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Após percorrermos alguns traços do pensamento Heideggeriano sobre o papel da obra de arte, bem como o seu velamento e desvelamento da verdade, chegamos ao ápice dos seus estudos sobre arte. Para ele, a verdade como clareira e ocultação do ente, acontece na medida em que se poetiza. É na linguagem poética que “se desenham as coordenadas fundamentais de qualquer possível experiência no mundo [...] Toda arte, enquanto deixar acontecer da adveniência da verdade do ente como tal, é na sua essência
Poesia”298. A essência da arte, na qual repousam simultaneamente a obra de arte e o artista,
é o pôr-em-obra-da-verdade. A partir da essência poetante da arte ela erige no meio do ente um espaço aberto, em cuja abertura tudo se mostra de outro modo que não o habitual299. A visão poética realiza uma transformação: o que até agora era ordinário, cotidiano, “normal”, começa a ser extraordinário, excepcional, insólito. A palavra “poesia” aqui, não se limita à arte de fazer versos. Por isso, ela está em todos os gêneros artísticos e até mesmo na poesia. No primeiro caso, a palavra que Heidegger usa é Poesie. No segundo caso, die Dichtung. Quer dizer, a expressão do Ser na visão. Trata-se do “dito do ser” (die
Sage des Seins). Para esclarecer o sentido de poesia, ele insiste dizendo que a linguagem
não é apenas – e não é em primeiro lugar – uma expressão oral e escrita do que importa comunicar. A poesia é a fábula da desocultação do ente.
A essência da arte é poesia porque toda experiência do Dasein é determinada pela pré-compreensão. Essa pré-compreensão se concretiza numa linguagem, já que é somente na linguagem que pode ocorrer verdadeira inovação ontológica. A linguagem não é um instrumento à nossa disposição, mas é um evento que dispõe de suprema possibilidade de ser do homem. Todavia “o homem se comporta como se fosse o criador e o soberano da linguagem. A linguagem permanece a soberana do homem”300. O jogo verbal da poesia “desinstrumentaliza as palavras; numa conduta que não é a de trato, cuida da linguagem se dela dispor, e, a ela nos tornando disponíveis, cria, numa obra, o
298 VATTIMO, G. A sociedade transparente, p. 51. 299 HEIDEGGER, M. A origem da obra de arte, p 58.
domínio do revelado – da exposição do homem a si mesmo e ao ser”301. Desta forma, para Heidegger, o ser humano fala apenas e somente à medida que co-responde à linguagem, à medida que escuta e pertence ao apelo da linguagem. Por conseguinte, a linguagem é o grito mais elevado e, sobretudo, o apelo mais elevado e, por toda parte, o apelo primordial. É a linguagem que abarca em primeira e última instância, a essência de uma coisa.
Logo, somente na linguagem as coisas têm a possibilidade de aparecer. Por meio da poesia pode-se partir do dizível para o indizível. Isto é, parte-se da abertura que já foi revelada para àquilo que permanece velado. Assim, fica notório o valor que Heidegger dá à linguagem, contrariando, com isso, o conceito de linguagem na concepção metafísica que a via pura e simplesmente como um meio utilizado para a comunicação.
Quando Heidegger afirma que toda arte é, na sua essência, poesia, ele não remete todas as obras de arte, como a arquitetura, a pintura, a música etc., a uma submissão à poesia. Isso, para ele, é uma arbitrariedade. Ora, essas artes mencionadas, de modo algum, são variantes da arte da palavra, mas a poesia é apenas um modo do projeto clarificador da verdade, isto é, do poetar neste sentido lato. Todavia, a obra da linguagem, a poesia em sentido estrito, tem um lugar eminente no conjunto das artes. “A poesia é o limiar da experiência artística em geral por ser, antes de tudo, o limiar da experiência pensante: um poieín, como um producere, ponto de irrupção do ser na linguagem, que acede à palavra também de interseção da linguagem com o pensamento” 302. É deste ângulo que Heidegger afirma a precedência da poesia sobre qualquer outra arte. A despeito de que todas sejam originariamente poéticas, arquitetura, escultura, música e pintura só se produzem quando já se produziu a clareira pela ‘poesia primordial’ (Urpoesie) da linguagem. A linguagem guarda a essência original da Poesia. Pintar, esculpir, construir..., acontecem sempre e só no aberto do dito e do nomear. São em cada caso um modo próprio de poetar dentro da clareira do ente que já aconteceu na linguagem.
