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3. Araştırmanın Kapsamı ve Sınırlılıkları

3.9. BULGULAR VE YORUM

3.9.9. Yedinci Hipoteze İlişkin Bulgular ve Yorumlar

Ao propor a implantação dos Consultórios de Rua, o Ministério da Saúde inspirou-se na experiência desenvolvida na cidade de Salvador (BA) pelo CETAD. Este, por sua vez, afirma Antonio Nery, tomou a experiência dos Médicos do Mundo desenvolvida em Paris (França) como modelo que orientou a criação do Consultório de Rua.

O Banco de Rua, criado em 1989, foi o embrião do futuro Consultório de Rua e visava a “conhecer o universo simbólico e afetivo dessa população [de meninos e meninas de/na rua] em condição de vulnerabilidade social, em uso de substâncias psicoativas e que não chegavam

aos serviços de saúde, incluindo o CETAD”. (FILHO et al, 2012, p. 26). O Consultório de

Rua, por sua vez, assume a responsabilidade de levar a saúde aos que se encontram vulneráveis pelo consumo e pela situação de vida na rua, ou seja, alcançar os que não acessam as redes. FILHO et al (2012, p. 27) afirma a esse respeito que:

Nós íamos encontrar essas pessoas. A lógica da rua é a seguinte: se Maomé não vai à montanha, a montanha vai a Maomé. Se os meninos e meninas, os adolescentes e os familiares excluídos não vêm ao centro [CETAD], porque não sabem ou porque não têm dinheiro, ou porque não podem, ou porque não querem, ou porque têm medo; por que a gente não vai até eles? Tendo em vista que tudo que estas pessoas querem é um encontro com alguém que não diga que eles são ruins, nem bons; que eles não são malucos e que a sua história tem valor. [...] ir até onde estão os que não podem vir. Essa era a ideia. Precisávamos ir até onde eles estavam, porque eles não tinham a possibilidade de vir até onde nós estávamos. Tratava-se de dar atenção a pessoas “de” e “na” rua, em função do consumo de drogas e para tratar das questões relacionadas às drogas, à vida, à saúde, à doença, à morte e à sua família.

Essa concepção, afirmam FILHO et al (2012), orienta o trabalho desde o início e marca uma diferença em relação à pratica dos muitos grupos que atuam junto aos invisíveis sociais e cujo trabalho orienta-se pela tríade: assistencialismo/religião/marginalização, e, portando um saber sobre os sujeitos e sua condição, não conseguem ir além da nomeação prévia e preconceituosa, restringindo o encontro à distribuição de benefícios, ao exercício da caridade, a intervenções higienistas e policialescas, ou ainda à combinação de todas essas lógicas.Os autores afirmam que a diferença de posição do Consultório de Rua favoreceu o laço transferencial, dando sustentação ao trabalho.

A inserção da redução de danos no Consultório de Rua orienta-se pela clínica, reduzindo danos e riscos a partir do encontro.

Quando o consultório de rua vai à rua, e algumas pessoas dizem: vocês nunca mais vieram aqui; vocês estão fazendo falta [...] essas frases dizem que alguém não tinha um interlocutor, passou a ter e reconhece esse interlocutor (FILHO et al, 2012, p. 30).

Dispositivo clínico inserido na rede de atenção psicossocial que, ao realizar o deslocamento do espaço protegido e fechado das instituições ao mundo aberto, disperso e plural das ruas, conduz a saúde ao exercício de uma clínica a céu aberto, desprotegida, disponível e confrontada por questões que transcendem as ideias de doença, mas, na qual, a dor se faz presente. Acima de tudo, destacam Filho et al (2012, p. 30), aprende-se a ler e a reconhecer o ato de se drogar como “um ato humano portador de um sentido na vida dessas pessoas”. O decidido encontro da Reforma Psiquiátrica com os usuários e o mundo das drogas, possibilitado pela criação dos Consultórios de Rua, inseriu a saúde em territórios nos quais a

presença do Estado resumia-se à atuação dos aparelhos repressivos. A decisão de “ir a

campo”, até onde o povo está, exigiu e exige, a cada “campo”,a elaboração de um pensamento, de uma carta náutica para orientar a viagem e os encontros. Filho et al (2012) afirmam que o trabalho dos Consultórios de Rua orienta-se por princípios éticos, entre os quais se destacam o respeito ao sofrimento humano, a responsabilidade subjetiva pelos atos e o sentido das condutas.

Os princípios éticos mencionados acima coincidem com as diretrizes e pontos de orientação da rede propostas pela Reforma Psiquiátrica: o respeito aos direitos de cidadania e a busca do

consentimento com o tratamento. Fazer campo, “ir a campo” – expressão adotada de modo

recorrente pelas equipes de Consultório de Rua para definir seu trabalho –, implica em

sustentar uma clínica desinstitucionalizada, “fora da caixinha”.

Dentro desse contexto e com essas orientações foram implantadas as duas primeiras equipes de Consultórios de Rua em Belo Horizonte em fevereiro de 2011, numa parceria entre as Secretarias Municipais de Saúde e de Assistência Social. Importante destacar que naquele momento o poder público municipal criou um Grupo de Trabalho (GT), coordenado pela Secretaria Municipal de Políticas Sociais, para elaborar a política de álcool e drogas.

Atualmente os Consultórios de Rua são nomeados, pelo Ministério da Saúde, como Consultórios na Rua (PGM 122/2012). Ao institucionalizar esses dispositivos, o gestor federal do SUS os renomeou. A mudança, contudo, pelo enunciado da portaria,não se restringiu à

preposição, ocorrendo um deslocamento na inscrição destes no organograma da saúde e uma alteração de suas funções e objetivos.

