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Uma vez que o passado cresce incessantemente, também se conserva indefinidamente. A memória... não é uma faculdade de classificar recordações numa gaveta ou de inscrevê-las num registro. Não há registro, não há gaveta, não há aqui, propriamente falando, sequer uma faculdade, pois uma faculdade se exerce de forma intermitente, quando quer ou quando pode, ao passo que a acumulação do passado sobre o passado prossegue sem trégua. Na verdade, o passado se conserva por si mesmo, automaticamente. Inteiro, sem dúvida, ele nos segue a todo instante: o que sentimos, pensamos, quisemos desde nossa primeira infância está aí, debruçado sobre o presente que a ele irá se juntar, forçando a porta da consciência que gostaria de deixá-lo de fora. (BERGSON, 2011, p. 47-48)

Retomo uma parte da citação usada na introdução deste capítulo onde diz ser, o livro de contos Ella, uma queixa contra a alma46. Uma queixa que obriga a abrir os olhos, a indagar, ao invés de ficar só com aquilo que os nossos cinco sentidos percebem. É uma porta para ultrapassar, para ir além e trazer essas memórias que Bergson nos mostra nessa epígrafe escolhida. É o passado rivasiano esperando entrar pela porta da consciência. E esse passado está muito bem exposto em Las voces. Começou em Castro de Elviña, onde Rivas viveu a sua infância. Uma região que abrigou um povoado pré-romano, localizado na Galícia, declarado Bem Cultural, junto com outros povoados fortificados dos quais existem vestígios no noroeste da península Ibérica.

Mas antes desse passado ser exposto em Las voces, o autor já mostrava essa viagem até as memórias, até o mais íntimo, mesmo quando a chegada até esse íntimo pudesse trazer para o presente tristes lembranças. Vale ressaltar que também me interessa estudar o quê despertou e impulsionou, na narrativa de alguns dos contos de Ella, chegar até as determinadas lembranças dos protagonistas. Diante desses questionamentos, que o próprio autor já se fez, ele mesmo declara: “Han tenido que pasar cosas en la vida de uno para que esos cuentos aparentemente tan sencillos se hayan podido escribir.” (RIVAS, 1999). E aqui se estabelece um certo paralelismo entre a obra narrativa e a vida do escritor, embora nem todos os fios que se

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υ ή (psykhes): independentemente de outras acepções desta palavra, Aristóteles a emprega aqui no Da Alma, bem como nos tratados que dão continuidade a este (Parva Naturalia), com o sentido de princípio vital dos seres vivos. O substantivo alma (do latim anima) deve ser entendido, portanto, precisamente nesse sentido, em perfeita correspondência com os adjetivos inanimado (ά υ ος [apsykhos]), sem princípio vital, e animado (εμ υ ος [empsykhos]), com princípio vital, por extensão, vivo. (Aristóteles, 2011, p. 41)

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estabelecem nas obras rivasianas estivessem tão visíveis à crítica, antes de ser lançada Las voces.

Voltando a Ella, e à criação literária que chamamos de conto, Emilia Pardo Bazán (1851-1921), umas das mais importantes contistas da literatura espanhola dizia, em uma crítica referida a Sienkiewicz:

Yo admiro mucho a los grandes cuentistas. El cuento pide inspiración y esa facultad de condensar que no todos poseen; el cuento es a la novela como la poesía lírica a la epopeya y al poema caudaloso, donde rara vez se sostiene encendido el fuego sagrado. El cuento es una chispa, rayito de sol…, pero en él cabe un mundo. (SIENKIEWICZ, 1901 apud PAREDES, 2004, p. 23)

Concordo plenamente com Pardo Bazán. Muitos autores trabalharam, e trabalham, este gênero literário com perfeição, pois não se trata tão só de riqueza de detalhes, argumentos ou técnicas e sim de saber empregá-los e relacioná-los para conseguir trabalhar com os tempos e espaços da narrativa. No gênero conto cabe um mundo, e muito mais quando esse conto resgata o sentido da palavra alma, como no caso de Ella. O eixo pelo qual transitam estes treze contos da obra em questão é formado por dois componentes essenciais que se destacam em todos os relatos, e que já tinham sido introduzidos em outra obra rivasiana, El secreto de la tierra, mas é em Ella que eles ressurgem com mais força ainda, demonstrando assim a integração total de cada conto com o todo. Esses componentes essenciais são, segundo o crítico literário galego Ángel Basanta (1950): a paisagem mental e o mistério da condição humana (BASANTA, 1999).

