• Sonuç bulunamadı

Nessa categoria, todos os grupos entrevistados (familiares, participantes e

educadores) fizeram menções sobre o perigo das ruas para as crianças, evidenciando uma

tendência em considerá-la como um lugar perigoso.

A Teresa, mãe do Lucas, e a supervisora Maria abordaram a importância da

criação dos projetos de forma que as crianças e os adolescentes não ficassem na rua. Vejamos

as falas:

“(...) Ah, o projeto é uma coisa que nossa..! foi coisa melhor que aconteceu

aqui no bairro, principalmente pras crianças, né? As crianças saem um pouco da rua e o meu

filho adora este projeto (...)” (FII-1)

“(...) E, nessa oportunidade deles estar assim fazendo um projeto, saindo da

rua... é... vejo tudo de bom, né? (...)” (EI-2)

O discurso da Vera, mãe do Marcos, expressa sua concordância ao fazer uma

observação dizendo que este espaço (a rua) é um local onde as crianças fazem muitas coisas

erradas:

“(...) Eu acho que foi um projeto muito bom que teve aqui no Gonzaga, que

tirou muitas crianças que ficava na rua, fazendo muita coisa errada (...)” (FI-4)

“(...) É muito bom pras crianças sim porque, você veja, antes as crianças

ficava na rua, ficava pegando barreira, barreira do caminhão, né? E, agora, tem o projeto,

né? (...)” (PIV-1)

“(...) não tinha nada pra fazer, as mães deixava as crianças pra rua, iam

trabalhar e deixava pra rua, né? Ficava só bagunçando, no meio da rua (...)” (PIV-9)

Para Dona Lúcia, avó de Juliana, o projeto é o lugar onde as crianças estão

seguras, pois estão sempre acompanhados pelos educadores. Ressaltou também que, com as

crianças e adolescentes estando no projeto, as mães e pais que trabalham fora todo o dia,

podem ficar um pouco mais despreocupados:

“(...) Ah, o projeto é tudo, né? É tudo porque as crianças têm onde ficar,

porque se não tivesse projeto, eles ficava pra rua, porque as mãe trabalham, outras não tem

quem fica com eles, então ia deixar pra rua, e aqui no projeto eles tem onde ficar o dia

inteiro (...)” (FIV-1) “(...) Então, o projeto é bom demais pras crianças e pra gente, porque

tem quem olha, que fica junto com as pessoa, os professor vê que eles não tão sozinhos, eles

não tem onde bagunçar, e tando dentro de casa, aí uma hora tá dentro de casa, outra hora tá

pra rua. Você não vê o que eles faz quando não tá dentro de casa, não tá sabendo que tá pra

rua e você não vê, quer dizer que, então, é ótimo, é ótimo o projeto, pra nós aqui do Gonzaga

é... que que eu posso falar? Tudo de bão, né? (...)” (FIV-2)

“(...) Se eu não tenho ali, eles vão aonde? Pra rua, que eu não guento segurar

tudo aqui dentro. A mãe trabalha, o pai trabalha, e eu segurá eles aqui não dá... pra mim, ali

é bom demais por isso... ‘ai vó, vou lá no campinho’... ‘vai’... eles falam campinho, porque

joga tudo ali, né? Vai, eu sei que tá ali, tá seguro, porque, se fosse pra outro lugar, eu não

podia falar vai. Eu sei lá o que eles iam fazer por ai sozinhos, né? E, ali, já tem os professor

tudo, né? (...)” (FIV-8)

A Larissa, mãe do Rafael, verbalizou que, com o filho na escola e no projeto,

tornava-se mais fácil encontrá-lo:

“(...) O projeto pra mim foi (...) uma melhor oportunidade, porque o Rafael

gostava mais mesmo de fica na rua e sair pra escola... dava o que fazer pra achar ele, que ele

sumia, agora, com o projeto lá perto de casa, é mais fácil ele tá aí. Se dá o horário da escola

eu sei onde encontrar ele (...)” (FIII-1)

As familiares Vera e Dona Lúcia também consideraram importante o fato das

crianças e os adolescentes estarem um período na escola e outro, no projeto:

