Nesta categoria apresento, a partir de trechos das falas dos entrevistados e dos
diários, diversos momentos nos quais ficou explícito o quanto é necessária e satisfatória a
presença dos educadores no projeto e na vida dos participantes. A Vera, mãe do Marcos,
ressaltou a qualidade dos educadores:
“(...) Os professores são muito bom. Eu gosto muito, nunca tive nada contra
nenhum dos professor que participou do projeto. E ele gosta muito, né? O importante é isso,
que ele gosta (...)” (FI-2) “(...) Esse bairro nosso é um bairro de muito preconceito, mas tem
que ter alguém que faz algo bom pras crianças daqui, né? Que são vocês neste projeto. É
bom, muito bom (...)” (FI-6)
A Dona Júlia também se referiu às qualidades dos educadores, dizendo de suas
paciências para com os participantes, bem como do carinho dos participantes por eles:
“(...) É você que é o Matheus. Eu não sei o nome de todos. Tem a Maria, mas a
outra que eu não sei o nome (...) Eu gosto muito da Maria e as crianças gostam demais, né?
Principalmente aqui de casa, a Ariadne, o Gabriel, o Julian, a Juliana, todos eles gostam da
Maria, de você, da Maria e da outra que eu não lembro o nome, graças a Deus (...)” (FIV-
14)
“(...) A paciência de vocês com as crianças (...) (risos) Paciência, tem que ter
muita paciência com essas criança. Eles são terríveis, eles são, não tem um nem outro, é tudo
eles, né? Mas, tão no caminho certo, se comportam, não é verdade? E eles gostam muito de
vocês também, professora, professor, tudo eles gostam. (...) não tenho queixa de ninguém,
todos são tudo muito bom, pra gente que é adulto, pras crianças. (risos) Acho que tá bom,
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Brincadeira na qual parte dos jogadores fica de um lado da quadra ou de um espaço previamente demarcado e um pegador fica no meio. Quando o pegador grita “pega-pega”, todos os participantes têm que gritar “fuji-fuji” e procurar atravessar para o outro lado da quadra ou do espaço demarcado. Quem for pego, também vira um pegador. A atividade acaba quando todos forem pegos.
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Jogo parecido com a queimada tradicional, no qual as pessoas têm que derrubar as garrafas e não “queimar” o corpo dos jogadores.
né? (...)” (FIV-12) “(...) tomara que nunca saia daí, não tire ninguém daí. Já faz tempo,
quero continuá junto até morrer. (risos) Enquanto nós tiver vivo, tamo tudo junto. Graças a
Deus (...)”(FIV-18)
O respeito dos educadores pelos participantes, suas preocupações com a
educação dos mesmos e a comparação do projeto com a escola foram destaques no
depoimento de Dona Júlia:
“(...) O professor ensina pra eles também, eles vão na escola, vão... e quando
vem, tem aí a escola também, quer dizer que nada de ruim não tenho que falar do projeto não
(...)” (FIV-4) “(...) Vocês tomam conta demais das crianças, tando aí eles tão sossegado e a
gente também tá. Eles respeitam, eles quer bem, recebendo educação, o principal é isso, né?
Ótimo, ótimo, bom mesmo (...)” (FIV-19)
A fala da Juliana, neta da Dona Júlia, ao se referir à primeira educadora
contratada para o projeto, ressaltou o quanto foi importante sua presença durante esses anos.
Também faz referências a outros educadores que participam dos projetos:
“(...) A Maria também, a Maria foi, a Maria que ajudou a fazer as coisas, né?
Ah... ajudou a aumentar o projeto, né? Porque antes vinha pouquinha pessoa, a Maria que tá
ajudando, né? O Fabiano, o Fabiano que ele é muito legal também, né? Ele vem no projeto,
ele brinca com as crianças, as criança pula nele, ele é muito legal. O Luiz também, ele tem
várias brincadeiras, tem um professor de dama, que dá dama pra nós de terça-feira, tem o
Victor que agora também tá vindo com... antes ele não vinha, mas agora ele tá vindo, também
ele é muito legal, as crianças gosta bastante dele (...)” (PIV-13)
“(...) Ah e também tem assim, as professora, a Talita e a Karina, que elas são
muito legais, antes era a Diná, né? Ano passado, era a Diná. Aí, a Diná saiu. Agora, a Talita
e a Karina... se eu... assim... elas tão fazendo bastante o esforço delas, porque as crianças
sabe... de vez em quando não obedece, né? E também elas podia tá em outro lugar, podia tá
que nem... podia tá em escola particular e não, elas vem aqui ajudar o Jardim Gonzaga (...)
