• Sonuç bulunamadı

No cotidiano dos projetos, foi visível o interesse dos participantes pelo lanche.

Nesse momento, todos paravam o que estavam fazendo e se apressavam para poderem

alimentar-se (ver figura 15). Vejamos algumas falas dos participantes Rafael e Juliana:

“(...) Ir lá no centro comunitário comê.” (PIII-2)

“(...) Agora ficou bem melhor porque as criança lancha, depois vem, toma

banho e vai pra escola (...)” (PIV-10) “(...) Aí a gente... eles faz um bolo pras crianças, as

crianças comem (...)” (PIV-25).

Figura 15: Participantes e educadores Fabiano e Luiz no momento do lanche no

Expressando essa categoria, Dona Lúcia, avó da Juliana, referiu-se ao quanto

foi fundamental o momento do lanche para as crianças e os adolescentes do projeto:

“(...) Porque lá tanto eles comem, né? Tanto eles comem como tem professor

(...)” (FIV-3)“(...) É isso... porque eles comem, eles bebem, eles tem onde ficar. Você quer

melhor que isso, pra que? Acho que tá ótimo (...) porque muitos não têm nem o que comer, e

ali tem (...)” (FIV-5)

Essa fala a respeito da falta de alimentos nos lares das crianças do projeto foi

retratada no diário de campo 42. Uma vivência foi realizada, constando de um passeio para

uma praça do bairro vizinho; os participantes deveriam levar alimentos para o piquenique

planejado. Poucos tiveram condições de fazê-lo e, os que não levaram, alegaram falta de

dinheiro ou não haver nada em casa para levarem:

“Pergunto, então, se eles haviam trazido o lanche e a bebida para fazermos o

piquenique. Nessa hora, vejo em vários olhos e por meio de respostas claras e diretas o

pouco número de pessoas que havia levado alguma coisa. Os que não puderam levar diziam:

‘professor, minha mãe não tem dinheiro para comprar nada’, “não tinha nada em casa para

eu trazer”. É com muita tristeza que recebo essas informações e reflito o como é importante o

lanche que entregamos no final da vivência. Acredito que, se fosse para outro público, o

lanche não teria a importância que tem no nosso projeto” (D42-1).

O lanche, além de sua importância no sentido de deixar os participantes com a

sensação de “barriguinha” cheia, constituiu-se também em momentos de diálogo e

conhecimento mútuos. Todos os envolvidos no projeto participavam desse momento: os

educadores, a supervisora, os funcionários, as crianças e adolescentes e, às vezes, até os

familiares. Esse destaque conferido ao momento do lanche foi descrito em trecho do diário de

campo:

“Estou achando muito interessante o lanche ser no início, pois os participantes

chegam no horário e também por ser um momento onde participantes, professores e

funcionários ficam conversando, o que traz várias aprendizagens e fortalece as amizades”

(D48-1).

Na época da chacrinha, havia várias árvores frutíferas e, assim, além do lanche

oferecido ao final das vivências, os participantes também podiam experimentar várias frutas,

colhidas nas próprias árvores, como manga, abacate, jabuticaba, entre outras. Esses momentos,

foram destacados nas falas dos participantes Juliana e Marcos:

“(...) Aí lá era muito legal lá porque lá tinha árvore, a gente podia subir,

tinha muita... tinha árvore de jabuticaba, a gente podia subir pra comer, tinha pé de manga

que tinham muitas mangas, tinha vários tipos de pé de fruta, assim (...)” (PIV-6)

“(...) Aí mudou, nóis foi pra Chacrinha, como eu disse, aí o Adônis vinha e a

Maria também e o Matheus, aí nós ia lá catar jabuticaba quando era época, abacate também

(...)” (PI-7)

Em uma das vivências na chacrinha, registrada em um trecho do diário de

campo, os participantes solicitaram aos educadores para não brincarem do que havia sido

combinado na semana anterior, ficando, assim, durante toda a manhã, colhendo jabuticabas:

“Nesse dia, as crianças e adolescentes tinham escolhido três brincadeiras,

pega-pega americano (...), vôlei adaptado (...) e pé na lata (...). Porém quando chegamos à

chacrinha, elas viram que as jabuticabeiras estavam carregadas de frutas maduras e pediram

para os educadores deixarem-nas apanhar após o café da manhã. (...) As crianças ficaram a

manhã toda apanhando jabuticabas e guardando-as em sacos plásticos. Os mais velhos, que

tinham mais habilidade para subir nas árvores, ajudavam os menores que, geralmente, eram

seus irmãos ou primos. (...) Observo que a maioria, além de apanhar as frutas para seu

consumo, apanhava para dar para a mãe. Isso me fez refletir, em conversas com as crianças,

sobre a importância da mãe para suas vidas (...) Outra coisa muito interessante que me

chamou a atenção no dia-a-dia foi a interação que as crianças tinham com a natureza,

brincando muito na terra, subindo nas árvores, apanhando várias frutas no pé, brincando de

Tarzan, de cavalinho nos galhos e de balanço” (D5-1).

