3. YAĞLAR VE YAĞLAMA
3.5. Yağ Kataloglarının Ġncelenmesi
A partir das últimas décadas do século XX com a maior evidência do campo historiográfico da História Cultural e a ampliação das possibilidades de utilização de fontes diversas, bem como intencionando trabalhar efetivamente com as fontes orais, me
orientando metodologicamente pela História Oral, tomei os relatos das pessoas que vivenciaram histórias no período temporal escolhido, permitindo colher as lembranças dessas pessoas e me aproximar, ou chegar mais perto, dos fatos e das situações que lhes marcaram.
Minha intenção foi realizar entrevistas com mestres e outras pessoas que vivenciaram o processo histórico da capoeira em Teresina-PI, notadamente como testemunhas do processo de inserção da capoeira nos espaços escolares de educação formal. Procurei ouvir o que essas pessoas dizem do tempo vivido, de sua cultura e da cultura da época, das práticas culturais que são objeto de minha pesquisa, das tradições que identificaram como significantes, ou seja, as narrativas particulares sobre o mundo vivido, contribuindo para construir fontes e analisar estas histórias ainda não contadas, que ainda não foram registradas pela historiografia acadêmica, sabendo que são carregadas de subjetividade e que, portanto, não são “a” história, mas representações particulares de uma história, testemunhos históricos.
Optei por trabalhar com as pessoas que tem suas trajetórias reconhecidas no universo da capoeira e na sociedade teresinense, que praticam e difundem essa cultura, com alguma forma de produção prática, vivência e experiência no universo destacado, integrantes ou não de grupos, porém com sua trajetória atrelada, em algum momento de sua história, à prática efetiva da capoeira.
Levei, ainda, em consideração o tempo vivenciado pelo entrevistado e sua idade, numa tentativa de apreender as memórias mais remotas sobre a história da capoeira no Piauí. Neste sentido, mantive os contatos iniciais com os entrevistados utilizando o contato direto, o contato por telefone e por meio eletrônico, explicando a natureza da pesquisa e obtendo aceitação prévia de todos os contatados. O objetivo primeiro na escolha dessa metodologia, trabalhando e tratando com fontes vivas, com a memória, é produzir fontes históricas a partir de testemunhos, construir fontes essenciais para análise, buscando conhecer que cada narrador traz suas particularidades, imbricadas de experiências particulares, marcadas pelo tempo, mas que, quando juntadas, são capazes de formar ou compartilhar de uma história completa e diversificada, tudo isso para evitar os esquecimentos, silenciamentos e apagamentos da história.
Me orientando pelas pistas deixadas por Bosi (2007), seguirei transmitindo as lembranças dos mestres de capoeira que escutei, acreditando que suas contribuições mais relevantes estão na capacidade que demonstram, cada qual, enquanto excelente narrador, que “[...] vence distâncias no espaço e volta para contar suas aventuras [...] num cantinho do mundo onde suas peripécias têm significação.” (2007, p. 84).
Entre as idas a Luiz Correia, pequena cidade litorânea piauiense, em busca do mestre Caramurú (reconhecido no universo da capoeira como o pioneiro dessa cultura em Teresina-PI) e as anotações de contatos telefônicos e eletrônicos, seguindo das ligações, marcação do encontro com os mestres Tucano, Chocolate e Zé Carlos, o que mais me movia era a busca de pistas que me conduzisse a algum dado novo, o que concedia qualquer indício que pudesse corroborar a memória dos mestres, ou mesmo acrescentar uma informação nova, importância central.
Imagem 14 – Mestre Caramurú em sua casa (Luiz Correia-PI)
Fonte – Arquivo Particular (Mestre Bobby)
Tive dois contatos prévios com Inocêncio. No primeiro contato apresentei o a proposta do projeto de pesquisa e os objetivos, comentei sobre minha intenção e o porquê de sua escolha para ser entrevistado, lhe expliquei como seriam efetivadas as entrevistas, além de solicitar sua autorização. Mestre Caramurú agradeceu o convite e se mostrou
bastante solícito e interessado em contribuir. No segundo contato obtive as primeiras dados sobre sua vida e a informações a respeito de sua memória na capoeira.