E aqui as crianças são mais rebeldes, né? Então, aí briga, só que elas agüenta, né? Porque
se fosse outra pessoa, já tinha pedido a conta e já tinha ido embora, né? E elas são muito
legal, dá jogo, dá bola, tem bastante brinquedo pras crianças brincar, tem areia, tem o
parquinho lá, que de vez em quando não pode brincar que tá molhado, né? Mas assim já é
muito legal também (...)” (PIV-20) “(...) Aí tem as professora do Anime-se que elas faz
várias brincadeiras na salinha. Elas traz roupa, sabe pras criança se vestir, fazer teatro,
fazer várias coisas e é muito legal, eu gosto. E tem a professora que traz, que traz massinha
pra gente brincar, eu gostei muito dali (...)” (PIV-15)
A Vera, mãe do Marcos, e a Larissa, mãe do Rafael, enfatizaram, em suas falas,
o quanto gostavam dos educadores do projeto “Vivências em Atividades Diversificadas de
Lazer”:
“(...) Pelos menos todos que fala comigo é assim e eles gostam muito de você
(risos). Você vê que eles (...), quando você chega, nossa eles gostam muito (...)” (FI-5)
“(...) e o Rafael quer ir mais nos dias que você vai, porque os dias que você
não vai, é muito difícil ele ir, mas ele vai mesmo é os dias que você tá lá. Às vezes eu cubro
ele de manhã, acordo ele, falo ‘vai lá Rafael, pro projeto!’ e ele fala ‘ah hoje não, hoje não é
dia do Matheus’... ele só vai mesmo nos dias que você tá... acho que a Maria pega mais em
cima, né? Então, ele fica mais com medo (...)” (FIII-3)
Teresa, mãe do Lucas, solicitou que os educadores estivessem presentes todos
os dias e não apenas uma vez por semana:
“(...) E dia de quinta, né? Que eu queria que... que vocês... vocês que são
voluntários, né? Queria que vocês viessem direto porque, eles é bom assim... as professoras
que fica durante a semana, mas nossa... ele adora vocês, ele adora vocês... hum... porque
vocês tem outros compromisso, né? (...)” (FII-3)
O carinho dos participantes no momento em que os educadores do Projeto
“Vivências em Atividades Diversificadas em Lazer” chegavam à ECO, mereceu também
destaque na fala da Juliana, a qual reconheceu o profissionalismo dos educadores:
“(...) Então, a gente, no dia do Matheus e do Fabiano e do Victor, a gente... o
Matheus chega e todo mundo vai correndo pra cima dele, né? Todo mundo vai correndo,
quer montar no cavalinho, montar de tudo, né? (...)” (PIV-21) “(...) Aí o Matheus, o Fabiano,
o Fabiano também as crianças quer montar nele, quer subir nele, quer mexer no cabelo dele,
quer fazer tudo nele, né? (...)” (PIV-23)
“(...) E o Matheus também tem ajudado muito, né? Porque ele que corre atrás
dos brinquedo pra dar pras criança, das doação pras criança e também os passeio, né? Que
no final do ano, não sei... acho que a gente vai, eles vão pra UFSCar, né? E vai ter vários
outros passeios também, né? Que o Matheus tava falando que queria ver a TAM, né? A TAM,
né? Ver os avião... e ele tava combinando com as professora, né? Pra ver se arruma tudo,
né? Ver se arruma um ônibus, tudo, né?(...)” (PIV-26)
Os trechos dos diários de campo 25 e 50 revelam a forma carinhosa como sou
recebido quando chego à ECO, o que me motiva, cada vez mais, a participar do projeto:
“Ao chegar à ECO estacionei meu carro em frente à quadra e quando os
participantes viram que éramos nós, correram em nossa direção, gritando nossos nomes. Ao
chegarem à nossa frente, a euforia era tão grande que dois ou três me abraçavam ao mesmo
tempo. Esse carinho, ao chegar, vem ocorrendo com bastante freqüência e está me deixando
cada dia mais feliz em participar dos projetos” (D25-1).