Finalizando, enfatizo o discurso da participante Juliana, o qual revela que, na

época da campinho, um dos motivos pelo pequeno número de participantes era a falta do

lanche:

“(...) Era pouquinha gente porque não tinha lanche, não tinha nada e quase

ninguém queria vir, né? (...)” (PIV-5)

Pra Mode Chatear

(Composição: Antonio Carlos Jobim)

As criancinhas a gente prende no banheiro

Não deixe no terreiro

Que é pra não incomodar.

A gente grande gosta de ficar sozinha

Lá vem as criancinhas, que é pra mode chatear.

Zulmira, Zulmira

Tranca elas no banheiro

Não deixe no terreiro

Que é pra não incomodar.

A gente grande a gente prende no banheiro

Não deixe no terreiro

Que é pra não incomodar.

A criancinhas gostam de brincar sozinhas

Lá vem a gente grande que é pra mode chatear.

Zulmira, Zulmira

Tranca elas no banheiro

Não deixe no terreiro

Que é pra não incomodar.

CONSIDERAÇÕES

Destaco que as considerações em um trabalho com base na fenomenologia não

são conclusivas, no sentido de findar o estudo de um fenômeno. Neste tipo de pesquisa o

fenômeno é entendido como perspectival, assim sendo, possuidor de inúmeras possibilidades

de se mostrar, se des-velar.

Retomo, antes, o objetivo deste estudo: analisar os processos educativos

presentes na prática social lazer, no contexto do Projeto “Vivências em Atividades

Diversificadas de Lazer” em seu novo equipamento de lazer do Jardim Gonzaga, a ECO,

segundo a percepção dos participantes mais antigos nos projetos, de seus respectivos

familiares e educadores.

Dentre os processos educativos desencadedos na convivência de participantes,

educadores e familiares, saliento: o aprender brincando, a vivência lúdica diversificada e a

autonomia na decisão e forma de fruição do lazer, o afeto e a sensibilidade, o trabalho

coletivo, o respeito e a solidariedade para com o outro, a afirmação étnico-racial, o respeito e

a interação com o meio ambiente, o incentivo à leitura e à escrita, aprendizagens em

diferentes espaços, o comprometimento.

O brincar e o aprender para os participantes não estão em oposição. Em suas

falas: “aprende... quando você vem de quinta, nós joga bola, nós passeia” (PIII-A1), “(...) eu

aprendo muito, eu... eu brinco.(...)” (PII-A1), “Aí outro dia é mais legal ainda, aí começa

tudo de novo, como nós vai brincando de bola, participando das brincadeiras, jogando

queima, (...) vôlei também, é pega-pega ajuda, duro-mole americano, (...) esconde-esconde e

outras brincadeiras” (PI-A2), ressaltam o potencial que as brincadeiras e os jogos têm na

aprendizagem.

A diversidade de vivências lúdicas desenvolvidas no “novo” espaço também

teve destaque nos diários de campo e nas falas dos sujeitos da pesquisa. Brincamos de pega-

pega, pique-esconde, pular corda, soltar pipa, futebol, queimada, vôlei, garrafobol, teatro,

dança, confecção e leitura de jornal, brincadeiras de personagem, xadrez, gincanas,

realizamos passeios, fizemos oficinas de pipas, de baragandam entre outros. A diversidade das

vivências e a possibilidade de contemplação é um dos objetivos do projeto, fazendo com que

estas possuam significados para seus participantes.

Vale ressaltar que as regras dos jogos e brincadeiras eram bem flexíveis,

podendo ser modificadas quando os participantes e demais envolvidos consideravam sua

necessidade. Havia também autonomia dos participantes na mudança das brincadeiras e jogos,

como pode ser visto no trecho do diário de campo 15: “eu e a educadora Diná fomos para o

campo pular corda. No meio da atividade um grupo que estava pulando corda começou a se

pendurar na trave, dando início a outra brincadeira” (D15-1).

