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Se a semiologia estrutural enfrentou grandes desafios num primeiro momento em função da constituição de seu campo apresentando os limites que margeavam com a clássica e já consolidada ciência linguística, mais tarde, nos fins dos anos 1960 e início da década de 1970, nota-se um grande número de trabalhos que melhor definem a jovem ciência, sobretudo em matéria do próprio objeto de análise. A revista Communications, fundada por R. Barthes, E. Morin e G. Friedmann, tornou-se desde sua fundação, na École Pratique des Hautes Etudes

en Sciences Sociales, o principal periódico difusor dos trabalhos envolvendo, inicialmente, estudos em torno da semiologia e da comunicação de massa no que podemos chamar a era da

civilização da imagem (expressão problematizada por pensadores como Fresnault-Deruelle, 1970; Metz, 1970; Verón, 1970; Eco, 1970; Marin, 1970, além do próprio R. Barthes, que avaliou sua pertinência, anacronia e contradição).

68 No prefácio de Le verbe et l’image, Desgoutte (2003) sumariamente resume a

emergência deste novo domínio no interior das ciências sociais e humanas da seguinte forma. Se nos anos que antecederam a década de 1960 via-se a notável força da linguística estrutural; nos anos seguintes, surgiam então, respectivamente, a semiologia, a teoria do discurso e a comunicação de massa como campos caracterizados por um modismo da época resultantes de uma certa metamorfose disciplinar, o que marca a evolução da história das ideias. Para ele, a teoria da comunicação ganhava força, sobretudo, naquela última década, pondo aos escanteios o projeto semiológico francês que muito prometia desde sua emergência. Isso só vem confirmar a questão de que tratava Kristeva (1971) quando fez uma precisa avaliação acerca dos destinos epistemológicos da linguística.

Por outro lado, os movimentos de Maio de 1968 asseguraram, entre outras conquistas, o direito à fala pública e do panfleto nos espaços sociais como as ruas, permitindo nas décadas seguintes uma maior exploração desses recursos áudio-imagéticos, inscrevendo o sujeito falante (mas também leitor-consumidor de imagens) neste universo do “poder falar, dizer, mostrar” (DESGOUTTE, 2003). O semiólogo e cineasta francês afirma:

Maio de 68 é frequentemente celebrado como um momento de liberação da fala, em seguida os anos 70 marcam a epifania da imagem publicitária (e particularmente da imagem pornô-erótica) e finalmente os anos 80 inauguram a era do vídeo portátil e da microinformática. Cada um destes acontecimentos manifesta, a sua maneira, uma transformação da relação que a sociedade mantém com sua própria linguagem, como ferramenta de representação e de intercâmbios.46 (DESGOUTTE, 2003, p.9)

Em oportunidade de conversar pessoalmente com o professor Jean-Paul Desgoutte, na época em que seguia seu seminário Sémiologie et rhétorique des images, em2012, na Faculdade de Comunicação da Université Paris 8 - Saint-Denis, pudemos discutir sobre algumas questões em torno da história da semiologia e da linguística durante e no pós- estruturalismo. Uma das questões que ele pôs – tanto a ele mesmo quanto a mim – era :Por

46Mai 68 est souvent célébré comme un moment de libération de la parole, puis les années 70 marquent

l’épiphanie de l’image publicitire (et singulièrement de l’image porno-érotique) et enfin les années 80 inaugurent l’ère de la vidéo portable et de la micro-informatique . Chacun des ces événements manifeste, à sa façon, une transformation du rapport que la société entretient à son propre langage, comme outil de représentation et d’échange. (DESGOUTTE, 2003, p.9). Para outras informações sobre o cineasta bem como seus trabalhos atuais, ver site «http://jean-paul.desgoutte.pagesperso-orange.fr/ressources/itw/itw.htm ». Acesso em: 11 out.2012.

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que a pesquisa semiológica, tão promissora, dos anos 60-70, acabou se afundando nos pântanos universitários (a comunicação) dos anos 80?47

Esta questão nos persegue em toda a pesquisa como um dos pontos intrigantes, tendo em vista que, enquanto a semiologia encontrava um terreno fértil na suposta era das imagens – o que poderia contribuir para a sua consolidação – esfacelava-se na confluência de tantos interesses, o que poderíamos dizer que a fez perder o fio epistemológico para a teoria da comunicação e da informação. Seria então a crise do método estruturalista que a levou junto para o escanteio dos espaços acadêmicos franceses? Ou seria, na verdade, o reflexo tardio (mas inevitável) dos acontecimentos engendrados pelo movimento de Maio de 1968, bem como as lutas políticas entre as quais deram força à ideologia político-socialista que elegeu F. Mitterand na 5ª República Francesa, em 1981?

Estas são algumas das questões que nos permitem pensar a própria complexidade da história das ciências da linguagem desde a emergência da semiologia na França desenvolvida com afinco por Barthes e seus seguidores a partir de uma terceira recepção de Saussure (PUECH, 2015).

