3. YAĞLAR VE YAĞLAMA
3.1. Madensel Yağlar
3.1.1. Madensel Yağların Özellikleri
Em um extenso artigo com o título Uso e mau uso dos arquivos Bocellar (2010) aprofunda questões relevantes em relação à pesquisa nos arquivos, que vão desde o encantamento provocado pela relação com os documentos ao problema da falta, nos cursos de história, de noções básicas sobre a organização arquivista.
A fala do autor citado esclarece a importância da relação do historiador e as fontes documentais que se encontram nos arquivos e contribuiu em minha opção por sair à procura dessas fontes documentais em arquivos de Teresina e empreender maior contextualização e rigor na pesquisa de história oral, pela possibilidade do cruzamento efetivo de fontes variadas. Vejamos,
O trabalho com fontes manuscritas é, de fato, interessante, e todo historiador que entra por esta seara não se cansa de repetir como os momentos passados em arquivos são agradáveis. Grandes obras historiográficas tiveram sua origem nas salas de arquivo, onde muito suor e trabalho foram gastos, após semanas ou meses de paciente e dedicada fase de pesquisa. O abnegado historiador encanta-se ao ler os testemunhos de pessoas do passado, ao perceber seus pontos de vista, seus sofrimentos, suas lutas cotidianas. [...] os personagens parecem a ganhar corpo, e é com tristeza que, muitas vezes, percebe-se que o horário do arquivo está encerrando, que precisamos fechar os documentos e partir, sem continuar a leitura até o dia seguinte. (BOCELLAR, 2010, p. 24).
O Arquivo Público do Estado do Piauí, Casa Anísio Brito, localizada à Rua Coelho Rodrigues, nº 1016, Centro, foi criado pelo documento da Secretaria do Governo e oficializado pela Lei n. 533 de 1909, com o objetivo de receber e conservar debaixo de classificação sistemática todos os documentos concernentes à legislação, à administração, à história e geografia, às informações científicas, literárias e artísticas do Estado do Piauí (GUIA DO ARQUIVO PÚBLICO DO ESTADO DO PIAUÍ, 2008).
Desde o ano de 1980 funciona em um prédio arquitetônico de estilo art dêco, contando em seu acervo com documentos históricos e intermediários do período colonial,
imperial e republicano, hemeroteca, fototeca, biblioteca de apoio e registros sonoros e visuais (imagem 13).
Imagem 13 - Frente do Arquivo Público do Piauí
Fonte: Arquivo Particular (Mestre Bobby)
Em minhas visitas ao Arquivo Público centrei minha busca no acervo da Hemeroteca, que conta com jornais do século XIX, XX e XXI, com 28 títulos micro- filmados e volumes do período Imperial e republicano.
Delimitei essa investigação aos jornais publicados a partir da década de 1970, sustentando minha decisão em dois argumentos. O primeiro, sem querer instituir nenhuma prova definitiva, nem propor ser detentor da verdade absoluta, ou ainda esgotar a questão, é a não existência de nenhuma citação por parte dos mais antigos mestres de capoeira, nem tampouco estudiosos e historiadores que pesquisam sobre a história do Piauí, bem como, em obras literárias, a respeito de algum movimento que possa remeter à capoeira em épocas anteriores ao último ano da década de 1960, o que me leva a acreditar, ao menos até a presente data, que a capoeira não se constituía em uma prática em Teresina antes da década de 1970.
Revisitando duas obras recentes sobre aspectos da história do Piauí, a primeira de Jesualdo Cavalcante Barros, Sertões de Bacharéis: o poder no Piauí entre 1759 e 1889 (2011) e a segunda de Manuel Domingos Neto, O que os netos dos Vaqueiros me contaram: o domínio oligárquico no vale do Paraíba (2010), pude novamente comprovar
um total silenciamento a respeito da presença de traços da cultura negra, muito menos, ainda, sobre capoeira.
Na obra de Barros (2011) é realizado um extensivo levantamento historiográfico sobre o Piauí, descrevendo-se costumes, características e peculiaridades do povo durante o período focado, porém somente elementos da cultura dos povos indígenas são descritos, não havendo alusão sobre os negros no Piauí, com no máximo algumas citações a respeito de algumas mulheres escravas alfabetizadas em um período e local em que nem mesmo as mulheres brancas tinham este privilégio.
