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O Rio Xopotó, juntamente com o Rio dos Bagres, tem a maior parte de seu curso drenando a porção mais suavizada da área de estudo. Suas cabeceiras situam-se à montante da sede do município de São Geraldo, a uma altitude de aproximadamente 800 m, e sua confluência com o Rio Pomba se localiza próximo à sede do município de Dona Eusébia, a 220 m de altitude. Aproximadamente metade do vale do Rio Xopotó drena rochas do Complexo Mantiqueira. Pouco à montante da sede do município de Guidoval, a zona de falhas de empurrão que estabelece o contato entre o Complexo Juiz de Fora e o Complexo Mantiqueira é atravessada pelo canal. O baixo curso do canal, bem como sua confluência com o Rio Pomba, drena rochas da Megassequência Andrelândia.

Semelhante ao que ocorre com o Rio Paraopeba e o Ribeirão Ubá, o interflúvio que separa os afluentes do alto curso do Rio Xopotó dos cursos d’água pertencentes à bacia do Rio Doce encontra-se próximo à escarpa da Serra da Mantiqueira. Não há indícios, portanto, para supor a ocorrência recente de capturas fluviais pelo Rio Xopotó. Seu perfil longitudinal apresenta apenas um trecho encachoeirado passível de separar trechos do vale com dinâmicas fluviais independentes. Ainda assim, como observações de campo não corroboraram gêneses distintas

para porções do vale à montante e à jusante do trecho encachoeirado, os níveis deposicionais identificados em todo o vale podem ser relacionados.

Entretanto, a partir das características do vale, é possível discriminar 4 trechos de distribuição espacial distinta dos depósitos aluviais do Rio Xopotó: i) seu alto curso à montante da sede do município de São Geraldo, que apresenta vale bastante aberto logo à jusante da escarpa da Serra da Mantiqueira, cujas feições se diferenciam das encontradas nos demais canais em estudo em trechos análogos de seus vales, salvo a exceção do Rio dos Bagres; ii) trecho entre as sedes dos municípios de São Geraldo e de Visconde do Rio Branco, no qual são encontrados depósitos aluviais abandonados; iii) trecho entre a sede municipal de Visconde do Rio Branco e a passagem do canal para área de rochas da Megassequência Andrelândia, no qual o fundo do vale é aberto, com ampla planície de inundação sujeita a processo gradual de abandono horizontal e vertical; iv) baixo curso do canal, no qual o vale é mais estreito e onde a ocorrência de sequências poço-corredeira é mais frequente.

A disposição dos níveis aluviais abandonados (N2 e N3) nos quatro trechos do vale é apresentada na Figura 53, e os perfis-síntese das sequências deposicionais são apresentados na Figura 54.

Figura 53: Perfil longitudinal do Rio Xopotó e distribuição longitudinal dos níveis deposicionais aluviais 2 e 3

Figura 54: Perfis-síntese das sequências deposicionais dos níveis identificados no Rio Xopotó.

Trecho A do Rio Xopotó

À montante de São Geraldo, o vale do Rio Xopotó apresenta-se como um alvéolo, com feições semelhantes às de seus afluentes: fundo de vale amplo, com amplos depósitos de planície ou terraços, logo à jusante da escarpa da Serra da Mantiqueira (Figura 55).

Fundos de vale igualmente abertos não são verificados nos altos cursos dos demais canais em estudo, salvo a exceção, que será descrita posteriormente, do Rio dos Bagres.

O canal apresenta-se em fluxo normal ou corredeiras, ora sobre rocha, ora sobre alúvio. É, comumente, estreito (menos de 1 m de largura) e raso (cerca de 50 cm de profundidade, ou menos profundo). Nesse trecho, o vale apresenta planície ampla (N1) e amplo e espesso depósito de terraço (N2) (Figura 56).

117 Figura 56: Perfil transversal síntese do Trecho A do Rio Xopotó.

N2

O N2 é um terraço pareado, de expressiva amplitude. Seus depósitos são compostos por fácies basal de grânulos e pequenos seixos de quartzo, granito e gnaisse (tamanho médio de 2 cm), depositados sobre rocha (Figura 57). Os seixos são angulosos a subarredondados e suportados entre si, mas há abundância de matriz arenosa. Essa fácies basal tem espessura média de 50 cm e dista verticalmente, em média, 1,5 m da lâmina d’água. Em transição gradual, ocorre camada arenosa maciça, que estabelece transição também gradual com camada argilosa maciça. A espessura das camadas superiores é variável, alcançando os 5 m.

Figura 57: N2 do Trecho A do Rio Xopotó. Em A, N2 de margem direita. Em B, fácies de seixo entre os limites

tracejados.

N1

A planície desse trecho do Rio Xopotó apresenta topo nivelado com a lâmina d’água, não sendo visível, portanto, em perfil às margens do canal. É composta por sedimentos areno- siltosos (Figura 58).