O momento de diálogo igualitário, para sugestões e escolhas das atividades, se

destaca entre as falas dos sujeitos. Nesse processo, estão presentes: o respeito pelos gostos das

pessoas, o compartilhar das brincadeiras e o desenvolvimento da memória, pois, na semana

seguinte, os participantes têm que lembrar o que havíamos combinado.

Esse processo de sugestões e escolhas destaca-se como um momento de

educação para o lazer, sendo muito importante a participação e a autonomia de todos os

envolvidos no projeto para a superação de uma educação bancária (FREIRE, 2005a).

Assim, para Fiori (1986) “a educação é, pois, processo histórico no qual o

homem se re-produz, produzindo seu mundo. Todos que colaboram na produção deste,

deveriam reencontrar-se, no processo, como sujeitos de sua própria distinção histórica,

autores de sua existência” (p.10).

Na perspectiva de uma educação dialógica, na qual há o respeito entre

educadores, educandos e comunidade como um todo, processos educativos foram

desencadeados pelos envolvidos. Os educadores permanentemente aprendiam, a partir dos

jogos, com o carinho dos participantes, com o relacionamento entre os educadores, com os

familiares dos participantes, com o espaço do projeto e arredores, com os contatos das mais

diversas formas. O educador Fabiano, destacou que mais “aprendia do que ensinava” (EIII-

A9). O próprio educador diz que aprendeu com a dor, com o sofrimento e com as

adversidades, principalmente do ponto de vista econômico. Também, atribui importância ao

toque, ao abraço, ao querer colo durante as vivências, enfim, ao contato afetivo, o que

considera importante para compreender melhor a vida dos participantes.

Freire (2005a) escreve: “é através [do diálogo] que se opera a superação de que

resulta um termo novo: não mais educador do educando, não mais educando do educador,

mas educador-educando com educando-educador” (p.78).

Ainda segundo Freire (2005b, p.118):

A relação dialógica, (...) não anula, como às vezes se pensa, a possibilidade do ato de ensinar. Pelo contrário, ele funda este ato, que se completa e se sela no outro, o de aprender, e ambos só se tornam verdadeiramente possíveis quando o pensamento crítico, inquieto, do educador ou da educadora não freia a capacidade de criticamente também pensar ou começar a pensar do educando.

Deste modo, o convívio entre todas as pessoas que fazem parte do projeto é

fundamental para possibilitar a ocorrência de aprendizagens.

Segundo Oliveira e Stotz (2004, p.6-15):

Conviver é estar junto, olhar nos olhos, conversar frente à frente (...) é a arte de se relacionar, dá intensidade à relação, sabor ao fazer e gera afetividade e saber (...). Conviver se aprende convivendo e para essa convivência há algumas moedas: simpatia, confiança, humildade, sensibilidade, respeito, flexibilidade em relação aos tempos.

Em relação à temática étnico-racial, a preocupação com questões afirmativas

sempre esteve presente no projeto. Aponto como resultado positivo umas das vivências na

qual o educador Fabiano ficou surpreso com o grande número de participantes que pintavam

figuras de crianças e adultos com o lápis marrom e preto. Na ocasião, ele disse “que, em todo

seu trabalho com a questão racial ele nunca havia visto tantas pinturas retratando os negros,

os quais, no caso do Jardim Gonzaga, são a maioria, mas sim a cor bege que é a mais usada”

(D20-2).

Porém, em um estudo que realizamos em 2007, percebemos a dificuldade dos

entrevistados em se auto-afirmarem enquanto negros, optando, alguns, pelo uso de

expressões, tais como: “moreno escuro”, “marrom”, “mulato pardo”, entre outras (SANTOS

et al., 2007).

Tal situação, possivelmente decorre do preconceito racial ainda existente em

nosso país. Embora os negros representem mais de 90 milhões de pessoas, o que qualifica o

Brasil como o segundo maior país de população negra no mundo, tem-se, ainda, uma cultura

visual, na qual, segundo Inocêncio (2006, p.1):

(...) o corpo negro aparece como a antítese do que se imagina como normal. É um corpo cuja representação está associada ao que há de mais caricato, como se ele existisse justamente para demonstrar o contrário do humano. O corpo negro amedronta, porque a ele foi atribuída uma noção de força que se sobrepõe ao intelecto. Esse mesmo corpo provoca risos, porque sua leitura está vinculada a comparações que o animalizam. Esses são apenas alguns dos motivos que fizeram e fazem expressivas parcelas da população afro-brasileira alimentarem desejo obsessivo por aproximação, ainda que ridícula, das imagens positivas que o segmento branco hegemônico constrói dia-a-dia em torno de si próprio.

