3 KURUMSAL TASARIM VE UYGULAMALAR
3.2 Üretim Sitemleri, Yönetimi ve Kurumsal Tasarım Uygulamaları
3.2.1 Üretim Sistemleri ve Yönetim
3.2.1.3 Üretim Sistemler
Para mostrar a obra como abertura para a realidade, Heidegger se utiliza de um quadro de Van Gogh, Um par de sapatos234, que permite ver os sapatos de uma
camponesa. Mas o que há de especial para se ver num par de sapatos? Um apetrecho com essas características serve para calçar os pés. “Consoante a serventia, se para o trabalho no
232 Ibid., p. 60.
233 HEIDEGGER, M. Carta sobre o humanismo, p. 48. 234 GOGH, V. Um par de sapatos, 1888, Arles.
campo, ou para dançar, assim diferem matéria e forma”235. O ser-apetrecho do apetrecho, então, repousa em sua serventia. Só assim, eles são o que são, e tanto mais autenticamente o são, quando a camponesa, durante a lida, pensa neles, “ou olha para eles ou até mesmo os sente. Ela está de pé e anda com eles. Neste processo de uso do apetrecho, o caráter instrumental de apetrecho deve realmente vir ao nosso encontro”236.
Aqui, é apenas visível um par de sapatos e nada mais. Não obstante a esse fato, Heidegger faz uma interpretação muito peculiar desse par de sapatos, apresentada a seguir.
Na escura abertura do interior gasto dos sapatos, fita-nos a dificuldade e o cansaço dos passos do trabalhador. Na gravidade rude e sólida dos sapatos está retida a tenacidade do lento caminhar pelos sulcos que se estendem até longe, sempre iguais, pelo campo, sobre o qual sopra um vento agreste. No couro está a humildade e a fertilidade do solo. Sob as solas, insinua-se a solidão do caminho do campo, pela noite que cai. No apetrecho para calç ar impera o apelo calado da terra, a sua muda oferta do trigo que amadurece e a sua inexplicável recusa na desolada improdutividade do campo no inverno. Por este apetrecho passa o calado temor pela segurança do pão, a silenciosa alegria de vencer uma vez mais a miséria, a angústia no nascimento iminente e o tremor ante a ameaça da morte. Este apetrecho pertence à terra e está abrigado no mundo da camponesa. É a partir desta
235 HEIDEGGER, M. A origem da obra de arte, p. 25. 236 Ibid., p. 25.
abrigada pertença que o próprio produto surge para o seu repousar-em-si- mesmo237.
O quadro de Van Gogh ao mostrar os sapatos da camponesa, torna visível o mundo dela. Pelo quadro que exibe apenas um par de sapatos velhos faz-se conhecer todo o mundo ao qual ele pertence.
De semelhante modo, as riquezas das metáforas da tela Menino morto, suas translações plásticas apontam para o ser humano preocupado com a sua existência. Seus conflitos e dramas. Seus sonhos e desesperanças. Suas necessidades e suas tristezas não só diante da morte, como também diante de um futuro incerto. A tela joga-nos diante de um mundo completamente complexo. Seus pés descalços e doloridos deixam para trás as terras secas, os urubus famintos, as ossadas brancas do gado; mortos antes do tempo. “Caminham vacilantes como que, se por algum paradoxo, pudessem marchar parados. Vão enquanto buscam permanecer. Morrem enquanto ficam para viver”238. Impõe-se assim o dualismo que, plasticamente, pode ser reconhecido por alguns aspectos, como: o vazio dos olhos buscando divisar novos espaços, os corpos encurvados; tudo isto nos indica o símbolo das retiradas, da evasão daquela gente. Já os pés amplamente apoiados demonstram a enorme vontade de ficar. Chega-se a um resultado catártico de afastamento e aproximação que se manifesta neste dualismo. Todos em busca de uma “terra prometida”, mas ao mesmo tempo extremamente tristes por deixar suas terras.
As lágrimas petrificadas na tela representam simbolicamente o existir humano marcado pelo sofrimento. Lágrimas que parecem ser pedaços do corpo que são lançados para fora, como símbolo de um protesto. Os braços cadavéricos da moça pegando na cabeça do pequeno morto, como um sinal de despedida por alguém que não resistiu a tanta dor. Corpos ressequidos, massacrados pelo tempo.
Roupas velhas, símbolo de um trabalho sem descanso e um estilo de vida de parcos recursos. Aqui, esses apetrechos, que servem somente para a serventia, nos revelam um mundo, realidade velada na cotidianidade. Essa abertura para a realidade ausente se faz presente ao contemplarmos essa tela, já que o caráter de obra de Menino morto existe enquanto abertura para além do instrumento.
237 Ibid., p. 16.
De acordo com Heidegger, a obra constitui-se como abertura para o ente, como janela que deixa ver o que na cotidianidade se vela. Assim, os apetrechos contidos na tela Menino morto tornam patentes o lugar de onde ele recebe sua existência, e esse lugar só é visível pela obra. Se os apetrechos se referirem apenas a um objeto individual, se eles aparecerem somente como algo dado, então, o quadro abandonará o seu caráter de obra, pois não abrirá para nada além do instrumento. O quadro só se constitui enquanto obra pelo abrir-se da essência do ser-apetrecho, que remete ao mundo dos retirantes. Essa abertura que a obra propicia é o lugar próprio da revelação do ente. Os apetrechos, como já foi destacado acima, só valem na sua proficuidade, ou seja, na sua serventia. Mas esta repousa na plenitude de um ser essencial do apetrecho. Heidegger denomina isso de solidez (Verlässlichkeit). Voltamos aqui, à interpretação que Heidegger faz do quadro de Van Gogh. Para ele, é graças à solidez que a camponesa é confiada ao apelo calado da terra, graças à solidez do apetrecho a camponesa está certa do seu mundo239. Ademais,
Na obra de arte, põe-se em obra a verdade do ente. “Pôr” significa aqui erigir. Um ente, um par de sapatos de camponês, acede na obra ao estar na clareira do seu ser. O ser do ente acede à permanência do seu brilho. A essência da arte seria então o pôr-se-em-obra da verdade do ente (das Sich-
ins-Werk-Setzen der Wahrheit des Seienden)240.
Assim sendo, para o filósofo alemão, o que está em obra na obra é a abertura do ente no seu ser – o acontecimento da verdade. Por outro lado, o apetrecho tem certa afinidade com a obra de arte, já que ambos são criados pelas mãos dos seres humanos. Mas a obra de arte tem a sua peculiaridade e caracteriza-se pela sua auto- suficiência, assemelhando-se a mera coisa. O “mero” significa o despojamento do caráter da serventia e da fabricação, como apetrecho. O apetrecho tem simultaneamente uma posição intermediária peculiar entre a coisa e a obra. Na obra de arte, reiterando o que Heidegger disse, o acontecimento da verdade está em obra. A referência feita por Heidegger ao quadro de Van Gogh tem como foco principal nomear este acontecimento: todo o mundo da vida campesina, conseqüentemente, está nestes sapatos. Esta é a realização da arte que faz aparecer aqui a verdade do ente. Realidade que podemos perceber claramente na tela de Cândido Portinari, em que o amor à terra é captado pelas pessoas todas presas ao chão. “Ilustram esse não caminhar. Trazem o gosto da terra
239 HEIDEGGER, M. A origem da obra de arte, p. 26. 240 Ibid., p. 27.
guardado em cada um, como prova do amor desmedido que os levaria à auto destruição, caso resolvessem permanecer”241. O mundo dos retirantes é desvelado.