1.5. Yapılandırmacı Öğrenme Yaklaşımı
1.5.2 Yapılandırmacılık Yaklaşımına Göre Öğretim Tasarımı ve Öğrenme
Uma feição é caracterizada como "todo fato cultural contido no registro arqueológico" (SCHAAN 2012: 22). Durante as escavações das subáreas do sítio Porto
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As datações para os bolsões encontrados no setor sul do sítio (Área 2A) serão apresentadas mais detalhadamente no tópico 4 deste capítulo.
de Santarém, diferentes tipos de feições foram observadas, juntamente com características distintas nos tipos de depósitos realizados. Nesta seção, deu-se mais ênfase a dois setores do sítio: a parte central (área 2) e, logo abaixo dessa, ao sul, a área de interesse desta pesquisa (2A). A escolha da área 2 decorre da disponibilidade de acesso aos dados do material escavado, e da variedade de feições presentes. A realização da comparação tem como base o que foi discutido no início deste capítulo, por isso serão observados os tipos de feições, a quantidade de material e sua distribuição espacial nessas duas áreas.
Em todos os tipos de depósito, entretanto, é possível pensar na realização de uma escolha e de uma ação ao depositar determinado material de certa forma. Seguindo as reflexões de Schiffer (1996) sobre o processo de formação do registro arqueológico, e as informações instigantes de van Velthem sobre a escolha de espaços diferenciados para descartes específicos, sugiro também a interpretação dos contextos de deposição no sítio Porto a partir das questões postas por Lemonnier ao falar sobre os sistemas tecnológicos (1992, n.d)
Lemonnier (1992, n.d.), seguindo a perspectiva tecnológica iniciada por Mauss ao estudar as técnicas corporais, define tecnologia como produção social e cultural que abrange todas as formas de ação sobre a matéria, seja a ação de um indivíduo sobre a matéria do seu corpo, seja uma matéria externa a sua corporeidade. Assim, tecnologia não está apenas ligada aos objetos e meios utilizados para agir sobre o meio físico, incorporando também os aspectos culturais e sociais que influenciaram as escolhas tecnológicas Sendo parte da cultura, cada grupo escolherá uma forma majoritária de realizar determinada ação
Lemonnier (1992) argumenta que cada técnica tem cinco elementos correlacionados: (1) matéria sobre qual a técnica é utilizada; (2) energia utilizada no processo técnico; (3) objetos utilizados para agir sobre a matéria; (4) os gestos realizados durante a ação tecnológica; e (5) o conhecimento específico advindo das soluções encontradas em um conjunto escolhas e possibilidades. Técnica assim, pode ser pensada de uma forma mais abrangente por considerar diferentes matérias, objetos e conhecimentos.
Outros elementos sublinhados pelo autor para se estudar os sistemas tecnológicos são a necessidade de se refletir sobre: (1) a relação entre os sistemas tecnológicos e os fenômenos sociais; (2) as transformações materiais produzidas com
sua utilização; e (3) e as relações que os sistemas tecnológicos possam ter com o sistema simbólico.
Isto posto, proponho assim pensar em uma "tecnologia de deposição", entendida de forma ampla para todos os vestígios que foram encontrados no registro arqueológico e que podem ou não ter sidos descartados. Assim como proposto mais acima, isso também envolverá observar a forma como os objetos foram depositados de um modo e não de outro.
No sítio Porto de Santarém, vasilhas fragmentadas foram encontradas em diferentes partes do sítio (Figura 3). No setor norte (10A-3), uma vasilha fragmentada, sem sua parte superior, foi retirada em uma camada de TPA, aos 35cm de profundidade, ela não estava associada a outros artefatos, visto que ao seu redor só foram encontrados seixos e pedras, abaixo da vasilha foi coletada uma amostra de carvão, datado entre o século VII e VIII AD (SCHAAN 2014). Também no setor norte (10A-4), quatro vasilhas fragmentadas foram encontradas, primeiramente uma dessas vasilhas foi depositada, entre os séculos XIII e XII AC, em um buraco com dimensões de 110x73cm, dentro e ao redor da qual havia fragmentos ósseos e carvões; mais de um milênio e meio depois, outras três vasilhas foram depositadas, entre os séculos XI e XII AD, também dentro das quais e nos arredores havia fragmentos ósseos e de carvão, além de lascas em sílex (ALVES 2012).
