Org.: DOURADO, J. A. L., 2013.
Elab.: HOLANDA, E. P.
Ressaltamos que a pesquisa tem como categoria central o território, por entender que a análise geográfica da dinâmica do agrohidronegócio está condicionada às relações de poder e aos conflitos de classe estabelecidos entre os sujeitos sociais envolvidos.
Território38 aqui entendido a partir das relações de poder estabelecidas entre os sujeitos sociais, ou seja, as “geometrias do poder”, como definidas por Haesbaert (2009, p. 143), constituindo-se o resultado da (i)materialidade e multidimensionalidade decorrentes da trama de relações em múltiplas escalas. Santos (2000) traz um conceito sobre território que facilita o aprofundamento sobre as disputas travadas no Semiárido baiano entre os camponeses, o Estado e o grande capital, a partir da concepção de “território usado”, ou seja, o território
não é apenas o resultado da superposição de um conjunto de sistemas naturais e um conjunto de sistemas de coisas criadas pelo homem. O território é o chão e mais a população, isto é, uma identidade, o fato e o sentido de pertencer àquilo que nos pertence. O território é a base do trabalho, da residência, das trocas materiais e espirituais e da vida, sobre os quais ele influi. Quando se fala em território deve-se, pois, de logo, entender que se está falando em território usado, utilizado por uma dada população. (SANTOS, 2000, p. 96, grifo nosso).
De fato, a concepção de território usado torna possível a percepção das contradições e conflitualidades existentes a partir dos distintos modos de vida dos camponeses e da perspectiva do agrohidronegócio, no Semiárido baiano. Esse movimento inerente ao conceito de território é central em nossa análise do fenômeno de expansão do agrohidronegócio no Semiárido baiano, devido aos processos de territorialização-desterritorialização-reterritorialização (TDR)39. De acordo com as evidências levantadas durante as visitas às comunidades do Baixio de Irecê e do Salitre, é possível associar os processos de TDR a outro fenômeno, que denominamos de descampesinização-recampesinização. Estes possuem profunda relação entre si e com os projetos desenvolvimentistas implantados na região pelo Estado, expressando, sobremodo, o território como produto das relações de poder estabelecidas numa sociedade de classes. Para Oliveira (1988, p. 8), o território
deve ser entendido como síntese contraditória, como totalidade concreta do modo de produção/distribuição/circulação/consumo e suas articulações e mediações supraestruturais (políticas, ideológicas, simbólicas, etc.) onde o Estado desempenha a função de regulação. O território é assim, produto concreto da luta de classes travada pela sociedade no processo de produção de sua existência.
Para contemplar a discussão, foram selecionados autores que articulam a discussão sobre território com a questão agrária, tais como Montenegro Gómez (2008), Thomaz Junior (2008a, 2008b), Fernandes (2008a) e Paulino (2008). Ao se objetivar
38 Saquet (2013) faz uma revisão profunda sobre a construção do conceito de território, resgatando a
história da formação e significação deste conceito a partir de diferentes paradigmas.
conhecer a realidade, os aspectos estruturantes e as contradições de uma determinada fração do espaço geográfico, há que se considerar os elementos que lhes confere singularidade. Esse processo de elaboração do conhecimento é dialético e dialógico por sua própria natureza, porque requer uma constante mediação e um devir inesgotáveis de abstrações. Sobre isso, D’Incão (1975, p. 19) destaca que,
[...] se de um lado, cada conhecimento novo adquirido, como resultado do esforço conjugado de reflexão teórica e observação da realidade, exige uma nova volta à realidade observada, em busca de um conhecimento mais profundo da mesma; de outro lado, cada nova realidade percebida exige uma retomada do conhecimento, ao nível do concreto da referida realidade.
A diversidade de sujeitos, processos, labor, trabalho, conflitos e espaços abarcados pela pesquisa configura um desafio, porque representa, em sua gênese, a essência do Semiárido, com todos os cenários naturais e sociais, territórios de vida e de trabalho, cujas formas explícitas ou ocultas são essenciais para a construção do conhecimento. Entende-se aqui trabalho como “condição ontológica do ser social” (LUKÁCS, 2010), ou seja, o elemento fundante para o desenvolvimento do sujeito social em seu processo de hominização. Ao geograficizar as teias, tramas, urdiduras e contextos presentes no Semiárido baiano, verificamos não ser possível fazer uma análise homogeneizantedo espaço em decorrência de sua realidade conflituosa, devido à materialidade antagônica dos projetos em curso nessa região.
