para os investigadores; sobre o caráter subjetivo dessas fontes e das interpretações que os
historiadores da Escola faziam dessas fontes e sobre a importância de se conhecer elementos e
fenômenos culturais de um povo para se chegar a uma explicação quanto à estrutura social e a
determinados fatos sociais de uma dada civilização, falaram Burke, Duby, Tétart, Odalia e
Daix:
Em 1928, foi Bloch quem tomou a iniciativa de ressuscitar os planos de uma revista (uma revista francesa, agora), obtendo sucesso em seu projeto (Febvre (1945), pp. 398 ss; Leuilliot (1973), p. 317 ss; Fink (1989), ch. 7). Novamente, foi solicitado que Pirenne dirigisse a revista; contudo, em virtude de sua recusa, Febvre e Bloch tornaram-se os editores. Originalmente chamada Annales d‟histoire économique et sociale, tendo por modelo os Annales de Géographie de Vidal de la Blache, a revista foi planejada, desde o seu início, para ser algo mais do que uma outra revista histórica. Pretendia exercer uma liderança intelectual nos campos da história social e econômica. Seria o porta-voz, melhor dizendo, o alto-falante de difusão dos apelos dos editores em favor de uma abordagem nova e interdisciplinar da história. O primeiro número surgiu em 15 de janeiro de 1929. Trazia uma mensagem dos editores, na qual explicavam que a revista havia sido planejada muito tempo antes, e lamentavam as barreiras existentes entre historiadores e cientistas sociais, enfatizando a necessidade de intercâmbio cultural. O comitê editorial incluía não somente historiadores, antigos e modernos, mas também um geógrafo (Albert Demangeon), um sociólogo (Maurice Halbwachs), um economista (Charles Rist), um cientista político (André Siegried, um antigo discípulo de Vidal de la Blache). Os historiadores econômicos predominaram nos primeiros números: Pirenne, que escreveu um artigo sobre a educação dos mercadores medievais; o historiador sueco Eli Heckscher, autor do famoso estudo sobre o mercantilismo; e o americano Earl Hamilton, muito conhecido por suas obras sobre as finanças americanas e sobre a revolução dos preços da Espanha. Nessa ocasião, a revista tinha a feição de um equivalente francês, ou de uma rival, da Economic History Review inglesa. Contudo, em 1930, declarava-se a intenção de a revista estabelecer-se “sobre o terreno mal
amanhado da história social”. Preocupava-se também com o problema do método no
campo das ciências sociais, tal como a Revue de Synthèse Historique (BURKE, 1997, pp. 32-33).
O compromisso de Bloch com a geografia era menor do que o de Febvre, embora seu compromisso com a sociologia fosse maior. Contudo, ambos estavam pensando de uma maneira interdisciplinar (ibidem, p. 27).
O período de encontros diários, em Estrasburgo, entre Bloch e Febvre durou apenas treze anos, de 1920 a 1933; foi, porém, de vital importância para o movimento dos Annales. Mais importante ainda pelo fato de que ambos estavam cercados por um grupo interdisciplinar extremamente atuante. Daí a importância de realçar-se o ambiente em que se formou o grupo (idem).
Não menos decisivo foi meu íntimo convívio com os Annales d‟histoire économique et sociale [...]. Daquela leitura assídua, extraí dois ensinamentos. Que o historiador não deve fechar-se em sua toca, mas acompanhar atentamente o que acontece nas disciplinas vizinhas. Que realizar uma investigação com todo o rigor necessário não impõe a obrigação, no momento de divulgar os resultados do levantamento, de escrever com frieza, que o cientista cumpre tanto melhor sua função na medida em que agrada ao leitor, prendendo-o e conquistando-o pelos encantos de seu estilo (DUBY, 1993, pp. 13-14, passim).
Em 1960, Fernand Braudel decidiu criar uma nova revista, Études rurales [...]. E convidou-me a dirigi-la, com Daniel Faucher. Faucher era um dos últimos representantes da grande escola francesa de geografia, cuja fertilidade decorria da íntima imbricação entre geografia humana e geografia física. Naquele momento, a aliança estava sendo desfeita. Estávamos ali para tentar salvar o que fosse possível, e pretendíamos, nas páginas da revista, unir os geógrafos aos historiadores, mas
também aos antropólogos, economistas, sociólogos, agrônomos, convencidos de que precisávamos aplicar – no estudo deste imenso campo, o dos campos e campesinatos do mundo – a parte do programa dos Annales, de longe a mais fecunda, que exortava todas as ciências humanas à cooperação (ibidem, p. 75, passim).
