A análise de contingência ou associativa, conforme já explicado, analisa de que forma os termos se organizam no texto, ou seja, o que se associa a que. Este processo foi feito de duas maneiras, de forma a buscar um resultado mais apurado. A primeira forma, que será apresentada a seguir, foi buscar todos os termos que se associavam aos termos-chave ao longo das matérias analisadas. O outro processo consistiu em identificar a presença de associação entre privatização e quatro termos previamente definidos, quais sejam: liberalismo ou neoliberalismo; modernização ou globalização; corrupção; e eleições.
O quadro 4, abaixo, identifica as principais ideias associadas a cada termo-chave desta pesquisa nas duas revistas. Foram selecionados as três ideias com maior incidência para cada termo-chave, por veículo. No caso de empate da terceira posição do número de incidências de ideias, foram colocadas todas as ideias que apareceram com o mesmo número de incidências em terceiro lugar.
Quadro 4 – Ideias associadas a cada termo-chave nas revistas Veja e Carta Capital
Termo-chave Veículo Ideia associada Incidências
Estado Veja
Controle 5
Problemas financeiros 4
Carta Capital Regulamentação 3 Neoliberalismo 2 Dívida pública 2 Estratégico(a) 2 Empresas estatais Veja Prejuízo 9 Ineficiência 8 Corrupção 4 Sucateamento 4 Carta Capital Lucro 9 Concorrência 7 Ações 6 Privatizações Veja Maior leilão 4
Reforço ao caixa do governo 4
Dívida 4 Carta Capital Ações 10 Monopólios e oligopólios 6 Danoso ao país 6 Governo FHC Veja
Bilhões arrecadados pelo governo 4
Dívida 4 Bom negócio 4 Carta Capital Privatização 8 Financiador 6 Restrições 4
Governo Lula Veja Nenhuma ideia associada 0
Carta Capital Nenhuma ideia associada 0
Candidato Alckmin Veja
Opinião pública 1
Tucano 1
Acusado 1
Carta Capital Nenhuma referência 0
Candidato Lula Veja
Ferrenho opositor à venda 1
Miopia ideológica 1
Gastança 1
Modelo estatal 1
Carta Capital Nenhuma referência 0
Fonte: Quadro elaborado a partir de dados colhidos em Veja e Carta Capital.
As tendências observadas nas análises quantitativas em geral se confirmam quando analisadas as ideias associadas a cada termo-chave nas matérias analisadas em cada veículo. Ao termo Estado, nas matérias da Veja aparecem termos negativos, como problemas financeiros e incompetência; já no texto de Carta Capital foram identificadas ideias mais
positivas, como estratégia. Nos dois veículos a ideia de controle ou regulamentação está associada ao Estado, embora o peso em cada revista seja diferente. Em Veja a ideia de controle é associada a amarras, freios (esta última palavras inclusive aparece associada ao termo Estado na revista). Na revista Carta Capital a regulamentação é vista como uma atribuição do Estado.
As ideias associadas aos termos empresas estatais e privatizações são as que mais reforçam a tendência pouco plural dos veículos. Enquanto Veja caracteriza as estatais prioritariamente com palavras como prejuízo, ineficiência, corrupção e sucateamento, a revista Carta Capital utiliza majoritariamente lucro, concorrência e ações. Já em relação às privatizações, esta revista é mais pessimista, associando-a a ideias como monopólios e oligopólios, e também a ideia de que se trata de algo danoso para o país ou contra o interesse nacional. A ideia oposta é apresentada nas matérias de Veja, que ressalta a dimensão dos leilões realizados e conecta as privatizações com um reforço ao caixa do governo.
Há uma clara contradição de informações em relação ao papel do governo Fernando Henrique Cardoso nas privatizações. Enquanto Veja destaca os bilhões de dólares e reais arrecadados pelo governo com as transações, as matérias de Carta Capital caracterizam o governo como financiador do negócio (geralmente via BNDES).
Nenhum dos dois veículos associa alguma ideia ao governo Lula, que aliás é pouco citado.
Como a revista Carta Capital não citou os candidatos Alckmin e Lula nas matérias analisadas, há apenas as referências de Veja, pouco esclarecedoras no caso do primeiro candidato – as referências são “opinião pública”, “tucano” e “acusado” – e, entretanto, vorazmente depreciativas em relação ao candidato do PT – os termos são: “ferrenho opositor à venda”, “miopia ideológica”, “gastança” e “modelo estatal”.
A associação do termo privatização com termos previamente definidos também cumpre um papel na exposição dos posicionamentos dos veículos, assim como sobre as escolhas feitas a respeito do que tratar e do que não tratar nas reportagens. O gráfico 15, que segue, revela a quantidade de vezes que o termo privatização é associado a quatro outros termos: modernização ou globalização; eleições; corrupção; e liberalismo ou neoliberalismo.
Gráfico 15 – Incidência de termos associados a privatização em Veja e Carta Capital
Fonte: Gráfico elaborado a partir de dados colhidos em Veja e Carta Capital.
Novamente as tendências são parecidas e contrárias, ou seja, similares em termos de intensidade com que os termos aparecem, mas opostas quanto aos termos mais e menos citados. Dos quatro termos pré-definidos, o que se associa mais vezes às privatizações nas matérias da Carta Capital é “corrupção”, expressão que aparece uma única vez nas matérias de Veja ligada à ideia de privatização, assim como liberalismo ou neoliberalismo, que, no caso da Carta Capital, é associada três vezes à venda de estatais.
A principal ideia que as reportagens de Veja associam às privatizações é a de modernização ou globalização – que aparece 13 vezes nesta revista e seis vezes na publicação da editora Confiança. O segundo termo mais associado a privatizações pela revista Veja é eleições (aparece seis vezes), que, no entanto, é citado apenas uma vez pela Carta Capital associado a privatizações.
Além de permitir uma contextualização acerca dos posicionamentos de cada veículo em relação aos termos-chave, tal análise reforça a tendência de que ambas publicações carecem de pluralidade em sua produção noticiosa a respeito das privatizações. A próxima etapa desta pesquisa propõe-se cumprir uma análise qualitativa mais detalhada, onde tal questão deve ser respondida, assim como outras questões apresentadas neste trabalho.