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Dost Dergisinin Kurucusu Salim Şengil (Salim Amca)

De Odumarê, criador do Universo, fonte de luz e escuridão, semente de vida e morte, provêm todos os deuses do panteão africano, que como os de outras cosmogonias, cada um simboliza um ou vários aspectos da vida e são protetores dos seres humanos. Em

Changó aparecem desempenhando seus papéis sobre o destino dos africanos que chegaram às Américas. Em primeiro lugar, Obatalá, orixá da criatividade, da clareza, da justiça e da sabedoria; Oduduá, primeira mulher mortal, orixá da Terra, esposa de Obatalá, com quem procriou Aganju e Iemanjá; Aganju, primeiro homem mortal, que com Iemanjá deu à luz a Orungan, que viola sua mãe, Iemanjá, a deusa das águas. Dessa relação incestuosa nascem os catorze orixás sagrados: Xangô, espírito da guerra e o trovão, do fogo e dos tambores; Iansã, padroeira da justiça que ajuda a fortalecer a memória; Obá, esposa de Xangô, protetora dos mineiros; Oxum, orixá do amor e do ouro, concubina de Xangô; Dadá, orixá da vida, protetora dos ventres fecundos, vigilante dos partos; Olokun, hermafrodita, combina o matriarcado e o patriarcado que regem os costumes dos ancestrais; Oxóssi, orixá das flechas e dos arcos, ajuda os caçadores a espreitar o cervo, vencer o tigre e escapar das serpentes; Okê, orixá das alturas e das montanhas; Orun, orixá do sol; Oxum, deusa das armadilhas do amor e concubina de Xangô; Ajê Salugá, orixá da boa sorte; Okô, orixá da semeadura e da colheita; Chankpana, senhor dos insetos, da proteção, lava as feridas dos

enfermos; Olossá, protetora dos pescadores, anuncia as tempestades e estiagens.15

15 Para facilitar a compreensão de seu romance, o próprio Zapata preparou um “Diário de bordo” que versa

sobre a mitologia e a história da África, glossário que está ao final e que é de grande utilidade. A literatura sobre estes temas é muito rica. Para quem se interesse, ver o texto já citado do próprio Zapata, El árbol brujo de la libertad, e o famoso livro da escritora cubana Lydia Cabrera, El monte (CABRERA, 1983).

Todo este santoral africano aparece no poema épico que desde o começo prefigura

o destino dos escravos africanos na Américas. Será o corá, espécie de harpa dos jograis

iorubás, que acompanhará o canto que narrará Ngafúa, que, invocando a voz de seu pai

Kissi-Kama e todos os seus ancestrais e os orixás sagrados, tem a missão “de cantar o exílio

do Muntu [...]. A história de Nagô / a trágica viagem do Muntu / ao continente exílio de

Xangô”. (ZAPATA, 2010, 41). Será um canto reparador sob a sombra dos ancestrais, um canto “para que o novo Muntu americano / renasça da dor/ saiba rir na angústia /

transformar em jogo as cinzas/ em faísca-sol as correntes de Xangô”. (ZAPATA, 2010,

45). Ngafúa é a voz onisciente que entre os vivos e os mortos, o passado, o presente e o

futuro, recordará uma história que esteve sob a proteção dos deuses aos quais sempre invoca. Tudo isto em consonância com o princípio filosófico do muntu, cujo plural é banto,

que rege a elaboração poética que há em Changó, el gran putas. Como se explica no

“Diário de bordo”, este princípio implica uma conotação do homem que inclui vivos e

defuntos, bem como animais, vegetais, minerais e coisas que lhe servem, de tal maneira, que se trata de uma força espiritual que une num só nó o homem com sua ascendência e

descendência imersos no universo presente, passado e futuro (ZAPATA, 2010, 648).16 A

partida do continente africano é causada pela maldição de Xangô, relatada no poema por Ngafúa, por ter caído em desgraça por combater seus irmãos, Orun, Oxóssi, Okê, Olokun e Okô. Isto desatou a ira de Orunmilá, dono das Tábuas de Ifá e senhor da vida e da morte, e de Omo Obá, o primeiro e único homem imortal condenado por Odumarê a viver sepultado nos vulcões, que expulsam Xangô da Oyó imperial e coroam o nobre Gbonka. Todos os soberbos que se levantaram contra Xangô serão condenados ao desterro em outros mundos longe da África. Ngafúa ouve em sonhos a maldição de Xangô que condena os que

o expulsaram a ser objetos da ganância das lobas brancas, “[...] comerciantes dos homens,

