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3. Araştırmanın Kapsamı ve Sınırlılıkları

1.3. KUŞAKLAR ARASINDAKİ FARKLILIKLAR

1.3.3. İş Dünyasında Yaşanan Kuşak Çatışması

O encontro da redução de danos com a Reforma Psiquiátrica se dá, portanto, num contexto diverso do momento inaugural, em que já não são as drogas injetáveis e a epidemia de AIDS as preocupações centrais, mas o consumo de drogas, e, em especial, o consumo de crack e as novas cenas geradas em seu entorno percebido e apontado como crescente. Mas, sobretudo, e no plano terapêutico, esse encontro é atravessado pela presença e modelo de tratamento das chamadas comunidades terapêuticas.

As críticas à inclusão dessas instituições nas políticas públicas podem ser sintetizadas em três pontos: a incompatibilidade dada pelo caráter religioso que as orienta e confronta-se com o princípio de laicidade do Estado; a privatização dos serviços públicos, perspectiva que compromete a construção do Sistema Único de Saúde; e a adoção de métodos terapêuticos que violam direitos humanos recusados pela Reforma Psiquiátrica.

Cabe registrar que, no contexto de discussão acerca do consumo de crack no país, essas

instituições – em sua maioria privadas e de caráter religioso – foram incluídas pelo governo

federal na rede de atenção psicossocial, assim como nas políticas sustentadas pela Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas. Organizadas em federações, essas entidades mobilizam e recebem expressivo apoio legislativo em todos os níveis de governo, contam na Câmara Federal com uma Frente Parlamentar Mista de Defesa de seus interesses e recebem verbas públicas de diferentes órgãos e níveis de governo, mesmo em face de recorrentes denúncias de

práticas de violação de direitos humanos.26

Contrastando a proposta das comunidades terapêuticas, como descrito por Taniele Rui (2014), com o enunciado do Ministério da Saúde sobre os princípios da Redução de Danos e Reforma Psiquiátrica, pretendemos localizar os pontos de contradição apresentados.

Um dos princípios que orienta o tratamento ofertado por essas instituições fundamenta-se no pressuposto de que é preciso afastar o usuário de suas redes sociais, retirá-lo da vida e submetê-lo a um ambiente artificial e disciplinar. Ou seja, tratar volta a ser sinônimo de exclusão e segregação. Tal orientação contradiz a ética proposta pela luta antimanicomial e

26A esse respeito, consultar o site do Conselho Federal de Psicologia, o Observatório de Saúde Mental e Direitos Humanos, além do Relatório da IV Inspeção Nacional de Direitos Humanos, no mesmo site:<http://osm.org.br/osm/noticias/>.Ver também <http://saude-livre.blogspot.com.br/p/links-com-denuncias- de-maus-tratos-em.html> e <http://www.cressrj.org.br/download/arquivos/relatorio-ct-financiadas-pelo-gov-est- rj-junho-13.pdf>

assumida pela Reforma Psiquiátrica do cuidado em liberdade. Para a Reforma Psiquiátrica, tratar implica buscar e fortalecer os laços dos sujeitos, ampliando, e não restringindo, os recursos e as redes de suporte destes.

O afastamento do usuário de seu meio e do agente indutor de sua “doença” – a droga –, o

trabalho “terapêutico” e as orações reeditam o tratamento moral de Pinel e visam a alcançar a

abstinência e a normalização dos sujeitos, ou seja, sua adequação aos tipos morais socialmente aceitos. É importante destacar que, se tais princípios orientam o cotidiano do tratamento ofertado nessas instituições, enquanto discurso, fazem laço com a política de guerra às drogas e reproduzem sua lógica binária. Noutros termos: a abstinência inscreve-se do lado do bem, do não às drogas, e o uso, necessariamente, do lado do mal e do sim às drogas.

O discurso que orienta essa prática divide e organiza a percepção sobre as drogas em pares de opostos: adicto/abstinente, normal/patológico, dentro da lei/fora da lei; saúde/doença e bem/mal.

A metodologia de tratamento ignora as diferenças materiais e simbólicas entre as substâncias, o que parece estar em questão é o fato de que, uma vez adicta, a pessoa que entra em contato com qualquer droga desenvolve uma compulsão que a leva inexoravelmente ao vício (RUI, 2014, p. 97).

A metodologia dos 12 passos, ao lado das orações e do trabalho, são os recursos que compõem o arsenal terapêutico das comunidades terapêuticas. Dos 12, o primeiro passo, diz Taniele Rui (2014), é o mais importante. E, no percurso de tratamento, retorna-se, sempre, a

esse ponto, pois a entrada no tratamento, o primeiro passo, implica na admissão – pelo usuário

– de seu fracasso. É preciso que cada sujeito reconheça e rememore a perda de controle sobre a própria vida e sua impotência frente às drogas. O sentido desse retorno visa a:

Evocar o que internamente chamam de intolerável limiar da dor, isto é, o ponto final da destruição, da dor física, moral, da dignidade e da ética que torna possível aceitar o programa. Só com a dor é possível aceitar que o controle da vida foi perdido e que há a necessidade de ajuda [...] a partir desta lembrança é que o tratamento tem êxito, que as ideias de doença e de adição se concretizam e que se almeja a possibilidade de viver sem drogas (RUI, 2014, p. 100-101).

O Conselho Federal de Psicologia (2011, p. 190), no Relatório da IV Inspeção Nacional de Direitos Humanos, apontou esta contradição:

“O modo de tratar”, afirma o CFP, “visa forjar – como efeito ou cura da dependência – a construção de uma identidade culpada e inferior. Isto é, substitui-se a dependência química pela submissão a um ideal, mantendo submissos e inferiorizados os sujeitos tratados”.

