O trabalho de Rolf aconteceu em meio à rediscussão e à ampliação do domínio da Psicologia. Novas formas de se fazer Psicologia estavam em desenvolvimento: nos EUA, o behaviorismo e a Psicologia Humanista e, na Europa, a Gestalt, a Fenomenologia, o Psicodrama, a Psicologia Genética e a Psicologia Sóciohistórica. Havia uma migração de pensadores europeus para a América devido às guerras, tornando este continente um palco para tal rediscussão, num esforço para superar as perspectivas mecanicistas e deterministas que fundamentaram sua constituição no final do século XIX (KAHHALE, 2002).
Rolf fazia parte deste ambiente cultural e, ao apontar para o monismo como modelo filosófico mais adequado objetivando o desenvolvimento da ciência, criticava o positivismo. Comentando a atitude científica do século XX como:
...um período em que as pessoas pensavam que se poderia ter o mundo sob controle pelo aumento do conhecimento dos detalhes sobre o universo, explorando o mundo com uma ferramenta de especializações, falácia esta cada vez mais aparente e, como conseqüência, muitos cientistas agora gastam tempo e esforço tentando diminuir este desequilíbrio cultural, o do método analítico (ROLF, 1963, p. 3).
A discussão da abordagem corporal com Reich e seus seguidores trazia nova luz para a exploração das teorias Freudianas e do inconsciente, à medida que Reich lidava com o visível, o concreto, fazendo correlação entre os mecanismos de defesa psicológicos e as contrações musculares estruturadas na CMC (GAIARSA, 1984).
O próprio paradigma utilizado para o acolhimento e desenvolvimento destes novos pontos de vista estava em evolução. As teorias neopositivistas presentes no modelo biomédico, que eram reducionistas, deterministas e universalistas, concebiam a doença como desvio do normal e não como desequilíbrios de um todo (visão esta presente historicamente no modelo romântico, no qual corpo e alma eram vistos de forma integrada na observação da doença), cuja observação clínica fora substituída por pesquisa experimental. Tais teorias estavam sendo revistas (RAMOS, 1994).
Também concomitantemente à gênese do Rolfing, aparecia o conceito de medicina psicossomática, com Felix Deutsch em 1922, e Helen Dunbar com seu livro Emotions and
Biology Changes. A Survey of Literature on Psychossomatic Interrelashionps: 1910-1933, oferecendo base para a formação da área, com observações sistemáticas e aplicação de metodologia científica. Dunbar foi a idealizadora e fundadora da American Psychosomatic Society e de sua revista, Psychossomatics Medicine, em 1939, 1a revista que tratava sistematicamente do assunto. Jung, também nesta época, explorava a inter-relação entre os fatos psíquicos e corporais. Em sua teoria do self, tratou da intimidade do inter- relacionamento dos traços psíquicos e corporais e do modelo holístico que Smuts discorreu, em 1926, em Holism and Evolution (RAMOS, 1994), e que foi utilizado por Rolf em sua criação.
A revolução proposta pelo desenvolvimento destes conceitos chegaria às metodologias de trabalho, tanto médicas como psicológicas. Antes de mais nada, o objeto de observação “homem” estava sendo visto de outra maneira e, assim também, a saúde e a doença.
A psicologia da Gestalt, nas décadas de 1920-30, abriu campo para o estudo do homem como um todo, e não como partes autônomas. Perls (1979), expoente da terapia Gestáltica americana, manteve íntima colaboração com Rolf. Ambos tiveram Esalen como contexto onde seu trabalho pôde tornar-se visível e desenvolver-se. Perls (1979) relata sua parceria com Rolf em In and out of the Garbadge Pail e, por sua vez, Rolf relatou seu contato com Perls em entrevista publicada no Bulletin for Structural Integration, em 1976. Perls (1979) tornou-se cliente de Ida Rolf, cuja experiência na perspectiva de Rolf é relatada por Feitis (ROLF, apud FEITIS, 1986, p. 28-30).
Rolf (1973) estudou Selye e citou seus estudos sobre Estresse em STRUCTURAL INTEGRATION Gravity: an unexplored factor for the understanding of Stress, tentando acrescentar à psicossomática o conceito de estrutura e Gravidade.
Colaborou com Feldenkrais (1949, 1972), pioneiro nas abordagens somáticas emergentes na segunda metade do século XX, com suas teorias de base neurológica, de desenvolvimento e reabilitação motora e seus efeitos no esquema corporal e na imagem do corpo. Teve contato com Korzybsky (1948), com quem manteve discussões na área de semântica e, com Fuller e Applewhite (1975), sobre seu modelo de tensegridade, estabelecendo paralelos entre este e a forma como o tecido conjuntivo participa no suporte da estrutura humana, numa combinação de forças tensionais e compressivas, revolucionando nas explicações sobre gravidade e sustentação de organismos no seu contexto. Em Esalen, participou da contínua discussão
sobre a questão da Integração Fisiopsiquica May, Maslow, Schutz, Feldenkrais foram apenas alguns dos seus interlocutores (Feitis, 1986).
Comentou sobre Reich (ROLF, 1963, 1999) e seus seguidores bioenergéticos. Seu trabalho foi amplamente usado por estes, especialmente no que se referia à catarse emocional e, em especial, como metodologia auxiliar na busca da fluência enérgica e dissolução da CMC (DYCHTWALD, 1977; PRADO, 1982; GAIARSA, 1984, LUSTFIELD, 1999).