/ violadoras de mulheres/ tua raça/ teu povo/ tua língua/ destruirão! / As tribos dispersas/ rompida tua família/ separadas as mães de teus filhos/ detestados / malditos teus Orixás /

até seus nomes / esquecerão!” (ZAPATA, 2010, 67). Todos estes sacrifícios por causa da

maldição de Xangô serão redimidas na América segundo os seus desígnios escutados por

16 A este respeito, Jonathan Tittler, tradutor do romance ao inglês com o título Changó, The Baddest Dude, (ZAPATA, 2010) assinala que, embora o Muntu esteja condenado nas Tábuas de Ifá a errar pelo deserto americano da escravidão, é também parte da maldição de Xangô que o muntu carregue a responsabilidade da sua própria liberação, bem como a de toda a humanidade. Este delicado equilíbrio entre o determinismo, o livre arbítrio e o messianismo contribui em grande parte para a peculiar ideologia do romance (TITTLER, 2007: 183-197).

Ngafúa. Fecundada pelo Muntu, a nova terra parirá uma criança, “filho negro / filho branco / filho índio / metade terra / metade árvore / metade lenha / metade fogo/ por si mesmo /

redimido” (ZAPATA, 2010, 25).17 Para completar, o promissor destino dos filhos de Xangô

no novo continente será a liberdade. Rompendo as correntes da escravidão “Os escravos rebeldes / escravos fugitivos, / filhos de Orixás vingadores / na América nascidos / lavarão

a terrível/ a cega/ maldição de Xangô!” (ZAPATA, 2010, 67). Será Xangô quem dará sua

força espiritual aos escravos para renascer no novo continente. Seja nos Estados Unidos, nas diversas ilhas de Caribe, no Brasil, Colômbia ou no Peru, os africanos desempenharão um papel decisivo nos destinos dessas nações, porque suas lutas libertárias se conjugaram com as lutas de Independência dos séculos XVIII e XIX.

O Muntu americano será simbolizado por este filho de Sosa Illamba, que morre lhe

dar à luz no navio negreiro. Nagô é o navegante escolhido, “capitão no exílio / dos

condenados de Xangô” (ZAPATA, 2010, 45). Antes de tocar em terra no novo continente, ocorre a rebelião dos escravos, que fará que o navio seja incendiado pelos brancos e afunde com toda a tripulação. Das águas da morte, dessangrada ao parir Nagô, Sosa Illamba entrega a criança a Ngafúa para salvá-lo do naufrágio, como a semente da inumerável família do muntu que se disseminará pelas Américas. Essa visão alegórica se fecha com uma premonição:

Como estava escrito, no terceiro dia, divisamos as distantes costas. Entre a algazarra dos periquitos, as mulheres índias esperavam o Muntu na praia para amamentá-lo com seu leite. Suavemente umedeço seu corpo com saliva para lustrar a corda de seus ossos. E solto, nadou só, em busca do novo destino que Xangô lhe havia traçado (ZAPATA, 2010,146).

Um destino que os negros enfrentarão com muito pouco ou nada do que puderam trazer consigo. As circunstâncias os levarão a misturar-se com brancos e autóctones num rico processo de transculturação e mestiçagem no qual seu acento aparece de diversas maneiras na vida material e espiritual do continente. Neste aspecto, antes de escrever o romance, desde os anos 1940, Zapata foi um estudioso e promotor das expressões híbridas

17 Aqui vale a pena chamar a atenção sobre a configuração triétnica das Américas que Zapata defendeu em muitos de seus ensaios, e, além disso, em El Árbol brujo de la libertad e La revolución de los genes, já citados, e El hombre colombiano e Las claves mágicas de América .

que foram gestadas em nossas culturas populares e a devida avaliação e reconhecimento das contribuições de suas diversas vertentes. Em muitos episódios do romance, estes processos de hibridação racial e cultural aparecem sugeridos.

