Além da reflexão de uma plêiade de intelectuais negros no mundo, as biografias de
escravos contribuem para entender a dimensão do empreendimento de Zapata. O alufá
Rufino (2010) e O sacerdote Domingos Sodré (2008), de João José Reis, excelentes amostras do quanto podem dizer estas subjetividades para uma compreensão mais densa da humanidade dos escravizados. Subjetividades que fazem parte da tradição de autobiografias de escravizados escritas ao longo de século XIX, como fruto do acesso à
cultura letrada.37 Acesso que, como explica Eduardo Assis Duarte,
(ESCALANTE, 1954a); Memorias del odio (1953), e Rogerio Velásquez, relato sobre o último negro executado por fuzilamento na Colômbia, em 1907, Manuel Saturio Valencia, natural do departamento de Chocó. (VELÁSQUEZ, 1997). Sobre estes acontecimentos, Manuel Zapata escreverá nos anos 1970 o romance El fusilamiento del diablo, que antecedeu em 10 anos a Changó, el gran putas, embora só foi publicado depois deste (ZAPATA, 1986). El Chocó na independencia de Colombia (1965), Gentilicios africanos del occidente de Colombia (1962), trabalhos coletados num volume da Biblioteca de Literatura Afrocolombiana: Rogerio Velásquez, ensayos escogidos, compilação e prólogo de Germán Patiño, (VELÁSQUEZ, 2010); Outros trabalhos desse pioneiro dos estudos afrocolombianos estão coletados no livro, Fragmentos de historia, etnografía y narraciones del Pacífico negro (VELÁSQUEZ, 2000). De Roberto Arrázola, Palenque, primer pueblo libre de América (ARRÁZOLA, 1967). De Jorge Preciado, La trata de negros por Cartagena de Indias (PRECIADO, 1973). O historiador de Cartagena, Afonso Múnera, em seu livro Fronteras ima ginadas. La construcción de las razas y de la geografía en el siglo XIX colombiano, dedica um ensaio a esse tema: “Balance historiográfico de la esclavitud en Colombia. 1900- 1990” (MÚNERA, 2005).
36 Obras destes autores aparecem citadas em muitos de seus ensaios: Os condenados da terra , de Frantz Fanon
(FANON, 2001, [1961]); a Autobiografia de Malcolm X (MALCOLM, 1992 [1965]); Os Jacobinos negros, de C.L.R. James James (JAMES, 2000 [1938]); O Quilombismo, de Abdias do Nascimento, no qual estão reunidas as conferências apresentadas nos Congressos de Cultura Negra das Américas de Cali (1978), Panamá (1981) e São Paulo (NASCIMENTO, 1983).
37 Por exemplo, depoimentos escritos sobre a captura e a travessia de Ayayi, o iorubá, Olaudah Equiano, o
ibo, Ottabah Cugoano, o Fanti e o príncipe Zamba do Congo. Ou os escritos contra a escravidão e todas as lutas pela liberdade. Outros textos consultados: os escritos memorialísticos de Olaudah Equiano (1879); a autobiografia de Frederick Douglas (1845); as memórias de Mahommah Gardo Baquaqua e o livro de Solomon Nortthup, Twelve Years a Slave (12 anos de escravidão) (NORTHUP, 20149, levado ao cinema há
Dessas falas, por vezes isoladas, à constituição de uma literatura, muitos foram os caminhos e muitas as pedras. Tal processo incluiu a paulatina aquisição do letramento, da escritura, e da cidadania, com o fim da escravização. [...] Do ímpeto autobiográfico à oratória, ao poema, ao drama, à ficção, o negro sempre falou. E o fez majoritariamente nas línguas dos colonizadores, que aprendeu e, até, rasurou, para emprestar a elas entonações, ritmos, sentidos e, mesmo, vocábulos novos. (DUARTE, 2011, 15, Tomo I).