Basanta ainda acrescenta que, na configuração das personagens em

Ella Rivas demonstra solidariedade com os humildes e seu compromisso com a

mitologia de sua terra natal, através de personagens camponesas ou navegantes, que ganham vida em um espaço onde se confronta o rural com o urbano, ou em espaços históricos como o do pós-guerra. Personagens que também apresentam o impacto das várias gerações de galegos que viveram a emigração ou que percorrem lugares autóctones como o é o povoado de O Cebreiro, até chegar ao labirinto de pedra da cidade de Santiago de Compostela.

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Segundo Castro Vázquez, em Ella também se resgata o sentido das palavras, a sua riqueza e reavivar a ecologia dos significados. Esse é o grande objetivo desse livro de contos.

O que pretendo con Ela, maldita alma -di Rivas- é atopar un sentido a palabras que ao longo do tempo foron baleiradas de significado. Son termos, como o da alma, que quedaron como disecados e esquecidos. Esta creo que é un dos labores máis bonitos que pode levar adiante a literatura, o de recuperar o sentido destas palabras. (CASTRO VÁZQUEZ, 2007. p.69-70).

Castro Vázquez ainda acrescenta que ressuscitar a palavra alma não se reduz tão só ao fato de resgatar seu significado ou devolver a sua rede polissêmica de relações. Vai mais além, recria-se uma parte do "inmenso tapiz da humanidade", permitindo uma reexistência da sociedade galega (CASTRO VÁZQUEZ, 2007, p. 72).

Não resta dúvida que o conceito alma é a linha que costura todos os relatos e que essa alma surge em momentos de intensa melancolia na vida de cada um de seus protagonistas. Mas também encontra-se naquilo que é inanimado, em objetos cotidianos, que transitam livremente pela narrativa, e que podem ser detectados tanto em uma primeira leitura ou nas sucessivas, por estarem escondidos sutilmente nas entrelinhas da obra. Nos casos inanimados, a alma vive, para citar alguns exemplos do livro, em um enxame de abelhas, em uma bisnaga de pão, em um papagaio, em uma guitarra, na rolha de uma garrafa que pertence a um alcoólatra, na bola de uma criança, em um boneco ventríloquo ou nas partículas de pó suspensas no ar.

Selecionei cinco contos para serem analisados de forma mais detalhada e outros dois, que apresentam uma relação ainda mais estreita com o romance

Las voces. Vejamos a seguir quais são.

Em La vieja reina alza el vuelo, conto que abre o livro de relatos, a história começa com a descrição de uma linda e velha macieira, ao redor da qual voavam pássaros característicos da Galícia, como o são o mirlo (melro- preto) e o petirrojo (pisco-de-peito-ruivo). Outros pássaros e animais também são citados no conto (lagarto, truta), assim como também outras espécies de árvores: nogal (nogueira). Mas eles não são os protagonistas e, sim, o que está na copa da macieira, as abelhas. A história do enxame e da colmeia, do ponto

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de vista biológico, com as suas espécies e funções, vai-se entremeando a outras duas histórias: a de duas famílias camponesas, inimigas por causa de uma antiga humilhação e a de duas crianças, amigas na infância, Chemín e Gandón. Após a cerimônia de crisma, os dois meninos não mais se falariam, dando continuidade assim à inimizade que oprimia as duas famílias. Vejamos uma parte do conto que descreve o momento em que isso ocorre:

Un día él y Gandón dejaron de hablarse. Nadie se los ordenó explícitamente, pero fue como si ambos escuchasen a un tiempo un mandato ineludible surgido de las vísceras más recónditas de sus respectivas casas. Fue tras la confirmación, cuando el auxiliar del obispo vino a la parroquia y les impuso una cruz de ceniza en la frente. Al regresar de la iglesia ya no se hablaron y por el camino fueron distanciándose a propósito.