Em Changó, a cosmovisão afro-americana é incorporada nas noções do pensamento

iorubá e banto, além de muitos elementos da literatura tradicional africana – provérbios,

jogos de palavras, adivinhações, trava-línguas, cantos, contos de fadas e canções – que

apesar de sua notável influência permanecem invisibilizados no mundo ocidental. O que Zapata faz é trazê-los de novo ao palco, embora ainda sejam estranhos para muitos. O feito é substancial, nada menos que a recuperação de um grande percurso de memória coletiva. Rema séculos acima para levar-nos em passeio pelo trasfego desalmado de milhões de negros para as geografias da exploração e da morte. Com a proteção de Oxum, Orun, Obatalá, Iemanjá e Xangô o romance faz o percurso do muntu americano. Essa dimensão mítica vai além das cronologias. Daí que cinco séculos de história estejam contidos em momentos e cenários diversos.

A viagem do horror, a travessia do Atlântico, num navio negreiro no qual nascerá Nagô, talvez uma das mais bem-sucedidas recriações da literatura afro-americana do ocorrido naqueles porões da infâmia. A rebeldia, a resistência e a solidariedade malunga expressam-se com grande profundidade dramática e força poética. Ao mesmo tempo em que são narradas as misérias vividas, é exibida uma vigorosa espiritualidade incontestada e disposta ao que seja para alcançar a liberdade. No relato de Ngafúa, entremistura-se o

relato dos brancos com o significativo título de “Livro de derrota”.

A história de Cartagena das Índias, narrada por Domingo Falupo (nome cristão de Benkos Biohó), que Pedro Claver utilizou como tradutor em sua missão evangelizadora para compensar as brutalidades da escravidão e contra as quais se organiza a resistência liderada pelo próprio Benkos Biohó. Na convivência e aprendizagem de Domingo com Claver, será mostrado o grande conflito espiritual entre africanos e espanhóis, pois os conhecimentos para a cura de doenças, rituais religiosos e os cantos dos escravos, com seu inseparável tambor, serão perseguidos e demonizados pelo Tribunal da Santa Inquisição. Como lhe ensina um de seus ancestrais:

Os africanos não teremos outros pais espirituais senão os brancos. Tentarão matar nossa magara, pintando nossa alma com seus medos, seus rancores e pecados. E quando nos vejamos num espelho com a pele negra, não nos restarão dúvidas de que somos os filhos de Satã, pois, segundo pregam, o Deus branco faz as suas criaturas

à sua imagem e semelhança (ZAPATA, 2010, 174).

A rebelião organizada por Benkos com Maria Angola é urdida em meio às perseguições do Tribunal do Santo Ofício, ao qual Benkos finalmente é submetido pela traição de Sacabuche. Bem como muitos outros, suas respostas diante das imputações da Inquisição são de férrea e altiva defesa de suas crenças e declaração contra a desumanidade da escravidão. Pupo Moncholo conta que Benkos lhe diz a um de seus ancestrais que o

visita: “não morrerei por apóstata, mas por glorificar a Xangô e a meus orixás”. E diante dos argumentos de Claver para que se arrependa responde seguro: “Engana-se, meu

incansável perseguidor, a única eternidade está no muntu” (ZAPATA, 2010, 215).18 Benkos

é velado em Palenque como grande líder das lutas pela liberdade.19

A rebelião dos vodus, a terceira parte do romance, ocupa-se da história do Haiti e sua pioneira revolução, tão importante para a independência do continente. Como havia

feito o romancista cubano Alejo Carpentier em El reino de este mundo (1949), Zapata volta

a incursionar sobre essa história que desentranhará sob a sombra protetora dos deuses africanos. Os que invocam os personagens da história haitiana são os orixás, que convocam Bouckman, Toussaint Louverture, Mackandal, Dessalines e o rei Henri Cristophe, para ir mostrando os motivos de suas ações e todo o universo de tensões e intrigas entre franceses,

criollos e negros na jovem nação. Xangô anuncia com antecipação: “Cristophe, será sua

glória e sua sepultura” (ZAPATA, 2010, 310).