Segundo Oliveira (2004), a maior parte desses indivíduos permanece ocupando

a base da pirâmide social, sobrevivendo nas condições mais adversas, com poucas chances de

realizar seus projetos de ascensão social, escolarização, moradia, trabalho.

A inserção da população negra no mercado de trabalho no Brasil é marcada pela vulnerabilidade que resulta da desigualdade racial. Ela trabalha mais e ganha menos do que a população branca, ocupa postos de trabalhos mais precários e está mais exposta ao desemprego.

O papel da mídia nesse processo reforça o preconceito. São poucos os negros

que trabalham apresentando os telejornais, ou programas de auditório, ou programas infantis,

entre outros. Nas novelas, a maioria dos papéis destinados aos negros é de pessoas de baixa

renda, como empregadas domésticas. São poucos os personagens negros que possuem uma

condição social mais favorável. Além disso, pouco se conhece sobre os familiares dos

personagens negros das novelas brasileiras, dando a impressão de que estes se encontram

sozinhos no mundo.

Em pesquisa sobre o corpo na mídia, Bento e Gonçalves Junior (2006),

analisaram as capas da revista “Época” (Editora Globo), publicadas ao longo de um ano, e

observaram que a maioria das imagens das capas era de pessoas brancas. Em relação às

mulheres, encontraram 38 brancas, 4 negras, 1 oriental e nenhuma indígena. No caso

masculino, foram 58 imagens de pessoas brancas, 4 de pessoas negras e nenhum oriental ou

indígena.

A temática ambiental também foi indicada nas falas dos participantes. No

passeio ao “buracão” ressalto a interação e preocupação dos participantes com o meio

ambiente, como no trecho do diário de campo 32:

“Mas o pior estava por vir. Tínhamos que atravessar o riacho, mas como

todos já sabemos, ele estava todo sujo e cheirando muito mal. Inconformado o participante

Olavo disse: ‘minha mãe sempre fala que quando ela era criança, ela vinha sempre no

buracão para nadar, pois naquela época essas águas eram todas limpas’. Ele não foi o único

a ficar inconformado, todos nós ficamos. Como é triste ver um local tão bonito com tanta

sujeira e esgoto” (D32-1).

Outra situação que reporta a temática ambiental ocorreu em um de nossos

encontros na chacrinha, no qual, alguns participantes, jogando pedras em um animal silvestre

(saruê) que apareceu em uma das árvores, provocaram a morte do animal. Nesse momento, foi

aberto o diálogo sobre o ocorrido, utilizando-se de estratégias como contar histórias,

dramatização e pintura. Em momento posterior, outro animal, da mesma espécie, surgiu no

local e a postura dos participantes foi bem diferente, amistosa, tendo inclusive, preocupação

em alimentar e abrigar o animal.

Em relação ao incentivo à leitura e à escrita, várias experiências foram

marcantes no projeto. Realizamos contações de histórias, peças de teatro, entre outras

atividades. Porém, destaco aqui o processo de criação e leitura dos jornalzinhos. A escolha

das matérias, e até mesmo a elaboração destas, eram realizadas pelos participantes. Em cada

edição bimestral havia matérias sobre o bairro, entrevistas com participantes, educadores e

moradores, fotos tiradas dos passeios e das brincadeiras, e também um espaço para

passatempo, com desenho para colorir (muitas vezes de autoria dos participantes),

cruzadinhas, caça palavras, entre outros (ver apêndice 2).

O momento de entrega dos jornalzinhos era sempre muito especial, e esperado

com ansiedade pelos participantes. A primeira coisa que faziam ao recebê-los era realizar as

atividades de passatempo, como por exemplo, colorir os desenhos. No entanto, é preciso

ressaltar que muitas vezes a maioria dos participantes não se interessava pela leitura das

matérias. Nestes momentos sempre houve incentivo por parte dos educadores para a prática

da leitura, atitude esta que nem sempre teve êxito.

Os entrevistados valorizaram processos educativos desencadeados fora da

instituição escolar. Entendo, conforme Silva et al (2008), que identificar e valorizar os

processos educativos em práticas sociais (nesse caso a prática social lazer), faz com que

tenhamos um olhar crítico ao estabelecido monopólio pedagógico de sistemas educacionais,

que pretendem, muitas vezes, deter o único meio pedagógico capaz de educar. De acordo com

Dussel (s/d): “a ‘escola’ arroga-se assim o dever sublime de dar toda cultura à criança (...). O

certo é que com isso elimina os subsistemas educativos (...)” (p.205).

