• Sonuç bulunamadı

Mas este exercício, perigoso, exigiu de minha parte uma verdadeira conversão. E, para começar, a adaptação dos métodos que eu costumava utilizar para tratar a informação. Já não me encontrava diante de palavras, de discursos, mas diante de objetos, e de uma categoria muito particular: o que não perecera da criação artística, ou seja, quase sempre o melhor, a parte considerada mais perfeita que o respeito dos conhecedores conseguira preservar das destruições cegas e dos ataques do tempo. A

parte mais “genial”, portanto. Aqui é que se manifestava a primeira dificuldade. Eu

precisava isolar nesses objetos excepcionais – fosse o manto do imperador Henrique II, conservado no tesouro da catedral da Bamberg, ou a estátua de Adão outrora erguida na tribuna de Notre-Dame de Paris – o que parece decorrer do “gênio”, da sensibilidade pessoal do artista, de suas invenções imprevisíveis, de sua livre inspiração, em suma, o que se mostra irredutível a qualquer explicação na obra, para separá-lo do que não o é, de todo o resto, desse fundo geral de que se apoderam tantos os pequenos mestres quanto os grandes criadores, e que só ele mantém relações com o meio social e cultural (DUBY, 1993, p. 95).

Em O ano mil, a porta do laboratório se entreabre. Os documentos não figuram aqui como simples apêndices, como em L‟Économie rurale: formam o corpo principal deste pequeno volume. Mas são documentos de um gênero especial. Também eles são quase todos obras de arte. Obras literárias, textos, cuidadosamente polidos por virtuoses da retórica (ibidem, p. 98).

Eu estava mudando de material, mais ou menos como um escultor que troca a madeira pelo mármore. Desviava minha atenção das cartas, inventários, dos testemunhos breves fornecidos pelas fontes abruptas, ásperas, sem preparo sobre as quais se baseava toda a minha tese de doutorado. Dali para a frente, eu leria sobretudo narrativas, poemas, em latim ou outras línguas, escritos que refletiam de maneira menos direta, menos ingênua, a vida em sociedade, deformados, complicados que são pela preocupação de agradar, de disseminar determinada doutrina, mas também menos secos, mais loquazes, e em todo caso de interpretação

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Op. cit.

129 Op. cit. 130 Op. cit.

mais difícil. Para extrair-lhes o sentido, prevalecia-me da experiência recém- adquirida, quando me interroguei sobre a obra de arte para situá-la em seu contexto. A respeito desses textos, fazia perguntas análogas: onde, por quem, com que intenção haviam sido redigidos? E como relacioná-los aos sistemas de valores, aos modelos de comportamento, a todo o corpo de representações confusas que denominávamos mentalidades? (ibidem, p. 99).

Mais tarde, aventurei-me pela exuberância das canções e dos romances de cavalaria: queria ver como o amor e a morte haviam sido sonhados. É com efeito o sonho que percebemos nesses textos. Mas ele não apresenta menos interesse, para mim, que o real. A realidade dos comportamentos amorosos é de qualquer maneira inapreensível. Mas pelo menos o seu reflexo projeta-se necessariamente na literatura de evasão, a esta, propondo personagens exemplares a serem imitados por seu público, não deixa de repercutir nos comportamentos, como acontece com a literatura hagiográfica (DUBY, 1993, p. 146).

Já em Bouvines eu tratara de me identificar com os cavaleiros, esforçando-me por perceber como eles viam o mundo quando se lançavam a galope uns contra os outros, ao mesmo tempo evitando machucar-se demais (ibidem, p. 114).

