2.1. KURAMSAL ÇERÇEVE VE İLGİLİ ARAŞTIRMALAR 10
2.1.3. Kendi Kendine öğrenmede Farklı Yaklaşımlar 13
2.1.3.4. Yapılandırmacı Yaklaşım 17
Entre 1999 e 2007, a Fundação Padre Anchieta realizou pesquisas Ibope para identificar os telespectadores da emissora. Procurava-se construir um perfil do público da TV Cultura de acordo com faixa etária, sexo e classe social. Com esse material, foi criada uma tabela de custo de veiculação dos programas de acordo com a grade de programação77. Segundo essa pesquisa, homens acima de 40 anos compunham 44% da audiência do Roda Viva. Em relação à classe social, 58% são AB, 30% C e 12% DE. Em relação à audiência, o programa alcançava 2-3 pontos no Ibope; média muito baixa para os padrões televisivos de maneira geral, ficando atrás, por exemplo, das tevês Globo, SBT, Record e Bandeirantes.
Como foi observado no primeiro capítulo, a TV Cultura foi criada para atender as demandas educativas. No entanto, também nasceu vinculada a um grupo social e político que insistia na necessidade de a emissora ser uma alternativa aos chamados “programas popularescos”, tendo, inclusive, uma missão civilizacional. Assim, ao mesmo tempo em que apresentava em discursos oficiais a necessidade de dialogar com a população e levar cultura e entretenimento, usava, na prática, uma linguagem erudita e culta, muito distante da realidade do público que se pretendia atingir (Leal Filho, 1988: 35). Vê-se por esses dados que o grupo social que assiste ao programa faz parte de uma elite paulista. Nesse sentido, o Roda Viva é mais um exemplo de como a emissora, apesar de se preocupar em produzir programas educativos, na prática, atende as demandas de um público específico.
77 O livro e a pesquisa Ibope se encontram no Centro de Memória da Fundação Padre Anchieta. Uma cópia da tabela de custo e da programação está anexada ao final da tese. Cf. Anexo V.
Alguns fatores ajudam a explicar o perfil do público do programa. O primeiro diz respeito ao horário, apesar de ser exibido em uma faixa nobre (às dez da noite), ainda assim, é considerado tarde para o trabalhador brasileiro (o ideal seria mais cedo). Outro ponto importante diz respeito ao formato do programa, isto é, o seu tom e estilo. A combinação desses dois fatores constitui um modo de análise na área de comunicação chamado endereçamento. Trata-se de compreender os programas jornalísticos de entrevistas enquanto unidades televisivas que estabelecem relação com a audiência por meio de seus elementos constitutivos78. Dentro dessa perspectiva, cenários, mediadores, assuntos tratados, recursos visuais, gráficos e sonoros e posição na grade de programação são escolhas que vão formar a identidade do programa. Esse conjunto de fatores estabelece, no fim das contas, o vínculo com o público e garante, portanto, audiência.
O estilo do programa tem o efeito de trazer um reconhecimento por parte do espectador; é, portanto, o produto do programa e o público não só reconhece, como também se identifica com tal princípio. No Roda Viva, a personalidade convidada é o principal fator que contribui para se garantir audiência. É o entrevistado que permite a identificação e empolgação com o telespectador, mas não só. Como foi observado anteriormente o âncora e a exibição "ao vivo" também contribuem para aumentar ou diminuir a audiência.
Geralmente, o Roda Viva começa com um texto de abertura que traz as informações sobre o que será discutido. No início, o mediador realizava a leitura desse texto, e, a partir de 1994, com a entrada de Matinas Suzuki, a equipe de produção optou por fazer um vídeo com narração em off. A estratégia usada pelo programa é apresentar o assunto que será tratado e a temática na qual se insere o entrevistado. Nesse momento, há uma espécie de pacto com o telespectador. Em entrevista, Rodolpho Gamberini afirmou:
Na minha época, os critérios jornalísticos usados para levar um entrevistado ao Roda era pegar pessoas que estavam na “crista da onda”. Ou seja, quem está aparecendo na mídia essa semana, esse mês, essa época. E a gente buscava a figura que, de alguma forma,
estava envolvida em um tema importante. Não precisava ser só político, mas tinha que ser um tema da agenda.