Não só processos educativos positivos foram desencadeados no projeto. Tenho

que destacar que durante toda a minha inserção, os conflitos estavam presentes. Mesmo que

dois participantes tenham apontado a diminuição desses conflitos, no transcorrer das

vivências, as educadoras Talita e Maria reclamavam da falta de disciplina dos participantes,

da agressividade, das brigas, que conseqüentemente influenciavam negativamente os

processos educativos.

Em alguns momentos, na tentativa de diminuir os conflitos, alguns educadores

tiravam os participantes que estavam fazendo bagunça das atividades e também davam

suspensão. Vale ressaltar que os educadores do Projeto “Vivências em Atividades

Diversificadas em Lazer” não concordavam com esta ação, preferindo usar o diálogo na

tentativa de resolver esses conflitos. Quando surgiam essas discordâncias entre os projetos

e/ou educadores, havia sempre um respeito muito grande entre as pessoas, na tentativa de

chegar a uma solução ou entendimento mais adequado.

Enfatizo que as mudanças de espaços (campinho, chacrinha, centro

comunitário do Pacaembu e ECO), ocorridas durante todos esses anos (2002-2005),

propiciaram o desencadeamento de processos educativos diferenciados, pois, os envolvidos

no projeto foram construindo novos significados para cada espaço. No campinho (espaço que

eu ainda não estava presente) havia apenas um terreno de terra batida com traves de futebol e

também era usada a calçada em frente às casas para realização de pinturas e oficinas de pipa,

ocorrendo uma maior interação com os moradores do local. Na chacrinha, havia muitas

árvores frutíferas e muita vegetação, o que fez com que os participantes tivessem uma

interação maior com a natureza. No Centro Comunitário do Pacaembu, com a diminuição do

espaço, as relações intergeracionais foram afetadas pela divisão etária dos participantes. Já na

ECO, destaca-se a diversidade de espaços, como o parque infantil, quadra, campo de futebol,

sala de multiuso, entre outros, proporcionando uma maior diversidade de atividades. Esses

são apenas alguns exemplos ocorridos devido às mudanças de espaços.

Em relação aos passeios fora do bairro, quando os participantes entravam em

contato com novos espaços, estes ficavam muito curiosos, muitas novidades lhes chamavam a

atenção para além do objetivo central do passeio (como assistir uma apresentação de dança):

uma torneira diferente, a existência de elevador ou algum outro detalhe do espaço físico. Tudo

isso era motivo de muitas perguntas e aprendizagens.

Destaco a experiência que tivemos com o elevador, no passeio para a

exposição “Jogos e Brincadeiras do Povo Kalapalo”, no SESC/São Carlos, retratada em

trecho do diário de campo a seguir:

“Eu estava conversando com o coordenador Luiz quando três meninas me

chamaram para ver o elevador. Elas queriam de qualquer maneira andar de elevador. Até aí

nenhum problema, mas de repente surgiram outras 10 crianças querendo andar. Quando a

porta do elevador abriu, todos entraram de uma vez só. (...) Quando o elevador fechou para

subir para o primeiro andar, observei a alegria que estavam naquele momento. Ao abrir a

porta no primeiro andar havia duas funcionárias do SESC esperando o elevador. Nesse

momento, pedi que todos saíssem para as duas entrarem. Ao saírem eles ficaram na mureta

chamando os outros participantes. De repente todos começaram a subir as escadas até

chegar ao primeiro andar. Junto com os participantes veio o Luiz e a Maria para tentar me

ajudar. (...). Quando os participantes já estavam descendo as escadas, o elevador abriu a

porta e cerca de 10 participantes entraram novamente. Nesse momento pedi para as pessoas

que já tinham ido sair do elevador. Elas obedeceram e com 6 participantes o elevador desceu

para o térreo. Quando o elevador abriu a porta, havia muitos esperando para entrar. Minha

sorte foi que a Maria os chamou para frente do SESC, pois o ônibus havia chegado” (D27-1).

Ainda sobre as aprendizagens em diferentes espaços me chamou a atenção que

todos os grupos entrevistados (familiares, participantes e educadores) demonstraram uma

tendência em considerar a rua um lugar perigoso.

A rua, na contemporaneidade, passou a ser encarada como um espaço em que

se faz presente a violência, os perigos, os enganos, as drogas, as tentações, as deformações

sociais. Tal imagem negativa é destacada pela mídia e pela forte interferência do Estado, que

através de políticas públicas oferecem atividades de lazer para crianças e adolescentes

enquanto estratégias para “tirá-las da rua”.

Reconheço esses perigos, contudo concordo com Pires (2006), que considera a