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V. İDARİ VERGİ SUÇLARI

6. YAPILMASI GEREKENLER VE SONUÇ

Trataremos agora do intento de caracterizar a Psicologia Comunitária, especialmente a que se desenvolveu no Ceará, sobre a qual buscamos fundamentar ética, teórica e metodologicamente nossas análises, leituras e elaborações conceituais durante para a presente investigação. Com isso, confirmamos a escolha da Psicologia Comunitária do Ceará como eixo central para nosso marco teórico nesse estudo, justamente pelo fato de ser um corpo teórico-metodológico originado de uma práxis transformadora, que vem sendo desenvolvido há praticamente 30 anos na realidade cearense, na qual se insere o contexto dessa pesquisa.

Assim, compreendemos ser um modelo significativamente adequado, pertinente e efetivo para a leitura da realidade em questão, bem como de seus fenômenos, o que tende a elevar a consistência e a legitimidade das problematizações, inferências e elaborações conceituais que aqui buscaremos crítica e criativamente desenvolver.

Em uma primeira aproximação conceitual, nos remetemos a meados da década de 90, quando Cezar Wagner nos brinda com seu primeiro livro4 sobre Psicologia

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Tal publicação rapidamente se torna uma consagrada referência para os profissionais, estudantes e demais atores envolvidos em uma práxis psicossocial engajada e transformadora, sequiosos de conhecimento sistematizado para aprofundar e ampliar o impacto de suas próprias empreitadas e investidas acadêmicas, científicas, profissionais, ideológicas e ético-sociais. Por esse motivo, orientando toda uma geração de pessoas envolvidas com Psicologia Comunitária e fundamentando teórica e metodologicamente uma enorme gama de experiências junto a comunidades, é que o livro “Noções de Psicologia Comunitária” pode ser lido hoje como um clássico na literatura acadêmica sobre o assunto, chegando sua primeira edição às mãos do público no ano de 1993, sendo re-editado no ano seguinte.

Comunitária, uma obra que condensa de forma original elementos históricos, ético- políticos, sócio-ideológicos, teóricos, metodológicos e vivenciais, em um notável esforço de criação e sistematização de cerca de 13 anos de práxis. Vejamos uma primeira conceituação oferecida por Góis (1994) a essa época:

Entendemos a Psicologia Comunitária como uma área da Psicologia Social que estuda a atividade do psiquismo decorrente do modo de vida do lugar/comunidade; estuda o sistema de relações e representações, identidade, consciência, identificação e pertinência dos indivíduos ao lugar/comunidade e aos grupos comunitários. Visa ao desenvolvimento da consciência dos moradores como sujeitos históricos e comunitários, através de um esforço interdisciplinar que perpassa a organização e o desenvolvimento dos grupos e da comunidade. (p. 43)

Cerca de 10 anos depois, em uma segunda aproximação, Cezar Wagner caracteriza a Psicologia Comunitária desenvolvida no Ceará como:

Um área da psicologia social da libertação;

Voltada para a compreensão da atividade comunitária como atividade social significativa (consciente), própria do modo de vida (objetivo e subjetivo) da comunidade e que abarca seu sistema de significados e relações, modo de apropriação do espaço da comunidade, a identidade pessoal e social, a consciência, o sentido de comunidade e os valores e sentimentos aí implicados;

Tem por objetivo a construção do sujeito da comunidade, mediante o aprofundamento da consciência (reflexivo-afetiva) dos moradores com relação ao seu modo de vida e ao modo de vida da comunidade. (GÓIS, 2005, p. 51)

Com base em ambas conceituações realizadas pelo autor cearense, podemos afirmar que a Psicologia Comunitária buscaria promover uma abordagem integrada e integrativa dos fenômenos sócio-psicológicos, considerando o exercício de superação das inconciliáveis antinomias: indivíduo/coletividade; subjetividade/objetividade; sujeito/objeto da intervenção, mediante a concepção dialética e dialógica dessas relações (GÓIS, 1994, 2005; MONTERO, 2007b). Destacamos aí a marcante coerência com a Psicologia Histórico-Cultural do psicólogo russo Lev S. Vigotski (cf. VIGOTSKI, 1982a; 1982b; 1996; WERTSCH, 1988; VEER, VALSINER, 1996) assumida como importante referência epistemológica da Psicologia Comunitária desenvolvida no Ceará.

Nesta perspectiva, possui como marca a integração entre o desenvolvimento humano e o desenvolvimento social, que ganham corpo, respectivamente, no fortalecimento da identidade pessoal e na facilitação da construção do sujeito comunitário, por um lado, e na construção de melhorias nas condições coletivas de vida, favorecendo

ética, política e socialmente o tecido comunitário, em uma perspectiva eco-sustentável e ético-solidária.

