadas para a implantação do Projeto de Irrigação Baixio de Irecê.

Durante os trabalhos de campo, além das entrevistas fizemos o registro fotográfico das paisagens e dos sujeitos, sendo a fotografia muito utilizada na Geografia para subsidiar as análises e as interpretações dos fenômenos e/ou processos. Para Mansur (2008, p. 406) fotografar “é eternizar os momentos para que as próximas gerações possam olhar, sentir e aprender, com aqueles registros, o que hoje estamos construindo”. As fotografias são utilizadas nesse trabalho com dois propósitos básicos: primeiro, mostrar a força e os desdobramentos do poder vigente, suas tramas e urdiduras; segundo, ressaltar as imagens da resistência do campesinato no Semiárido baiano, pois “ao mostrar a invasão na cultura, os costumes, a tradição, enfim a vida de um povo, essas imagens geram memórias e cultivam a pedagogia da resistência” (MANSUR, 2008, p. 406).

Ao registrar aspectos do cotidiano da lida camponesa, seus momentos de organização e luta, propusemos renovar a imagem da cultura camponesa, como forma de enfrentamento à repaginação do agronegócio e sua linguagem ideológica. Ao fotografar os símbolos e signos do progresso e do desenvolvimento – projetos desenvolvimentistas – no Semiárido baiano, nosso intuito foi desvelar o caráter concentrador, excludente e expropriatório, próprio do agrohidronegócio e sua cadeia ideológica. Ainda sobre o papel da fotografia para a compreensão dos fenômenos investigados no âmbito da Geografia, Justiniano (2005, p. 187) destaca que a imagem

ilustra e documenta eventos naturais e sociais que ocorrem num determinado tempo e lugar e deve ser acompanhada de outras informações, com localizações geográficas, ângulo de visada, registro de hora e da data e relato do fato observado. Essas anotações serão importantes na composição dos trabalhos, na verificação de resultados e no acompanhamento dos fenômenos ao longo do tempo.

Essa escolha metodológica parte do pressuposto de indissociabilidade entre o comprometimento do pesquisador com o fenômeno/sujeito pesquisado, conforme destaca Mendonça (2004, p. 54):

A escolha teórico-metodológica é eivada de significados, de trajetórias, de posicionamentos políticos. Qualquer interpretação e/ou análise espacial exige o nível de comprometimento social do pesquisador. A prioridade a determinadas categorias, as formas de construir o texto e a maneira de ver o papel da ciência geográfica são modos de dizer como pensam ‘as coisas do espaço’, e a possibilidade de alterá-las está diretamente relacionada à escolha metodológica que

não é aleatória ou espontânea, mas, sim, política e social.

Os produtos cartográficos apresentados para localização, espacialização e mapeamento de dados da área da pesquisa do Semiárido e do estado da Bahia foram elaborados a partir de cartas-base do IBGE, da ANA e de imagens de satélite LANDSAT 5 (Land Remote Sensing Satellite) e seu TM (Thematic Mapper). A metodologia associada às técnicas de pesquisa permitiu elucidar como o agrohidronegócio “territorializa” o Semiárido baiano, desencadeando profundas metamorfoses sociais, econômicas e políticas bem como conflitos entre camponeses, o Estado e o grande capital. Ao reconhecer a validade do pensamento de Santos (2008b) quando este concebe o espaço como resultado da acumulação desigual de tempos, buscamos capturar, através das entrevistas, da História Oral e das observações diretas, o movimento constante de (re)configuração dos territórios, cuja essência são as ricas relações sociais e de trabalho, assim como os saberes-fazeres em seu devir ininterrupto, ora desigual ora combinado, forjados no contexto da luta de classes e em diferentes espaço-temporalidades.

O “eu estava lá, escrevo daqui” (GEERTZ, 1989) teve como propósito captar as sensações, as imagens, os medos, os sonhos e as texturas (e tecelagem) das contradições em que estão imersos os pesquisados, de modo que pudéssemos arregimentar informações necessárias à compreensão das sutis evidências dos (des)encontros de vida, dos saberes-fazeres, das formas regressivas do sistema sociometabólico do capital, materializadas no Semiárido baiano, território secularmente ocupado por sujeitos com características heterogêneas e com hábitos/costumes distintos, na desconfortável fronteira entre “modernidade/progresso” e as práticas tradicionais.

CAPÍTULO II

POLÍTICAS PÚBLICAS DE IRRIGAÇÃO E A GEOGRAFIA DO

Benzer Belgeler