4. YABANCI İMGESİ
4.1. Kavram Olarak Yabancı
4.1.2. Yabancı Ülkede Günlük Yaşam Algısı
A década de sessenta de fato ficou conhecida como um dos períodos emblemáticos em matéria de acontecimentos históricos, políticos e sociais em várias partes do mundo. Isso gerou impacto de diversas ordens. Em dimensão mundial, tal período refletia um sentimento coletivo e desfigurado herdado de tudo o que o mundo viu e “esqueceu”, viveu no corpo individual e coletivo e ainda revivia nas memórias da Segunda Guerra Mundial. Toda uma crise na ordem das coisas que estoura nos anos 1960 surge justamente da vontade da expressão que não se limita ao comunicar ainda que seja preciso comunicar (AGAMBEM, 2008; 2011). Na América Latina, por outro lado, nos anos 1960 começa-se a vivenciar a tentativa do “fazer calar-se” com as imposições político-ditatoriais e o controle dos corpos, ao passo que emergem dessa conjuntura as vozes de resistências.
Seguindo a esteira das reflexões de Giorgio Agambem, que analisa o arquivo de testemunhos que restaram dos campos de concentração, em particular o Campo de Auschwitz, compartilhamos com a ideia de que os anos posteriores à Grande Guerra vieram com uma vontade coletiva de repensar a história, questioná-la e escutar seus testemunhos ainda que houvesse uma mudez produzida dentro e fora dos campos. E os anos 1960 não deixaram de vivenciar o rompimento da mudez, bradando todo o seu sufocamento gerado pelo sentimento de vingança, pela supressão das liberdades individuais e coletivas do direito à voz, pela sensação de impotência, pelo luto coletivo do pós-guerra além da crise das ideologias confrontadas e/ou compartilhadas nas décadas anteriores. O historiador das ideias e teórico da retórica moderna Marc Angenot analisaria
148 este fenômeno, certamente, como a lógica e as ideologias do ressentimento128
(ANGENOT, 1997, 2008) resultante no interior de retóricas por vezes conflitantes.
O que nos interessa dessa reflexão diz respeito ao que tal momento histórico produziu e significou para nós – historiadores dos discursos, analistas de discursos e estudiosos das ciências das linguagens – num contexto em que se definiu pela crise do estruturalismo ou com o pós-estruturalismo, e quais questões nos foram colocadas. A reflexão sobre o lugar e o papel do sujeito nas práticas científicas das humanidades mudou todo um modo de fazer ciência, história e historicizar a própria ciência (FOUCAULT, 2001). O filósofo francês foi e ainda é lido como um pensador que traz para o interior das ciências humanas o questionamento de que ela, a própria ciência, é um tipo de discurso (atravessado por tantos outros), e suas verdades são verdades construídas. E por ser um produto dos discursos de uma época, está sempre no limiar da história, cuja condição é, inevitavelmente, a mutação, a transformação, a própria ruptura que lhe traduz.
No interior dos estudos da linguagem (verbal, por exemplo), viu-se aos poucos o desapego do modelo homogeneizante ao se conceber a língua na perspectiva das gramáticas gerais do séc. XIX até meados do XX, para a passagem à discussão sobre a heterogeneidade linguística a partir das décadas de 1950 e 1960, caracterizando-se numa prática descritiva da linguagem. Essa nova reflexão atinge certamente o ensino de língua. Evidentemente, não podemos desconsiderar as descontinuidades nesse percurso, e as ideias do genebrino F. Saussure que já na virada do séc. XX fundariam um contradiscurso diante das reflexões da linguística comparativa predominante.
Em escala de representatividade mundial, os anos sessenta vivenciaram acontecimentos históricos que marcaram muito a história no decorrer da virada do século XX. Uma década que começou, por exemplo, com a vitória presidencial norte-americana de John Kennedy, transmitida já em tevê, e terminou com o anúncio, em 12 de novembro
128A partir e ao longo de uma vasta produção, Marc Angenot vai desenvolver quatro grandes tipos ideais de
lógicas modernas e ideológicas que definem o que ele concebe por retórica antilógica mais fortemente aprofundado em seu Dialogues de sourds, traité de rhétorique antilogique (2008). A ideologia do ressentimento se configura como um desses tipos ideais de lógica. Baseando-se em F. Nietzsche e Max Scheler, Angenot (2008) concebe-a como “um modo de produção do sentido, dos valores, de imagens identitárias, de ideias morais, políticas e cívicas que repousa sobre alguns pressupostos e que visa a uma mudança de valores [...]e à absolvição de valores “outros” contrários àqueles que predominam, valores específicos de um grupo expropriado e reivindicador.” (Tradução nossa). ANGENOT, M. Dialogues de
149 de 1969, daquilo que, décadas mais tarde, conheceríamos como Internet129. E com ela
pudemos conhecer todo um funcionamento e performance de uma imageria na construção de sentidos e intercâmbio entre os sujeitos em matéria de manipulação da imagem e do som numa conexão interpessoal que tem nos desafiado diante de conceitos como espaço e tempo como é o caso das redes sociais hoje. Talvez a década de 1960 tenha produzido o que, nos anos 1980, vamos visualizar com maior nitidez o espetáculo das multidões motivados pela indústria cultural e pela cultura de massa.