“Chegando à ECO, fomos recepcionados por cerca de dez crianças e
adolescentes que abraçavam muito eu e o Maurício. É gostoso esse momento, pois eles
sempre ficam discutindo para ver quem vai dar as mãos para os educadores. Muitas vezes, eu
tenho que dar as mãos para seis pessoas simultaneamente” (D50-1).
Também, na fala da Maria, foi possível verificar a ansiedade dos participantes
em relação à chegada dos educadores do projeto “Vivências em Atividades Diversificadas de
Lazer”, às quintas-feiras:
“(...) Que é todas as quintas que é (...) Projeto Vivências em Atividades
Diversificadas em Lazer... aí vem o Fabiano, vem o Victor, vem o Matheus... aí vêm esses
três... aí parece que as criança... ah... eles não vêem a hora que chegue aquele dia e começa
a recordar todos aqueles momentos, aqueles momentos de alegria, de contato... aí, dá aquele
espírito bão nas professoras, elas consegue... ah... fazer parecido assim, né? Mas a gente tem
que respeitar a individualidade, né? (...)” (EI-11)
Novamente, há de se destacar o sentimento afetivo dos participantes em relação
aos educadores. No trecho abaixo, este sentimento foi expresso:
“(...) Aí a criançada brinca, participa e também quando o Matheus não vem,
ele até apanha aqui, né? (risos) Leva chute do Filipe, aí o Gabriel que... ah... quem pergunta
mais dele é o Gabriel e o Filipe. Gabriel toda hora ‘...e o Matheus vai vir?’, ‘ah o Matheus
ficou doente’... ‘ah, Matheus ficou doente?’ (risos) aí também quando o Matheus chega, já
vem ‘Matheus!!’, já corre lá, cata o Matheus, abraça, né? Mas esse carinho, também tem
com a professora, quando a professora aparece de manhã, a Talita aparece, eles já tá tudo
em cima, né? (...)” (EI-12)
Em uma das vivências, retratada no diário 23, fui recebido com certa
agressividade por um participante, o qual havia ficado aborrecido por eu ter estado ausente na
semana anterior. Foi a sua forma de expressar, com socos, que gostava de mim e não queria
que me ausentasse novamente:
“Ao entrar na ECO, o Gabriel veio correndo em nossa direção e deu um abraço muito
forte na gente. Logo atrás dele, veio o Filipe, 7 anos, e pediu para que abaixasse para ele me
dar um abraço: quando abaixei, ele começou a me dar vários socos fortes. Assustado,
perguntei por que ele estava fazendo aquilo comigo e ele respondeu que tinha prometido que
ia me matar porque eu tinha faltado na semana anterior.(...) Segurando os braços para
contê-lo, fui conversando e explicando o motivo pelo qual tive que faltar, pois estava em Belo
Horizonte estudando. Quando larguei suas mãos ele tentou mais uma vez me dar um soco,
mas agora, sem conseguir me acertar. Pedi novamente para que parasse com aquilo, pois
estava ficando muito chato. Ele parou, me deu um abraço e pediu para que não faltasse mais.
(...) Esse momento foi muito interessante. Percebi que o Filipe gosta muito de mim e o jeito
de mostrar que não gostou da minha falta, foi me agredindo. Acho que minha reação na
hora foi a mais correta, conversei bastante para ele entender a minha falta e que aquilo que
ele estava fazendo não era legal” (D23-1).
Alguns educadores que trabalharam nos projetos foram lembrados pela
participante Juliana, os quais, segundo ela, eram muito legais:
“(...) ah tinha também as professoras que era muito legal da chacrinha
também, né? Tinha a Mônica, que ia antes, agora não sei, né? Acho que tá fazendo
faculdade, né? Tinha o Adônis que era muito legal também, que as crianças gostava bastante
dele, o Matheus... ah um monte de gente (...)” (PIV-7)
Os funcionários também foram lembrados:
“(...) Ah, também tem os funcionários que é muito legal... tem a Maria
Eduarda que limpa lá, né? Que limpa. Tem (silêncio) o Marcão também, tem o Miranda que
olha de vez em quando, mas ele mais fica no posto (...)” (PIV-27)
A preocupação dos educadores com os participantes foi marcante. Na fala da
Maria foi nítida a dedicação que ela tem pelas crianças e adolescentes, não só pensando nos
projetos, mas também nas suas vidas, para além dos projetos:
“(...) desde 2002 eu tenho fascínio pelas crianças. É uma turminha difícil de
trabalhar (...) Mas, com o sacrifício, vai superando, né? (...)” (EI-3) “(...) vai fazendo e tudo
que a gente puder fazer pra melhorar pras crianças, a gente vai fazer, pra melhorar, não o
projeto em si... pra melhorar a vida delas, né? (...)” (EI-6)
“(...) que eu cuido da vida dos outros mesmo que (risos), é como se fosse filho
da gente, né? (...)” (EI-7) “(...) Mas (...) eu sou assim nem muito amada, nem muito querida
em algumas partes, porque (...) se eu ver uma coisa errada, eu vou bater de frente, eu vou (...)
