3.GEREÇ VE YÖNTEMLER
3.3. Yapılan İncelemeler:
Na segunda metade do século XIX, o Exército encontrava-se mergulhado em um ambiente marcado pelas tensões e contradições de um processo de modernização técnico- administrativa e de transformação do regime político. A instituição esforçou-se para adotar uma nova organização interna, alinhada aos padrões militares europeus, e, simultaneamente, buscou a construção de uma cidadania assentada na instrução e no serviço militar. Porém, as precariedades materiais, a permanência de tradições e de estigmas negativos limitavam as possibilidades de transformação da imagem da corporação e de sua eficácia. Foi em meio a esse contexto que se estabeleceram as Companhias de Aprendizes Militares, durante o período no qual Luís Alves de Lima e Silva, o Duque de Caxias, ocupou o Ministério de Negócios da Guerra (1875-1878).
25 A primeira revolta, ocorrida no Nordeste, foi motivada pela forma de implantação do sistema métrico no
Brasil. Já a segunda se deu no Rio de Janeiro em reação ao aumento de 20 réis (ou um vintém) nas passagens dos bondes.
A legislação que deu origem às Companhias definia a instalação das mesmas em províncias onde não houvesse Arsenais, com a meta inicial de formação de cerca de 100 aprendizes. As primeiras (e únicas) unidades foram instaladas nas províncias de Minas Gerais e Goiás em 1876 e tinham uma estrutura nitidamente inspirada no Depósito de Aprendizes Artilheiros do Rio de Janeiro.
Não por acaso, a autorização para a criação da Companhia ocorreu na mesma lei que alterava o sistema de recrutamento: a nova instituição combinava os elementos do antigo sistema compulsório (como a definição de admissão exclusiva de desvalidos, órfãos, ingênuos e filhos de praças) com o crescente movimento de escolarização dos saberes militares. As Companhias garantiriam, portanto, um suprimento regular de tropas para os corpos de infantaria do Exército, baseados em uma instrução militar que se pautasse pela disciplina, pela hierarquia e pelo ensino dos modernos procedimentos bélicos.
Além do modelo do Depósito de Aprendizes Artilheiros, a Marinha (ou Armada, como era chamada) também fornecia um exemplo dessa estrutura nas Companhias de Aprendizes Marinheiros, presentes em várias províncias brasileiras desde 1840. Mendes (2010, p. 129) relata que, em meio às discussões sobre a nova lei de recrutamento, o senador Saraiva destacou que a Marinha recrutava metade de seus voluntários de companhias de menores aprendizes. Tanto Solyane Lima (2013) como Renato Pinto Venâncio (2000) abordaram essa questão ao estudar a educação ministrada aos aprendizes marinheiros.
Apesar de irrealista, o projeto de recrutamento de meninos sem-família teve importantes consequências: pela primeira vez foram estabelecidos limites etários mínimos para o ingresso de crianças nas Armadas, assim como pela primeira vez foi substituído o recrutamento aleatório por outro que implicava em um aprendizado prévio. (VENÂNCIO, 2000, p.196)
De fato, se estendermos o argumento do autor às instituições de formação militar para os quadros inferiores, tanto no Exército como na Marinha, observamos os dois fenômenos mencionados. O regulamento26 das Companhias de Aprendizes Militares definia que os aprendizes deveriam ser brasileiros entre 7 e 12 anos de idade, vacinados e com “a conveniente robustez para o serviço das armas”.
O recrutamento de crianças e de jovens era uma prática comum tanto na Europa quanto na América. Os filhos dos nobres eram iniciados desde cedo em algumas das habilidades bélicas, como o manuseio de armas, e frequentemente lhes era assegurada uma
posição na hierarquia mesmo antes de completarem a maioridade. Já a população pobre convivia com o permanente medo da captura dos jovens para o serviço militar compulsório, especialmente em áreas urbanas e regiões fronteiriças.
Acerca desse recrutamento precoce, o acontecimento da Revolução Francesa não marcou um abandono dessa prática, mas uma redefinição dos valores que o norteavam. O ingresso desse público nas forças armadas era uma oportunidade de construção dos sentimentos de nacionalidade e de cidadania, além de representar uma afirmação clássica da masculinidade. Sabina Loriga (1996) mostra a formação de um perfil ideal de soldado, identificado com os grandes exércitos nacionais surgidos principalmente a partir das guerras napoleônicas: jovem, másculo, treinado no uso de armamentos modernos e imbuído de valores nacionais.