Figura 58: N1 do Trecho A do Rio Xopotó. Em A, N1 amplo em ambas as margens, nivelado com a lâmina

d’água. Em B, visão em zoom do pequeno encaixamento da calha no N1. A seta amarela indica a direção do fluxo.

Trecho B do Rio Xopotó

À jusante de São Geraldo, o Rio Xopotó mantém ampla planície, que se apresenta em dois patamares (N1 e N2), indicando processo incipiente de abandono vertical do N2. Não são identificados depósitos de terraço nesse trecho do vale. O N2, já abandonado no trecho A, permanece sendo inundado no Trecho B, onde maiores vazões permitem o recobrimento desse nível deposicional em alguns episódios de inundação. Ocorre ainda, nesse trecho do vale, nível deposicional abandonado (N3), descaracterizado pro processos de coluvionamento (Figura 59).

120 Figura 59: Perfil transversal síntese do Trecho B do Rio Xopotó.

N3

O N3 é um nível deposicional pareado, de rara ocorrência nesse trecho fluvial e ausente em outros trechos. Foram encontrados apenas três depósitos relativos a este nível. A fácies basal dos depósitos apresenta seixos e matacões de quartzo mal selecionados e sem organização, assentados sobre elúvio. Os clastos atingem até 40 cm de comprimento, sendo subangulosos a arredondados e havendo uma tendência ao maior arredondamento dos matacões. A camada de seixos tem espessura média de 40 cm e sua base se localiza, em média, 14 m acima da lâmina d’água. Em transição abrupta com a fácies basal, tem-se camada areno-argilosa, vermelho-amarelada, de espessura variável entre os perfis encontrados. Não é possível confirmar que essa camada superior seja aluvial, uma vez que seu contexto na vertente favorece processos de erosão dos finos aluviais e de sobreposição de finos coluviais à camada basal de seixos (Figura 60).

Figura 60: N3 do Trecho B do Rio Xopotó. Em A, base eluvial do depósito sob a linha tracejada. Em B,

observar a ocorrência de matacões esparsos, como o indicado pela seta.

Dois dos três perfis do N3 encontrados se localizam no centro de Visconde do Rio Branco, em cortes realizados para construção civil. É possível, portanto, supor que este nível ocorra com maior abundância, pelo menos nesse trecho do vale, e que é a ausência de cortes nas vertentes que impossibilita sua identificação, uma vez que se trata de depósitos sem morfologia original e recobertos por vegetação.

N2

O N2 corresponde ao nível de planície já em processo de abandono vertical. Depósitos do N2 configuram suaves degraus no fundo de vale e seus topos distam cerca de 1 m do topo do N1, que responde às cheias mais frequentes do canal (Figura 61). Por sofrer agradação, mesmo que apenas em eventos esporádicos de inundação, não se trata de um terraço. Também não há, ainda, diferenciação estratigráfica entre os dois patamares de planície que indique o completo abandono do N2.

Figura 61: N2 e N1 do Trecho B do Rio Xopotó, com pequeno desnível entre ambos. Fundo de vale amplo.

N1

O N1 apresenta depósitos muito amplos em ambas as margens e em todo o Trecho B do vale. A sequência deposicional é composta por sedimentos areno-argilosos, ora maciços, ora com presença de estruturas planares e tem, em média, 3 m de espessura (Figura 61).

Trecho C do Rio Xopotó

À jusante de Visconde do Rio Branco, o vale do Rio Xopotó torna-se ainda mais pobre em depósitos fluviais: nenhum depósito referente ao N3 foi encontrado e o vale apresenta apenas planície (N1 e N2), ora muito ampla, ora mais estreita. As vertentes não apresentam indícios de antigos depósitos aluviais: mesmo os pacotes coluviais contêm seixos muito angulosos, não indicando retrabalhamento de sedimentos fluviais antigos (Figura 62). É nesse trecho do vale que se localiza a confluência do Rio dos Bagres e do Ribeirão Ubá. As características dos níveis de planície não diferem das observadas no Trecho B.

124 Figura 62: Perfil transversal síntese do Trecho C do Rio Xopotó.

Trecho D do Rio Xopotó

O Trecho D pode ser considerado comum a três vales em estudo: Ribeirão Ubá, Rio Xopotó e Rio dos Bagres. Nesse trecho, o vale apresenta-se mais encaixado e as sequências poço- corredeira são mais frequentes.

Não são identificados, nesse trecho do vale, níveis deposicionais aluviais abandonados: o fundo de vale é composto apenas pela planície (N1), comumente apresentando cerca de 2 m de espessura e estruturas planares (Figura 63). As vertentes são compostas por sedimentos coluviais, elúvio, ou rocha sã (Figura 64).

Figura 63: N1 do Trecho D do Rio Xopotó. Em A, sequência deposicional com ocorrência de estratificação

126 Figura 64: Perfil transversal síntese do Trecho D do Rio Xopotó.

Benzer Belgeler