Chemín, ahora tumbado en el lecho, se llevó la mano a la frente e hizo la señal de la cruz. La cruz no tenía nada que ver en el pleito entre los Chemín y los Gandón. Sólo era la forma que tenía el recuerdo. El silencio entre él y Gandón, la conciencia de implicarse en un resentimiento heredado, cobró cuerpo cuando el hombre empezó a apropiarse del niño. El día de la confirmación les pusieron por vez primera pantalón largo. Y dejaron de hablarse justo cuando les cambiaba la voz y de la garganta les salían gallos que no dominaban. Poco después notarían con cierta sorpresa que ya se les permitían las blasfemias en público.

Aquellos dos niños que un día habían sido amigos desaparecieron por el desagüe de la memoria, que tanto sirve para recordar como para olvidar. (RIVAS, 1999, p.18-19)

Embora a inimizade fosse ganhando força e forma ao longo do tempo, como para separar cada vez mais aqueles dois seres que um dia foram amigos, a vida sempre lhes preparava encontros que, dentro da narrativa, são apresentados pelas memórias de Chemín. Recordações guardadas na sua memória individual e outras que configuravam a memória coletiva desses dois amigos e suas famílias.

As lembranças de Chemín afloram a todo instante pela mão de um narrador autodiegético, que organiza muito bem o tempo, através de analepses, com a finalidade de recuperar momentos que oferecem uma coerência interna à narrativa.

Elas não só ilustram o passado dessas duas famílias e suas desavenças, como também geram uma relação dialética com o presente. Vejamos umas das primeiras passagens do conto, quando os filhos e netos de Chemín cantam e o convidam a fazer parte da festa, celebrando o dia de São José, enquanto a mirada do avô é guiada até encontrar a macieira que o leva

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até o passado, de onde é retirado novamente quando um dos filhos pede para cantar a música Meus amores.

Meus amores! Aquella balada se la había enseñado un compañero de

barracón en Suiza. No tenía mucha memoria para las canciones, pero aquella le había quedado prendida como una costura en la piel. Le salía de adentro a modo de oración, como himno patriótico de las vísceras, fecundado por la cena de patatas renegridas del barracón de emigrantes. Todos los años, desde que había regresado de Suiza y celebraban juntos san José, él cantaba Meus amores. [...] Aquella balada brotaba como un manto de niebla que unía a todos, también a los que se habían ido, en un más allá intemporal. (RIVAS, 1999, p.15)

Assim como alguns poetas e literatos, que vimos no segundo capítulo, foram artífices do renascimento da língua e cultura galega, através do movimento Rexurdimento, no século XIX, também houve a colaboração de renomados músicos como: o compositor Pascual Veiga (1842-1906), o compositor e professor Juan Montes (1840-1899), o músico José Castro González (1856-1917), mais conhecido pelo apelido Chané, e o músico Xosé Baldomir Rodríguez (1867-1947). Deste último é a canção Meus amores47 (ou

Dos amores), uma música galega composta a partir de uma letra do jornalista e

poeta galego, Salvador Golpe (1850-1909), que pescadores, marinheiros, camponeses, pedreiros e emigrantes galegos cantam quando querem evocar sua terra natal. Vejamos a opinião do político republicano espanhol, exilado na Argentina, Ramón Suárez Picallo (1894-1964):

Cuando se cantó por primera vez en Madrid –repetida ocho veces– un gran crítico musical escribió estas palabras sobre “Dous χmores”: “Dudamos que exista en toda la música europea una composición que contenga más belleza, más fuerza evocativa ni un mayor grado de ternura y de gracia popular. Sólo los irlandeses, parientes de los gallegos por un común origen céltico, podrían ofrecer algo parecido, en orden a expresar, en notas musicales, el insobornable amor a la tierra de quienes la aman como a una madre humanizada”. (PICALLO, 1947)

Após Chemín interpretar algumas passagens de Meus amores, retirou- se para o quarto com falta de ar, mas antes de deitar olhou novamente para a macieira e para o quintal vizinho, o de Gandón. Esse momento levou-o para um

47 Meus amores - Dous amores a vida gardarme fan: / a patria e o que adoro no meu fogar, / a

familia e a terra onde nacín. / Sen eses dous amores non sei vivir.

