4. YABANCI İMGESİ
4.1. Kavram Olarak Yabancı
4.1.1. Ben Anlatıcıların Yabancı Ülkedeki Entelektüel Yaşam Algısı
A expressão imageria é concebida como um conjunto de imagens nas mais diversas especificidades genéricas, materialidades e suportes, que serve a um dado objetivo e campo das práticas discursivas e da constituição e difusão de saberes. Daí advém a necessidade da expressão sintagmática para designar seu campo: imageria literária, imageria poética, imageria gráfica, imageria política, imageria militar, imageria médica, imageria nuclear, imageria molecular, imageria criativa, imageria escolar, entre outras.
A necessidade de especificar o domínio varia de acordo com a função, o campo teórico, os princípios filosóficos e/ou a natureza constitutiva. Evidentemente, nem todos se constituem como um objeto teórico, diferentemente daquele que abordamos nesse trabalho
142 cuja expressão tem mais a ver com o que se definem por imageria escolar, didática ou pedagógica.
Assim, chama-se imageria escolar aquela que engloba todas as imagens e reproduções gráficas e iconográficas (envolvendo quadros, pinturas, estátuas, desenhos, maquetes, manequins, tabelas, gráficos, painéis, organogramas, mapas, fotos, infográficos, ilustrações em manuais didáticos) com objetivos de ilustrar e facilitar o trabalho didático do professor em sala de aula bem como o processo de ensino e aprendizado dos alunos.
Do ponto de vista genealógico, tal expressão começa a ser difundida com a atuação do ministre de l’instruction publique (1868-1869), Victor Duruy, no Segundo Império, na
França. O político e historiador francês queriaque "as paredes de nossas 70 000 escolas fossem cobertas, de cima abaixo, de imagens. Da escola elas chegariam às choupanas [tradução nossa]."123 Pouco depois, Jules Ferry, um dos grandes defensores da escola
gratuita e obrigatória na França (projeto instituído na 3ª. República) e criador da
Commission de la décoration des écoles, emprega a expressão imagerie scolaire para designar um conjunto de imagens utilizadas nas escolas com o objetivo de explicar ou ilustrar as aulas. Aos poucos, a expressão ganha acepções mais específicas com o advento e a importância dos livros e manuais escolares e científicos ilustrados. Na contemporaneidade, a imageria escolar assume um papel fundamental na construção, no desenvolvimento e na pedagogia da leitura numa política de interpretação de material iconográfico sobretudo de cunho artístico-religioso (RENONCIAT, 2011).
No entendimento de autores como Renonciat (2011), a imageria escolar seria compreendida como conjunto de materialidades imagéticas com fins pedagógicos, cuja função, por um lado, varia entre i) ilustrar conteúdos e saberes – propiciando um caráter lúdico a livros infantis, por exemplo, ou a uma dada temática, ii) atribuir valor estético ao livro e às páginas ou, por outro lado, iii) servir de objeto teórico-discursivo com valor interpretativo (objeto de conhecimento, formação da moral e de comportamentos, difusão ideológica etc). Percebe-se então a proximidade das acepções dessa autora em relação aos pensadores citados do século XIX pelo menos no que se refere à questão da educação formal do leitor de imagens, desde a infância à idade adulta.
123TN :"que les murailles de nos écoles fussent couvertes, du haut en bas, d’images. De l’école elles seraient
passés dans la chaumières". Riotor, L. Imagerie scolaire. Institut Français de l’Éducation. Institut Nationale de Recherche Pédagogique. (s.d). Disponível em:<http://www.inrp.fr/edition-electronique/lodel/dictionnaire- ferdinand-buisson/document.php?id=2892>. Acesso em: 11 nov. 2013.
143 Já no campo de uma filosofia do imaginário político, existe uma outra reflexão em torno da concepção de imageria que põe em relevo os usos e as apropriações de imagens, bem como o modo como elas são lembradas nas culturas política e jurídica. A imageria assim assume uma função discursiva nas sociedades letradas que traduzem as práticas políticas, culturais, religiosas e jurídicas funcionando como gestos históricos e simbólicos. Essa noção está diretamente atrelada à ideia de imaginário do polimorfismo das imagens como um objeto cognitivo específico da ordem do sensível e do inteligível.