1.4 Os sujeitos da pesquisa: perspectivas híbridas
A escolha dos sujeitos não constitui uma tarefa das mais tranquilas porque requer maturidade para selecionar aqueles que, através das experiências cotidianas vividas, possam contribuir para a compreensão do fenômeno em análise, mediante o relato e a reconstituição dos múltiplos tempos e espaços entrelaçados na história das comunidades abrangidas pela pesquisa. Considerando o grande número de famílias que são, direta e indiretamente, influenciadas de algum modo pelos projetos de irrigação no Submédio São Francisco, bem como a dimensão geográfica da área pesquisada, optamos por selecionar os sujeitos-chave (camponeses desterritorializados, representantes de órgãos do governo, trabalhadores dos perímetros irrigados, acampados, assentados, lideranças do MST, representantes de ONGs) para compor o quadro de entrevistados. Assim, foram planejados três momentos de visitas à área da pesquisa para a coleta de dados, sendo necessário destacar a dinâmica complexa do
campo como um elemento de difícil apreensão, em virtude do movimento dos sujeitos que produzem e se apropriam dos territórios, os processos de desterritorialização em curso na região e as lutas travadas pelos camponeses e comunidades tradicionais em defesa dos territórios da vida. As visitas ao campo ocorreram em 2012, 2013 e 2014.
Mesmo sabendo da “facilidade”, da “economia” de tempo e de recursos financeiros que a utilização da internet representa, decidiu-se por não realizar entrevistas por email, por entender que o contato com os sujeitos possibilita um
feedback interessante, pois permite novos questionamentos, além da percepção das
emoções, desejos, sentimentos, angústias e aflições de quem fornece as informações. Essa decisão foi tomada por entendermos a necessidade de visualizar as contradições do espaço in loco e como forma de aproximação das pessoas a serem entrevistadas. Nessa perspectiva, corrobora-se Marafon (2009, p. 388) quando afirma que “uma das funções mais importantes dos trabalhos de campo é transformar as palavras, os conceitos em experiências, em acontecimentos reais para a concretização dos conteúdos”, por entender que o encontro com os sujeitos pesquisados é importante para a compreensão do fenômeno em análise.
Inicialmente a distância física entre os sujeitos pesquisados e o pesquisador foi um obstáculo a ser superado, para o qual contamos com a colaboração de diversos intermediários que permitiram o acesso e o contato com pessoas cujas vivências conferem movimento e vivacidade a esta pesquisa. Assim, o “estar lá, escrever daqui” foi tornando-se cada vez menos um problema para a execução da pesquisa. As impressões sobre o fenômeno em análise advêm tanto de quem escreve como de quem é descrito, tendo o pesquisador a preocupação em não apenas interpretar um problema, mas falar de dentro dele; falar dos e com os sujeitos, por acreditar que o pesquisador deve se assumir como “artesão, pertinaz, paciente, atento, sensível e, ao mesmo tempo, [...] zelador do consórcio entre teoria e prática” (OLIVEIRA, 1998, p. 20).
A escolha dos sujeitos a serem entrevistados obedeceu a alguns critérios, de modo que as informações obtidas fossem fidedignas à realidade, podendo dessa forma serem analisadas com profundidade. A primeira imersão a campo nos revelou uma problemática interessante: como classificar sujeitos tão híbridos? Essa difícil tarefa exigiu um trabalho silente e atento para não relativizar a figura dos pesquisados, submetendo-os ao autoritarismo de uma caracterização a priori. Por não possuírem características homogêneas, cabe-nos a responsabilidade de informar sobre quais camponeses tratamos nessa pesquisa, pois o termo “camponês” pode não elucidar a
complexidade própria dos sujeitos aos quais nos referimos. Estes sujeitos se reconhecem como camponeses, pescadores, quilombolas, assentados, acampados, posseiros, fundos de pasto40, diaristas, possuindo múltiplas identidades territoriais e laborais, dependendo do tempo e do lugar.
Adotando os mesmos critérios de seleção, nos municípios-referência, para a coleta de dados, selecionamos os seguintes sujeitos (Fluxograma 2):