Consideramos como um grande diferencial no enfoque da Psicologia Comunitária aqui tratada a abordagem da complexa trama de sentimentos, sentidos e significados, processos que tomam como referência, novamente, achados empíricos e elaborações teóricas da Psicologia Histórico-Cultural desenvolvida por Vigotski e seus colaboradores (VIGOTSKI, 1982a; 1982b; 1996). Aqui, criam-se condições de investigação, análise, compreensão e, portanto, melhor atuação sobre a relação entre o mundo subjetivo do indivíduo, sujeito morador da comunidade, com toda a singular riqueza das dinâmicas afetivo-emocionais (situadas sobre o que Vigotski denominaria de plano microgenético de desenvolvimento), e o mundo externo a esse indivíduo, o próprio tecido comunitário, vivo, interativo, pulsante e metamórfico, com toda particularidade e complexidade de sua dinâmica sócio-política-econômica-cultural.

Nesse caso, são especialmente observados, acompanhados, analisados e facilitados junto aos sujeitos comunitários: a) os processos de construção e desconstrução, significação e resignificação, codificação e descodificação que realizam sobre tal rede de sentimentos, sentidos e significados oriundos da realidade que vivem, diante de sua vivência do modo de vida da comunidade; e b) principalmente as transformações atitudinais pessoais e coletivas que a ocorrência desses processos promovem nos indivíduos e em seus contextos de vida.

É justamente desse diferencial, acima apontado, que destacamos o objeto da Psicologia Comunitária, precisamente sintetizado por Góis (1994):

O objeto da Psicologia Comunitária é o processo do reflexo psíquico da vida comunitária, a imagem ativa das relações do lugar ou da comunidade no psiquismo dos seus moradores e a expressão da identidade a partir das condições e do modo de vida desse mesmo lugar em que vivem e fazem a história de sofrimento, luta, encontro e esperança. (p. 43)

Ainda segundo Góis (2003), em revisão conceitual à definição acima posta, encontramos uma atualização de seu objeto de estudo e atuação, quando o autor afirma que a Psicologia Comunitária “estuda o modo-de-vida da comunidade e de como este se

reflete e muda na mente de seus moradores, para de novo surgir, transformado, singularizado, em suas atividades concretas no dia-a-dia da comunidade” (GÓIS, 2003, p. 30).

Não se trataria, portanto, de apenas compreender como os moradores subjetivam a objetividade das relações e da dinâmica comunitária, atendo-se a esse indivíduo como um sujeito ensimesmado, alienado em sua existência solipsista, cujos processos psicológicos constituiriam fenômenos praticamente metafísicos (haja vista o nível de fragmentação e de apartamento da realidade cotidiana e concretamente vivida que sofrem quando das análises de determinadas teorias). Tais abordagens teóricas, que expressam algum teor psicológico, com acentuado ranço idealista, parecem reavivar um extenuado subjetivismo, de caráter simbolicista e discursivo, cujas críticas apontam para um quê de ressentimento contra a materialidade histórica, cultural e dialógica do viver humano.

A Psicologia Comunitária, a partir do foco dado por seu objeto de estudo e atuação, também não se voltaria a favorecer as práticas amplamente assistidas de “reabilitação psicossocial”, “socialização” ou mesmo “inclusão social”, extensamente pautadas nos debates atuais, especialmente no campo da Assistência Social, Saúde e Direitos Humanos, cujas referências abundam na mesma proporção das práticas.

Diferentemente, a Psicologia Comunitária como a abordamos aqui, buscaria estimular os processos de (re)significação e (re)construção das concepções, imagens, conteúdos, noções, visões, enfim, da trama de representações sócio-culturais construídas (e, muitas vezes, ideologicamente impostas) junto aos indivíduos moradores sobre sua realidade comunitária. A facilitação da atribuição de sentidos pessoais, a reflexão crítico- dialógica e co-construção de significados coletivos, a partir dos sentidos, construídos com base nas vivências e nos sentimentos aí engendrados, articula-se com a tomada de consciência e seu aprofundamento frente à realidade vivida, o que Paulo Freire (1969, 1983) conceituará como conscientização.

A conscientização, por sua vez, nessa acepção freiriana, se desdobrará em uma tomada de posição diante da realidade e de seus acontecimentos vividos, o que tencionará os indivíduos e grupos a assumir atitudes que busquem transformar as condições limitantes e constrangedoras de seu viver, anunciando, assim, um agir comprometido com a superação das situações críticas detectadas por sua reflexão, igualmente crítica. Tal agir, como práxis transformadora, favorece a inserção crítica e integradora do sujeito em seu contexto social de vida, e não apenas incluindo-o ou o enxertando passiva, mecânica e alienadamente, promovendo sua “inclusão social” (ao que somos constantemente convocados).

É nesta perspectiva que compreendemos a inserção do processo de conscientização no que-fazer da Psicologia Comunitária, oferendo-nos condições de nos desviarmos da moléstia ética e política que é a “inibição práxica”, trazida pelo subjetivismo discursivo (MARTIN-BARÓ, 1988), não à toa amplamente difundido em nossos tempos de neoliberalismo e globalização das desigualdades e injustiças sociais.