Como observa Assis Duarte na sua excelente antologia preparada para o caso da literatura afro-brasileira demonstra, já existem importantes tradições literárias nos diversos
territórios do Atlântico negro. Para a perspectiva que aqui interessa, Beloved, de Toni
Morrison resgata muito da subjetividade destes seres invisibilizados; está inspirado na história de Margaret Garner, uma mãe escravizada obrigada a cometer matricídio em 1896. Essa ficção proporciona centralidade ao drama da escrava Seth, às forças que se debatem em seu espírito, ao mesmo tempo em que recria o mundo dos escravos sob o opressivo regime racista dos Estados Unidos do século XIX. Como explica Gilroy,
A história de Garner ilustra mais do que apenas o poder indômito dos escravos de afirmar sua iniciativa humana em circunstâncias extremamente restritas. Na versão de Morrison, ela sintetiza o confronto entre dois sistemas culturais e ideológicos, opostos mais independentes, e suas respectivas concepções de razão, história, propriedade e parentesco. Um é um produto diluído da África, o outro, uma expressão antinômica da modernidade ocidental. [...] O desejo de regressar à escravidão e explorá-la na literatura imaginativa ofereceu a Morrison e a muitos outros escritores negros contemporâneos um meio de reencenar confrontos entre o pensamento racional, científico e iluminista euro-americano e a perspectiva supostamente primitiva dos escravos africanos pré-históricos, incultos e bárbaros. (GILROY, 2012, 409)
Estas confrontações assinaladas por Gilroy são recriadas na obra do romancista
nigeriano Chinua Achebe, Todo se desmorona, publicada em 1958, "o primeiro romance
escrito em inglês a contar a intimidade de um personagem africano, mais do que retratá-lo como um ser exótico, tal como nos viam os homens brancos", lembra seu compatriota, o ganhador do prêmio Nobel Wole Soyinka, sobre o aparecimento do romance africano mais
poucos anos. Coletados em La voz de los esclavizados (MCD BECKLES e SHEPHERD, sf.). Outro texto é o do cubano Juan Francisco Manzano, Autobiografía de un esclavo (MANZANO, 1972).
lido de todos os tempos e uma referência essencial para os estudos pós-coloniais. Achebe realiza um exercício de contraescritura ao dialogar com a escrita sobre a África escrita por europeus. Assim confrontou a desumanização da África e dos africanos que promoveu e continua promovendo a imaginação ocidental através de uma neblina de distorções e mistificações baratas, como afirma o romancista nigeriano em sua contundente análise de
O coração das trevas (1986) de Joseph Conrad (ACHEBE, 2014, 13-25). Sem desmerecer literariamente o romance em questão, Achebe demonstra a disposição racista de Conrad na narrativa e sua incapacidade de conceder humanidade aos africanos nessa viagem ao interior do Congo. Diante da sobrevalorização do romance de Conrad, o questionamento de Achebe é muito profundo:
Ninguém foi capaz de ver a perversa e ridícula arrogância que permite reduzir África a um adereço teatral no qual se pode situar o transtorno mental de um minúsculo indivíduo europeu? […] O coração das trevas exibe da maneira mais vulgar preconceitos e insultos que fizeram uma parte da humanidade sofrer agonias e atrocidades incontáveis no passado e continuam fazendo isto hoje em dia em muitos lugares e de muitas formas […] uma história na qual se questiona a própria humanidade dos negros. […] Nos últimos quatro ou cinco séculos de contato europeu com a África foi produzido um corpus de literatura que apresenta a África sob uma luz muito ruim e os africanos em termos muito abusivos. A razão disto tem a ver com a necessidade de justificar o tráfico de escravos e a escravidão. (ACHEBE, 2014, 13-25).
Redução que se reproduz do continente africano para sua diáspora no mundo e apesar de toda a invisibilização, exclusão e racismo, sempre houve resistência e uma capacidade infinita de adaptação e criatividade com uma força imponente, com um lugar e relevância em todos os territórios do chamado mundo Atlântico. A história da África continua enfrentando, apesar do significativo terreno conquistado, uma forte carga de violência epistêmica, herança da historiografia colonial. As omissões, os esquecimentos, as ausências, as manipulações e os estereótipos, que provêm da distorção e negação da historicidade da humanidade africana, impedem um diálogo frutífero sobre as representações do continente, uma tarefa à qual intelectuais como Chinua Achebe (1930- 2013), Léopold Sédar Senghor (1901-2006), Wole Soyinka (1934), Cheikh Anta Diop (1923-1986), entre muitos outros, dedicaram tremendos esforços, às vezes em diálogo com seus pares na América. Processos que mal começam a ser levados em consideração na
história intelectual do continente.38 Perspectiva fundamental para o estudo e avaliação do
papel da diáspora africana nas Américas, da qual fez parte Manuel Zapata com contribuições à essa grande corrente intelectual descolonizadora e reivindicativa da
humanidade de um continente, suas culturas, suas civilizações. Changó se inscreve nessa
grande corrente em seu propósito de desfazer o ultraje da negação do outro, de resgatar o
mundo subjetivo desse outro.
