Concluído este processo de análise – que seguramente não esgota as possibilidades de estudo a partir do corpus selecionado –, os objetivos apresentados no início desta dissertação
foram cumpridos: em relação ao primeiro objetivo listado, qual seja, o de identificar se há pluralidade na cobertura desenvolvida pelos veículos, após investigação foi observado que não há pluralidade na cobertura jornalística das duas revistas semanais, Veja e Carta Capital, que se situam em campos de opinião contrários.
Quanto ao objetivo de descrever o conceito de privatização presente em cada um dos veículos analisados, foram levantadas as noções relativas ao termo privatização em cada revista, entretanto, nenhuma das duas efetivamente debateu o conceito de privatização a respeito do qual se falava. Há apenas algumas indicações e um debate tímido em Carta Capital sobre modelos de privatização, mas tal questão será melhor tratada mais à frente nas conclusões.
As coincidências e diferenças presentes no enquadramento dado ao tema privatizações nos veículos foram descritas durante a análise. Como tal objetivo também se relaciona com duas das hipóteses levantadas, o tema será tratado mais à frente, neste tópico de conclusão.
Foi possível, ainda, identificar que o enquadramento realizado pela revista Veja é pró- privatizações, o enquadramento do semanário Carta Capital se apresentou como antiprivatizações – ao menos as privatizações em curso no país – e nenhuma das duas publicações ofereceu perspectiva plural de cobertura sobre o tema.
Cabe, ainda, comparar a análise feita com as hipóteses inicialmente levantadas e apresentar outras considerações sobre a pesquisa desenvolvida. Passa-se, então, ao tópico em que serão apresentadas as conclusões gerias desta dissertação.
CONCLUSÕES
O presente processo de pesquisa permitiu compreender melhor os meandros existentes em uma notícia que compõe uma tessitura com outras matérias acerca de um mesmo tema. As contradições e posições pouco expressas (ou não expressas) aparecem no processo, em linhas ou parágrafos que formam um quadro nem sempre é exposto ao receptor da mensagem (que é também produtor de sentidos).
Neste fascinante universo da polêmica e de posições firmes (às vezes veladas), foi possível testar as quatro hipóteses propostas no início deste trabalho. As duas primeiras hipóteses são dois lados da mesma moeda, pois tratam das convergências e divergências no debate sobre privatizações presentes nos dois semanários. São elas:
a) É provável que haja coincidências em alguns pontos dos enquadramentos, devido ao fato dos dois veículos estarem inseridos na mesma sociedade, ou seja, dentro do mesmo quadro geral da cultura;
b) A tendência é que haja, entretanto, diferenças em outros aspectos do enquadramento dado por cada veículo, condizente com as diferenças de linha editorial – que refletem diferentes visões de mundo consolidadas em cada uma das instituições;
Tais hipóteses se comprovaram, visto que foram identificados pontos convergentes nos discursos das duas revistas semanais, ainda que suas linhas editoriais sejam muito díspares, assim como são opostos seus posicionamentos gerais sobre o processo de privatizações realizado na década de 1990 no Brasil.
A análise quantitativa identificou que os dois discursos – aquele presente na revista Veja e também o predominante no veículo Carta Capital – assumem a existência de relação entre privatização e modernização ou globalização. A partir deste ponto foi possível investigar e chegar à conclusão de que o discurso presente na revista Carta Capital não se apresenta contrário às privatizações em si. O debate presente no veículo era crítico ao processo de privatizações em curso, mas defendia o modelo ora aplicado em uma série de países da Europa. O viés principal defendido pela revista foi a defesa do nacional.
A análise qualitativa de trechos de reportagens identificou que as opiniões presentes nas duas revistas convergem na compreensão de que a compra de estatais é um bom negócio para os compradores. A divergência se localiza em identificar se, da forma como foram
conduzidas as vendas de estatais no Brasil, o resultado seria bom também para o Estado e para a população. A revista Veja se consolidou como defensora dos grandes negócios globalizados e da entrada de vultosos investimentos estrangeiros no país, apresentando dados, estudos e exemplos sobre a melhoria dos serviços provocados pelas privatizações.
A terceira hipótese levantada é a seguinte: c) A partir de uma observação não metodológica dos dois veículos anterior a este estudo, supomos que nos dois casos as revistas atuam como atores sociais que advogam uma posição (pró ou antiprivatizações), não oferecendo, nenhum dos dois, um debate plural acerca do tema em questão.
Em que pese a hipótese estar certa, esta não é uma boa notícia, ao menos em se tratando do ambiente de produção de notícias no Brasil contemporâneo. O que se pode concluir, pela análise dos textos, é que ambos veículos se valeram de matérias com uma única opinião ao longo de todo o processo. Não houve espaço para o contraditório e muito menos para um debate público real, capaz de fornecer elementos a um debate democrático saudável, que seja informativo e formativo do público leitor. O que houve de contraditório foi pouco significativo diante do conjunto, e a opinião alheia no próprio texto, quando apareceu, foi tão controlada quanto os preços praticados pelas empresas sob controle governamental – como argumentam as duas revistas a respeito das burocracias que cercam a administração de uma empresa estatal – e absolutamente todas as vezes seguidas de ataque a essa opinião, único motivo pela qual ela foi apresentada, inclusive: para ser atacada.