O tema da arte não é para Heidegger uma questão acessória, tampouco um encontro com a poesia de Hölderlin, que é o seu ápice orientador. Aqui, o que deve ser levado em máxima consideração é a própria história como história do Ser, de uma possibilidade essencial dessa história como acontecimento histórico da verdade (do Ser),
301 DUBOIS, C. Op. cit., p. 198.
de um mundo e de uma terra por vir. “A questão da arte é histórica. Mas não se trata de história da arte. Ao contrário, trata-se da potência histórica da própria arte e, em primeiro lugar, da poesia no sentido de que a arte funda a história, abre um mundo, e, assim, realiza um acontecer da própria verdade”303. Para o filósofo, não é apenas a criação da obra que é
poética, mas também é poética a salvaguarda da obra. Isto, evidentemente, a sua própria maneira. A essência da arte é a Poesia. Mas a essência da Poesia é a instauração da verdade.
Heidegger entende este instaurar em um sentido triplo de oferta, fundação e princípio. Como instauração a arte é essencialmente histórica. Ora, isso não se resume em pensar que a arte possui uma história junto com outros fenômenos, mas também a arte é histórica, no sentido essencial de que funda a História. A história – como advento no aberto, como irrupção no Ser – é, assim, o acontecer artístico de um povo epocalmente vinculado à destinação do Ser que se dá no limite espaço-temporal que a arte, em sua originalidade, transcende. A instauração só se torna real na salvaguarda, correspondendo, assim, a cada modo de instaurar um modo de salvaguardar. A obra só é fundação enquanto produz um contínuo efeito de desenraizamento, nunca recomponível numa Geborgenheit final304. A obra de arte nunca é tranqüilizante, “bela” no sentido da perfeita conciliação de
interior e exterior, essência e existência, etc. Assim, ela funda o mundo enquanto exibe sua falta de fundamento, tornando visível o inaparente.
Mas o ponto fundamental é que, o poemático da verdade, que se constitui como forma na obra, nunca se realiza na direção de algo vazio, pelo contrário, a obra projeta-se na obra para aqueles que, no futuro, hão de salvaguardá-la. “O projeto verdadeiramente poemático é a abertura daquilo em que o ser-aí, como histórico, já está lançado. Isto é, a terra, e para um povo histórico, a sua terra”305. Mas, a arte só atinge a sua essência histórica como instauração, quando o ente na totalidade exige a fundamentação na abertura. Heidegger diz:
O pôr-em-obra-da-verdade faz irromper o abismo intranquilizante, e subverte o familiar e o que se tem como tal. A verdade, que se abre na obra, nunca é atestável nem deduzível a partir do que até então havia. Pelo contrário, o que até então havia é que é refutado pela obra, na sua realidade exclusiva. O que a arte instaura nunca pode, por isso, ser contrabalançado,
303 DUBOIS, C. Op. cit., p. 166.
304 VATTIMO, G. A sociedade transparente, p. 59. 305 HEIDEGGER, M. A origem da obra de arte, p. 60.
nem compensado pelo que simplesmente é e pelo disponível. A instauração é um excesso, uma oferta306.
A verdade é ao mesmo tempo sujeito e objeto do pôr (Setzen), entretanto, o projeto poemático apesar de nunca provir do nada, já que nunca aceita a sua oferta a partir do habitual e do que até então havia, ele também, para o escritor de Ser e tempo, nunca vem do nada, na medida em que o que por ele é lançado é só a determinação retida do próprio ser-aí histórico. Beaini, comentando o assunto, assinala que “a arte, enquanto Poema, habita o equilíbrio do mundo, tendo a ver com a arché e a physis, a meta da arte é tornar visível o que surge espontaneamente”307. Deixar o Ser dar-se é a tarefa da arte enquanto arquitetura, linguagem, poesia, pintura, escultura. Para essa autora, a Poiesis é abertura que acolhe a a-létheia. Acolher significa esperar atenta e serenamente, expondo o que se clareia através da obra de arte. Neste contexto, é no aconchego da arte que a verdade enviada pelo Ser se perpetua. Arte, Ser e Verdade são, assim, indissociáveis. Ascendemos ao caráter poético da arte, mediante o qual o Ser, instaurado com verdadeiro, fulgura como belo308. A arte é um saber poético no interior do qual se libera a manifestação do Ser. Esta é a medida na qual repousa a arte enquanto fazer significativo que descerra o momento da irrupção.