Somava-se a essa identificação de menores com a guerra a ideia, já indicada nos itens anteriores, da capacidade das forças armadas de corrigir o comportamento de crianças e jovens desvalidos, órfãos ou abandonados e de lhes prover um meio de sustento. Essa percepção já encontrava raízes na Europa, através da analogia da figura de uma pátria-mãe para órfãos e abandonados que, através do serviço militar, criaria laços de irmandade entre colegas aprendizes, elemento destacado por Venâncio (2000).
Como um exemplo que pode demonstra essa analogia entre Exército e família, vale citar um trecho do Regulamento para disciplina e serviço interno do Exército, que versava sobre as funções do Comandante de Companhia. Cabia a esse oficial “considerar a sua companhia como uma família de que ele é o chefe; e, ao mesmo tempo exigir toda a obediência e atenção, proteger e cuidar em que se faça justiça a cada indivíduo dela.” 27
Dois aspectos devem ser ressaltados na análise do regulamento das Companhias de Aprendizes Militares: a ênfase na disciplina e a importância da instrução prática. Vários artigos do regulamento versam sobre esses temas, com destaque para os papéis que o Comandante de Companhia e o Instrutor tinham. O Comandante, além dos aspectos administrativos, devia velar pela manutenção da ordem “econômica, disciplinar e doutrinária” na instituição, podendo inclusive apelar para mecanismos como os castigos e correções aos aprendizes, que podiam chegar até uma semana de prisão solitária. Já o Instrutor deveria
27 Idem, artigo 23, parágrafo 3º.
ensinar aos aprendizes o hábito da observância das regras de disciplina e subordinação, além de ministrar uma série de saberes militares básicos:
Art. 41. O ensino prático dos Aprendizes, organizado por classes, compreenderá: § 1º A escola do soldado e de pelotão.
§ 2º As marchas, contramarchas e pequenas evoluções militares.
§ 3º O manejo das armas e sua nomenclatura, bem como a das mais peças do armamento e equipamento do soldado de Infantaria.
§ 4º O risco e feitura de mapas diários, relações e pedidos, relações nominais, vales, prets e partes; relações de mostra e mais papeis concernentes à escrituração e contabilidade da Companhia.
(BRASIL. Império do Brasil. Decreto nº 6304 de 12 de setembro de 1876)
Embora os decretos e leis das Companhias de Aprendizes Militares sempre indiquem que a formação se daria para os corpos de infantaria, na prática observou-se que também a cavalaria recebeu boa parte desses aprendizes. Para dimensionar a importância da entrada desses jovens na corporação, vale destacar que, de acordo com o Ministério da Guerra28, o contingente militar de Minas Gerais em 1878 era composto por 59 praças de cavalaria (uma companhia incompleta) e 83 de infantaria (um destacamento do 7º batalhão).
Os aprendizes eram mantidos na instituição até os 14 anos, quando eram submetidos a exames físicos para que se averiguasse a possibilidade de serem admitidos nas unidades do Exército. Deve-se ressaltar que a Companhia de Aprendizes Militares não respondia apenas a demandas da profissionalização militar. Alves indica esse aspecto:
Como parte das tarefas de manutenção da ordem, o exército assumia a educação daquela população mais vulnerável à atração pela desordem. O ensino dirigido aos aprendizes nos arsenais estava imbuído de um caráter, ao mesmo tempo, assistencialista e utilitário. Recolhia-se aos arsenais os órfãos desvalidos ou meninos entregues pela própria família para adquirirem alguma habilidade para o trabalho. Por outro lado, o próprio exército necessitava desses trabalhadores e tenderia a configurar uma formação de aprendizes cada vez mais voltada para as demandas internas. (ALVES, 2002b, p.257)
A Companhia se inseria em uma tradição muito mais ampla de assistência e de ensino de ofícios a um público determinado: as crianças e jovens desvalidos, órfãos, abandonados ou descendentes de escravos. A comparação com as outras iniciativas para a assistência permitirá compreender melhor essa característica da Companhia.
28
BRASIL. Relatório Anual apresentado pelo Ministro da Guerra à Assembleia Legislativa na Sessão Ordinária de 1878, p. A-B-SN.
CAPÍTULO 2 – AS PROPOSIÇÕES DA ASSISTÊNCIA AOS DESVALIDOS NA