No estrato superior ao dessas três vasilhas, mas para o lado leste, um buraco de forma semicircular foi escavado no qual foram encontrados fragmentos de carvão, artefatos líticos (calibradores, lascas, possíveis dentes de ralador) e fragmentos cerâmicos, destes, alguns apresentavam marca de queima. Tal intervenção no solo deixou como marca uma mancha de terra preta (10YR 2/1) com 82cm de profundidade. Por último, acima deste buraco, foi encontrado um contexto sugestivo de processo de combustão, composto por uma mancha de nuances amareladas e amarelo avermelhado e ao redor várias concentrações de material cerâmico, lítico, alguns queimados, carvões e argila queimada. (ALVES 2012). É interessante observar que nesta área específica (10A-4) diferentes contextos de descarte foram identificados em um pequeno espaço de aproximadamente 5m².
Ainda no setor norte (10A-5), um bolsão contendo cinzas, carvão, plantas carbonizadas, restos de fauna e fragmentos de cerâmica decorada foi encontrado abaixo de uma estrutura de piso, caracterizado como solo compactado e de coloração escura (QUINN 2004). As datações mais homogêneas provindas de oito amostras de carvão estabeleceram a temporalidade do bolsão entre 1410 AD e 1481AD. Outras datas obtidas foram 1053 BC, 1298 AD, 1396 AD e 1397AD. Entre o material cerâmico presente no bolsão, havia fragmentos de vasos cariátide, de gargalo, globular, policrômicos, com flange cilíndrica vazada, antropomórficos, vasilhas em miniatura com forma zoomorfa, fragmentos de estatuetas, entre outros (QUINN 2004). A autora ainda relata que das anomalias investigadas por radar na área Shell (10A-4), algumas também eram bolsões.
Na parte central do sítio (áreas 2 e 4A) outros contextos de descarte foram observados, alguns semelhantes, outros distintos dos presentes na parte norte (Figura 4). Na parte noroeste da Área 4A, abaixo de uma plataforma de piso construída, foram encontrados um bolsão e duas feições funerárias, que continham ossos humanos queimados e cinzas (SCHAAN 2010). Para a parcela nordeste, foram encontrados restos de vários fogões feitos de argila, que estavam preenchidos com material lítico e cerâmico, sugerindo um evento de encerramento destes.
Figura 4 - Feições arqueológicas nos setores Central e Sul do sítio Porto
Na Área 2 (Figura 5), foram identificados: (1) dois bolsões; (2) 11 vasilhas parcialmente ou totalmente fragmentadas, sendo que em duas foram encontrados pequenos fragmentos ósseos (Figura 6); (3) uma concentração de ossos e carvões; e (4) um fogão, formado por uma concentração de argila queimada (SCHAAN 2012). As datações obtidas para alguns desses contextos, sugerem que as feições foram formadas em períodos distintos (Quadro 3), mas aqui observa-se uma maior distribuição espacial se compararmos com o contexto observado mais ao norte do sítio (Área 10A-4).
Feição Nível (cm) Anos AP 13C/12C Anos Cal.
Fogão 55 3720 ± 30 -27.9 o/oo AC 2200-2030 F6 48 3300 ± 30 -25.8 o/oo AC 1660-1650 AC 1640-1500 F1 47 3080 ± 30 - 27.1 o/oo AC 1420-1290 AC 1280-1270 F4 19-29 2800 ± 30 - 25.0 o/oo AC 1010 to 900
Figura 6 - Vasilhas e algumas feições na Área 2 (Modificado a partir de SCHAAN 2012)
Para algumas feições, como no caso das vasilhas, é provável que os materiais lítico e cerâmico presentes, com exceção aos fragmentos que fazem parte das vasilhas, não tenham sido propositalmente descartados, no sentido de terem sido coletados para serem descartados nesses buracos, visto que o propósito ao escavar os buracos deve ter sido para a deposição das vasilhas. Em decorrência disso, é possível observar que a maior quantidade de material cultural não está diretamente relacionada à presença das feições (Figura 7). Em vários dos locais onde as vasilhas estão enterradas, a quantidade de material se encontra no segundo grupo de menor densidade de material cerâmico e lítico. Também é possível observar a diferença na quantidade em dois bolsões localizados na parte mais ao norte da área. Um deles era mais superficial e com baixíssima concentração de material, enquanto o segundo, localizado mais ao norte e a oeste, é mais profundo e apresenta a maior concentração de material na área (Quadro 4).
