2. SÖKÜLEMEYEN BĠRLEġTĠRME ELEMANLARI
2.4. Lehimleme
2.4.2. Sert Lehimleme
o “outro” essencial
Ao falar de representações político-culturais, gostaria antes de comentar um pouco sobre o conceito de representações coletivas desenvolvido por Émile Durkheim. O objetivo primeiro de Durkheim era desvelar como se constitui a unidade na vida social,
como as sensações individuais são representadas e quais as causas universais destas representações.
Para tanto Durkheim (1978, 1986) utilizou-se do conceito de representações coletivas, categoria de pensamento que as sociedades se utilizam para elaborar e expressar sua realidade e que surgem atreladas aos fatos sociais, para em seguida, elas próprias, transformarem-se em fatos sociais, sujeitos à observação e possível interpretação. Ao associarem-se os homens produzem uma realidade social, a qual Durkheim chamou de consciência coletiva, que se sobrepõe às particularidades que a forma, minimizando as possíveis diferenças individuais e fazendo sobrelevar-se uma unidade de vida social, materializada por meio das representações coletivas. É por meio de determinados estados psíquicos, frutos das consciências coletivas, que o pensamento, a sensação e a ação individual das pessoas acontece socialmente, tornando-se, ao mesmo tempo, independentes destes indivíduos, ou seja, para Durkheim os fatos sociais possuem existência própria, são exteriores e anteriores aos sujeitos, sendo, neste sentido, entidades explicativas absolutas.
Contrapondo-se ao caráter estático do conceito de representações coletivas de Durkheim, as representações sociais de Moscovici (1978) remetem a um conjunto de princípios construídos e compartilhados na interação de diferentes grupos que, utilizando-se destas representações, busca compreender e transformar sua realidade. Neste sentido, a representação de um objeto é o resultado da transformação mental do objeto em figura e da significação que os indivíduos atribuem a esse objeto, visto que toda representação social é constituída de figuras e de expressões socializadas, sendo, neste sentido, a configuração de imagens e linguagens, simbolizando os atos e as situações mais comuns dentro de determinado grupo social.
Assim “representar um objeto é, ao mesmo tempo conferir-lhe o status de um signo, é conhecê-lo, tornando-o significante, culminando em que todas as coisas são representações de algumas coisas.” (MOSCOVICI, 1978, p. 63). A argumentação de Moscovici permite compreender que é por meio das representações sociais que os indivíduos podem expressar a forma com que percebem e interpretam sua realidade e a história da sociedade da qual fazem parte, o que envolve as concepções ideológicas, os costumes, os preconceitos, as características cotidianas, as formas de trabalho valorizadas,
dentre outros aspectos que descrevem e mostram, de forma mais clara, a realidade de determinada organização social.
Seguindo a linha reflexiva que orienta minha pesquisa, e situando minhas reflexões no campo dos Estudos Culturais, gostaria de ressaltar que o conceito de representação de que me utilizo não se prende às concepções de idéia, imagem mental e significado fortemente presente nas representações sociais de Moscovici, mas orienta-se pela compreensão das formas de inscrição por meio das quais se constroem a identidade do Outro, como o Outro é discursivamente representado.
As representações na linha de raciocínio que elegi como fio condutor de minhas reflexões, que chamarei de representações político-culturais, são entendidas como noções estabelecidas mediante as diversificadas formas de discursos, determinando significados fortemente amparados e devidamente legitimados e são conferidas a partir de sistemas discursivos construídos e constituídos por meio de relações de poder que sustentam sua legitimidade e seu status de verdade, revelando ser a representação um processo de produção de significados sociais discursivamente criados.
Assim, os significados são carregados das formas de poder que os criou e, quando organizados em sistemas de representação, contribuem para que as pessoas apreendam a concepção de mundo social que estes sistemas privilegiam. É neste sentido que me utilizarei da concepção de representação enquanto aquelas formas de inscrições, por meio das quais o “Outro” é representado, ou seja, a forma “legitimada” que determinadas pessoas utilizam para, por meio de relações de poder, determinar a identidade das outras pessoas, grupos ou classes, e, ao mesmo tempo, a sua própria identidade.
