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5.2. Öneriler

5.2.2. Yapılacak Araştırmalara Yönelik Öneriler

Apesar de ser lícito dizer que tempos de crise, como afirma Peter Gay (2010), são sempre mais propícios às reflexões sobre o passado, o teatro histórico, salvo raras exceções, é um subgênero razoavelmente constante, que foi cultivado em âmbitos culturais bastante distintos, assim como em épocas e em países diferentes.

Ainda assim, teóricos, como Lukács, acreditam que as colisões sociais ou os enfrentamentos de classe intensificam a composição das obras históricas. Como veremos mais adiante, no Portugal do salazarismo houve uma produção intensa de teatro histórico a concordar com a proposta de Lukács, ainda que o subgênero tenha sempre tido um bom apelo no país.

Desde gregos e romanos da Antiguidade, é possível encontrar peças de inspiração em matéria histórica. Um exemplo relevante seria Os Persas, de Ésquilo, a mais antiga tragédia conservada, cuja história faz referência direta às guerras entre persas e gregos, antes chamadas de Médicas.

Guerra (1988) propõe um inventário de tragédias gregas cujo argumento teria sido extraído de episódios históricos e estuda ainda a concordância entre os dois subgêneros, a tragédia, normalmente pautado pelo mito, e o teatro histórico. O mesmo é feito com o teatro romano. Embora haja muitas dúvidas sobre a autoria, a Sêneca é normalmente atribuída a composição de Octavia, peça que relata o divórcio do imperador Nero de sua esposa, Claudia Otavia, e o novo casamento com a jovem Pompeia Sabina.

Contradizendo levemente as expectativas de exploração das obras de matéria histórica em períodos conturbados, a Idade Média traz um teatro essencialmente classificado como peças mítico-religiosas, pouco travando relação com a história propriamente dita.

Já no Renascimento, com o comentado surgimento da filosofia humanista e com a afirmação da historicidade do homem (ABAGNNANO, 2003), a história começar a ser levada ao palco e às artes com maior frequência.

Mas o lento apartar-se das concepções religiosas e teocêntricas vai se consolidar no período barroco. A história, independente do fator transcendente, faz com que a personagem, o conflito e a problemática histórica possam converter-se em exemplo com valor independente e, portanto, didático. Desenvolvem-se mais intensamente os motivos políticos na história e, fiel à cosmovisão barroca, há uma predileção pelos contrastes sociais (aristocracia versus vilãos; urbano versus rural...) (SPANG, 1998).

É nessa época, a segunda metade do século XVI, principalmente na Inglaterra, no período Elisabetano, que surgem os grandes nomes da dramaturgia europeia que também cultivarão o teatro histórico.

Um grande pioneiro do subgênero foi Christopher Marlowe (1564 – 1593), que escreveu Eduardo II, sobre a deposição do rei, além de O Massacre em Paris, sobre o assassinato dos huguenotes que teve início na noite de São Bartolomeu. Marlowe é apontado por alguns como uma das principais influências do grande dramaturgo da língua inglesa, William Shakespeare.

Parte considerável da obra do maior dramaturgo inglês está centrada em episódios da história de seu país, principalmente no que se convencionou chamar de “mito Tudor”, ou seja, os eventos que levaram Henrique VII, o primeiro da dinastia ao trono da Inglaterra. As peças históricas de Shakespeare são Henrique VI (em três partes, 1590-1592), Ricardo III (1593), A vida e a morte do Rei João (1594-1596), Ricardo II (1596), Eduardo III (1596), Henrique IV (em duas partes, 1598-1599), Henrique V (1599) e Henrique VIII (1612-1613). Além dessas, podem ser consideradas históricas aquelas peças que usualmente são classificadas como “tragédias romanas”: Júlio César (1598-1599), Antonio e Cleópatra (1607-1608) e Coriolano (1608-1610). Apesar dessa intensa revisitação da história britânica, conforme Rocha (2008), o alvo de Shakespeare é a conjuntura social do seu próprio tempo (ou seja, a sua própria carência intelectual), discutindo principalmente o

papel e a importância do soberano. O mesmo pode ser visto nas peças romanas, como Coriolano, em que o protagonista “é um herói de um momento em que não se precisa mais de heróis, mas de políticos capazes de enfrentar as contradições de um momento histórico conturbado” (ROCHA, 2002).

A importância da obra de Shakespeare não se limitará à dramaturgia histórica, mas, como lembra Lukács (2011), o trabalho do bardo será de fundamental relevância para a formação do novo romance histórico, inclusive para Walter Scott.

O mesmo papel crucial a dramaturgia de Shakespeare exercerá sobre a temporada de florescimento do teatro histórico europeu, o período romântico.

O Lorenzaccio, de Alfred Musset, por exemplo, que conta o assassinato do tirano Alexandre de Médicis, é uma peça baseada em relatos da história de Florença do século XVI e foi considerada a mais shakespeariana das peças francesas (ILARI, 2010).

Stendhal também foi responsável pela divulgação do trabalho do bardo em tempos românticos com o livro Racine e Shakespeare, publicado em 1823.

Mas o grande entusiasta do dramaturgo inglês foi Victor Hugo, celebrado autor francês, nome igualmente frequente ao se falar de obras históricas, cuja grande produção se exemplifica com Cromwell (1827), Hernani (1830), Lucrèce Borgia (1833) e Marie Tudor (1833), entre outras.

Hugo faz uso do nome de Shakespeare por diversas vezes em seu prefácio à Cromwell, texto em que desenvolve um dos aspectos mais importantes de sua obra: “Eis-nos chegando à sumidade poética dos tempos modernos. Shakespeare é o drama; e o drama que funde sob o mesmo alento o grotesco e o sublime (...)” (HUGO, 1988, p. 36).

Essa preocupação, fundamental na obra de Hugo, será estendida também ao seu teatro histórico e essa formulação é mais visível em outro prefácio, desta vez à Lucrèce Borgia. Segundo Victor Hugo, o teatro histórico tem três funções: a função humana, a nacional e a moral. A primeira delas trata basicamente do mesmo conceito já apresentado no prefácio a Cromwell, que acredita que todo ser é composto por uma dualidade. À missão humana, soma-se a função nacional, que observa que o drama histórico deve recordar o passado. Esse resgate remete, enfim, à terceira função, a moral, que procura trazer ao presente possíveis ações que revelem aos homens conselhos de como devem agir e o que devem mudar

na sociedade em que vivem. É possível perceber que se trata de algo muito semelhante às caracterizações da própria história vistas anteriormente.

Ainda que marquem profundamente os interesses do romantismo burguês, as propostas de Victor Hugo serão, em alguns momentos mais e em outros menos, retomadas por muitos nomes da dramaturgia histórica.

Durante o Romantismo, como se disse, alcança-se um ponto alto da produção do teatro histórico e, pode-se dizer, de uma maneira ainda mais engajada, ou de uma maneira mais propositadamente engajada que antes. Adiante veremos como essa história, a do teatro histórico, deu-se em Portugal e como ela evoluiu com o surgimento do teatro de Almeida Garrett.