Tanto na tradição norte-americana, como na caribenha, na colombiana e na brasileira, entre outras tantas, foi-se urdindo uma expressão dessa humanidade africana que chegou às novas terras. Chinua Achebe, diante do enorme desafio de resgatar essa
humanidade desconhecida, concebia a literatura como instrumento de provocação: “Os
contadores de histórias são uma ameaça. Intimidam os campeões da autoridade e os
usurpadores da liberdade”. Uma visão compartilhada por muitos romancistas e poetas em
ambos os lados do Atlântico.39 Todos ocuparam criativamente com suas obras o espaço
vazio da tradição literária e da distorção na visão eurocêntrica. Em cada tradição nacional, suas obras respondem à omissão das experiências dos negros no ideário literário e propõem uma retificação do papel de um legado cultural destruído, por meio de narrativas baseadas nos códigos linguísticos e culturais que sobreviveram nas experiências reais e imaginárias das comunidades tanto no passado como no presente. Todas exibem o que Jerome Branche
denomina “uma ética malunga de empatia e solidariedade trans-histórica”:
Inevitavelmente o valor destas narrativas reside em seu poder de criar e participar de estruturas de memória e alteridade em tensão crítica com as narrativas dominantes e histórias oficiais. Formam um baluarte contra o esquecimento, e tomam uma posição forte contra injustiças passadas e presentes. Seu objetivo essencial, como no caso dos antigos negros fugidos (cimarrones), repousa na aquisição de mais liberdade. (BRANCHE, 2009, p. 47).
38 Para a compreensão do pensamento africano é muito esclarecedora a reconstrução das redes intelectuais
estabelecidas pelo filósofo chileno Eduardo Devés Valdés em seu livro El pensamiento africano Sudsahariano. Desde mediados del siglo XIX hasta la actualidad (DEVÉS, 2011). Buenos Aires: Editorial Biblos, 2011. Também a coleção de ensaios organizada por Emmanuel Chukwudi Eze, Pensamiento africano. Cultura y sociedad. (CHUKWUDI, 2005).
39 A obra de romancistas e poetas como Toni Morrison, Wole Soyinka, Aimé Cesaire, Chinua Achebe, Maryse
Condé, Roberto Burgos Cantor, Ana Maria Gonçalves, mundos e horizontes nos quais se emoldura a obra de Manuel Zapata. Leituras realizadas em meu curso de literatura afro-americana na Universidad del Vale, que sem dúvida, conscientemente ou não, animam a perspectiva analítica deste trabalho.
Para o resgate dessa humanidade desconhecida foi decisiva a monumental História geral da África (2010), publicada pela Unesco. Um projeto coletivo no qual, pela primeira vez, se faz a história do continente por dentro, contribuição definitiva para a corrente descolonizadora e para o reconhecimento da enorme contribuição dos africanos à humanidade. Um empenho para o qual confluíram as diversas disciplinas das ciências humanas e sociais e correntes de pensamento como os estudos pós-coloniais (BHABHA, 2002). Os capítulos dedicados à diáspora e ao tráfico negreiro no volume V sistematizam muito bem a mudança de paradigma que temos destacado, e servem para a compreensão
desse fenômeno que “do ponto de vista da história mundial, o comércio de exportação de
escravos africanos, especificamente no quadro do tráfico transatlântico, representa, sob
vários aspectos, um fenômeno único” (UNESCO-HGA Volume V, 2010, 92).
Como mencionado acima, Changó é fruto do processo criativo de maturidade de
Zapata Olivella, depois de uma longa trajetória intelectual e narrativa,40 até alcançar um
código de representação – daquilo o que seu mestre e amigo Rogelio Velásquez denominou
negredumbre–41 tema de fundo que lhe permitiu integrar toda a metafísica, a ontologia que
cruza e ordena a cosmovisão do romance.42 E assim como em Os lusíadas de Camões e A
divina comédia de Dante, Changó conta a epopeia dos negros escravizados e desdobra as profundidades espantosas das suas intimidades, de toda essa subjetividade que tanto proporcionou à modernidade ocidental. Como conta Zapata em suas memórias, escrever
Changó foi uma longa viagem imaginária e uma peregrinação pelos passos reais da diáspora, além de uma atividade de escrutínio em todo tipo de fontes e bibliotecas do mundo para realizar essa grandiosa tarefa de desvelamento da tragédia do homem negro na máquina de martírio chamada escravidão.
40 O livro do pesquisador Antonio Tillis, Manuel Zapata Olivella e o “escurecimento” da literatura latino-
americana (TILLIS, 2012) oferece um panorama muito completo da evolução da obra desde Tierra Mojada (1942) até Changó, el gran putas (1983). Assim como o livro de Yvonne Captain-Hidalgo, The culture of fiction in the Works of Manuel Zapata Olivella (CAPTAIN-HIDALGO, 1993).