Estes significados produzidos sobre o “Outro”, são, como afirma Costa “[...] o resultado de um processo de produção de significados pelos discursos, e não como um conteúdo que é espelho e reflexo de uma ‘realidade’ anterior ao discurso que a nomeia.” (2001, p.40). Costa segue afirmando, “Sendo assim, as representações são mutantes, não fixas, e não expressam, nas suas diferentes configurações, aproximações a um suposto ‘correto’, ‘verdadeiro’, ‘melhor’. Aliás, o emprego de categorias avaliativas, nesta concepção, é inadequado e desnecessário.” (2001, p.41).
Geralmente, quem tem o poder de narrar sobre o outro, de determinar sobre a identidade do outro, acaba tomando a si próprio como referência, como normal e, neste sentido, toma o outro como diferente, como fora do normal ou “excêntrico”, “exótico”, “misterioso” que, quando merece nossa consideração, é pela áurea de mistério que desperta, por ser diferente, anormal, fora do padrão instituído como “normal” e central, o que pode levar à prática de uma política cultural que, na busca de representar o “outro”, trata de subjugá-lo, de descrevê-lo como diferente e, até mesmo, com certo grau de discriminação, de rejeição, de inferior socialmente, dentre muitos outros aspectos negativos, do ponto de vista da construção de identidades.
O que mais me desperta a atenção, é o fato de que essas significações sobre o “outro”, essa forma de forjar as identidades alheias, são construídas com a intenção de tornar essas identidades essencializadas e portadoras de um caráter natural que não nos caberia discutir, mas apenas aceitar, de acatar o caráter de inferior de determinada cultura, de determinado modo de vida, de determinados hábitos, de determinados seres humanos, frente à posição superior e privilegiada conquistada por determinados grupos, classes sociais ou pessoas, que, favorecidos pela configuração de determinados processos históricos, sociais, políticos, econômicos dentro de certas conexões de poder, querem tornar “natural” o caráter de superioridade de uns sobre outros.
Geralmente, esse caráter de superioridade é explicado e justificado como se tratasse de uma força superior “divinizada”, ou “sagrada” e, geralmente, ainda, com inumeráveis prejuízos para os “inferiores”, como se percebe nos dias atuais, através dos grandes instrumentos comunicacionais, porque a própria mídia, mesmo sendo muitas vezes, empregada como instrumento de legitimação desses interesses “superiores”, vem revelando diariamente, principalmente, através da televisão, os prejuízos sociais, culturais, econômicos, humanos, éticos e políticos de que são vítimas pessoas somente pelo fato de pertencer a determinadas “classificações”, como por exemplo, os jovens, as mulheres, os negros, os idosos, os portadores de necessidades especiais, os homossexuais, dentre muitos outros.
A partir da concepção de representação político-cultural acredito ser possível despertar a atenção para a necessidade de se criar espaços em que se possa promover a
desconstrução das narrativas e dos discursos que estão pretendendo tornar os ideais e os valores hegemonicamente “superiores” como legítimos e essencializados, valores estes, oriundos dos muitos séculos de dominação e de escravidão de povos sobre outros, de culturas sobre outras, de discursos sobre outros, ou seja, de tornar cultural, político, social, humano, material o outro “essencial”, o outro tornado “essência”, tornado central e legítimo em prejuízo dos outros que estão sendo desconstruídos, inferiorizados.
É neste sentido que defendo a idéia de que quando alguém, alguma coisa, ou fenômeno, é representado, ou explicado, ou ainda, tem determinado tipo de significado sobre sua existência, por meio de uma narrativa ou discurso, este alguém, ou algo, está sendo condicionado, explicitado em sua existência e nos seus atributos, qualidades, dentre muitos outros aspectos que lhe instituem dentro de determinados “padrões”, por outro alguém que possuí, dentro de toda uma dinâmica ou processo materialista, e nunca essencialista, o poder de narrar, o poder de produzir identidades, as identidades dos “outros” e a sua própria.
O conceito de identidade com o qual trabalho nessa pesquisa, conforme o entendimento de Hall (2001), está mais relacionado com as questões de identidades culturais nacionais; aos aspectos étnicos, raciais e lingüísticos; ao entendimento de “pertencimento” e “descentramento”; e, finalmente, ao entendimento de que as identidades não são coisa com as quais nascemos, mas são formadas e transformadas por meio das representações.