Dênis Petuco (2010), Tadeu Souza e Sergio Resende Carvalho (2015) corroboram essa afirmativa e chamam a atenção para o que nomeiam como “discursos autorizados” sobre as drogas.

Só há dois discursos autorizados às pessoas que usam drogas: os discursos desesperados e os discursos heroicos. São estes os discursos que veremos transitar com liberdade em inúmeros contextos: nos depoimentos, nas entrevistas, nas reportagens, nas palestras, nos filmes sobre drogas. Os discursos desesperados nos falam da ausência de perspectiva, da busca por tratamento, do desejo de ser parado por algo externo, já que a pessoa diz-se impotente diante de sua própria vontade; já os discursos heroicos nos falam do vitorioso, daquele que derrotou as drogas, que superou a própria vontade (PETUCO, 2010, p. 91). Tadeu Sousa e Sergio Carvalho (2015, p. 217) complementam.

No regime de criminalização e de condenação moral dos usuários de drogas, estes, quando convocados a falar, são sempre na condição de culpados e arrependidos, sendo o primeiro passo o reconhecimento da doença e o segundo a busca da cura. São convocados a falar somente na condição de doentes, sejam ex-usuários ou candidatos a ex-usuários. Uma segunda possibilidade seria falar na condição de réu ou criminoso. [...] a perspectiva dos usuários de drogas que vivem a usá-las, nunca pode ser tomada como um discurso politicamente válido.

Com perspectiva distinta, mas articulada à apontada acima, Vargas (2001) nos provoca a pensar a diferença entre os discursos dos especialistas em drogas e os discursos dos usuários.

De maneira geral, os especialistas operam com as ideias de erro, falta ou “fraqueza física e/ou

moral, psíquica e/ou cultural, política e/ou social”(VARGAS, p. 3, 2006) e, ao insistirem nas

questões do porquê do uso ou qual seu significado, não conseguem captar a dimensão da experiência que os usuários realizam com tais substâncias.

O porquê ou o uso de drogas são regularmente imputados a uma falta ou fraqueza [...] habituamo-nos a pensar que o consumo de drogas seria uma resposta a uma crise ou a uma carência qualquer: consomem-se drogas porque faltam saúde, afeto, cultura, religião, escola, informação, dinheiro, família, trabalho, razão, consciência, liberdade etc. [...] (VARGAS, 2006, p. 3).

Do lado dos usuários, as questões postas se articulam em torno da experiência e seus efeitos. Ao apontar tais diferenças, o autor não está propondo a simples troca de sinal entre as percepções ou perguntas, ou seja, não se trata de afirmar como positiva e acertada a perspectiva dos usuários em contraponto com a dos especialistas, mas de buscar ir além do modo habitual de abordagem da questão, previamente qualificado no campo do erro, para formular perguntas que possam se aproximar da experiência e alcançar a singularidade de um modo de uso, o prazer que proporciona e os riscos que comporta.

Um tratamento que só encontra possibilidade fora do laço, no esvaziamento do discurso do sujeito e na objetificação da experiência na categoria da doença, pontos de síntese da terapêutica moral e religiosa, aproximam as concepções do modelo de tratamento das comunidades terapêuticas com a lógica manicomial.

Foucault (1987) nos alerta que a grande internação – fato decisivo na posterior constituição do

manicômio – sintetiza uma nova percepção da miséria, e, de modo obscuro, é uma punição a

esta, no momento em que a caridade torna-se laica – um problema de Estado respondido pela

polícia. Operando com a mesma lógica punitiva e segregativa, o manicômio dos drogados – as

comunidades terapêuticas –sacralizam e privatizam a assistência pública, em nome do

imperativo moral da abstinência às drogas.

O estereótipo do consumidor/doente traduz, para a experiência da adição, a redução antes operada pelo saber técnico-científico em relação à loucura.

Abstinência como meta, dependente químico como diagnóstico e internação compulsória como medida são acionados como um círculo vicioso que individualiza o fracasso e, ao mesmo tempo, possibilita uma intervenção de corte populacional, um regime de saber- poder-subjetivação que é simultaneamente individualizante e totalizador: uma biopolítica sobre as drogas (SOUZA; CARVALHO, 2015, p. 224).

Pode-se afirmar, portanto, que o tratamento proposto pelas comunidades terapêuticas visa não o alívio da dor, mas sua agudização. Localiza-se, então, outro ponto de contraposição entre a lógica das comunidades terapêuticas e a orientação proposta pelo SUS e pela Reforma Psiquiátrica, qual seja: o tratamento visa a ampliar os espaços de liberdade e defender a vida, e não normalizar e adequar os sujeitos a um padrão de vida e modelo de homem ou cidadão. E mais grave: uma terapêutica que produz aumento do sofrimento não trata. Mas, tortura. E assim contraria o princípio hipocrático do primum non nocere (em primeiro lugar, não cause dano) e viola direitos.Ademais, para a Reforma Psiquiátrica vale a máxima: trata-se para fazer caber o singular no universal da cidadania.

[A redução de danos] reconhece cada usuário em suas singularidades, traça com ele estratégias que estão voltadas não para a abstinência como objetivo a ser alcançado, mas para a defesa de sua vida. [...] a redução de danos oferece-se como um método [...] que está vinculado à direção do tratamento e, aqui, tratar significa aumentar o grau de liberdade, de corresponsabilidade daquele que está se tratando (MS, 2004, p. 10-11).