historiadores do mundo inteiro (inclusive componentes da própria Escola dos Anais, como
Georges Duby e Jacques Le Goff), a fim de compreendê-lo melhor, de traçar o seu perfil?
Duby, integrante da terceira fase da Escola dos
Annales, e Burke assim se referem à
mentalidade:
Marc Bloch, de Les Rois thaumaturges a La société féodale, convidava-nos a
considerar a “atmosfera mental”. De maneira mais insistente, Febvre exortava-nos a escrever a história das “sensibilidades”, dos odores, dos temores, dos sistemas de
valores, e seu Rabelais demonstrava magnificamente que cada época tem sua própria visão do mundo, que as maneiras de sentir e pensar variam com o tempo e que, em conseqüência disso, o historiador é solicitado a se precaver o quanto puder das suas, sob pena de nada compreender. Febvre propunha-nos um novo objeto de
estudo, as “mentalidades”. Era o termo que utilizava. Pois nós o retomamos (DUBY,
1993, p. 88).
Ele não consta do Littré, embora já fosse utilizado no meado do século XIX por derivações da palavra mental, designando vagamente o que se passa na esfera do espírito [...]. Com esta, o que se queria dizer, sempre vagamente, eram certas disposições psicológicas e morais a julgar as coisas [...]. O termo seria consagrado pelo título escolhido por Levy-Bruhl para sua obra que provavelmente maior repercussão teve, La Mentalité primitive [...]. Eis a definição oferecida por Gaston
Bouthoul em 1952: “Por trás de todas as diferenças e nuances individuais, subsiste
uma espécie de resíduo psicológico estável, feito de julgamentos, conceitos e crenças aos quais aderem, no fundo, todos os indivíduos de uma mesma sociedade.” Assim era o que entendíamos (idem).
Com efeito, nós começávamos convencidos de que no interior de “uma mesma sociedade” não existe apenas um “resìduo”. Ou pelo menos que este resìduo não
apresenta a mesma consistência nos diversos meios ou estratos de que se compõe uma formação social. E sobretudo, recusávamo-nos a aceitar como estável este resíduo, ou antes estes resíduos (fazíamos questão do plural). Eles se modificam ao longo das eras, e nos propúnhamos precisamente a acompanhar atentamente tais modificações (idem).
Afirmávamos em primeiro lugar que o estudo a longo prazo desse sistema não deve em hipótese alguma ser isolado do estudo da materialidade, e foi efetivamente para justificar esta proposição primordial que nos apegamos a esta palavra,
“mentalidade”. Outros termos, derivados das palavras espìrito ou idéia, podendo
levar a esquecer que os fenômenos cujo estudo sugeríamos enraízam-se inevitavelmente no corporal e favorecendo o desvio para uma Geistesgeschischte sem amarras cujas insuficiências denunciávamos. O que buscávamos conhecer, com efeito, passava-se nas cabeças, que não podem ser separadas de um corpo, no animus e não na anima, como nos teria provavelmente dito Hugues de Saint-Victor se pudéssemos pedir sua opinião. E se os traços deixados pelos “julgamentos”,
“conceitos” e “crenças” compartilhados por nossos ancestrais do século XII, embora
menos palpáveis que os de uma operação de arroteamento ou de uma expedição militar – por sinal dependentes elas próprias de alguns desses julgamentos, conceitos e crenças –, não são menos “reais”, nós advertìamos os historiadores contra o perigo de interpretá-los sem levar em conta simultaneamente o que outros traços ensinam a respeito dos procedimentos de educação pelos quais eram transmitidas de geração em geração as representações mentais, a respeito das condutas que estas pretendiam justificar, dos medos que ajudavam a descartar, das percepções de que se nutriam, ao mesmo tempo deformando-as, em suma, de todo o concreto da existência na qual essas representações mergulhavam suas raízes e sobre as quais repercutiam, constantemente. As mentalidades, das quais pretendíamos fazer um novo objeto histórico, só têm interesse, e mesmo só têm existência – como repetíamos incansavelmente, contra os partidários de uma história autônoma do “pensamento”
ou da “vida espiritual” – uma vez encarnadas, no sentido primeiro e mais forte da
palavra (ibidem, pp. 89-90).
Todavia – e vinha aqui nosso segundo princípio – não era pelos indivíduos que nos interessávamos. Não raro obrigados, naturalmente, a apreender o que desejávamos alcançar através do caso de uma personalidade, tentávamos abstrair seus pensamentos individuais. Exatamente como não aceitávamos separá-los de seu corpo, tampouco consentíamos em isolar este indivíduo do corpo social em que se
inseria. Com o termo mentalidades, designávamos o conjunto vago de imagens e certezas não conscientizadas ao qual se referem todos os membros de um mesmo grupo [...]. Ora, nós procurávamos reconhecer [...] este magma confuso de presunções herdadas ao qual [cada pessoa] se refere a cada momento, sem prestar atenção nele mas sem tampouco expulsá-lo de seu espírito (ibidem, p. 91, passim).
A empreitada tornava-se francamente arriscada face a esta história dos gostos, dos desejos, das inquietações, muito mais indecisa, e cujos traços eu ainda não estava na época capacitado a detectar (ibidem, p. 96).
Sua124 contribuição mais substancial, contudo, para a história das mentalidades, ou à
história do “imaginário medieval”, como agora denomina, foi realizada vinte anos
depois com a publicação do La naissance du Purgatoire, uma história das mudanças das representações da vida depois da morte. Segundo Le Goff, o nascimento da idéia
de Purgatório fazia parte da “transformação do cristianismo feudal”, havendo
conexões entre as mudanças intelectuais e as sociais. Ao mesmo tempo, insistia na
“mediação” de “estruturas mentais”, de “hábitos de pensamento”, ou de “aparatos intelectuais”, em outras palavras, de mentalidades, observando que, nos séculos XII
e XIII, surgiram novas atitudes em relação ao tempo, espaço e número, inclusive o
que ele chamava do “livro contábil da vida depois da morte” (BURKE, 1997, p. 86).
Mais séria, porém, é a crítica a Febvre por presumir muito facilmente uma homogeneidade de pensamento e sentimentos entre os vinte milhões de franceses da
época, escrevendo com convicção sobre “os homens do século XVI”, como se não
houvesse diferenças significativas entre os pressupostos de homens e mulheres, ricos e pobres, e assim por diante (ibidem, p. 42).
Ainda que Durkheim e Mauss tenham empregado ocasionalmente o termo, foi o livro de Lévi-Bruhl, La mentalité primitive (1922), que o lançou na França. Assim mesmo, apesar de ter lido Lévi-Bruhl, Marc Bloch preferiu descrever seu Les Rois Thaumaturges (1924), hoje reconhecido como uma obra pioneira na história das mentalidades, como uma história de representações coletivas (termo preferido por Durkheim), representações mentais, ou mesmo ilusões coletivas. Nos anos 30, Febvre introduziu o vocábulo instrumental intelectual, mas não obteve grande sucesso. Foi Georges Lefebvre, um historiador situado nos limites do grupo dos Annales, que cunhou a frase história das mentalidades coletivas (ibidem, pp. 131- 132).