O que isso vai nos produzir para os próximos 50 anos, não saberemos. Mas, de fato, não se pode negar que o que se produz hoje em matéria de constituição (como se produz o que se vê e diz em imagens), formulação (como se as faz ver) e circulação (onde e como se veiculam as formas materiais) da imageria nas redes sociais é fruto de um tempo anterior alavancado pelas tecnologias da imagem e do som, e das formas como o homem passou a relacionar-se com (e a relacioná-la dentro de) um universo imagético que nos apresentou o mass media130, não apenas como produto da comunicação, mas como objetos
culturais e simbólicos. O livro didático certamente vai refletir essas mudanças de paradigma e evidência de novas práticas. Do conjunto de LD analisados, evidenciamos um crescendo incontestável da apropriação de textos imagéticos e plurissemióticos como recursos direto e indireto no ensino de leitura. O apelo à leitura do imagético vem seguido de um discurso que surge dos movimentos de massa, grandes espetáculos, desenvolvimento de novas técnicas e acontecimentos políticos que, de certo modo, propiciaram uma nova ordem e práticas de leituras. Se a cultura popular é “abafada” pela lógica da indústria cultural e da cultura de massa, novas práticas de leitura são emergentes e imperativas, e esse discurso chega às escolas sob o conceito de leitura/consumo dos objetos e suportes de comunicação de massa. Mas isso não ocorre de forma espontânea ou natural: a ordem político-educacional institui diretrizes e parâmetros que orientam a entrada de novas linguagens nos LD a fim de que o aluno acompanhe, experiencie, reproduza e compreenda estes novos objetos. Sob orientação teórica pautada numa
129 O diretor de informação audiovisual da ONU, na década de 1960, Jean D’Arcy anunciava numa entrevista
concedida em 12 de novembro de 1969 o que ele denominava “la révolution de l’avenir”. Segundo o francês,
a revolução do futuro viria para “colocar à disposição dos indivíduos a possibilidade de eles próprios escolherem as imagens e os sons que desejam receber não somente para suas distrações, não somente para sua educação, mas também para todos os atos práticos da vida.” (transcrição e tradução nossa). Cf. aqui: http://www.ina.fr/video/I06304175/internet-l-anticipation-video.html. Acesso em 19 out.2013.
130 Segundo o Dicionário dos Média, “Meios de Comunicação de Massas ou Mass Media foi uma expressão
inventada nos anos 50, nos Estados Unidos, para designar os média que são susceptíveis de atingir um grande público e por conseguinte, diverso e não identificável.”(BALLE, 2004, p. 123),
150 concepção de linguagem comunicacional, os LD dos anos 1980 e 1990 passaram a evidenciar uma série de textos imagéticos sem que houvesse uma formação apropriada dos professores nem uma orientação teórica sobre os modos de leitura desses objetos.
Então, os grandes e os micro-acontecimentos narrados (e mostrados) numa diversidade de imagens fabricadas a partir do que se concebeu por mass media são sintomas experienciados pelas manifestações simbólicas e tecnológicas que se produziu a partir da década de 1960, mas que se estendeu em décadas posteriores. Aqueles tempos vieram acompanhados por uma série de eventos, que chegaram às pessoas de forma produzida. Basta pensar que as tecnologias da imagem nas sociedades ajudaram emergir discursos sobre ecos de modernidade (MATOS, 2010)131 nos anos posteriores à década de
1970, produzindo, por exemplo, efeitos quase de mesma ordem daqueles que emergiram na virada do século XIX para o XX com a chegada do cinema e suas aparelhagens no Brasil, mais precisamente, carioca e maranhense.
Como dissemos, houve então grandes acontecimentos históricos132:
i) no campo da política – a construção do Muro de Berlin, a prisão de Nelson Mandela, o assassinato de Jonh Kennedy, mas também o de Che Guevara; a Guerra da Argélia e uma série de conflitos pró descolonização na África, bem como os movimentos feministas e as lutas estudantis de Maio de 1968, que marcaram a história da França e influenciaram outros tantos povos contra os regimes autoritários na América latina, por exemplo;
ii) no universo da cultura e comunicação: viram-se as primeiras imagens de tevê transmitidas ao vivo entre EUA e a França, época em que alguns poucos tiveram acesso à
131 Ainda que se trata de dois momentos distintos (aquele do início do século e o do mass media dos anos
posteriores à década de 1950), fazemos aqui referência ao trabalho de Marcos Fábio Belo Matos, em cuja tese intitulada Ecos de modernidade: uma análise do discurso sobre o cinema ambulante em São Luís (2010) ele analise as produções discursivas emergentes entre 1898 e 1909, procurando flagrar discursivamente os enunciados atravessados por pré-construídos a partir dos quais ele notou que a mídia impressa à época descrevia os artefatos cinematográficos e maquínicos como ícones de uma modernidade. Para ele, a forte presença de superlativos positivos nos jornais para descrever tanto as máquinas (os suportes) quando as imagens em movimento (a materialidade) forjava um interdiscurso da modernidade. Trazemos aqui esta breve reflexão para pensar em como as inovações tecnológicas de que se dispõem e se produzem os objetos imagéticos inscrevem-se em acontecimentos que (re)inauguram formas de produzir novos discursos, ainda que eles frequentemente mantenham sua relação com enunciados já produzidos noutro lugar e em momento diverso.