Os Consultórios de Rua, antes dessa normativa, vinculavam-se à Área Temática da Saúde Mental, Álcool e Outras Drogas e foram, a partir dessa mudança, realocados na Atenção Básica, passando a se constituir e operar nos moldes da Estratégia de Saúde da Família e não mais como um dispositivo da Reforma Psiquiátrica voltado para a atenção a usuários de drogas em situação de rua, vivendo, portanto, um duplo processo de vulnerabilidade social.

As equipes de Consultório de Rua em Belo Horizonte – num total de quatro, atualmente:

Noroeste, Centro-Sul/Leste, Norte e Oeste –, seguem a inspiração inicial e permanecem

vinculadas à saúde mental. Assim como os demais dispositivos da rede, articulam-se tanto à atenção básica quanto aos serviços de urgência da cidade e aos dispositivos da assistência social, notadamente os Centros de Referência de Assistência Social (CRAS), os Centros de Referência Especializada de Assistência Social (CREAS), aos albergues, restaurantes populares, enfim, aos serviços disponibilizados pelas redes públicas. Esse é um modo de

inscrição que nos parece mais coerente e adequado ao registro institucional – no caso do MS –

dada a questão das drogas.

À época da implantação das equipes de Consultório de Rua – as duas primeiras,Noroeste e

Centro-Sul/Leste,foram implantadas em fevereiro de 2011 e as duas últimas, Norte e Oeste,

em março de 2012 –, a pesquisadora atuava na rede pública,coordenando a política de saúde

mental da cidade, e desse lugar acompanhou a criação desse dispositivo, respondendo ainda pela supervisão do trabalho das equipes e pela articulação com outros órgãos e com a sociedade civil.

Importante destacar que Belo Horizonte começa a implantar os primeiros substitutivos em 1993 e conta com uma rede complexa, composta por CERSAMs, CERSAMi, CERSAM-ad,

Serviços Residenciais Terapêuticos, Centros de Convivência, Incubadora de

Empreendimentos Econômicos e Solidários da Saúde Mental, Serviço Noturno de Urgência Psiquiátrica, Equipes Complementares de Atenção à Saúde Mental da Criança e do Adolescente, Arte da Saúde e profissionais de saúde mental na rede básica. Os Consultórios de Rua se inserem, então, nesse conjunto, na rede que

tece e possibilita um acontecimento novo na cultura, a inclusão da loucura na cidade e na cidadania [...] plural e decidida, a rede, pelo seu trabalho, compõe-se destes variados recursos e outros a serem inventados, no momento em que uma questão exigir uma solução ainda não existente. Uma rede, portanto, inconclusa e parcial que se expande para fazer

caber a todos, um de cada modo e vez, abrindo espaço para as singulares invenções de mundo, na mesma medida em que recusa a massificação e a ditadura do modelo único, a imposição da norma (ABOU-YD et al, 2008, p. 14).

As equipes de Consultório de Rua de Belo Horizonte são constituídas por um psicólogo, um enfermeiro, dois educadores sociais (assistentes sociais), um oficineiro (artista plástico ou artesão), um motorista e um redutor de danos. Este último não tem formação técnica em saúde, é um ex-usuário, com experiência em redução de danos e em trabalhos sociais, que, assim como o Agente Comunitário de Saúde, agrega, ao trabalho da equipe, além do saber extraído da experiência, o conhecimento do território e das estratégias, princípios e lógica da redução de danos, favorecendo a aproximação e o contato entre equipe e usuários.

Cada equipe conta com um veículo (uma van) adaptado e identificado com a mesma logo do uniforme dos técnicos, o qual, além de permitir o deslocamento da equipe pelo território, também é utilizado para conduzir usuários, sempre que necessário e quando não se trata de

uma urgência que demande cuidados durante o deslocamento – situações atendidas pelas

equipes do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) –, aos serviços das redes de

saúde e assistência social. Além disso, e, sobretudo, cumpre a sensível e importante função de recurso sinalizador e ponto de encontro.

Na van usuários e equipe se encontram, dialogam, planejam e realizam cuidados, projetos e atividades. A van é também endereço, a ela e a seus tripulantes são endereçados, muitas vezes, por outros usuários e pela comunidade, sujeitos em busca de cuidado.

Além desse recurso, as equipes dispunham, até 2012, de vale-transporte para fornecimento aos usuários para deslocamento a serviços públicos diversos, ingressos de cinema, material para oficina, além dos insumos da redução de danos, como preservativos, kit de higiene bucal, água destilada, água mineral, protetor labial, entre outros.

Os Consultórios de Rua foram implantados como dispositivos clínicos da rede de saúde mental com atuação junto a usuários de drogas que viviam em situação de dupla vulnerabilidade, decorrente do uso de substâncias ilícitas, como descrito anteriormente, e da situação de vida na rua. É nessa fronteira em que a droga encontra a exclusão social e a desfiliação mais radical que atua e intervém o Consultório de Rua, buscando fazer laço com os que se encontram mais apartados.

Seu percurso pelas ruas, em busca do encontro com os sujeitos que aí se fixaram, é também um percurso sinalizado por orientações que constituem o campo da saúde pública e da saúde

mental, pelo ideal da abstinência e pela fantasia de um mundo livre de drogas, como visto no capítulo precedente, num esforço de elaboração de pensamento que dialogue, critique e adote pressupostos e diretrizes vindas da tradição sanitária, da psicanálise, das orientações éticas e

políticas da luta antimanicomial, bem como– e para melhor intervir no “problema das drogas”

–da interlocução com o direito, a antropologia, a história, a sociologia e a política.