Heródoto Barbeiro também comentou que:
O primeiro período do Roda Viva tinha uma expressão, uma importância muito grande para a sociedade. Foi o período de maior fecundidade, especialmente por causa da quantidade de pessoas polêmicas convidadas para fazer o programa e a quantidade de pessoas polêmicas convidadas para compor a bancada de jornalistas. Não tinha como – se um tema estava na mídia em discussão, certamente seria levado para o programa.
Fica evidente, pela fala dos jornalistas, que um importante critério usado pela equipe de produção a respeito de quem seria convidado relacionava-se à agenda midiática de outros veículos de comunicação. Buscava-se convidar pessoas que tinham relação com os temas amplamente abordados em outras mídias, pois um dos objetivos era expor, debater e, com isso, desmistificar uma temática que estava em pauta, seja de cunho social, político, cultural.
Contudo, aos poucos, esse critério foi modificado. Em entrevista, o apresentador Paulo Markun comentou:
Depois de um tempo começamos a receber muita oferta de editoras, principalmente de São Paulo – a Cia das Letras, Boitempo e do Rio. Às vezes o Senac também. Mas, então, [as editoras falavam] vai chegar o filósofo fulano de tal ou o cientista tal e isso era uma das vertentes de pauta. E isso passou a integrar o trabalho naturalmente. Matinas Suzuki, convidado pelo então diretor de jornalismo Marco Nascimento para substituir o Heródoto Barbeiro, em 1994, comentou:
Eu fui convidado pelo Marco Nascimento, mas precisava conversar com a equipe da Folha, pois, era jornalista e não pretendia me desvincular do jornal. Então, perguntei para o Marco Nascimento se tudo bem ser só o jornalista e não produtor como eram os outros apresentadores do programa. E ele disse que tudo bem. Depois, tinha um problema, que era como os convidados dos outros jornais reagiriam ao fato de ter alguém que era da Folha coordenando a bancada, sendo que a gente era concorrente do dia a dia e a solução encontrada foi enquanto eu estou no Roda Viva eu sou do Roda Viva e, para a minha surpresa houve uma compreensão muito grande de
todos os jornalistas, entrevistei, inclusive, o Ruy Mesquita. (Matinas Suzuki)
Sobre a organização da pauta, Suzuki comentou:
Eu lembro que quando eu entrei eu achei que a pauta do Roda Viva estava muito centrada para a política institucional, estava assim muito voltada para ministros e eu acho que [apesar de] cumprir uma agenda importante, precisava de uma coisa mais viva de jornalismo, intercalada com essas entrevistas mais políticas. Então, a gente mudou um pouco a dinâmica da pauta, tanto é que, muitas vezes, a gente só decidia quem seria entrevistado lá pela quinta-feira. Eu passei a convidar entrevistados, por exemplo, que vinham ao Brasil para o lançamento de livros.
A mudança de perfil da pauta, comentada pelo Matinas Suzuki, acabou modificando os temas da agenda que seriam trazidos para o centro do debate. Assim, ao utilizar o release das principais editoras de São Paulo e Rio de Janeiro, abandonando, cada vez mais, temáticas da política institucional. Heródoto Barbeiro afirmou:
O programa caiu num debate só de temas acadêmicos. Os entrevistados e os entrevistadores eram acadêmicos e isso não fazia sentido em um programa que se consolidou tratando de assuntos sociais, de temas que interessavam à sociedade. Não que os assuntos acadêmicos não sejam importantes, mas, muitas vezes, parecia um debate de pessoas que ficavam ali, defendendo suas teses.
Os estudos de endereçamento apontam que o estilo e o tom são elementos essenciais para se estabelecer o vínculo com o público. Assim, nas décadas iniciais de exibição do programa, a equipe estabeleceu um vínculo com o telespectador convidando figuras “do momento”, ou seja, indivíduos que dialogavam com a notícia. Inclusive, o relatório Ibope para os primeiros anos do Roda Viva indicava média de 11 pontos, ficando atrás, na Grande São Paulo, somente da TV Globo79. Nas décadas seguintes, contudo, o endereçamento foi alterado. Possivelmente a inclusão de temáticas acadêmicas e culturais contribuiu para a diminuição do vínculo imediato que se estabelecia com o grande público, contribuindo assim para uma eventual alteração do perfil do telespectador, mais voltado agora para as classes AB.
A mudança de endereçamento também tem muita relação com outro conceito importante em comunicação – a ideia de agenda-setting. Veremos a seguir como se dá esse efeito no Roda Viva, quais os seus atributos, condições e implicações.