Em Menino morto, o sonho, a fantasia, o desespero..., apresentam-se como refúgios para onde se evadem estes “evasivos escapistas”. Uma verdadeira experiência mística, ou nas palavras de Heidegger, uma descoberta do significado poético desvelado e vivido que escondem e revelam todos os seres que povoam o espaço terrestre. A obra vem carregada de um conteúdo simbólico trágico. Os retirantes continuam vivos... Sobre eles, o flagelo da seca... O princípio das dores, no início da existência terrenal. Uma verdadeira evocação poética.
306 Ibid., p. 60.
307 BEAINI, T. Op. cit., p. 22. 308 Ibid., p. 35.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
“Quanto mais nos deixamos entrar na obra, tanto mais expressiva, tanto mais rica ela nos aparece. A essência da experiência do tempo da arte é que aprendemos a deter-nos. Esta é talvez a correspondência finita, à nossa medida, do que se chama de eternidade”309. Esta concepção, talvez, defina da melhor maneira a função da arte em uma época marcada pela tecnologia, em que obras de arte apenas “servem”, em grande medida, para a contemplação prazerosa do espectador. Mergulhamos numa discussão sobre possíveis aberturas, interpretações e experiências que um indivíduo pode ter quando está diante de uma obra de arte. Entenda-se experiência, aqui, como um acontecimento ou um conjunto de acontecimentos que nos modifica e, por conseguinte, muda a nossa maneira de agir, de conviver com os outros e de ser no mundo. Há dificuldades para expressá-la em palavras, mas sabemos que aconteceu. Obviamente que a arte não é o único meio de se alcançar a “verdade”, pois existem outros elementos na criatividade cultural que desvelam possibilidades diversas. Porém privilegiamos, nesta dissertação, a arte. Nela, a experiência da verdade acontece de modo imediato, diferenciando-se da teoria estética que se deixa limitar por um conceito, ou uma verdade mais racional, prejudicando, com isso, a verdade que acontece a partir da subjetividade humana.
A arte, neste mundo paradoxal, à sua maneira, tem a capacidade de reencantar o mundo. Muitas pessoas experimentam comunhão com o transcendente na medida em que se deixam contaminar, contagiar, por uma pintura, uma poesia, uma música, uma escultura... Experiências autênticas que mudam realmente o espectador. Ao contrário do que a religião institucionalizada se viciou a afirmar, no tocante à manifestação do divino, a arte, como atividade de uma cultura pode manifestar o sagrado, mesmo não sendo uma arte sacra, criada com símbolos, muitas vezes, ultrapassados, que contemplam apenas os dogmas, as doutrinas, os sistemas de condutas de uma religião institucionalizada, mas que está longe de contemplar o ser humano com seus desencantos, tristezas, desesperanças, dores..., como faz Portinari, de forma brilhante, em sua tela Menino morto.
A religiosidade parece interessar o pintor brasileiro, não tanto como manifestação de uma fé particular, mas como mais um capítulo do drama humano sobre a terra.
Com a sua arte, Portinari pode mostrar o homem e a mulher brasileiros, vivenciando seus dramas e participando deles. Por isso, vale a pena reiterar o que ele disse:
“Todas as coisas / Frágeis e pobres / Se parecem comigo”.
Portinari não só vê o Brasil, como também contribui para a plasmação de uma estética brasileira, pois soube traduzir o nosso país plasticamente. Menino morto deixa de ser um mero drama do Brasil para transformar-se num grito de dor mais universal: o grito da humanidade dilacerada, marcada pela alienação, pela angústia e pela morte.
Aqui, cabem algumas considerações no que tange a (in)possíveis aproximações entre Heidegger e Tillich.
