Rolf (1977) foi a criadora da teoria e da metodologia de trabalho por ela denominados Integração Estrutural, depois identificados como Rolfing.
Seu trabalho pioneiro aconteceu durante uma trajetória de vida bastante singular também. Rolf nasceu em Nova Iorque, em 1896, vinda de uma família imigrante alemã. Teve formação e práticas acadêmicas; formou-se em 1916, no Barnard College e, a seguir, foi contratada como pesquisadora pelo Instituto Rockefeller, hoje, Universidade Rockefeller, onde fez carreira. Tornou-se Doutora em Bioquímica, título outorgado pelo Colegiado de Médicos e Cirurgiões da Universidade de Columbia em 1920.
Quando jovem, Rolf sofreu um acidente – um coice de cavalo –, sua respiração foi afetada e, desde então, ela começou a apresentar sintomas parecidos com pneumonia. Por indicação médica, foi tratada por um osteopata. Sua função respiratória melhorou e foi a partir dessa experiência que ela iniciou-se no conhecimento da osteopatia.
Este ramo da medicina, iniciado pelo médico Andrew Taylor Still (1828-1917), dirigia-se ao trabalho na relação estrutural entre os ossos. Still (1946) percebeu que, por trás da maioria dos processos de doença, existiam desorganizações estruturais e que havia uma relação entre a organização das estruturas corporais e as disfunções fisiológicas. Ele acreditava que a “estrutura determina a função” e denominou qualquer anormalidade que causasse uma doença de “lesão osteopática”. A chave para a eliminação das lesões osteopáticas era o retorno ao equilíbrio nas relações estruturais entre os ossos e, conseqüentemente, a circulação de fluidos pelo corpo. Sua ciência, mediante esta manipulação, visava o resgate funcional do organismo. Para Rolf, pesquisadora em bioquímica, as noções da correlação entre estrutura e função eram familiares e o contato com a osteopatia deu-lhe fundamentos para um outro tipo de exploração: o de buscar na própria reestruturação do organismo a melhora funcional, não apenas na síntese de remédios ou na cirurgia, prática em voga na ciência médica da época. No início da década de 20, na Suíça, Rolf entrou também em contato com a homeopatia de Hanemann e a Matéria Médica, onde conhece o princípio de que o corpo encontra sua própria
cura e que a medicação, mais que eliminar os sintomas apresentados, visa a estimular o corpo a utilizar seus recursos para se curar, retornando, portanto, ao equilíbrio funcional.
Além do contato com osteopatia e com homeopatia, aproximou-se da hatha yoga e a ela dedicou-se. A premissa deste tipo de prática é que o trabalho no corpo da pessoa aprimoraria não somente suas condições físicas, mas também suas condições emocionais e espirituais. Alongam-se o corpo e as articulações por meio de posturas (asanas) em busca de um corpo mais equilibrado. É uma tradição hindu milenar, curiosamente muito difundida e conhecida atualmente.
Sua personalidade aliava o rigor do pensamento científico e a exploração de formas alternativas aos modelos de saúde vigentes da época. Seu espírito humanista focalizava seu trabalho para buscar conhecimentos que pudessem melhorar as condições de vida e que pudessem revelar o potencial subjacente no ser.
Na década de 30, Rolf deixou o Instituto Rockefeller e seguiu com suas investigações e estudos particularmente.
Seus casos clínicos iniciais aconteceram quase que acidentalmente. Ethel, seu primeiro caso descrito, (ROLF, 1976, apud FEITIS, 1986, p. 17-8) apresentava restrições de movimento nas mãos e braços. No início, Rolf aplicava alongamentos que aprendera na yoga e, conseguindo bons resultados, outras pessoas começaram a procurá-la. Além dos ensinamentos de yoga, ela começou a utilizar técnicas da osteopatia.