Para a noção de imageria que tentaremos desenvolver mais à frente, partimos das ideias dos autores aqui mencionados, mas, sobretudo, daquelas concebidas por Wunenburger (2001, p.78-79), ressalvadas suas diferenças, quando afirma:
Primeiramente, uma imageria refere-se à utilização, na vida pública, de representações imagéticas das ideias e dos homens, que contribuem para a sua eficiência. Os retratos de líderes (estátuas, fotografias, imagens de televisão), os emblemas (bandeira nacional, galo gaulês124, etc.), as alegorias (imagens de Espinal de Carlos Magno ou São Luís), os gestos históricos memoráveis (destruição pelos revolucionários de monumentos representativos do poder como a tomada da Bastilha) constituem expressões visuais com uma necessidade de ilustrar, de modo sensível e concreto, instituições, ideais, programas, uma memória coletiva. Imageria assume então uma simples função de comunicação social; ela possui valor educativo, pedagógico, mnemotécnico; ela possibilita compreensão de valores, compartilha saberes ou uma cultura comum.125 [grifos e tradução nossos]
A título ilustrativo daquilo que o filósofo nos faz lembrar como gestos históricos
memoráveis da cena política na vida pública, poderemos citar exemplos recentes como aquele rememorável sobre a execução de Saddam Hussein condenado à morte por enforcamento em função de seus crimes contra a humanidade; ou, por outro lado, a derrubada da gigantesca estátua126 do mesmo ditador na Praça Fardus no Iraque em 2003
124 No texto original, o autor grafa em francês “coq galois”. A expressão mais recorrente em francês é “coq
gaulois” [poule française] para frango gaulês ou galo francês. Cf. Wunenburger (2001, p.78).
125TN : « D'abord une imagerie, qui renvoie à l'utilisation dans la vie publique de représentations imagées
des idées ou des hommes, qui contribuent à leur éfficacité. Les portraits des dirigeants (statues, photographies, images de télévision), les emblèmes (drapeau national, cop galois, etc.), les allégories (images d'Épinal de Charlemagne ou de Saint-Louis), les gestes historiques mémorables (descruction par les révolutionnaires de bâtiments représentatifs du pouvoir comme la prise de la Bastille) sont autant d'expressions visuelles d'un besoin d'ilustrer de manière sensible, concrète, des institutions, des idéaux, des programmes, une mémoire collective. L'imagérie assure alors une simple fonction de communication sociale, elle a valeur pédagogique, didactique, mnémotecnique, donne à comprendre des valeurs, fait partager des savoirs ou une culture commune. »(WUNENBURGER, 2001, p.78-79).
126 Cf. O dia em que Saddam caiu. Foto: Jerôme Delay. Reportagem Especial. Jornal Zero Hora.Porto Alegre,
quinta-feira, 10/04/2003. Disponível em:<http://zerohora.clicrbs.com.br/pdf/8884960.pdf>. Acesso em: 11 maio 2014.
144 (Figura 11). Seja a construção e exposição de um acontecimento histórico como o da punição pública, seja a derrubada de um monumento, ambos se configuram como construção imaginária da história que perdura como um gesto memorável, tendo suas origens mais longínquas no Medievo com condenações por meio de execuções, linchamentos e torturas em praça pública em função da construção de uma coletiva memória pela imageria.
Fonte: Jornal on-line Estadão (2003)
Por outro viés, a derrubada de uma estátua de um ditador é a tentativa mais pragmática de apagar a memória, mas as imagens desse gesto com herança antropológica, que se reproduzem na mídia e circulam em distintos meios (a internet é um forte exemplo), mantêm-se vivas, latentes e/ou recorrentes ainda que haja uma vontade coletiva de apagá- las, como se fosse possível a anulação da história (COURTINE, 1999). Dito de outro modo, podemos afirmar que, com esse gesto, faz-se desaparecer do mundo dos viventes a imagem de um ditador, mas não é possível apagar a memória da ação do seu desaparecimento. O apagamento de uma imagem (uma fotografia, uma estátua) é uma prática vinculada ao exercício de poder que opera na tentativa de esquecimento, mas a memória sempre nos faz lembrar. Ela está a serviço de nossa história, como nos faz pensar Courtine (1999) ao analisar o papel da memória discursiva nos discursos políticos.
145 Poderíamos citar ainda muitos outros exemplos na história, mas fiquemos com duas imagens recorrentes em livros didáticos de História do Brasil e literatura barroca no Brasil: aquelas em que se descreve o recitado Enforcamento de Tiradentes na ocasião da Inconfidência Mineira. Trata-se das telas Martírio de Tiradentes, de Francisco Aurélio de Figueiredo e Melo (1854-1916) e Tiradentes Esquartejado, de Pedro Américo (1893- 1905). Em ambas as pinturas – na primeira, ainda vivo, sob a corda no pescoço e, na segunda, já esquartejado e exposto a público –, há uma visível representação cristianizada do inconfidente, cujo gesto antropológico é dado a ver num ritual pedagógico com lugar garantido nesses livros.
Na perspectiva de Wunenburger (2001), a imageria então adquire este estatuto: constituir um saber educativo, construir valores pedagogicamente, produzindo e compartilhando saberes numa cultura.