Por outro lado, Domingos Neto (2010) traça um perfil da complexidade das relações de poder, de exploração e das mudanças sociais no Nordeste do Brasil, em especial no Piauí, por meio dos relatos orais de memória de pessoas que construíram suas identidades associadas às relações nas mais variadas dimensões, tais como, políticas, pessoais, familiares, econômicas e modos de vida do povo, denotando citações a respeito do predomínio da política do escravismo na economia local, ou seja, da presença do negro na formação econômica e social do Piauí.
No entanto, nenhuma descrição, citação ou mesmo alguma passagem solta ou destacada a respeito de qualquer manifestação da cultura do negro por estas bandas, mantendo viva minha desconfiança a respeito da não existência ou da não manifestação da capoeira no Piauí, o que reforça minha crença de que somente nos relatos orais de memórias das pessoas que vivenciaram alguma forma de contato com essa cultura, notadamente os mestres de capoeira, poderão oferecer significativa compreensão sobre a história da capoeira no Piauí, por meio da instituição de suas próprias compreensões, significados e sentidos sobre essa história.
O outro argumento retirei da obre de Rego (1968, p. 277), em que no capítulo dez “Capoeiras Famosos e seu Comportamento na Comunidade Social”, ao abordar a vida do mestre baiano Washington Bruno da Silva (Canjiquinha) faz uma descrição de suas exibições fora do Estado da Bahia, destacando no ano de 1966 um exibição em Teresina-PI, na Rádio Teresina, me despertando a atenção para procurar rastros dessa passagem por Teresina de um mestre de capoeira e seu grupo e, neste sentido, iniciar por uma procura em
jornais, na esperança de encontrar algum destaque a respeito, o que novamente demonstra uma total falta de referências a este fato.
Assim sendo, no dia 26 de abril de 2011 fiz a primeira visita ao arquivo obtendo informações sobre funcionamento, normas de pesquisa e aspectos históricos, acertando minha primeira pesquisa para o dia seguinte.
O processo utilizado seguiu uma dinâmica em que diariamente eram efetivadas duas visitas ao Arquivo Público, sendo uma na parte da manhã, iniciando por volta das nove horas e se estendendo até às doze horas, enquanto à tarde se estendia das quinze às dezessete horas aproximadamente.
Carregava comigo um diário de campo em que anotava os jornais consultados, destacando nome, data e, caso fosse encontrado, algum dado ou informação a respeito da capoeira me Teresina; optei por ir passando a vista pelos jornais, procurando me deter de forma pormenorizada, em que lia detalhadamente, de forma compassada e com bastante cuidado, as páginas dedicadas à cultura, esporte e policial, visto que, culturalmente ainda nos dias atuais, a capoeira sempre vem destacada, quando da realização de algum evento, nas páginas de esportes; quando muito raramente e em ocasiões especiais, tais como envolvimento em algum projeto cultural de relevância política, pode aparecer nas páginas sobre cultura; assim como, também em ocasiões especiais e mais raramente ainda, nas páginas policiais, como por exemplo, algum praticante se envolve em brigas ou outros fatos de natureza criminal.
Conforme realizava essa incursão bibliográfica, ia registrando no diário de campo, além de registrar alguma citação ou imagem relacionada ao meu objeto de pesquisa em máquina fotográfica, esse o outro instrumento que carrega comigo, juntamente ao diário de campo.
Na segunda metade do ano de 2011, passei a contar com a colaboração de um bolsista e um colaborador do PIBIC/UESPI na pesquisa nos arquivos da hemeroteca, momento importante, pois pude efetivar uma espécie de releitura sobre os jornais. Os bolsistas refizeram uma leitura em todos os jornais desde a década de 1970, numa dinâmica que incluía visitas semanais (três visitas ou mais) em turnos variados, sempre os dois juntos, na intenção de evitar que se passasse alguma informação despercebida, além da
efetivação cuidadosa de leituras, contando com o apoio de uma máquina fotográfica para registro dos achados, acompanhado do diário de campo para a escrita das etapas de pesquisa, bem como registro dos títulos, datas, fatos importantes e outros relacionados à imersão bibliográfica aos jornais.