Surge o caso de Grace (ROLF, 1976, apud FEITIS, p. 22-3), que sofrera um acidente aos 8 anos e perdera muitas de suas funções motoras. Por dois anos, fez sessões com Rolf, e conseguiu reabilitação motora completa (no início não podia mover-se sem ajuda de outra pessoa). Desta vez, diferentemente dos exercícios que usara com Ethel, - de alongamentos como na yoga -, o procedimento era de manipulação do tecido frouxo que sustentava as articulações. O trabalho foi exploratório, em conjunto com Grace, que guiava seu toque. Os resultados foram surpreendentes quanto à reabilitação funcional.
Rolf considerou que, com Grace, O método Rolfing teve seu início. Seu foco de pesquisa direcionou-se para a exploração das relações entre a plasticidade do tecido conjuntivo frouxo, que sustenta as articulações e as disfunções estruturais e funcionais.
Ela mudou a perspectiva em relação à osteopatia, que dirigia seu foco para as relações entre os ossos, enfatizando a função do tecido conjuntivo (ossos, cartilagens, fascia, tendões e ligamentos). Quando ainda indiferenciado, possui uma função protetora e, com sua diferenciação, passa a adquirir a função de sustentação do organismo. É uma rede contínua de tecido através da estrutura humana, organizada como um sistema, com alto grau de interconectividade. Por suas propriedades visco-elásticas, as fascias e os ligamentos, através de aplicação de energia (pressão manipulativa), podem mudar sua constituição e organização, produzindo, desta maneira, uma sustentação diferente para o organismo. Os ossos definem espaços e o tecido conjuntivo frouxo organiza a relação entre as partes do organismo.
Este era um ponto de vista ainda mais novo. Na perspectiva estrutural, Rolf (1977) apresentou uma visão de corpo, em que as partes são sustentadas e organizadas entre si por ação do tecido conjuntivo e, por ser este plástico, existe a possibilidade de intervenção humana no arranjo dessa estrutura.
A plasticidade do tecido conjuntivo é um dos alicerces de seu ponto de vista. A estrutura humana é maleável e seu arranjo pode alterar-se pelas circunstâncias de vida e por intervenção deliberada; o outro alicerce de sua teoria era o papel da força da gravidade na estrutura humana.
Ela inovou na valorização da função do tecido conjuntivo frouxo em conjunto com o sistema muscular no arranjo da estrutura humana. Numa época de especializações, o tecido conjuntivo era desprezado; por ser ele o tecido que estava literalmente “entre” os órgãos e outras peças anatômicas descritas, era desprezado inclusive nas autópsias. Pouco espaço era dado para seu estudo no começo do século XX; sua função, nesta ocasião, era pouco conhecida.
Rolf continuou sua prática clínica e, empiricamente, foi construindo sua teoria, integrando experiências pessoais, estudos gerados por interesse em novas abordagens de problemas clássicos, além de grandes doses de intuição, coragem e trabalho.
Percebeu que seu trabalho ia adquirindo um padrão e ouvia relatos que transcendiam a questão do arranjo físico da pessoa. Eram relatos de bem-estar físico, alívio de tensões, desaparecimento de sintomas crônicos, mudanças emocionais e de consciência.
Na década de 50, começou a ensinar, buscando formular seu trabalho numa técnica com princípios próprios; era uma nova forma de concepção do trabalho com o ser humano, baseada na premissa unitária do fato humano, cuja estrutura somática era plástica e mutável. Sua trajetória de vida e seus interesses humanísticos levaram-na a explorar uma vertente que concebe o homem como ser uno e integrado, considerando-o como um todo. Buscou a compreensão da integração de seus diferentes aspectos, trabalhando num paradigma holístico. Dirigiu seus esforços para a busca de uma teoria e de um método que concebessem e trabalhassem para o desenvolvimento humano de forma integrada e sintética. Ela postulou uma integração entre estrutura, função e comportamento (ROLF, 1977). As diferentes dimensões ou perspectivas da experiência humana devem ser vistas como desdobramentos, possibilidades inerentes a este fato biológico. Apontou para o fato de que, como ser material e biológico, o homem apresenta uma ordem:
O comportamento humano é a expressão da ordem ou desordem presentes na estrutura física e no seu arranjo estrutural, ou seja, reflete as relações entre partes no espaço, considerando-se a força de gravidade como fator organizacional destas relações (ROLF, 1999, p. 7).