Ainda retomando o conceito de imageria, conhece-se, no Brasil, a tese da professora Maria Letícia Rauen Vianna intitulada “Desenhos Recebidos e Imageria Escolar: uma possibilidade de transformação” (2000) um dos poucos trabalhos em que aparece a expressão “imageria escolar”. Inspirada no Dictionnaire des Idées Reçues de
Flaubert, a pesquisadora fez um estudo do conjunto de “images reçus” em ambiente
escolar do ensino básico brasileiro. Esse estudo foi publicado em livro dez anos mais tarde sob o título Desenhando com todos os lados do cérebro: possibilidades para
transformação das imagens escolares. Nota-se, portanto, que Vianna (2000; 2010) usa esse termo a partir de influência de trabalhos franceses nos quais também se adota tal expressão. O termo, portanto, não é operacionalizado em uma reflexão discursiva propriamente dita tal como a abordamos em nosso trabalho, mas ele pode nos auxiliar no amadurecimento dessa noção que julgamos salutar, tendo em vista que a autora a mobiliza no contexto psicopedagógico, definindo-a em suas pesquisas como um conjunto das imagens e desenhos encontrados, recebidos ou produzidos em ambientes escolares brasileiros.
Em uma outra perspectiva, certamente num âmbito mais filosófico-literário, a expressão “imageria discursiva” e “imageria empírica” são cunhadas por Nigel Foxell no artigo “Un sermon de pierre” (1983) que compõe um dossier por N. Foxell sobre a
literatura de John Donne. Talvez esse seja o trabalho que melhor aponte para uma proximidade com a noção de saber discursivo construído por uma materialidade imagética
146 não pictórica no universo da subjetividade na linguagem, por exemplo, a imagem metafórica. Apropriando-se das ideias de críticos da literatura e semioticistas de tradição francesa como G. Genette, R. Barthes, J. Kristeva e D. Roche – ao analisar a poética de Jonh Donne – Nigel Foxell apresenta as seguintes definições:
A imageria discursiva é aquela que se serve de palavras cujo sentido amplo transporta o leitor para outros campos do discurso (neste caso, a astronomia e a teologia enquanto “nova filosofia”) ou o mundo não verbaljá é anunciado por um sistema de termos coerentes. A imageria empírica, ao contrário, se serve de palavras para fazer diretamente referência a contextos não verbais de experiência física, sensorial ou que ainda não tenha sido anunciada127. (FOXELL,1983, p.
218, tradução nossa)
Diante dessas definições, concebemos por imageria escolar, em nosso trabalho, o conjunto de materialidades visuais (fixas ou animadas, digital, on-line ou impressa, mistas e multimodais etc.) construído ou selecionado para auxiliar e desenvolver práticas de construção de saberes em contexto educacional ao longo da história. Cientes dos objetivos deste trabalho e atentos às características de nosso arquivo, por questões de ordem metodológica, a noção de imageria aqui diz respeito ao conjunto das materialidades imagéticas impressas em manuais didáticos para fins pedagógicos, o que não exclui o papel da imageria em outros suportes de circulação, sobretudo quando se toma a linguagem imagética animada em outras esferas de circulação de sentido em diversos contextos de comunicação social. Não desconsideramos, evidentemente, a natureza constitutiva de demais materialidades no universo educativo tanto fixas e permanentes quanto dinâmicas e efêmeras.
A imageria vem a ser, nesse sentido, o conjunto de materialidades dos discursos de natureza semiológica (uni ou plurissemiótica: plástica, icônica, fotográfica, têxtil etc.) que carregue em sua superfície metalinguística uma dimensão histórico-enunciativa fundamental à materialização dos discursos produzindo saberes no universo da memória coletiva. Dito de outro modo, a imageria seria determinada pelas condições históricas e enunciativas de seu funcionamento e não somente pela natureza constitutiva que lhe dá unidade material. No campo da publicidade, por exemplo, o trabalho do analista deve levar
127TN: L’imagerie discursive est celle qui se sert de mots dans le sens étendu transporte le lecteur dans
d’autres champs du discours, (dans ce cas l’astronomie et la téologie en tant que « nouvelle philosophie ») ou le monde non-verbal est déjà communiqué par un système de terms cohérents. L’imagerie impirique, au contraire, se sert de mots pour faire directement référence à des contextes non verbauxd’expérience physique, affectiv, ou sensorielle qui n’ont pas encore été communiqués.
147 em conta todo o conjunto de elementos que compõem o gênero texto publicitário, configurando nele aspectos que lhe permitem trabalhar com a linguagem. Esse procedimento faz apelo a um jogo retórico da ordem de um discurso unificador (por exemplo: a promoção de um dado produto), ainda que nessa tentativa unificante subjaza uma diversidade de outros enunciados tanto no nível da interdiscursividade quanto no da intericonicidade (COURTINE, 2011), afinal tal gênero trabalha quase sempre na relação de mais de um elemento significante (verbo+imagem).