Para tanto, a Psicologia Comunitária elabora e lança mão de um enfoque diferenciado, buscando evitar os reducionismos que assombram quaisquer práxis sócio- psicológicas transformadoras, como o sociologismo, o psicologismo, o biologicismo, o ativismo e, talvez o mais maléfico e nocivo dos citados, o academicismo – que padece de nem sequer “se molhar” nas multicoloridas e pluritemperadas águas da realidade, conforme nos lembra Freire (2002).

Nesta perspectiva, podemos propor segundo as elaborações do autor e psicólogo cearense Cezar Wagner, a Psicologia Comunitária atuaria mediante o Método Dialógico-Vivencial – MDV (GÓIS, 2008), permitindo ao psicólogo comunitário efetivar o exercício tanto de análise como de vivência do reflexo psicológico do modo de vida comunitário na dinâmica intrapsíquica do morador. O MDV também integraria, quando da atuação, a dimensão reflexiva, crítica, intelectiva e consciente com a dimensão pré- reflexiva, existencial, afetivo-emocional e vivencial, ambas constituintes dos comportamentos dos indivíduos e presentes nas atividades humanas, sob a forma de ações comunicativas e instrumentais (GÓIS, 2005; 2008).

Finalmente, com base em Góis (2005), podemos apontar como objetivo básico da Psicologia Comunitária o desenvolvimento do sujeito comunitário, isto é, a facilitação da construção do indivíduo morador da comunidade como sujeito de sua história, mediante a conscientização (transitivação, ampliação e aprofundamento da consciência) e a conseqüente ação transformadora e solidária de sua realidade (pessoal e coletiva). Góis (2005) nos deixa o seguinte alerta diante da complexidade para delimitação desse objetivo, haja vista o emaranhado epistemológico, teórico e metodológico que se verifica no momento da atuação, junto às disciplinas e subdisciplinas das ciências humanas, sociais, da saúde e da educação:

O problema central, então, não é a relação entre saúde e enfermidade, prevenção e tratamento, mas sim a construção do morador e do Psicólogo Comunitário como sujeitos da realidade. No caso do morador, sujeito da comunidade, isto é, aquele que se descobre (compreende e sente) responsável por sua história e pela história do lugar, e que as constrói mediante sua atividade prática e coletiva no mesmo espaço físico-social em que vive e faz história de sofrimento, luta, encontro, realização e esperança. (p. 52)

Por entendermos a história como processo concretizado e construído cotidianamente, em um tempo e espaço, que é social, geográfica e politicamente definido, e por tomarmos a comunidade como esse espaço físico-social em nossos estudos e trabalhos, o sujeito histórico ganha, para nós, contornos, cores, formas, cheiro, calor, singularidade, enfim, identidade própria e única, na figura do sujeito comunitário. Neste sentido, o sujeito comunitário seria uma expressão contextualizada, com seu endereço histórico definido, como diria Paulo Freire (1969) – ainda que desse endereço estabelecido possa se mudar, e, quiçá, no decorrer da mudança, também se transformar.

Como trouxemos ao início do capítulo, e como pudemos perceber de modo expressivo ao longo do delineamento que acima oferecemos, a Psicologia Comunitária se desenvolve sobre o eixo teoria-prática-compromisso social, tripé que aponta para uma práxis significativamente transformadora de dinâmicas sócio-político-culturais, considerando profundamente – em suas pesquisas, elaborações teórico-metodológicas e intervenções – questões sociais marcantes do contexto latino-americano, brasileiro, nordestino e cearense (GÓIS, 1994; 2003; 2005; 2008).

Confirmamos, ainda uma vez, a pertinência da Psicologia Comunitária na composição do marco teórico referencial desta investigação, uma vez que gira em torno da práxis libertadora junto a contextos comunitários, permitindo-nos identificar, analisar, compreender, traçar criativa e criticamente relações e nexos, esboçar elaborações teórico- metodológicas, problematizar e vislumbrar perspectivas de superação das questões e desafios sócio-psicológicos e ético-político-sociais próprios das (nossas) realidades investigadas. Sobre essa relação entre a Psicologia Comunitária e a práxis libertadora, corrobora as elaborações que vimos apresentando aqui o professor Cezar Wagner:

Por fim, quando problematizamos a Psicologia Comunitária na América Latina e a Psicologia em geral, no sentido da libertação, é por entendermos que o esforço que o indivíduo realiza para se tornar sujeito da realidade se dá em um contexto de dominação e exploração. Aqui, não cabe a palavra liberdade, um valor burguês, das elites dominantes; por isso a palavra libertação, que implica, como já dissemos, a práxis libertadora. (GOIS, 2005, p. 54)

2.3. Paulo Freire e a Educação Libertadora: uma práxis político-pedagógica de

Benzer Belgeler