Nesta época, Rolf (1963) definiu a importância da gravidade como referência para a manipulação do tecido conjuntivo e como fator organizador das estruturas humanas. Em junho de 1963, Rolf publicou “Gravity: an unexplored factor in a more human use of human beings” em que considerava o homem como ser material, sujeito às leis que regem a matéria, com densidade no espaço e tempo. A gravidade seria a lei física que regeria nossa organização estrutural e nossas possibilidades comportamentais, representando o contexto no qual a existência humana ocorre, uma força que concorre para a ordem ou desordem de nossa estrutura, de sua função e de nosso comportamento.
Neste artigo, ela atestava a idéia central do Rolfing:
É através da criação de uma relação apropriada no espaço tridimensional que o homem pode se liberar para um funcionamento realmente mais humano. Não só o efeito da gravidade deve ser estudado, mas também as relações estruturais no homem devem ser entendidas em termos da gravidade (ROLF, 1963, p.18).
Ela vinculava o conceito de estrutura ao conceito de ordem (presente em maior ou menor grau no arranjo da estrutura humana) e tinha como referência para tal análise a relação da estrutura com a terra por meio da relação gravitacional de ambos os campos. Todas as dimensões da experiência humana estavam assim vinculadas qualitativamente a este fato (relação organizada entre dois campos materiais). A questão da relação psicofísica era abordada de forma que as dimensões psíquicas ou físicas passavam a ser vértices de observação das experiências humanas.
Como entidades materiais sujeitas às leis da física e da mecânica, devemos considerar que a gravidade atua numa linha perpendicular ao solo que pode atuar rumo a sua organização ao invés de sua desorganização, se nossas partes estiverem relacionadas de tal forma que inclua o poder e força da gravidade (ROLF, 1979, p.4).
Entendia o homem num contexto evolucionário, que se desenvolvia em direção à verticalidade. Tal verticalidade corresponde ao eixo gravitacional, organizador da estrutura humana, e se manifesta na relação de seu campo físico com o da Terra. Esta relação constrói e qualifica a própria evolução do homem.
Rolf (1977) apontava para o fato de não compreendermos ainda as implicações deste ponto de vista, que estaria surgindo no conhecimento humano. Propunha que um homem mais evoluído deveria aparecer para poder entender a função do novo conceito; estaríamos dando apenas os primeiros passos para esta compreensão, uma vez que
...a relação apropriada dos corpos humanos no campo gravitacional é um projeto evolucionista de longo prazo. Nem mesmo a primeira página foi virada. É possível que estejamos vendo a primeira tentativa consciente de evolução que qualquer espécie jamais evidenciou (ROLF, 1979, p.2).
Concebia o homem como ser natural, em processo de evolução, determinado pelas leis da gravidade que, por sua vez, organizava e determinava as possibilidades de seu estar no mundo. O estar no mundo era determinado pela sua estrutura, pela relação entre as partes do corpo em si e pela relação destas com o contexto onde interagia.
Rolf partia, portanto, de concepção materialista e não reducionista, uma vez que as possibilidades humanas revelavam-se e atualizavam-se por meio do corpo e estavam presentes em todas as dimensões comportamentais disponíveis ao ser humano, algumas atualizadas, outras ainda a serem reveladas, estando também presentes na matriz biológica do ser.
Com tal teoria biológica, estruturalista e transformacionista, ela desenvolveu uma metodologia primariamente somática:
Em toda tentativa de se criar um indivíduo integrado, o começo óbvio é o corpo físico, se por nenhuma outra razão, simplesmente por se examinar a velha premissa de que o homem só pode projetar o que está dentro dele. O corpo físico é realmente a personalidade, em vez de sua expressão: é a unidade energética que se chama homem, como existente na realidade tridimensional (ROLF, 1963, p.6).