Bolsão Qt. material Profundidade aproximada (cm) N197 L227 148 30 N200,5 L203 3375 50
Quadro 4 - Quantidade de material e profundidade dos bolsões da Área 2
Figura 7 - Quantidade de material por unidade na área 2
Com isso, é possível observar diferenças nos tipos de deposição cultural na Área 2. A intencionalidade e o tipo de material depositado deve ter sido outro, essa hipótese se torna mais facilmente provável para o caso das vasilhas, que sugerem uma prática de sepultamento, visto que no interior de algumas delas foram encontrados pequenos fragmentos de ossos. Entretanto, mesmo que o objetivo não tenha sido de enterrar os fragmentos cerâmicos e líticos junto com as urnas, também não procurou-se retirá-lo do espaço sob o qual ficaria guardado os restos mortais enterrados.
Aparentemente não existia uma proibição na cosmologia dessa população que exigia um local exclusivo para o sepultamento dos, onde não houvesse nenhum tipo de refugo produzido pelos vivos, pelo menos em relação a uma parte dessa população que habitou a região do Tapajós26.
Vasilhas com fragmentos ósseos em seu interior parecem ter sido depositadas apenas nos setores mais ao norte do sítio. Nos segmentos mais ao sul (áreas 4B e 2A) destaca-se a presença de áreas de combustão e de bolsões. Quatro áreas de combustão foram encontradas na porção mais ao leste (Área 4B), uma associada a um possível piso, e duas outras no interior de um bolsão, que cortava uma estrutura de piso mais antiga. No bolsão foram encontradas cerâmicas com engobo vermelho e decoração plástica, fragmentos de estatuetas e de rodela de fuso, argila queimada, sementes carbonizadas, ossos muito friáveis, rochas e carvões.
Enquanto na área 2A, não foram encontradas estruturas de combustão, neste setor, ao sudoeste do sítio, destaca-se a ocorrência da deposição de uma vasilha fragmentada, na parte mais ao norte, e de quatro bolsões, na parte central da área (Figura 8).
26 Pouco ainda se conhece sobre as práticas funerárias na região do Tapajós. Anteriormente à descobertas
dessas vasilhas com fragmentos ósseos, as poucas informações que se tinham eram de viajantes do século XVII, que comentaram sobre o consumo dos ossos triturados em bebidas (HERIARTE 1874) e de antepassados mumificados (BETTENDORF 1909). Se parte dos ossos dos falecido era enterrada enquanto outra parte consumida e se a mumificação era reservada para alguns indivíduos da sociedade tapajônica são questionamento ainda a ser respondidos.
82 Diferentemente do observado na área 2, no Campo 1 da área 2A parece mais provável que os buracos foram escavados para abrigar os artefatos arqueológicos lá presentes (Figura 9), principalmente em relação aos bolsões. Com exceção desses, maior quantidade de material apareceram nas três quadrículas contíguas onde foi identificada uma mancha escura, também denominada de Feição 1, que apareceu aos 20cm, com a presença de material cultural até os 138cm de profundidade. Com exceção dessa feição e dos três bolsões, nas outras unidades foram coletados 3.482 fragmentos, entre cerâmica e lítico27. Um grande contraste, por exemplo, com apenas um dos bolsões, como por exemplo a Feição 3 (F3) que apresenta 5.726 cerâmicas e líticos.
Esse padrão parece se repetir em toda a área 2A, visto que nenhum vestígio significativo foi encontrado no Campo 2 e 3. Apenas na área denominada de Entre Campos (EC) onde mais uma grande concentração de material foi encontrada em outro bolsão. Nesse bolsão entretanto, a quantidade de material lítico não é tão elevada como nos bolsões da 2AC1 (Quadro 5), não obstante o tamanho e peso de toda a amostra lítica presente na feição é superior em comparação aos das F3, F4 e F5.
Bolsão Qt. cerâmica Qt. lítico
Prof. máxima com ocorrência de material (cm) F3 3.882 1.421 138 F4 3.600 558 100 F5 4.394 1.196 100 F6 2.604 123 120
Quadro 5 - Quantidade de material por bolsão da Área 2A28
A ocorrência de bolsões em Santarém não está restrita a área portuária onde se encontra o sítio PA-ST-42: Porto de Santarém, Frederico Barata (1953a) os encontrou no bairro Aldeia, centro de Santarém, onde segundo os cronistas estaria a antiga aldeia dos índios Tapajó (BARBOSA RODRIGUES 1875). Barata acreditava que os bolsões
27 Como mencionado anteriormente, a comparação da quantidade precisa ser em certa medida relativizada
na medida em que parte da camada cultural foi retirada da área.