“(...) Foi assim, um jeito dele sair da rua à tarde, né? Que ele estudava de

manhã e freqüentava à tarde. É um jeito assim da criança sair da rua (...)” (FI-1)

“(...) Vai de manhã na escola, de tarde passa aí, os que vai de tarde, de manhã

passa aí e fica aí, né? Não é verdade? (...)” (FIV-11)

Sobre esse assunto, disse a educadora Talita:

“(...) E o projeto pra mim é, assim, uma oportunidade, né? Porque quem

estuda de manhã, né? Freqüenta o projeto à tarde, e quem estuda à tarde, freqüenta o projeto

de manhã. Então, essa é uma oportunidade, né? Pra que eles não ficam na rua, né? É...,

saindo da escola, eles vão direto pro projeto, né? (...)” (EII-1) “(...) E é muito legal, porque

eles não ficam na rua (...)” (EII-4)

Já a Teresa sugeriu mudanças no projeto, no sentido de oferecer também

atividades aos finais de semana:

“(...) Porque as crianças ficam muito na rua, aqui no Gonzaga, e poderia ter

alguma coisa entre sábado e domingo porque as crianças ficam sem fazer nada. Às vezes, o

Lucas confunde... amanhã é sábado (...) e ele pensa ‘ah mãe, eu vou pro projeto” e eu falo

“ah mas hoje não tem Lucas, hoje é sábado’. Uma vez ele se arrumou e ia descer de dia de

sábado e eu falei ‘Não, Lucas, (...) o projeto só é de segunda a sexta’, aí ele fica de final de

semana: ‘Ah, não tem nada pra fazer mãe, não tem nada’. Aí as crianças ficam tudo aí na rua,

no sol, soltando pipa, porque, de segunda à sexta, eles tem alguma coisa pra fazer, né? Ir pro

projeto (...) Porque a quadra fica fechada, né? De final de semana, né? E tem até criança que

passa ali por debaixo, pra poder ir pro parquinho, brinca uma bola, porque não tem nada

pra fazer aqui no final de semana pras crianças, não tem nada... e a quadra fica fechada...

porque se tem é... alguma pessoa pra dar alguma atividade, eles abrem a quadra, né? Os

meninos ficam com a chave, né? Mas se não tem, não vão deixar as criança lá sozinha, vai

que machuca, quebra alguma coisa, né? Tem que ter alguém pra olhar, né? Tem que ter

alguém pra olhar as crianças (...)” (FII-4)

Em minha reflexão sobre o brincar na rua, relembrei, quando criança, como era

prazeroso brincar nesse espaço, o qual, na visão dos familiares, é considerado perigoso. No

entanto, entendo também que é no espaço da rua que são tecidas as diversas relações sociais,

entre pessoas de idades e gêneros diferentes, às vezes, conflituosas. A anotação no diário

expressa esse momento de reflexão:

“A primeira brincadeira foi o pique-esconde, (...). Lembro do tanto que

participei dessa brincadeira, quando criança. Naquela época, era muito legal, pois eu e meus

amigos brincávamos na rua. Hoje, infelizmente, vejo poucas crianças tendo oportunidade de

realizar essa brincadeira na rua, muitas vezes, devido ao grande número de carros ou pela

rua hoje ser considerada, por muitos, como um lugar perigoso para brincar. O que tem me

chamado a atenção, no Gonzaga, é que posso, no dia-a-dia, encontrar crianças, adolescentes,

adultos e idosos utilizando o espaço da rua, como um espaço de brincadeiras, de encontros,

de conversas e também de conflitos, como entre policiais e moradores, que frequentemente

são abordados” (D31-2).

Esta forma de brincar na rua, entre crianças e adultos, esteve presente em um

trecho do diário de campo 19:

“Paramos o carro no Centro Comunitário do Pacaembu e fomos caminhando

até a ECO. No trajeto duas observações chamaram minha atenção. Perto da igreja, havia

cerca de cinco crianças, de idades bem diferentes, brincando com outros cinco adultos de

bolinha de gude e muitas amarelinhas desenhadas no chão da rua perto da ECO. Foi

interessante verificar a integração entre adultos e crianças, em uma atividade de lazer”

(D19-1).