De acordo com pesquisa nos arquivos da Casa Anísio Brito, desde a década de 1970, três jornais impressos tiveram expressividade no cenário piauiense: O Dia, Diário do Povo e Meio Norte. O jornal O Dia, fundado em 1950, foi pioneiro na utilização de impressão de qualidade superior e melhor estética (Off-Set), ainda no ano de 1972, contribuindo efetivamente na expansão do setor comercial. Por sua vez, o jornal Meio Norte, fundado em 1996, substituto do jornal O Estado, tradicional jornal piauiense, se mantém com grande destaque no estado, tendo maior circulação aliada a uma estrutura física bastante representativa, maior abrangência no interior do estado, integrando o Sistema de Comunicação Meio Norte, composto de rádio, TV, revista e portal, além de ter sido pioneiro na circulação às segundas-feiras e no uso de diagramação em computadores. Finalmente, o jornal O Diário do Povo, fundado em 1997, possui uma linha editorial independente, se constituindo no primeiro jornal piauiense a trabalhar com o jornalismo investigativo e abrir espaço para a manifestação dos leitores (Seção “carta do leitor”) segue disputando a segunda colocação entre os jornais mais lidos no Estado.
Neste sentido, delimitei o universo da pesquisa bibliográfica realizada na Casa Anísio Brito os jornais O Estado e O Dia, sendo a opção pela escolha destes jornais sustentada em sua importância e antecedência histórica na circulação impressa, enquanto os demais jornais escolhidos, Diário do Povo e Meio Norte, por sua maior abrangência e significância no contexto do jornalismo impresso piauiense, utilizando-os somente como fontes secundárias com o intuito de contribuir na apresentação de como a capoeira, nos anos da década de 1990 já é possui espaço e reconhecimento por parte da imprensa, além de significativa representação junto à sociedade piauiense.
Nas primeiras buscas me debrucei sobre exemplares de “O Estado” e “O Dia” do ano de 1969, não encontrando nenhuma citação, nenhuma pista e nenhum vestígio sobre a presença da capoeira em Teresina, o que se repete por toda a década de 1970, até a segunda metade dos anos de 1980.
Seguindo as reflexões de Alberti (2010), fui percebendo que a história de uma cultura do povo, dos humildes, dos oprimidos, notadamente daqueles considerados “sem história”, visto se tratar de uma parcela da sociedade considerada pelas elites, pelos vencedores e detentores do poder como “marginalizada”, dificilmente será registrada, mesmo em se tratando de fontes (os jornais impressos) cuja suspeição por parte dos historiadores ainda é significativa, fontes oriundas de uma instituição (a imprensa) efetivamente subordinada pelas classes dominantes e carregada de discursos, interesses e valores profundamente ideológicos (ALBERTI, 2010, p. 157-158).
Evidentemente a capoeira, em meados do final da década de 1970 e, mais especificamente, na primeira metade de 1980, segundo o depoimento dos mestres entrevistados nessa pesquisa, já se encontrava em processo de consolidação, uma prática cultural e esportiva reconhecida como benéfica ao corpo e educativa, inclusive já com a organização dos primeiros cursos, batizados e eventos envolvendo praticantes de outros estados, bem como sua inserção no currículo de algumas escolas em Teresina.
Constatada essa ausência, que aqui resolvi trabalhar o silenciamento, ressalto que se trata de um fenômeno que pode ser entendido sob vários aspectos, dos quais destaco dois como centrais. O primeiro seria a falta de representação político e social dos primeiros praticantes dessa cultura em Teresina, aliada à imaturidade e falta de experiência nos assuntos relacionados à divulgação e socialização de seus trabalhos. O segundo aspecto, por outro lado, pode ser considerado como a falta de interesse da própria imprensa em divulgar o desenvolvimento de uma cultura considerada minoritária, sem importância, pouco representativa e com passado atrelado à marginalidade (ai inclusos: preconceito, ignorância e total falta de sensibilidade dos profissionais que compunham o quadro da imprensa naquele período).
3.2 Revisitando e rememorando o passado: narrativas de memórias dos