Caramuru chegou em Teresina no ano de 1969, iniciando na prática da capoeira no ano de 1970, pelos ensinamentos de um primo oriundo de Salvador-BA, chamado Washington, que veio morar na Via Militar, no bairro Marquês, zona norte da cidade, mais precisamente no Clube do Marquês, clube dos oficiais do Exército do Piauí. Em sua concepção a capoeira em Teresina teve início no ano de 1971, enquanto prática realmente instituída, em local próprio e com o uso de vestimentas características.
Imagem 15 – Mestre Caramurú (na queda de rins), em foto de 1969
Fonte: Arquivo Particular (Mestre Caramurú)
Naquele período, as primeiras manifestações ficaram a cargo de um pequeno grupo de amigos que se reuniam para a prática da capoeira, conhecido como “thurma”, que pregavam a liberdade de expressão e eram representados enquanto intelectuais, se constituindo numa espécie de grupo fechado, mais atrelado à forma livre de se manifestarem e conduzirem suas experiências.
Mestre Caramurú lembra os acontecimentos que marcaram sua chegada à Teresina e sua inserção na capoeira.
Meu nome é Inocêncio de Carvalho Neto, nascido no povoado de Betúria, da fazenda Malhadinha, uma das fazendas mais antigas do Piauí, tá no mapa de 1970 pra trás, tem um pontinho lá com o nome de “Fazenda Malhadinha”, onde tinham nove escravos nessa fazenda. Na época, eu me lembro vagamente que eu passei só três anos com meus pais legítimos, a gente ia lá comer manga, essa manga rosa, e andar naquele grande porão de pedra que tem lá até hoje, e a coisa que eu acha va muito bonita era um pa redã o de pedra, a cerca lá era de pedra, feita pelos escravos. Então logo depois tive que fazer uma cirurgia, minha mãe me deu pra minha tia, que morava em Floriano, pra fazer essa cirurgia, e a minha tia gostou muito de mim e não me devolveu mais pra minha mãe (risos), fui criado em Floriano. Então minha infância foi em Floriano, e em 69 meu pai deixou a firma onde trabalhava em Floriano e a gente veio morar em Teresina, em dezembro de 1969. Nossa mobília veio toda em um barco e desceu ali onde hoje em dia é o Troca -Troca em Teresina, aí começamos a morar em Teresina, lá na Rua Tiradentes, próximo ali a Coelho de Rezende, quase esquina com essa rua, e fui estudar no Colégio João Costa, se não me engano é ali atrá s do Lindolfo Monteiro, e logo anos depois foi montado o polivalente. Lá no João Costa é que onde começou praticamente os movimentos de capoeira, veja o porquê: lá tinha a quadra da LBA, uns dois pés de manga, muito grande, então aquelas pessoas iam fazer aquela assistência social, aquela coisa toda, e ficavam muitas pessoa s lá, então certo dia recebemos uma carta que dizia que um primo meu de Salvador iria passar uns três meses com a gente.
As memórias de Caramurú carregam o sentimento de um período quase romântico da capoeira, em que sua prática era atrelada a diversão, momentos de lazer e brincadeira, reforçados nas cantigas e nas falas de mestres antigos, como por exemplo, numa quadra de domínio público bastante cantada nas rodas de capoeira e que clama:
Tempo bom, tempo bom, tempo que não volta mais (refrão)
Tempo bom, tempo bom, quando Bimba menino e seu Pastinha era rapaz (refrão)
Tempo bom, tempo bom, tempo bom da capoeira, tempo que não volta mais (refrão)
Esse era o sentimento de mestre Caramurú quando fala de seu início na capoeira.