Tanto Tillich quanto Heidegger criticam a visão, baseada na teoria estética, de que a arte deve criar a beleza. O belo, para o teólogo, significa o poder de mediar um âmbito especial de sentido. Se a arte em sua revelação de sentido transforma a realidade, então ela pode ser considerada como bela; coisa que o esteticismo não faz, uma vez que priva a arte de seu caráter existencial. Vemos que Tillich dá um acentuado valor ao caráter existencial, pois é através de uma preocupação preliminar (existencial) que se atinge a Realidade Última. Para Heidegger, a beleza é um modo pelo qual a verdade, enquanto desocultação, advém. Com isso, ele não despreza a beleza, mas simplesmente aponta uma outra maneira dos seres humanos se relacionarem com obras de arte. Aqui, o que interessa na obra de arte não é a beleza, mas a “autenticidade” ou “inautenticidade” da forma expressiva. Já Tillich acredita que a autenticidade da arte está em sua habilidade de
expressar qualidades do ser que só podem ser captadas pela criatividade artística.
A essência da verdade, concebida nesta construção, é antepredicativa, antecedendo enunciados falsos e verdadeiros, isto é, precede a adequação de um objeto a um sujeito, ou vice-versa. A mesma postura tem Tillich, quando fala sobre o mistério. Este, quando é um mistério genuíno, é experimentado em uma postura que contradiz a atitude da cognição comum, porquanto o mistério caracteriza, para Tillich, uma dimensão que “precede” a relação sujeito-objeto, sendo, desta forma, impossível expressar a experiência
do mistério em linguagem comum, porque esta linguagem nasceu do esquema sujeito- objeto e está presa a ele.
Tillich acredita que o Incondicionado pode se manifestar através de uma obra de arte. Nesta perspectiva, suspeitamos que exista certa semelhança do conceito tillichiano sobre o Incondicionado com a verdade que se desvela numa obra de arte nos estudos heideggerianos. Tal consideração é embasada na afirmação de Heidegger de que a arte nos apresenta algo de desconhecido. Os dois acreditam que o ser humano está preso à linguagem. A linguagem a partir dos símbolos poderia evocar o incondicionado?
Parece-me que o resgate do simbólico, que Heidegger dá à arte, sabendo que o símbolo evoca algo abstrato, ausente, pode ser uma abertura, dentro de seus estudos, para falarmos de uma Realidade Última, já que, como ele mesmo disse, a experiência com uma obra de arte é uma experiência que envolve criação de sentido e caracteriza-se por encontrar-se aberta para potencialidades que surgem espontaneamente no mundo. A experiência da arte é uma experiência privilegiada dessa projeção de possíveis. O mais curioso e instigante nisso é a semelhança de Tillich sobre a religião ampla e o habitar sagrado com a “metafísica” heideggeriana sobre o habitar poético. Parece-me que tanto um como o outro dizem a mesma coisa por ângulos diferentes. Tillich por um ângulo religioso e Heidegger por um ângulo epistemológico racional. Para Heidegger, graças ao nomear poético, o ser humano consegue estar na presença dos deuses e, com efeito, ser tocado pela proximidade essencial das coisas. Em contrapartida, segundo Ramón, sua ontologia fundamental e, consequentemente, sua analítica existencial não são mais que teoria e um caminho para matar esta radical sede ontológica do ser humano310.
A verdade que a arte desvela, para Heidegger, é uma criação de sentido. Mas que sentido é esse? Será que esse sentido não aponta para uma Realidade Última? O resgate do caráter mito-poético da arte não evocaria uma abertura para falarmos de Deus não apenas no pens amento de Tillich, mas também no pensamento de Heidegger? Longe, de um Deus objetivado, um Deus calculado por postulados e por doutrinas, mas um Deus que escapa a conceitos, um Deus divino que está acima do Deus do teísmo.
Não obstante, em sua Carta sobre o humanismo, Heidegger deixa uma pista para acreditarmos que no seu pensamento existe uma “brecha” para falarmos de
transcendência. Não em relação a uma Realidade Última, pois este conceito não existe nos seus escritos, mas no tocante ao Ser. Ele diz: “Ser é absolutamente transcendente”311. A mesma coisa ele já havia afirmado em Ser e tempo: “A ‘universalidade’ do ser ‘transcende’ toda universalidade genérica”312. É bem verdade que no fundo da ontologia
heideggeriana está inserido o conceito místico do Ser. Para Jorge Machado conceitos como “mundo”, “existência”, “culpa”, “decadência” e tantos outros trabalhados por Heidegger, surgem sentido originário de caráter transcendental-constitutivo313 Para esse autor, em várias obras, Heidegger fala de Deus e de deuses que apontam sempre para o coração da vida humana.