A seguir, as duas últimas partes de livro narram as lutas independentistas lideradas por Simón Bolívar (alimentado para a liberdade por uma ama-de-leite negra, Hipólita); o périplo de José Prudencio Padilla mandado fuzilar por Bolívar; as lutas do Aleijadinho no âmbito de Minas Gerais no Brasil; as lutas de José Maria Morelos no México e a longa história dos afro-americanos nos Estados Unidos: sua escravidão, as perseguições de que foram vítimas por parte de grupos como a Ku Klux Klan, até as lutas de homens como Malcolm X e Martin Luther King. Entremisturam-se com todos estes personagens históricos vários personagens de ficção que desempenham um papel central como Nagô,

Sosa Illamba, Domingo Falupo, Kanuri mai, Agne Brown. Um deles chegou no navio negreiro e outros nascidos na América, inspirados e protegidos pelas divindades africanas. Por exemplo, Sosa Illamba, que vem grávida no navio de Nagô, não é senão a filha de Iemanjá nas Américas. O próprio Nagô está representando Xangô. Toda vez que se explica o destino dos vivos se recorre aos deuses que os inspiram.

Para organizar essa grande epopeia e dar forma novelesca ao imenso afresco que cobre quinhentos anos de história, Zapata recorre ao que ele denominou realismo mítico, uma forma de interpretar os fatos históricos por meio da imaginação e do mito.

(VALENCIA, 2003).20 Nas palavras esclarecedoras de Zapata:

A maldição de Xangô para explicar a chegada dos africanos às Américas no romance é aparentemente uma contradição, mas quando olhamos a tradição africana, há algumas teorias eminentemente míticas, entre elas as da tradição iorubá. Há uma história que, certamente, é mítica, que conta que Xangô, rei de Oyó, terceiro imperador do império de Oyó, foi deposto de seu cargo por uma insurreição, e que o acorrentaram, enfiaram num cárcere, e que esse indivíduo, como maldição, condenou os insurretos a que assim como o estavam arrancando acorrentado de seu reino, eles seriam acorrentados como faziam com ele. Xangô, na verdade, dentro da história mítica, não morre acorrentado, mas sim é o criador das estrelas, dos relâmpagos, dos instrumentos de guerra, etc., e essa é uma posição mítica da cultura africana, porque Xangô, não teve nenhum desses dons em sua condição humana. Não se trata de uma maldição no sentido do cristianismo, mas da cultura Iorubá. Eu enfoco de forma mítica – estou falando de que faço mito a partir da história – que Xangô, naquele momento, quando lançou sua maldição – quem diz isso não é Xangô, quem diz é o babalaó Ngafúa, que está relatando a história no século XV: “Você escolheu a loba branca para sua maldição” [...] Todas estas considerações somente podem ser abordadas do ponto de vista mítico. Xangô está entendido em meu romance como o espírito combatente, da civilização do navio onde vão os personagens principais da obra; na verdade, estes africanos que vão ali são as divindades, pois é um mundo histórico que está sendo explicado miticamente por intermédio dos deuses, das divindades iorubás. É um processo poético no qual estou fazendo o que denomino realismo mítico: parto dos personagens vivos, que são reais e estou convertendo-os em mito. (MINA, 2006: pp. 175-176).

20 Nesse ensaio, César Valência Solanilla sustenta que Changó, el gran putas é um romance poemático no qual ocorre uma explicação histórico-mitológica do destino da raça negra nas Américas.

Estas explicações delineiam muito bem o código de representação que atua na concepção geral do romance, no qual tudo é regido por Nagô, Ngafúa, Kanuri Mai, Sosa Illamba e Olugbala, personagens que, como no vodu haitiano, atuam como cavalos das

divindades da mitologia africana.21 Assim Nagô, o chefe da rebelião no navio está

representando Xangô; Sosa Illamba, a filha de Iemanjá nas Américas é a mãe do rapaz que atiram nas Américas. A deusa dos mares, mãe de Xangô, junta de novo seu destino nas Américas com seu filho e os seres humanos nos quais seus espíritos descem como nas religiões de matriz africana nas Américas.

