Teria sentido aplicar a palavra retórica ao cinema ou mesmo à literatura? Ernst Robert Curtius (1957, p. 65-6) define: “Retórica quer dizer ‘arte da oração’; designa, pois, segundo a sua significação fundamental, o método de construir a oração artisticamente. Desse germe desenvolvem-se, com o correr dos tempos, uma ciência, uma arte, um ideal de vida, uma coluna básica da cultura antiga”. Dessa forma, surgida na Antiguidade grega, a retórica atravessou os tempos, ultrapassando os limites dos discursos e influenciando profundamente a tradição literária, bem como a pintura e a música. Afirma Curtius (p. 81): “[...] a adoção da retórica antiga contribuiu, até muito além da Idade Média, para a autoexpressão artística do Ocidente”. A presença da retórica na literatura não tem nada de espantoso. A Poética de Aristóteles já afirmava que a tragédia deveria provocar certas reações no público (medo e piedade). Curtius (p. 72) lembra: “[...] todo discurso [...] deve tornar aceitável uma proposição ou causa. Valer-se-á para tanto de argumentos dirigidos à razão ou ao coração do ouvinte”. Ora, esses argumentos são temas ideológicos também conhecidos como topos, que invadiram
149 a literatura. Um exemplo de topos literário é o da heroína romântica que demonstra uma bondade cristã. Assim, esse topos faz parte da tópica53 romântica, uma vez que a religião foi um dos valores realçados por esse movimento.
A presença da retórica na literatura não é aceita de bom grado por todos os artistas – notoriamente por aqueles que defendem uma arte dita pura e a atividade independente do escritor, que nunca deve estar preocupado com a recepção (BOOTH, 1980). Para Booth (p. 116) tal pureza é impossível: “A verdade é que, se os apelos visíveis ao leitor são sinal de imperfeição, é impossível encontrar literatura perfeita; nas grandes obras, não só de ficção mas de todos os gêneros, encontramos sempre tais apelos”. Ele lembra ainda que a retórica pode estar em cenas, e não apenas no que é dito explicitamente. Se um escritor descreve a cena de um parricídio sem justificativas aceitáveis (um acidente, legítima defesa, etc.), as chances são grandes de provocar a antipatia do leitor em relação ao assassino – porque nossa civilização, desde há muito, considera mau e errado matar os próprios pais. Nenhum narrador precisará dizer: “Esse homem é mau”. Evidentemente, lembra Booth, o nível retórico de uma obra de arte nem sempre é resultado de uma atividade consciente do artista. Muitas vezes, este apenas procura a melhor maneira de contar sua história – embutida nessa ação vem a ideologia: “[...] o conceito de escrever uma história parece conter implícita a noção de procura de técnicas de expressão que tornem a obra acessível no mais alto grau possível” (p. 122). Booth (p. 129) considera a retórica não apenas inevitável, mas indispensável:
[...] qualquer história será incompreensível se não incluir, mesmo sutilmente, a quantidade de contar necessária, não só para nos dar a perceber o sistema de valores que lhe dá significado, mas também – e mais importante – para nos dispor a aceitar esse sistema de valores, pelo menos temporariamente. É verdade que o leitor tem que suspender, em certa medida, a sua descrença; tem que estar receptivo, aberto, pronto a receber as indicações. Mas a obra em si – qualquer obra que não seja escrita nem por mim nem pelos que partilham as minhas crenças – tem que preencher, com a sua retórica, o espaço criado pela suspensão das minhas próprias crenças.
Tributário da literatura e de outras artes, o cinema também incorporou a retórica em suas manifestações. Jacques Aumont e Michel Marie (2007) afirmam que o cinema é um dos lugares onde o retórico é exercido, embora não se possa falar precisamente de uma retórica do cinema. Já Umberto Eco (1976, p. 138) identifica a retórica como um dos códigos que concorrem para a construção das mensagens visuais, afirmando que os códigos retóricos “[...] nascem da convencionalização de soluções icônicas inéditas, em seguida assimiladas pelo corpo social e tornadas modelos ou normas de comunicação”. Ora, essas “soluções icônicas
150 inéditas” podem muito bem ser equiparadas aos topos da literatura. É, por exemplo, a sequência clássica do homem e da mulher que correm, um na direção do outro, até se encontrarem e trocarem abraços e beijos apaixonados, para simbolizar o amor. Ou ainda o final dos filmes de faroeste, com o herói partindo na direção do pôr-do-sol. O que está na base desses topos cinematográficos são justamente os signos de conotação que vimos anteriormente. Barthes chega mesmo a identificar nas imagens algumas figuras de linguagem, como a metonímia e o assíndeto. Um beijo significando amor é uma metonímia. Uma sequência de primeiros planos mostrando sucessivamente uma escova de dentes, um lavabo e uma ducha pode ser considerada um assíndeto significando banheiro.
Aqui pode nos ser útil a definição de conceito-imagem, elaborada por Julio Cabrera (2006) que propõe uma abordagem filosófica do cinema, uma abordagem que seja lógica e pática ao mesmo tempo – razão e emoção. Segundo o autor, cada filme oferece uma noção sobre a vida, o mundo, as idéias, etc. Essa noção é o conceito-imagem, que é construído a partir de conceitos-imagens menores, ao longo do filme. Para ter acesso a ele, é necessária uma combinação de razão e emoção, sendo que a experiência pessoal com o filme é essencial. O conceito-imagem produz um impacto emocional e, ao mesmo tempo, transmite uma mensagem, que se torna mais aceitável justamente pelo seu componente emocional.
Ora, se levarmos em conta as reflexões de Umberto Eco, a criação dos conceitos- imagens em um filme exige a articulação de vários códigos (inclusive o verbal), dez dos quais são identificados pelo teórico italiano: perceptivos, de reconhecimento, de transmissão, tonais, icônicos, iconográficos, do gosto e da sensibilidade, retóricos, estilísticos e do inconsciente. A complexa articulação desses códigos também pode gerar mensagens aparentemente contraditórias, como no caso de filmes que misturam a nudez (código iconográfico), com uma mensagem moralista (código retórico).