A partir da posição de Desgoutte (2003) sobre essa questão, diríamos então que a semiologia estrutural perde espaço para a teoria da comunicação? A maneira talvez superficial de descrever tal história, pontuando uma cronologia que encerra momentos sucessivos destes acontecimentos, produz um risco na compreensão da própria história das ciências da linguagem, uma vez que a própria teoria da comunicação de massa e informação reproduziu, senão incorporou, categorias de análise tanto da linguística estrutural (Cf. esquema de comunicação de R. Jakobson48) quanto da semiologia a partir dos trabalhos de R. Barthes, C.

Metz, U. Eco entre outros (MEUNIER; PERAYA, 1993). Na esteira desta história, é preciso confessar que o projeto semiológico outrora tão promissor, como afirma Desgoutte (2003), foi adquirindo novas abordagens. Nos anos 1990 e muito recentemente, há quem justifique seus trabalhos sob diferentes rótulos, como semiótica da comunicação sobre influência das ideias de C. S. Peirce (SANTAELLA, NÖTH, 2004); sociossemiótica das imagens e da

comunicação (DAVALLON, 1984, 1990, 1999), semiolinguística do discurso49, da

47Email de 12 de setembro de 2012 :«Pourquoi la recherche sémiologique, si prometteuse, des années 60-70, a-t-

elle sombré dans le marais universitaire (la communication) des années 80?» (sic)

48 Cf. Jakobson (1969); Meunier e Peraya (1993).

49 A revista francesa Semen, fundada em 1983, é um dos principais periódicos responsáveis por publicar artigos e

ensaios envolvendo os temas semiologia moderna (ou semiótica), linguística, discurso, comunicação e informação em direção ao que se definem por semiolinguística. No site da revista, pode-se ler a seguinte definição: “Semen est une revue de sciences du langage qui propose un espace de réflexion sur le(s) discours, en

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comunicação e da informação (CHARAUDEAU, 1995, 2007). Ressalvadas as diferenças

epistemológicas, todos estes domínios em maior ou menor grau voltaram-se para a questão das imagens, da relação estabelecida entre a fala, o texto verbal e a imagem, sendo estas duas últimas dimensões da linguagem preocupações dos pesquisadores que procuravam e ainda procuram compreender o funcionamento do sentido quando resultante da relação verbo- imagem. É justo mencionar, a esse respeito, C. Metz, que se voltava à compreensão da imagem cinematográfica (GAGNE, s.d)50, o próprio R. Barthes, com os estudos da imagem

fotográfica e do texto publicitário, L. Marin com a relação escritura-pintura, M. Martin (1982) com estudos semiológicos para a leitura da imagem com fins pedagógicos.

Aos poucos, tanto os estudos de ordem semiológica quanto aqueles que iam em direção a uma abordagem comunicativa da leitura das diferentes linguagens chegam à escola orientando um trabalho feito aos modos tradicionais de leitura do texto verbal em maior grau, mas também em materialidades imagéticas ou verbo-imagéticas. Exemplo disso passou a ser visto com mais frequência com as histórias em quadrinhos (la bande dessignée, BD) em manuais didáticos do ensino básico e médio na França e no Brasil. Este fenômeno é consequência de diversas ordens: dos meios de produção de recursos imagéticos em maior escala, o que chamaríamos de tempo de vulgarização dos textos iconográficos com o desenvolvimento dos recursos audiovisuais (vulgarização do cinema em cores, METZ, 1971); o advento da televisão que aos poucos chega nos espaços domésticos nos anos 80 em maior escala; a maior facilidade de captação das imagens que veio auxiliar e possibilitar o trabalho do analista. Mas ao lado desses eventos, numa perspectiva teórica, os saberes produzidos nas universidades e centros acadêmicos vieram refletir nos modos de recepção, consumo e leitura dessas linguagens. Tais questões vão ao encontro daquilo que postulou Desgoutte (2003) ao afirmar:

A imagem posta ao lado do texto e da fala transformando a conveniente fronteira entre o verbal e o não verbal estruturou por muito tempo não somente a organização dos campos de conhecimento, mas também e,

dialogue avec les sciences humaines et sociales et dans les sciences de l'information-communication. » Disponível em : <http://semen.revues.org>. Acesso em : 05 mar.2013. Tivemos acesso em formato impresso e digital deste periódico na BULAC/INALCO – Bibliothèque Universitaire des Langues et Civilisations/Institute National des Langues et Civilisations Orientales, ligados às Universidades Paris-Sorbonne (Paris 1), Panthéon- Sorbonne (Paris 2), Sorbonne-Nouvelle (Paris 3), Paris Diderot (Paris 7). ,

50 Cf. Gagné, R. Sur les traces de la sémiologie. Disponível em:

<https://www.//fgimello.gree.fr/enseignements/metz/textes_theoriques/semiologie.htm>. Acesso em: 6

mar.2013. Ou <http://pt.scribd.com/doc/38005194/Sur-les-traces-de-la-semiologie-du-film>. Acesso em : 22 mai 2013.

71 sobretudo, os mesmos modelos do comportamento social.51(DESGOUTTE, 2003)