Para melhor entender estes aspectos e perspectivas começarei por distinguir as três concepções de identidade trabalhadas por Hall (2001). A primeira diz respeito à identidade do sujeito do Iluminismo, concepção bastante individualista e masculinizada de um ser humano unificado e dotado de uma racionalidade interior essencializada, que nascia com o indivíduo e o acompanhava ao longo de sua existência. A segunda concepção é a do sujeito sociológico que descentralizava a identidade de um indivíduo dotado de essência interior inata e lhe concedia um caráter de interação, sendo a identidade fruto das relações com outras pessoas, ou seja, os indivíduos são forjados na interação entre o eu interior e a realidade dos mundos culturais exteriores, onde, por meio de uma relação recíproca, nos
projetamos como pertencentes a determinada identidade cultural e, ao mesmo tempo, internalizamos os significados e valores próprios desta estrutura cultural.
A terceira, e última concepção de identidade, fala do sujeito pós-moderno, que vai surgindo da fragmentação das identidades que estão passando por um processo de mudança estrutural e institucional, tornando-se mais variáveis, provisórias e problemáticas. Neste sentido, segundo Hall (2001), o sujeito pós-moderno não tem uma identidade fixa, essencial ou permanente, mas uma identidade definida historicamente que vai se formando e se transformando continuamente frente às formas de representação que inundam os sistemas culturais atuais.
Segundo Paraíso (2004), no centro das discussões sobre as diferentes concepções da identidade dos sujeitos e conseqüente afirmação cultural dos grupos a que pertencem, pode-se identificar a existência de duas perspectivas: uma essencialista, que afirma a existência de uma identidade autêntica e verdadeira, e outra não-essencialista, que defende o caráter de mobilidade das identidades, assim como sua relação direta com as diferenças. Ambas as perspectivas, embora partam de concepções diferentes, não podem negar, no entanto, que as discussões sobre a constituição das identidades passa necessariamente sobre o pertencer e o não pertencer a determinado grupo.
As identidades dos sujeitos pós-modernos mudam constantemente e, segundo Hall “[...] não são unificadas às verdades de um ‘eu’ coerente.” (2001, p. 13), visto estarem sendo construídas numa realidade social em constante, acelerada e permanente mudança.
É, a partir destas características das sociedades modernas, em constante mudança, que se pode entender o conceito de “descentramento”, relacionado, exatamente, às formas com que o sujeito do Iluminismo, concebido como possuidor de identidade fixa, foi sendo deslocado, por meio do afloramento de identidades fragmentadas, contraditórias e inacabadas. A identidade perde seu caráter de “certeza”, de segura, ao confrontar os sujeitos com uma multiplicidade de identidades possíveis e, neste sentido, ocorre um “descentramento” da identidade.
A noção de “pertencimento”, por sua vez, está integrada aos modos, ou formas, com que os sujeitos se colocam em termos de suas identidades culturais particulares ou, como ressalta Hall (2001), identidades nacionais. “Pertencer”, nos termos dessa pesquisa,
refere-se àquilo pelo qual o indivíduo afirma sua identidade ou o que ele é em si mesmo, o entendimento de sua diferença e a consciência de constituir uma parte representativa na coletividade mundial.
Neste sentido, a noção de “pertencimento” está intimamente relacionada ao grupo social, ao contexto cultural, assim como às concepções que as pessoas de determinado grupo utilizam para interpretar sua realidade a partir das referências históricas e culturais que as distingue de outros grupos sociais. Assim, pode-se compreender que a identidade constitui-se numa categoria em constante construção, pois os grupos sociais, por meio da dinâmica de sua história, da função social que os indivíduos que compõem estes grupos vão assumindo nos mais diversos contextos, podem recriar e incorporar outras identidades.
Portanto, fazer Estudos Culturais passa necessariamente por compreender e colocar como questão central a busca por afirmação da identidade de novos grupos culturais; entender que, para os Estudos Culturais, as identidades são fugidias, móveis, contestadas e incertas; que novas identidades são forjadas constantemente, a partir das lutas e das contestações, empreendidas pelos grupos que não exercem poder de representação político-cultural, contra as formas de representações dos grupos hegemônicos que se colocam como detentores de uma identidade “verdadeira” e central, diante das identidades dos demais grupos e indivíduos; além de, ao mesmo tempo, estar atento para a indissociabilidade de categorias como cultura, representação, diferença e identidade e suas íntimas relações com as conexões de poder que perpassam toda realidade cultural humana, no sentido de encaminharmos o constante questionamento sobre a suposta “Centralidade” das identidades hegemônicas, notadamente por meio dos discursos, escritos ou falados, “oficiais” ou “ocultos”.
CAPÍTULO III
SUBSÍDIOS PARA O ENTENDIMENTO DO PROCESSO HISTÓRICO DA