Por meio da mitologia iorubá, as realidades históricas são poetizadas em Changó;

dessa forma o romance consegue resgatar e reconstruir a memória dos povos afro-

americanos. Em Changó o leitor é chamado para que seja companheiro de viagem nesta

travessia da diáspora, a compartilhar a intimidade desse grande drama humano, “Sobe a

bordo deste romance como um dos tantos milhões de africanos prisioneiros nos navios

negreiros; e sinta-se livre, embora acorrentado. Dispa-se!”(ZAPATA, 2010: 35)

Este “suba a bordo” é a metáfora central de Changó, el gran putas, o mundo do navio permeia toda a história e vários séculos até nossos dias. A convocação para despir- se implica para o leitor uma atitude espiritual para penetrar no drama de toda a ignomínia e desumanidade da escravidão, a resistência e as lutas abolicionistas, e todas as lutas por seus direitos e o reconhecimento de seu papel na construção das novas nações, por um lado, mas por outro, para conhecer a heroica luta pela liberdade desencadeada, luta sempre acompanhada pela metafísica africana como a força espiritual oculta que a sustentou e que continua alimentando as reivindicações dos negros. Ambicioso triunfo poético de Manuel Zapata Olivella ao escrever a grande obra de sua vida. A perspectiva mítica através da qual organiza a trama do romance e toda a interpretação dos contextos históricos protagonizados

pelos negros nas Américas, sua própria reinvenção da diáspora africana – a trágica viagem

do Muntu – é sugerida pelo próprio Zapata, quando a conta em suas memórias:

O Muntu Americano poderia ter sido o nome do romance, mas Eleguá, visionário das Tábuas de Ifá, onde estão inscritos os passos e as obras de todos os mortais, me ditou outro nome: Changó, el gran putas. [...] Fui apenas a agulha dos ancestrais para tecer a trama com as vidas e as mortes de cem milhões ou mais de africanos,

21 Aqui Zapata elabora poeticamente a descida do santo realizada nos rituais da santería, do candomblé e o

removidos de sua terra, caçados e atados por correntes, para serem transplantados nas Américas. [...] Medi minhas forças, meu passado de andarilho, minhas viagens por culturas tão variadas, meus sofrimentos por pertencer à dita raça indigna, e, de repente, compreendi – foi o momento do imponderável hantu – que toda essa peregrinação, sofrimentos e assombros estavam escritos nas Tábuas de Ifá há milhões de anos antes de eu nascer para servir de escriba para a palavra sem alfabeto do povo negro. (ZAPATA, 1990, 344).22

Que “toda essa peregrinação, sofrimentos e assombros estivessem escritos nas tábuas de Ifá” alude a esse arquivo fundacional ao qual está vinculada a origem de Changó, el gran putas. O romance de Zapata Olivella pode ser lido como um romance de arquivo,

na estirpe de Los pasos perdidos (1953), de Alejo Carpentier e de Cien años de soledad

(1967), de Gabriel García Márquez, dois romances que marcam uma virada decisiva na história da narrativa latino-americana, como demonstra a brilhante leitura do crítico cubano

Roberto González Echeverría no seu livro Mito y Archivo (GONZÁLEZ ECHEVARRÍA,

2000).Em Changó, seguindo a perspectiva de análise de González, o arquivo como mito

constitui seu núcleo: a mitologia e saberes contidos nas Tábuas de Ifá, aos quais esteve vinculado Zapata como intelectual e escritor. Sua voz e sua consciência se instalam nas

sabedorias milenares do povo iorubá, para, através de seu alter ego Ngafúa, urdir uma vasta

saga sob a proteção dos orixás, guardiões do destino humano, com a ajuda de todos os ancestrais que os acompanham e se confundem no tempo com os protagonistas históricos.

Toda essa multidão de vozes e atores narrarão num só canto a história de Nagô: “a trágica

viagem do Muntu ao continente exílio de Xangô” (ZAPATA, 2010, 41).

As Tábuas de Ifá guardam há milênios os ensinamentos universais iorubá, teológicos e cosmológicos, da gênese e das experiências míticas dos seres e dos mundos sobrenaturais. Manuel, com essa confissão, quis enfatizar, por um lado, a dimensão metafísica, mítica do romance, e por outro, as chaves da organização da trama poética de um livro tão ambicioso e complexo, narrado a partir da peculiaridade do ser de origem africana, da sua própria perspectiva e com sua própria voz. Ifá não é somente oráculo, mas também um sistema literário e filosófico, contido nos Odus, que ensinam por meio de

22 Livro de memórias que lhe proporcionou o prêmio aos novos direitos humanos, concedido pela França.

Benzer Belgeler