28 O material de uma das unidades não foi considerado nesta quantificação. Como será melhor detalhado
no próximo subitem deste capítulo, essa unidade se encontrava entre os bolsões F4 e F5, e foi escavada anteriormente ao conhecimento da existência e escavação desses dois, logo, no momento, não é possível precisar com segurança a quantidade de material que pertence a cada bolsão, apesar de que os registros dos planos de base sugerem que a maior parte do material possa pertencer a F5. Com a análise do material, espera-se verificar essa hipótese
83 tinham sido escavados pela população que habitava Santarém naquele momento, com o propósito de limpeza dos terrenos.
Ao mesmo tempo, Gomes e Luiz (2013) analisaram os contextos arqueológicos do sítio Porto (PA 00788) dentro do campus universitário da Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA). Com o auxílio do método Radar de Penetração no Solo (GPR) foram observados diferentes contextos, como feições de lixo comum, fogueira e enterramento secundário. Para alguns casos a aplicação de tal método foi eficiente na identificação de contextos arqueológicos, visto que houve correspondência entre o tipo de anomalia e um mesmo tipo feição antrópica, como para a feição denominada como lixeira. Para os setores investigados com a mesma técnica no sítio Porto, PS-ST-42, o padrão anômalo que mais correspondeu com a presença de feições foi o do tipo vale (FURTADO et all 2013).
Essas lixeiras foram interpretadas como "contextos secundários de agregação" (GOMES, LUIZ 2013, p. 652; GOMES 2010), formadas a partir da limpeza da aldeia, cujo refugo foi depositado em buracos escavados. Devido a grande densidade de material nessas feições, também interpretou-se que a atividade de limpeza ocorreu em vários momentos e que o material foi transportado e descartado no mesmo buraco, ou seja, o pacote cultural não corresponde a um único evento.
Diferentemente das lixeiras, os bolsões, que foram interpretados como um contexto de retenção, são frutos de uma única atividade de descarte com artefatos utilizados durante rituais coletivos e possivelmente quebrados propositalmente antes de serem enterrados, a intenção seria de isolá-los totalmente do contato com o lixo comum e com as pessoas, visto que tais materiais teriam grande potencial de ação desses objetos sobre os seres humanos (GOMES 2010). Nesses bolsões estariam apenas artefatos cerimoniais como vasilhas do tipo cariátide, com pintura policrômica, de gargalo, e similares, além desse material cerâmico, eventualmente também estariam presentes ossos de animais que teriam sido consumidos durantes as cerimônias..
Outra diferença entre as lixeiras e os bolsões cerimoniais seria a dimensão dessas feições: enquanto os bolsões observados teriam diâmetro variando entre 0,5m e 0,8m, as lixeiras teriam diâmetros entre 1,5m e 2m. Em algumas lixeiras foi observada a presença de material cerâmico considerado como de uso ritualístico junto com artefatos de uso cotidiano em lixeiras secundárias (GOMES 2010, p. 225), sendo que essa cerâmica estaria bastante fragmentada e teria sofrido queima antes de ter sido descartada. A ocorrência conjunta de material ritualístico e de uso cotidiano seria
84 possível, pois as cerimônias nas quais os artefatos teriam sido utilizados teriam um menor grau de formalização (GOMES 2010).
Refletindo sobre todos os contextos de feições que foram identificados na área portuária de Santarém (Erro! Fonte de referência não encontrada.) é possível observar uma distribuição em diferentes espaços de deposições culturais com características distintas. Considerando o elemento temporal, as datações aproximadas sugerem que vários desses espaços foram ocupados ao mesmo tempo, que em cada um deles práticas de descarte diferentes estavam ocorrendo, mas que o presente panorama não permite visualizar locais para o descarte de um tipo exclusivo de material, como van Velthem (2003) nos estimulou a refletir ao descrever seu contexto etnográfico estudado.
Contexto Setor Área Qt. Referência
Vasilhas
Norte
10A-4 4 ALVES 2012
10A-3 1 SCHAAN 2014
PA-00788 1 GOMES, LUIZ 2013
Centro 2 11
SCHAAN 2012
Sul 2A 1
Estruturas de combustão
Norte 10A-4 5 ALVES 2012
PA-00788 3 GOMES, LUIZ 2013
Centro 4A - SCHAAN 2010 2 1 SCHAAN 2012 Bolsão Norte 10A-5 1 QUINN 2004 10A-4 -
PA-00788 5 GOMES, LUIZ 2013;
Centro 4A 1
SCHAAN 2010
Sul 4B 1
2A 4 SCHAAN 2012
Quadro 6 - Resumo por área de algumas das feições identificadas no sítio Porto