não importa a conseqüência, né? Porque eu quero o bem dessas crianças, né? Apesar que
eles (...) tem hora que pensam que a gente não quer o bem, mas a gente quer o bem deles, né?
(...)” (EI-8)
“(...) Igual como o... é... eu não ia ser supervisora daqui, eu vi que o projeto ia
acabar, que ia ser outra dinâmica, dar só esportes, esportes pra eles e a gente que nossas
crianças gosta do esporte, mas não é só o esporte em si, gosta da brincadeira, porque o
objetivo deles não é... do projeto não é formar atletas, é formar cidadãos... e, na formação do
cidadão, tem que ter muito cuidado... Se a mãe não tá preocupada com o cidadão, a gente
tem que educar. Você também ter que ir num jeito, que tem hora que a criança tá nervosa,
você também tem que relevar, tem que ter muito jogo de cintura, né? E também se deixar a
criança querer fazer o que quer, aí não vira projeto também, né? Horário, a gente tem que
cobrar o horário só que... sem a presença da mãe, não adianta a gente cobrar da criança,
porque a criança em si, ela nunca tem... não sei.... das regras, ela tá acostumada a apanhar.
Quando você chega pra conversar, ela já é muito teimosa, né? Tem hora que você tem que
extrapolar, dar um grito, que obedece... não só um grito, uns dez quem sabe, né? (risos) (...)”
(EI-10)
Já o educador Fabiano enalteceu o comprometimento dos educadores com os
projetos, com os participantes e com os outros educadores. Em sua fala, os próprios
participantes reconhecem essa dedicação:
“(...) Eu acrescentaria (...) parabenizando as pessoas envolvidas neste projeto,
sobretudo Vivências Diversificadas de Lazer, pois eu acho que têm uma preocupação muito
mais com o projeto (...) do que o que financia este projeto, ou o que financiaria este projeto,
é... tem uma parceria com a prefeitura, pois acontece num espaço da prefeitura, mas as
pessoas envolvidas neste projeto têm um comprometimento grande com ele, com as crianças,
com os outros educadores. Eu acho isso super importante e o diferencial de outros projetos
que eu já tenha participado. Então, acho que há um comprometimento efetivo, um
comprometimento grande com todos os integrantes deste projeto. Existe, como tudo na vida,
sempre os oportunistas que em alguns momentos pontuais, colocam o seu banner ou pega o
microfone pra fazer política, mas mesmo isso, esporadicamente, não atrapalha, nem interfere
no andamento do projeto e no trabalho desenvolvido ali. As crianças percebem isso, nós
também, com certeza, mas... e acho que isso faz até parte das reflexões, das discussões, do
aprendizado ali, de saber que na vida vai ter alguns oportunistas, alguns sanguessugas e
acho legal que, quando isso acontece, as crianças fazerem essa leitura e se questionar e falar
‘ah, mas só vem aqui no dia tal, só vem aqui e não sabe o que a gente passa, só vem aqui...’,
e essas indagações, eu acho que reflete numa percepção diferente de mundo que, talvez em
outros espaços, se realmente não tivessem essas interferências ‘inoportunas’, talvez não teria
essa reflexão (...)” (EIII-12)
O diário de campo 41 também mostrou o comprometimento de uma educadora
com os participantes. Ela dedicou-se muito para organizar uma festa de aniversário para os
participantes (ver figura 14):
“Já às 8:00h começaram a chegar os primeiros participantes e os educadores
(Talita, Karina e Fabiano). Fiquei muito contente com a empolgação da educadora Karina
em relação à festa de aniversário. Percebi, em seus olhos e em sua fala, a empolgação em
realizar um momento especial para as crianças e adolescentes, que, até então, não sabiam de
nada” (D41-1).
Figura 14: Festa de confraternização dos participantes aniversariantes junto aos Educadores Matheus e Talita.