Dos amores me sostienen la vida: / la patria y lo que adoro en mi hogar, / la familia y la tierra donde nací. / Sin estos dos amores no sé vivir.

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passado na infância anterior à crisma: "Él y Gandón habían sido muy amigos en la infancia. Recordaba, por ejemplo, que juntos pescaban con caña los lagartos arnales48 que amenazaban las colmenas." (RIVAS, 1999, p. 17).

Após essa recordação e já deitado, Chemín volta uma e outras vez às suas lembranças. Lá estavam ele e Gandón novamente, após terem emigrado para a Suíça, em momentos diferentes, já não mais crianças e sim adultos, como se o destino se empenhasse em juntá-los o tempo todo.

Una mañana llegó un nuevo grupo de obreros y Chemín se dio cuenta, por la forma de hablar, que la mayoría eran gallegos. Entre ellos, como una feliz aparición, descubrió a Gandón. [...] Durante meses se cruzaban y se repelían instintivamente. (RIVAS, 1999, p.21)

Além da lembrança do dia que se reencontraram na Suíça, embora Gandón não expressasse alegria, outra recordação era ativada, a do dia da emigração das abelhas.

El domingo casi no pudo dormir. En sus sueños, la bola del enjambre salía volando a media altura como un globo y él, como una inquietante película cómica de Charlot, braceaba y braceaba intentando hacerse con él. Se levantó temprano con esa inquietud y después de mojarse la cara con agua fría se dirigió a la colmena. En efecto, las abejas apiñadas formaban una gran madeja a punto de desprenderse. Fue corriendo a coger un cesto y justo cuando lo tenía al alcance de la mano vio como el enjambre despegaba en un vuelo compacto y deshilachado a un tiempo. [...] Fue levantando el cesto y a medio camino pudo ver cómo la bola despegaba de la rama y retomaba el vuelo. Esos segundos que quedó pasmado, sin reaccionar, fueron definitivos. El enjambre salvó el seto y se fue a posar en uno de los árboles de la huerta sombría de los Gandón. (RIVAS, 1999, p. 25-26)

Chemín recordava esse e outros momentos deitado na cama, enquanto o som que vinha do térreo, das canções que a família entoava e compartilhava, na festa de São José, misturavam-se com as suas lembranças, aquelas que chegavam com o barulho de zumbido, não como uma primeira vez, e que lhe deixavam um gosto de mel amargo. Sem dúvida, a emigração que mais doeu foi aquela das abelhas, pois transportavam a alma.

48 Lagarto arnal - um dos principais lagartos da Galícia (habita também em outros lugares da

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Há no conto uma última lembrança que a memória de Chemín resgata. O encontro dele com Gandón, minutos antes da festa de San José e do instante que ele vivia agora, em sua cama.

En vez de ir por la carretera, Chemín se echó a andar por un atajo que llevaba a la aldea atravesando el bosque y los prados. La frescura de la arboleda le alivió el zumbido, pero después, en los herbales, un sol impropio de aquel tiempo, navajero, le removió como tizón el enjambre.

[...]

En medio del camino, más tirado que recostado, un bulto jadeante, se encontró a Gandón. Se cruzaron las miradas. La del hombre acostado, con la cabeza apoyada en el ribazo, era una mirada de angustia, con el blanco de los ojos enrojecido y lloroso. Tenía una mano en el pecho, a la altura del corazón, y se frotaba como un alfarero la masa de arcilla.

[...]

Sin decir palabra, Chemín le ayudó a levantarse, pero cuando el otro intentó sacudirse el polvo de la chaqueta, volvió a derrumbarse. Chemín lo agarró con un gran esfuerzo por la cintura, pasó el brazo de Gandón por encima de su hombro y echaron a andar casi a rastras. Pegados uno al otro, sudorosos, parecían respirar por el mismo fuelle con un silbido quejoso. (RIVAS, 1999, p. 28-29)

Embora haja nessa narrativa a descrição de sons de músicas e falas, talvez um dos símbolos mais interessantes seja o silêncio. O silêncio que por tanto tempo acompanhou esse dois amigos de infância podia muito bem refletir o silêncio que, nos anos da GCE e do pós-guerra, impregnava tudo.