Eu procurava igualmente captar o comportamento daqueles rapazes e homens mais maduros, às vezes já incapacitados, que, vociferando, morrendo de sede, enceguecidos pela poeira do terreno pisoteado, agitaram-se como condenados em suas couraças, naquele dia de verão. De que instrumental dispunham? Que gestos faziam, manejando essas armas, conduzindo suas montarias? Eu tentava inclusive penetrar em suas consciências. Que pretendiam? Em que momento a alegria que no início do confronto fazia do combate uma festa evoluíra para a exasperação da violência, transformando-se num prazer furioso, cego, de destruir e colher os destroços do que caía no fragor da debandada? Tinham medo os cavaleiros? E de quê? Qual o herói mítico cuja arrogância empenhavam-se em imitar? Que entendiam precisamente por proeza, lealdade? Onde se situava, para eles, o ponto de honra? Em suma, eu observava exatamente como Margaret Mead observara os manus. Tão desarmado quanto ela, mas não mais (ibidem, p. 111).

O esboço de uma história das ideologias, das reflexões que eu desenvolveria num capítulo de Faire l‟histoire, e em seguida em As Três Ordens, é assim descoberto neste livro, e dou-me conta de que foi efetivamente ao descrevê-lo que se modificou decididamente minha posição face ao testemunho, à fonte escrita. Até então eu esperava os documentos que me ensinassem a verdade dos fatos, cuja lembrança tinham por missão preservar. Logo verifiquei que esta verdade é inacessível e que o historiador só tem oportunidade de aproximar-se dela em nível intermediário, ao nível da testemunha, questionando-se não sobre os fatos que relata, mas sobre a maneira como os relatou. Eis por que dou atualmente mais atenção aos relatos, por mais fantasmagóricos que sejam, do que às anotações “objetivas”, descarnadas, que podemos encontrar nos arquivos. Essas narrativas ensinam-me mais – e para começar, sobre seus autores – através de suas tergiversações, do que têm dificuldade para dizer, do que não dizem, esquecem ou ocultam. Ora, é a este autor que me apego, retendo de suas palavras, para começar, o que revelam sobre sua própria cultura, suas esperanças, seus temores, a maneira como pensa o mundo e a si mesmo. A imagem que tem de si mesmo é o que procuro reconstituir. Estou hoje

convencido de que se encontra aqui a única “realidade” que posso tocar, e de que

das mulheres do século XII, por exemplo, nunca apreenderei algo mais verdadeiro que uma imagem, a que flutuava no espírito dos raros homens cujos escritos

conservamos. Freqüentemente encontro dificuldades para fazer com que reconheçam esta evidência. A prova disto está na aspereza das discussões que me opunham constantemente, em meu seminário, a Karl Ferdinand Werner, belo historiador das instituições. Não conseguia convencê-lo. Ele se aferrava obstinadamente à letra do texto, sem se preocupar com a ideologia de que era prisioneiro o autor desse texto, e a respeito do qual é importante informar-se previamente, para enxergar mais claramente o verdadeiro que esta ideologia mascara e distorce (ibidem, p. 99-100).

Foi realmente um historiador da geração de Braudel que despertou a atenção pública para a história das mentalidades, através de um livro notável, quase sensacional, publicado em 1960. Philippe Ariès era um historiador diletante, “um historiador

domingueiro”, como ele próprio se chamava, que trabalhava num instituto de frutos

tropicais, devotando seu tempo de lazer à pesquisa histórica. Demógrafo histórico por formação, Ariés veio a rejeitar a perspectiva quantitativa (da mesma maneira que rejeitou outros aspectos do mundo burocrático-industrial moderno). Seus interesses direcionaram-se para a relação entre natureza e cultura, para as formas pelas quais uma cultura vê e classifica fenômenos naturais tais como a infância e a morte (BURKE, 1997, p. 81).

O livro de Philippe Ariès foi particularmente um desafio aos demógrafos históricos; um desafio ao qual alguns deles responderam dando maior atenção ao papel dos

valores e das “mentalidades” no “comportamento demográfico”; em outras palavras,

pelo estudo da família, da sexualidade e, como desejava Febvre, da história do amor [...]. Os estudos nessa área muito contribuíram para estabelecer uma ponte entre a história das mentalidades baseada em fontes literárias (por exemplo, o Rabelais de Febvre) e a história social, que negligenciava o estudo de valores e atitudes (ibidem, p. 83, passim).