132O site francês Live2times é especializado em arquivar de dados de acontecimentos históricos desde a
década de 1940 até os dias atuais para a preservação da memória do audiovisual conservando materiais sonoros, fotografados e/ou televisionados na cronologia em que se tornaram fatos noticiados. Disponível em: <http://www.live2times.com/>. Acesso em: 30 jun. 2013.
151 notícia da morte da atriz Marilyn Monroë – a TV colorida somente em 67. O Nobel de literatura e filósofo franco-argelino Albert Camus morre, e J. P. Sartre recusa o mesmo prêmio quatro anos mais tarde. Os anos 1960 também viram 400 mil jovens reunidos no festival Woodstook (EUA), de onde saem entoando com os hippies a expressão
Flowerpower, clamando a paz no mundo.
São estes alguns exemplos de que a espetacularização dos acontecimentos era constituída pouco a pouco pelos diversos domínios desse saber e habilidade em torno da manipulação das imagens. Isso se intensifica quando se percebe que, tal ou mais que o verbo, com o domínio das imagens, é possível mostrar e fazer ver o que aparece na ordem dos acontecimentos. Se a pintura da era clássica promovia uma verossimilhança pela função da representação na episteme da similitude; na modernidade lançada no universo do
mass media, as imagens homologavam um discurso, levando a crer pela semelhança com o objeto, ainda que os paradigmas de leitura não fossem os mesmos. Ainda hoje pouco se questionam os modos de leituras e apropriação da imagem televisionada no universo escolar quando as mídias têm manifestado autonomia para validar discursos ao se ampararem na plasticidade verossímil do vídeo e da fotografia ao noticiar os acontecimentos cotidianos. Nas palavras de Courtine (2011), quanto mais amadora é a imagem nas mídias contemporâneas mais ela se inscreve no paradigma do verossímil pela redução do distanciamento entre a coisa e a linguagem que a representa.
Por outro lado, na academia, as ciências humanas reviam suas bases epistemológicas, porque pareciam se confrontar com a onda das incertezas e dos questionamentos acerca da concepção de objeto-sujeito como saber. O estruturalismo, por exemplo, conhecia seus contestadores, num momento em que a noção de sistema como constituído pelas partes divisíveis de uma dada conjuntura para o estudo de seu funcionamento parecia um modelo limitado e não respondia às questões que se impunham. Particularmente a própria ciência linguística enfrentava essa crise – justo ela que servira de modelo no apogeu do estruturalismo a outros domínios vizinhos, as ciências humanas em particular (CHISS, PUECH, 1987).
Entre os avanços da tecnologia e da ciência (primeiro transplante cardíaco, o homem pisa a lua etc.) e a crise política internacional sustentada por grupos com ideologias tão divididas, a década de 1960 produziu consequências de várias ordens no mundo. Muitas delas tomaram formas discursivas sensíveis porque foram historicamente
152 construídas e materializadas em enunciados que se apresentam ainda hoje verbalizados ou iconografados em objetos que são restaurados pela recorrência da memória.
Da canonização sólida dos acontecimentos daquela época (e os posteriores) ao esvaziamento imaginário desses “ícones”, há uma superfície onde encontramos o novo que não é tão novo assim: os discursos e a (re)configuração de sua linguagem; as formas como eles se apresentam. Nesse sentido, há sempre uma historicidade dos sentidos e da materialidade que lhe dá forma. A imagem, portanto, tem um valor fundamental no processo de construção histórica das identidades dos sujeitos e na comemoração dos acontecimentos. Tal argumento se evidencia tanto numa pedagogia das formas de leitura dos objetos visuais (seja plástico, escultural, fotográfico) quanto numa prática de manipulação de algumas imagens fazendo com que elas nunca sejam esquecidas, adquirindo então valor imaterial nas interdiscursividades – tornam-se monumentos. A
Gioconda então é um dos maiores exemplos. A Gioconda não é célebre por ser um quadro, mas tornou-se célebre pelos sentidos que ao quadro foram atribuídos numa espécie de eterna comemoração e recitação, canonizando-a.