Rolf deixava em aberto qual seria este potencial, sendo então ele o objeto de estudo e investigação; sua hipótese era de que um corpo mais ordenado produziria comportamentos mais ordenados em todos e quaisquer níveis de manifestação humana. O que poderia o homem manifestar à medida que seu arranjo estrutural apresentava mais ordem em relação a terra?
Ela postulava uma integração entre estrutura, função e comportamento. As diferentes dimensões ou perspectivas da experiência humana deveriam ser vistas como desdobramentos, possibilidades inerentes a este fato biológico. “O arranjo no espaço é fundamental para o comportamento da substância” (ROLF, 1999, p.3).
Comportamento, portanto, aparece ligado à estrutura, significando um arranjo de partes no espaço. Rolf definia sua busca metodológica da seguinte forma: “...para criar relações apropriadas no espaço tridimensional, momento em que o homem pode se libertar para um funcionamento mais verdadeiro” (ROLF, 1999, p.12).
Ela afirmava eufemisticamente: “a gravidade é o terapeuta” (ROLF, 1963, p.16) e propunha pesquisas para uma avaliação dos efeitos da gravidade e das relações estruturais no homem e suas conseqüências em função da gravidade (ROLF, 1963). Esta observação era síntese de sua visão de homem e de sua proposta de trabalho: o comportamento da estrutura organizada em relação à gravidade, sendo que esta representa as condições nas quais as relações homem- ambiente se dão, o pano de fundo de nossa vida. O trabalho seria, portanto, investigar sobre as articulações ou processos que o indivíduo desenvolve e pode desenvolver, levando-se em conta este contexto. Este arranjo e rearranjo contínuos, estruturais e posturais permitiam que a gravidade exercesse sua função, ordenando a estrutura que desempenharia funções mais organizadas, vivenciadas pelas pessoas como seus comportamentos, suas experiências. Era uma visão integrada dos diferentes ângulos pelos quais se podia ver esta “unidade homem”,
em que “forma e função são uma unidade” sendo que “a fisiologia reflete a forma estrutural” (ROLF, 1999, p.2).
Seu trabalho de vida foi dedicado à investigação filosófica e científica sobre as condições a serem preenchidas para que a pessoa, como um todo, funcione da melhor maneira e da forma mais econômica possível. Ela organizou a primeira estratégia de Integração Estrutural em 10 sessões, chamadas, nessa ocasião, de processos e, depois, de receita.
Os passos seguintes no desenvolvimento do Rolfing foram de ensino e divulgação. Por dez anos, ensinou e deu conferências nos Estados Unidos e na Inglaterra; etapa difícil pois Ida, que vinha da área científica, queria ensinar e estabelecer diálogo com profissionais experientes no campo da saúde (médicos, osteopatas, etc.). Estes profissionais nem sempre entendiam seu ponto de vista como um todo e queriam utilizar-se de partes do método e de algumas de suas técnicas, para uso específico em suas práticas profissionais, quebrando, dessa forma, a integridade do seu ponto de vista.
Foi no Esalen Institute, em Big Sur na Califórnia, na década de 60, que seu trabalho encontrou campo fecundo para ser divulgado. Este Instituto era sede dos movimentos de Psicologia Humanística e do Movimento para o Potencial Humano. Os enfoques terapêuticos estavam sendo revistos e novas propostas despontavam e lá tiveram berço. A questão corpo-mente e suas abordagens técnicas foram repensadas. Neste ambiente aberto e experimental, Rolfing encontrou outro tipo de reflexão. Schutz (1968); Silverman et al. (1973); Prestera; Kurstz (1976); Perls (1979); Kurtz (1992) e tantos outros expoentes experimentaram seu valor e fizeram os relatos em suas obras. Era um momento cultural específico, beneficiado pelos efeitos do pós-guerra na revisão dos parâmetros positivistas; exploravam-se idéias vindas do oriente, tradições antigas e buscava-se a integração delas em novos parâmetros para lidar com o desenvolvimento psicológico e humano.