Como vimos, na geração de Braudel, a história das mentalidades e outras formas de história cultural não foram inteiramente negligenciadas, contudo, situavam-se marginalmente ao projeto dos Annales. No correr dos anos 60 e 70, porém, uma importante mudança de interesse ocorreu. O itinerário intelectual de alguns historiadores dos Annales transferiu-se da base econômica para a “superestrutura”

cultural, “do porão ao sótão” (ibidem, p. 81).

A história das mentalidades não foi marginalizada nos Annales, em sua segunda geração, apenas porque Braudel não tinha interesse nela. Existiram, pelo menos, duas outras razões mais importantes para essa marginalização. Em primeiro lugar, um bom número de historiadores franceses acreditava, ou pelo menos pressupunha, que a história social e econômica era mais importante, ou mais fundamental, do que outros aspectos do passado. Em segundo lugar, a nova abordagem quantitativa, analisada no capítulo anterior, não encontrava no estudo das mentalidades o mesmo tipo de sustentação oferecido pela estrutura socioeconômica (ibidem, p. 99).

Por outro lado, a história das mentalidades, tal como foi praticada a partir dos anos 60 por Georges Duby, Robert Mandrou, Jacques Le Goff e tantos outros, deve muito ao exemplo de Febvre, como também ao de Bloch (ibidem, p. 42).

A figura principal na psicologia histórica à la Febvre foi o falecido Robert Mandrou (Joutard/Lecuir, 1985). Logo após a morte de Febvre, Mandrou encontrou entre seus

papéis um arquivo contendo notas sobre um livro não escrito, que deveria ter sido a continuação do Rabelais, sobre o nascimento da mentalidade francesa moderna. Decidiu prosseguir a obra de seu mestre e publicou sua Introduction à la France Moderne, com o subtìtulo “Um ensaio em psicologia histórica – 1500-1640”, em que incluía capítulos sobre saúde, emoções e mentalidades (Mandrou, 1961). Logo depois da publicação desse livro, ocorreu a ruptura entre Braudel e Mandrou. Quaisquer que tenham sido as razões pessoais, a ruptura se produziu no decorrer de um debate sobre o futuro do movimento dos Annales. Nessa discussão, Braudel defendeu a inovação, enquanto Mandrou preferia a herança de Febvre, o que ele

chamava “o estilo original” (Annales première manière), em que a psicologia

histórica ou a história das mentalidades desempenhavam um papel importante (ibidem, p. 84).

Na década de 60, como seus131 interesses moveram-se gradualmente em direção à história das mentalidades, colaborou com Mandrou em sua história cultural da França. Posteriormente, foi além de Bloch e do estilo original dos Annales. Inspirado em parte na teoria social neomarxista, preocupou-se com a história das ideologias, da reprodução cultural e do imaginário social, que procura combinar com a história das mentalidades (ibidem, pp. 86-87).

Este livro132 pode ser lido como um romance de capa e espada. Escrevi-o com enorme prazer, para agradar ao amante de história. Por este motivo, pode parecer inconsistente. Mas está na verdade tão carregado de dados eruditos, é tão sério quanto As Três Ordens. Menos austero, é verdade. Houve quem se deixasse enganar por isto. Certo crítico alemão advertia, peremptório, no fim de uma resenha globalmente amável: esta obra não se destina aos especialistas. Ora, os especialistas são os principais destinatários (Duby, 1993, p. 138).

acabaram por criar, com o torneado de suas frases, seu vocabulário, uma língua dos Annales de certa qualidade literária, mas que irritaria seus adversários profundamente. Será que a história é ou pode ser, pretendendo-se uma ciência, também questão de escrita, de modo literária? (DAIX, 1999, p. 177).

Benzer Belgeler