A ampliação da noção de fonte é portanto motriz para os “Annales”. Denunciando a devoradora paixão dos metódicos pelas notas de rodapé, o estudo dos textos e só deles, Febvre, Bloch e depois Braudel e seus discípulos militam para que o
historiador dialogue não só com “todos” os assuntos, mas também com o conjunto
das fontes disponíveis (escritas, materiais, orais) susceptíveis de fazer falar o homem do passado (TÉTART, 2000, p. 111).
Daì a atenção dos “Annales” para com todas as fontes que trazem ensinamentos
sobre a história do cotidiano, da civilização material, das crenças, em suma, de tudo o que faz a sedimentação de uma cultura, de uma economia, de uma sociedade num dado tempo, num dado período (idem).
Mas se não pretendo, como historiador da sociedade feudal, limitar minha curiosidade a estes detalhes, se tento compreender o que era uma batalha, a paz, a guerra, a honra, para os combatentes que dela participaram, não me será suficiente
expor os “fatos”. Devo esforçar-me por encarar as coisas com os olhos desses
guerreiros, tenho de me identificar com eles, que já não passam de sobras, e este
esforço de incorporação imaginária, esta revitalização exigem que eu dê “minha contribuição”, como se diz. Algo de subjetivo. A história de hoje renuncia à busca
ilusória da objetividade total (DUBY, op. cit., p. 59).
La Societé féodale marcou-me até em minha maneira de escrever. Lendo hoje algumas de suas páginas, espantam-me sua juventude, sua inesgotável fecundidade, suas audácias. Nelas encontro muita coisa que ainda hoje estimula nossas pesquisas, impulsionando-nos para frente. Por exemplo, o convite, na época insólito, a recorrer, na busca de uma melhor compreensão do comportamento dos guerreiros do século XII, ao testemunho da literatura de divertimento que os encantava, das canções de gesta e dos romances de cavalaria que lhes propunham modelos de comportamento. E essas pistas que seguimos para penetrar até as estruturas mais profundas de uma cultura, julgamos que nos foram indicadas recentemente pelos etnólogos, apaixonados por mitos e sistemas de parentesco. Pois já as vejo indicadas neste livro (ibidem, pp. 14-15).
Com efeito, ao contrário de Braudel, cuja maneira de escrever a história deriva de uma conjunção entre as abordagens do geógrafo e do economista, e que confessava sem reticências hesitar arriscar-se pelo terreno da cultura, principalmente do religioso, Lucien Febvre, de sua parte, extraindo sua informação mais das obras literárias que das cartas e muito mais do que das estatísticas, sentia-se mais à vontade neste terreno que em qualquer outro (ibidem, p. 87).
Ainda mais que Marc Bloch, Lucien Febvre tinha a convicção de que a economia não explica sozinha as estruturas e a evolução de um grupo social. Esta convicção incitou-o a dar um novo nome à revista: Annales. Économies, Sociétés, Civilisations. A economia continuava à frente, mas o social instalava-se no cerne do projeto, em posição de comando, e o lugar que lhe havia sido atribuído pelos fundadores em
1929, complementar, não acessório, pelo contrário, aberto para o futuro da pesquisa,
incumbia agora às “civilizações”, ou seja, ao que hoje denominarìamos cultura
(idem).
Abre-se, em conseqüência, o leque de possibilidades do fazer historiográfico, da mesma maneira que se impõe a esse fazer a necessidade de ir buscar junto a outras ciências do homem os conceitos e os instrumentos que permitiriam ao historiador ampliar sua visão do homem. Como em Michelet, não se desprezava o subjetivo, a individualidade, como em Marx ou em outros historiadores que assentavam suas análises no econômico e no social [...] (ODALIA apud BURKE, op. cit., p. 07).
o combate concentra-se num único lugar de convergência da investigação: uma única ciência, a história, faz frente às demais. Mais ainda, no que diz respeito à história privilegiada, se todo o seu horizonte social é levado em consideração, das hierarquias às mentalidades, o fato é que a economia é que vem a ser visada sobretudo. [...] Com isto, alarga-se o fosso entre os Annales e a Revue de Synthèse.
Para Henri Berr, “a sociedade engloba a economia” e os Annales portanto vieram apenas lançar luz sobre “um aspecto da vida das sociedades, que por muito tempo ficou à sombra e para o qual o marxismo havia chamado a atenção” (DAIX, 1999, p.
173, passim).