Ida não entrou na dimensão simbólica, lidando com a psicodinâmica como dimensão comportamental decorrente da organização somática no contexto gravitacional.
Evitou, com sucesso, cair no dualismo presente nas primeiras discussões de psicossomática, em que aparecia o pensamento causalista ou hierárquico, pelo simples fato de que seu modelo propõe uma visão holística, e seu método, uma abordagem somática de alcance global.
Sua teoria é inequívoca quanto à proposta de um ser uno e, sobretudo, ao apontar o fator gravitacional como organizador e responsável pelo desenvolvimento do homem, e o tecido conjuntivo como responsável pela sustentação física desta transformação.
Neste contexto, o trabalho de Rolf revelou uma posição em psicossomática (unidade do fenômeno fisiopsíquico) e adicionou a esta discussão o enfoque do vértice somático, mediante da noção de estrutura, sua equivalência funcional e comportamental. Com tal concepção de homem-materialista e evolucionista-e por meio de sua metodologia de abordagem somática e estruturalista, acrescentou e inovou ao campo da psicossomática ao propor o estudo dos resultados da aplicação sua proposta.
Resposta emocional é comportamento, é função. Todo comportamento é expresso através do sistema músculo - esquelético. Toda função é uma expressão da estrutura e da forma e tem uma correlação direta com a estrutura material. À medida que a estrutura vai se tornando mais apropriada, os distúrbios emocionais podem diminuir, e de fato diminuem (ROLF, 1999, p. 3).
Ainda em “Rolfing, a Integração das Estruturas Humanas” afirma:
A premissa da psicoterapia moderna é que as circunstâncias exteriores do homem são uma projeção de seu eu interior, muitas vezes oculto. Essa premissa pode ser vista sob um ângulo diferente: o estado emocional de um homem pode ser visto como projeção de seus desequilíbrios estruturais. Não há dúvida de que esta fórmula também é uma grande simplificação e que há incógnitas que o tempo e os psicoterapeutas desvendarão. Mas um homem que busca a integração da estrutura de seu corpo experimenta o elo básico que existe entre a estrutura e a emoção. À medida que caminha em direção ao equilíbrio estrutural, percebe que seu aspecto psicológico também está mudando. Para sua satisfação, consegue sentir que seus problemas psicológicos são verdadeiros espinhos cravados na carne, que só desaparecerão na medida em que a carne mudar, na medida em que for estabelecido o livre fluxo da energia do corpo e seus fluidos. Quer a mudança seja induzida por uma terapia psicológica, quer por uma terapia somática, a mudança na carne deve ocorrer, para que haja êxito no resultado terapêutico. Olhando corpos que se organizam de acordo com estas premissas, é quase possível ver as linhas de força definindo o campo energético que é o homem... (ROLF, 1999, p. 3).
Ela atesta que:
...os padrões comportamentais do homem integrado não podem ser formulados simplesmente por se pensar sobre eles ou especulando-se sobre quais sejam eles. Felizmente só existem métodos puramente operacionais à disposição e estes mostram que uma aproximação pelo ponto de vista estrutural, mais que pelo ponto de vista comportamental são resultados mais rápidos, e de alguma forma mais predizíveis. Desta forma é possível construir homens mais equilibrados e observar as mudanças (ROLF, 1999, p. 10).
Sua abordagem é somática e seu interesse, que vai muito além do corpo físico, é a transformação humana, advinda do processo de organização estrutural.
Todo seu espírito está traduzido na escolha do título do artigo que propõe sua teoria: INTEGRACAO ESTRUTURAL Gravidade: um fator inexplorado num uso mais humano dos seres humanos (ROLF, 1963, p.1). Os desdobramentos de tão radical hipótese podem se fazer notar em todas as áreas de investigação, indo das ciências humanas as biológicas e físicas. Como investigadora, sugere muitas direções de pesquisa, congruentes, portanto, com o paradigma holístico de que se utiliza em sua concepção de homem e de ciência.
Gaiarsa (1984) comenta Rolfing e sua eficiência como teoria e técnica para lidar com a CMC. Diz ser abordagem potente que atua na postura e na personalidade.
Quando Rolf define Rolfing para o Psychotherapy Handbook, coloca sucinta e cuidadosamente que:
…em primeira instância, o Rolfing não é uma abordagem psicoterapêutica dos problemas humanos, mas o efeito que tem surtido na psique humana vem sendo tão notável que muitas pessoas insistem em considerá-lo como tal. O Rolfing é uma abordagem da personalidade através dos componentes de colágenos miofascial do corpo físico. Integra e equilibra os assim chamados “outros corpos” do homem, descritos metafisicamente como astral e etéreo e, hoje em dia, com mais modernidade, redenominados de aspecto psicológico, emocional, mental e espiritual. .. O efeito psicológico é muito maior do que seria de se esperar induzir durante o breve período de 10 horas de trabalho... (FEITIS, 1986, p. 38).
As evidências empíricas que se seguiram na prática do Rolfing, bem como sua concepção de homem e sua postura filosófica, levam-nos a considerar propícia a reflexão desta prática numa leitura psicossomática.