Heidegger, com isso, provoca uma desconstrução do sentido originário do sagrado na existência humana. Assim, seu trabalho não pode ser visto como uma teologia natural, teodicéia, mas como expressão fortemente antropológica de uma condição existencial da realidade humana314
Em seu ensaio Para que poetas, Heidegger assinala que a noite do mundo estende a sua escuridão. Esta era do mundo caracteriza-se pela ausência de Deus. Essa “falta de Deus” significa que já não existe um Deus capaz de reunir em si, as pessoas e as coisas. Mas essa falta de Deus, de acordo com Heidegger, anuncia algo de muito pior. “Não só se foram os deuses e Deus, como também se apagou na história do mundo o fulgor da divindade. O tempo da noite no mundo é o tempo indigente, porque se tornará cada vez mais indigente”315. Esse mundo, para o filósofo alemão, tornou-se tão indigente que já nem é capaz de notar que a falta de Deus é uma falta. Com esta falta, entretanto, fica fora do mundo tanto o fundo como aquilo que o fundamenta.
Heidegger pensa num possível retorno de Deus; o Deus divino. Um Deus tal que diante dele o ser humano possa “tocar música e dançar”, estando fora de qualquer
311 HEIDEGGER, M. Carta sobre o humanismo, p. 60. Heidegger, segundo Inwood, distingue quatro
sentidos de transcendência. 1) A transcendência ôntica: um outro ente transcendeu os entes; no cristianismo, Deus, o criador, transcendeu os entes criados. 2) A transcendência ontológica que se encontra no Koinon (“comum” em grego) enquanto tal, o ser como conceito geral. Esta é a abordagem de Aristóteles e seus seguidores medievais, que examinaram o ser como um transcendens, deixando obscura a diferença entre ser e entes. 3)A transcendência “fundamental-ontológica” esta retorna para o sentido original de transcendência, superação, sendo concebida como um aspecto distintivo de Dasein e indicando que ele “sempre já se encontra no aberto dos entes”. Transcendência significa, portanto, “estar na verdade do ser”, o que não implica um explícito conhecimento do ser. Essa transcendência assegura a liberdade do ser humano. É neste aspecto que Heidegger usa o termo “Transcendência em Ser e tempo. 4) A transcendência “epistemológica” ou cartesiana: um sujeito supera a fronteira entre si mesmo e o seu objeto, entre o seu espaço interno e o mundo externo (1994, p. 190-191).
312 Idem. Ser e tempo, p. 28. 313 MACHADO, J. Op.cit., p. 13. 314 Ibid, p. 78.
determinação calculadora. Ele é totalmente outro frente aos que existiam, especialmente frente ao Deus do cristianismo. Heidegger vê, nesta construção, a necessidade de superar as diversas figuras metafísicas de Deus. O pensamento ateu está, talvez, mais próximo do Deus divino do que a onto-teo-lógica queria reconhecer.
O pensamento ateu, destacado por Heidegger, se assemelha muito ao conceito de religião ampla nos estudos tillichianos, em que se baseia numa preocupação incondicional, se diferenciando da religião estrita, vinculada a dogmas, doutrinas... Em seu livro A coragem de ser, Tillich afirma que a dúvida sobre Deus transcende a idéia teística de Deus, não podendo ele ser transformado num mero objeto de absoluto conhecimento e absoluto controle, pois não pode ser descrito. Tal Deus desapareceu no abismo da insignificação com todo outro valor e significação. O “Deus acima do Deus do teísmo está presente, embora oculto, em todo encontro divino humano”316.
A preocupação última, no pensamento tillichiano, está relacionada à preocupação humana em relação à sua existência. Assim, a revelação é a manifestação do fundamento e do sentido incondicional da existência humana. Semelhantemente ao conceito de terra em Heidegger, que sempre está numa permanente ocultação, a revelação, para Tilich, sempre terá um caráter misterioso, haja visto a impossibilidade do ser humano alcançar a sua compreensão plena. Deste modo, ela sempre revelará algo. Todavia ocultará