Esta estratégia discursiva é uma das maneiras de naturalizar o discurso, um recurso de construção de hegemonia. O discurso único, que se apresenta como natural, esconde uma ideologia que não quer ser revelada. Para além das próprias teorias do Agenda-Setting ou do Enquadramento, tal questão é importante porque os meios de comunicação configuram o instrumento por excelência de mediação do debate público na sociedade. Assim, os meios de comunicação se inserem em um contexto democrático em que se configuram elemento fundamental de mediação da percepção do indivíduo com a sociedade
A quarta e última hipótese é a seguinte: d) A partir de observação prévia, não metodológica, apresentamos a hipótese de que a revista Veja apresenta uma interpretação mais superficial e reducionista do processo de privatizações no Brasil, ao passo que Carta Capital deve oferecer uma análise mais complexa (ainda que não necessariamente plural).
Esta não se comprovou. É verdade que a revista Carta Capital apresenta comparações do processo de privatização brasileiro com o de outros países; publica novidades no campo da economia para avaliar o preço justo de empresas na bolsa de valores, explora modelos de privatização diferentes daquele em curso no Brasil da década de 1990 e faz a discussão sobre soberania, democracia e até mesmo o papel da mídia ao longo das matérias, tornando sua cobertura razoavelmente profunda. Entretanto, a revista Veja também se valeu de uma cobertura consistente. Embora muito calcada em fontes oficiais e especialistas, as matérias trouxeram estudos, dados, exemplos e até mesmo citaram as vozes contrárias – embora sem lhes oferecer espaço – de forma que não se confirmou a hipótese de ter sido uma cobertura mais profunda ou mais superficial que a outra.
Por fim, embora socialmente detentores da responsabilidade de mediar o debate público, como foi exposto – em conjunto com ou ao menos tanto quanto outros meios e veículos, claro –, as revistas pesquisadas não se propuseram a aprofundar o debate sobre privatizações.
A revista Carta Capital ofereceu uma sugestão quase escondida em meio às linhas de suas matérias: de que se implementasse no Brasil o modelo Europeu de privatizações. Embora tal sugestão tenha aparecido explicitamente em uma ou duas passagens, o quase insignificante número de incidências e ausência de qualquer espaço de destaque o tornaram pouco importante no discurso da revista; o aspecto foi destacado por este trabalho justamente por ser uma novidade que poderia facilmente passar despercebida. Fora isso, não houve uma discussão me nenhum dos dois veículos, por exemplo, sobre o conceito de privatização, sobre as possíveis formas de se privatizar, sobre a diferença entre a concessão de um determinado serviço ou uma parte da empresa e a sua venda completa e questões similares, provavelmente pouco conhecidas do público leitor, ainda que este pertença em geral às classes A e B, pela distância cultural que a maioria dos brasileiros guarda com os temas econômicos.
A conclusão que se pode tirar disso é que o que a própria imprensa chama de opinião pública é a própria opinião do veículo em questão – ou de diversos veículos que convergem em torno de um tema. Assim, o debate público no Brasil é privatizado por meios de comunicação que sequer tentam expressar ao menos uma parte da pluralidade de pensamento existente na sociedade. Dessa forma, exercem hegemonia calcada no poder econômico e na capacidade de circular informações. Buscam orientar como cada instituição da República
deve agir para atender essa chamada “opinião pública”, assumindo para si, portanto, o papel de Poder Moderador, que orienta e controla os demais poderes.
Após a extensa análise realizada nesta dissertação – embora provavelmente ainda com lacunas e insuficiências no trabalho de analisar de maneira precisa o enquadramento dos veículos acerca de tema tão polêmico e instigante quanto as privatizações no Brasil –, cabe ressaltar que o processo de pesquisa suscitou muitas novas questões que não seria possível responder neste trabalho. Uma delas tem origem no alerta presente em matérias da revista Carta Capital acerca do risco democrático de uma empresa dominar produção de conteúdo e circulação deste conteúdo ao mesmo tempo, ou de possuir propriedade cruzada de meios de comunicação. A pergunta que nasce deste debate é “como a propriedade cruzada de meios contribui para a restrição do debate público no Brasil?”. Outra possibilidade seria um estudo das legislações de comunicação do Brasil e de outros países, para uma comparação. Ou mesmo uma comparação do poder de agendamento da mídia brasileira com a de outros países.
Portanto, as possibilidades são inúmeras. Mas o caminho ora percorrido traz respostas e perguntas que certamente levam a caminhos mais tortuosos e infinitamente mais interessantes que aquele já traçado e seguido. Que os próximos desafios levem a questões que ajudem a desvendar e dissecar de forma mais profunda o complexo campo da Comunicação, tão essencial à humanidade quanto o próprio caminhar.
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