Manuel Rivas afirma que muitas vezes a razão desse silêncio era um verdadeiro mistério, inclusive remoto. De qualquer forma, os jovens e crianças o herdavam e, só quando não existia o controle, estes ultrapassavam o umbral da hierarquia familiar.

Recuerdo un caso, el de dos muchachos inseparables, los personajes reales que están detrás de un cuento titulado La vieja reina alza el vuelo. Siempre juntos, una amistad que los demás envidiaban. Hasta que un día cayó la orden del silencio y los rompió por dentro y por fuera. No volvieron a hablarse, ni siquiera cuando el uno intentó salvar al otro de la muerte, cargando con él a la espalda, después de encontrárselo malherido en un camino. (RIVAS, 2017)

Minutos após esse último encontro na estrada, Gandón falece e Chemín o segue. Suas almas agora voam junto ao enxame, pois a velha abelha rainha, silenciosamente, alçaria voo.

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La novia de Liberto é o segundo conto de Ella. Nele, um narrador

autodiegético, o amigo de Eloy, narrará ao leitor como testemunha direta a história daquele seu amigo e de seu boneco ventríloquo, Liberto, que no início do conto vivia em uma maleta. Pertencia a Rubí, o tio avô de Eloy, um senhor que também viveu a emigração durante a guerra e escapou pela fronteira de Portugal.

Liberto tinha a virtude de dizer o que os outros pensavam mas não se atreviam. Retornou ao mundo, após anos dentro da maleta, pelas mãos de Eloy e seu amigo: "Un día, rebuscando con Eloy en el desván, abrimos la maleta en la que vivía Liberto. Nos miró de frente con sus ojos de esmalte azul, y Eloy cerro la maleta, en un reflejo de espanto" (RIVAS, 1999, p. 36).

Na casa de Eloy, havia uma televisão que o pai tinha trazido da Alemanha, quando trabalhou lá como emigrante. Por isso, sua casa parecia um cinema quando congregava a família e a vizinhança ao redor daquele aparelho. Foi assim no dia em que Eloy e seu amigo encontraram Liberto. A família estava na sala, assistindo ao programa Reina por un día, um programa espanhol da TVE que estreou em 1964. Era apresentado por José Luis Barcelona e Mario Cabré e o objetivo era concretizar os sonhos de mulheres espanholas durante um dia. Podia ser, por exemplo, encontrar um ente querido, algo comum de se desejar naqueles anos do pós-guerra.

No momento em que Liberto ganha a liberdade, pelas mãos das crianças, nasce um novo ventríloquo: “Fue entonces cuando noté aquel runrún en el estómago. Me estaba naciendo viento. Y ese viento crecía sin yo quererlo, como el fuelle de una gaita, y luego hablaba por mí.” (RIVAS, 1999, p. 38).

Quando Eloy e seu amigo descem ao encontro da família, levam Liberto junto que, para atrair a atenção do público, expressa: "Pobre reina la reina por un día!” (RIVAS, 1999, p. 39). E o consegue: "Recuerdo muy bien aquella mirada colectiva." (RIVAS, 1999, p.39).

Durante anos, as duas crianças se juntariam nas férias e, de vez em quando, subiriam até o sótão, para encontrar Liberto. A última lembrança desses encontros seria na noite de São João:

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El año pasado fue la última vez que estuve con Eloy. Y con Liberto. Este año no volveré. Creo que no volveré jamás.

[...]

Eloy está acabando Derecho y yo Filología. Los dos estudiamos en Santiago, pero casi no nos vemos. Tenemos vidas muy distintas. Él va mucho por el Ensanche, por las copas de la parte nueva. Y yo... Bien, yo ando por otra parte. No hay más que explicar. (RIVAS, 1999, p. 41)

Essa última noite dos jovens juntos é a da memória que resgata a alma. Nessa última noite, com Liberto em uma maleta, os amigos percorreriam fogueiras espalhadas pelo caminho e chegariam até uma casa de lavoura, onde teriam um encontro com duas moças, Lidia e María, que desceriam da

Benzer Belgeler