41 Este conceito é muito próximo ao da negritude franco-antilhana de Aimé Cesaire, Léopold Sédar Senghor
e León G. Dantas. Parte da vasta produção de pesquisa de Rogerio Velásquez está reunida em dois livros: Ensayos escogidos de Rogerio Velásquez (VELÁSQUEZ, 2010) e Fragmentos de historia etnografía del Pacífico colombiano (VELÁSQUEZ, 2000).
42 Nesta perspectiva, o estudioso da obra de Zapata, William Mina traz uma boa contribuição em seus livros:
Manuel Zapata Olivella: pensador y humanista (MINA, 2006) e Manuel Zapata Olivella: humanista afrodiaspórico (MINA, 2014a).
A noção de negredumbre foi uma contribuição conceitual do antropólogo do departamento de Chocó, Colômbia, Rogerio Velásquez para os estudos das culturas de matriz africana da costa do Pacífico da Colômbia, suas complexidades e toda a
ancestralidade africana conservada e modificada nessa “negritude coletiva” expressa em
suas músicas, tradição oral, formas organizativas, de ocupação territorial, de falar o castelhano, suas crenças e rituais religiosos. Espectro simbólico e imaginário que, assim como Rogerio, Manuel Zapata tornou objeto de suas pesquisas e cuja conceituação foi enriquecendo com a ajuda de muitas disciplinas das ciências sociais e humanas, sobretudo da antropologia, da etnografia e da sociologia. Categoria que, como assevera José Antonio Caicedo Ortiz:
não é um simples recurso linguístico ou metafórico, mas sim o produto da sua abstração analítica por meio da qual definiu os traços das culturas negras em seus vínculos comunitários, com suas adaptações, sua reinvenção e as resistências reconstruídas das origens africanas. (CAICEDO, 2013: 451).
Este enfoque conceitual foi aproveitado por Zapata, que o redimensiona colocando- o dentro de uma perspectiva afrodiaspórica, como visão própria do processo de chegada dos africanos escravizados ao novo continente. Sem dúvida, a participação ativa de Zapata nos movimentos pan-africanistas, com os quais manteve contato desde a sua primeira viagem ao Harlem em 1946, foi vital para essa compreensão da história dos negros na América, tanto para sua a atividade de pesquisa como para a escrita da sua obra de criação. No Harlem, teve abordagens vivenciais e intelectuais definitivas para toda sua vida. De lá
trouxe suas primeiras narrativas, um livro de crônicas e uma peça teatral.43
Animado por tudo o que aprendeu na América Central, no México e nos Estados Unidos, regressa à sua peregrinação pela Colômbia como pesquisador de suas realidades sociais e históricas e de suas expressões culturais. Nesses percursos, foi pouco a pouco desentranhando-se a trama racial do país, suas tensões e todas as exclusões das quais foram objetos as populações autóctones e negras por parte das elites brancas. Este esforço de pesquisa levou Zapata Olivella a propor a tripla conformação étnica da Colômbia, o que
para ele implicava o reconhecimento em pé de igualdade – em diálogo e tensão – das
43 Refiro-me ao seu primeiro romance, Tierra mojada, cujos originais o escritor peruano Ciro Alegría leu em
Nova York; ao livro de crônicas He visto la noche e à peça Hotel de Vagabundos que se passa em Nova York e na qual se condensam as experiências vividas na mencionada cidade.
vertentes indígena, negra e hispânica. Ideias muito próximas das desenvolvidas por seu contemporâneo e amigo nascido na Martinica, Édouard Glissant (GLISSANT, 1961,1990, 2002, 2005).
Não seria aqui o lugar para analisar a evolução das ideias de Zapata que o levaram a formular suas teses da trietnicidade, fruto em grande parte de seus trabalhos de campo sobre o folclore, a religiosidade e a configuração sociorracial da Colômbia e suas expressões culturais. Essas constatações empíricas serviram para que ele escrevesse ensaios nos quais recorre mais à metáfora e à intuição que às argumentações baseadas em aparatos empíricos, em particular os escritos nas décadas de 1960 e 1970, antes de escrever
Changó. Nesse sentido, como observa Alfonso Múnera, seu caso é semelhante ao de
autores como Aimé Césaire e Édouard Glissant.44 De Césaire, recebe primeiro a influência
do conceito da negritude como atitude afirmativa da condição e da contribuição dos africanos ao mundo, e anos depois, de Glissant, aluno de Césaire e que questionou alguns dos fundamentos da negritude, conceitos como a poética da relação, a poética da diversidade e da crioulização surgidas de suas reflexões sobre o Caribe, ao qual Glissant considerou sempre como um prefácio para o continente americano. Conceitos que Zapata elabora do seu jeito e em função de seus propósitos poéticos. É bom salientar, como aponta Múnera, o que isto significava para o pensamento colombiano:
No uso deliberado das categorias de “raça” para nomear conquistados e conquistadores e para associar os processos de diálogo e conflito cultural às lutas anticoloniais está uma das contribuições de Manuel para a análise da história colombiana do século XX. E revela, bem como no uso de outros conceitos e visões, sua maneira de situar-se numa tradição intelectual caribenha – e africana – que toma distância de uma história colombiana dominada pelas realidades próprias do mundo andino, relutante até aquele momento em utilizar as categorias raciais para explicar as dinâmicas de opressão, de colonialismo e, sobretudo, para refletir sobre o papel da cultura. (ZAPATA, 2010a: 35).
Há ainda certa ambiguidade nas primeiras tentativas de Zapata de pensar e criar novas imagens sobre a história colombiana. Alfonso Múnera anota muito bem:
Seu olhar do sujeito diaspórico, quer dizer, do africano que é forçado a abandonar
44 Múnera, historiador de Cartagena, Colômbia, faz uma interpretação da evolução das ideias de Zapata na
sua terra e a atravessar o Oceano Atlântico, move-se abruptamente entre a poderosa imagem que o revela acompanhado apenas por sua sombra – a totalidade do seu despojo– e sua ênfase nas contribuições criadoras, daquilo que o acompanha espiritual e intelectualmente, ou seja, de seu acervo cultural africano. (ZAPATA, 2010a: 36).
Às vezes, se sente essa tensão em seu olhar da cultura colombiana, por momentos exalta a mistura de culturas populares e outras a defesa da pureza ou autenticidade do nacional, com certo tom talvez herdado das velhas discussões marxistas sobre a penetração cultural imperialista. Era o clima daqueles anos de muita efervescência política e intelectual. Anos durante os quais Zapata participou ativamente nos movimentos das negritudes, liderados por Léopold Sédar Senghor e Césaire, nos quais a negritude transbordou o acento poético e romântico que o entusiasmou ao ponto de converter-se no ideário político-filosófico da descolonização.
Para encerrar a relação com Glissant, serve seu esclarecedor ensaio "Crioulizações no Caribe e nas Américas" (GLISSANT, 2005b, pp 13-39), que dialoga em profundidade com o pensamento de Zapata sobre os mesmos assuntos. Por exemplo, a sua tese sobre as três Américas, entre as quais não existem fronteiras e sim múltiplas e complexas imbricações. Segundo Glissant,
A primeira característica das Américas, ou seja, a divisão que podemos fazer das Américas – juntamente con Darcy Ribeiro no Brasil, e Emmanuel Bonfil no México, ou Ret Nettleflord na Jamaica – em três espécies de Américas: a América dos povos autóctones dos povos-testemunhas, ou seja que sempre lá estiveram e que definimos como Meso-América; a América daqueles que chegaram provenientes da Europa e que preservaram no novo continente seus usos e costumes, bem como as tradições de seus países de origem, que poderíamos chamar de Euro-América e que compreende, evidentemente, o Quebec, o Canadá, os Estados Unidos e uma parte (cultural) do Chile e da Argentina; a América que poderíamos chamar de Neo- América e que compreende a América que poderíamos chamar de Neo-América e que corresponde a América da crioulização. Essa América compreende o Caribe, o nordeste do Brasil, as Guianas e Curaçao, o sul dos Estados Unidos, a costa caribenha da Venezuela e da Colômbia, e uma grande parte da América Central e do México. (GLISSANT, 2005b,16)
Essa perspectiva já conta com uma vasta tradição nas pesquisas e interpretações dos processos de configuração das identidades nas Américas e o papel das diferentes culturas.
Não é propósito aqui nos ocuparmos do tema, mas assinalá-lo como o universo dentro do qual foi forjada a corrente intelectual da qual fez parte Manuel Zapata Olivella.
Zapata conviveu com a obra poética e ensaísta de Aimé Cesaire, em especial com sua reivindicação da negritude. Conceito complexo, com muitos usos e sentidos, gerador de polêmicas, embora tenha sido fundamental para os movimentos de afirmação da
identidade negra, como mostra Kabengele Munanga em Negritude: usos e sentidos.
(MUNANGA, 2012). Zapata Olivella assim definia o termo:
Negritude nas Américas tem ressonância de cadeia, porões, inquisição,